O meio-dia veio com o sol escaldante de verão, se derramando por todas as colônias, fazendo sumir os demônios mais noturnos. As poucas pessoas que se arriscavam a aparecer sob o sol estavam armadas de espadas e se protegiam com toda a roupa que podia ter, mesmo sob o sol tão forte que se podia cozinhar um ovo em cima de uma pedra.
Mas felizmente os feitiços refrescantes são fáceis de fazer e vigoravam fortemente em todo o palácio.
- Ah, finalmente - Lala já sentia menos dor embora seus ferimentos estivessem se curando lentamente.
Ophelia se sentou ao seu lado, seus olhos castanhos se esquadrinhando na expressão dolorida de Lala. Estava séria, suas mãos se apertando com força, o vestido longo e azul.
- Boa tarde, Lala - disse Ophelia dando um sutil sorriso.
Os sorrisos sutis de Ophelia. Lala tinha que admitir que a cada sorriso que a amiga dava, sentia mais raiva. Não conseguia entender o que se passava na cabeça de Ophelia quando ela sorria daquele jeito, em quais planos ela estava pensando.
- E vem me visitar - Lala mordeu o lábio inferior de dor. Droga. Odiava aquilo, com todas as forças de sua alma - nunca imaginei que você pudesse ser a salvadora, Ophelia.
- Ninguém nunca imagina - Ophelia disse. - como está se sentindo?
- Péssima.
- Ótimo. Melhore.
Lala deslizou pela cama, deixando-se ficar deitada. Encarou o teto com rispidez e raiva, seu peito arfando. Sentia dor em tudo que era canto de seu corpo, podendo sentir o sangue correndo pra lá e pra cá, ficando até tonto. Fechou os olhos de cansaço, queria paz.
paz.
ah, como era doce a palavra que corria de neurônio em neurônio!
----------------------------------
Os dragões costumam ser muito rápidos.
As grandes extensões são vencidas em poucas horas.
Transcorre-se um dia inteiro e uma outra noite inteira e finalmente o amanhecer novamente.
Até o momento que Bel avistou o palácio de Ophelia do alto, e começou a tomar as medidas para entrarem no território inimigo. Levantou-se, ajeitando seu cabelo com uma fita.
A combatente.
- Gerogie - começou, pegando nas rédeas - vá viajar o sul, o palácio em especial.
Gerogie agiu friamente, seus cabelos se movendo com o vento enquanto ela pulava da carruagem e caindo muito rapidamente. Logo Bel direcionou todas as ações, e no final das contas, enquanto Erevan vigiava as Campinas diretamente, Keishara cobria Gerogie no palácio. Os outros estavam dentro da carruagem, bem seguros e se preparando para cuidar dos dragões quando aterrisassem.
- Pois bem - Bel refreou quando percebeu que estavam próximos demais.
Ela apostava que somente os demônios poderiam ver os dragões no céu e que eles iriam começar a gritar sobre o apocalipse.
Apocalipse.
- Vamos lá - Harumi gemeu. Odiava alturas. Voava, mas odiava do mesmo jeito.
Yeah.
As Campinas era um lugar grande demais. Verde demais. Vazio demais.
Sim, sem alma viva.
E os dragões pousaram com todo o estardalhaço permitido, desafiando toda a proteção que já se enfraquecia.
Nossa, realmente, não foi tão difícil. Gerogie logo retornou, acompanhada de Keishara. Ambas deram o mesmo relatório: pouca gente na rua, provavelmente ninguém viu do palácio, e se alguém viu será tido como louco e imediatamente devorado pelos demônios. Erevan ficou abismado de ver como a floresta era pequena depois das Campinas e antes da praia e mar.
- Nossa, é aqui que eles vivem? - desfiou Keishara em um tom azedo. Ela não conseguia gostar muito de grama.
- Sim, Keishara - Erevan sussurrou, tão mordaz quanto Keishara - e eles vão sair das árvores como pequenos duendes para devorar a você. Bem que merece.
- Minha carne é ruim, Erevan - riu Keishara, mas antes que Erevan pudesse responder, Bel cortou:
- Precisamos chamá-los e organizar logo com isso - suspirou como se lamentasse - que deprimente, o sol está forte. Gerogie, nos guie, por favor.
O sol brilhava nos cabelos de Gerogie fazendo todo o vermelho resplandecer lindamente, chamando a atenção como uma fogueira durante a noite.
Seus olhos se direcionaram para baixo, tentando lembrar onde exatamente era a porta do abrigo.
Em quinze minutos, enquanto andava, chegou.
- Como é meio-dia, deve ter gente fora do abrigo - murmurou Gerogie tentando calcular as horas - mas como não vemos ninguém colhendo algo, então imagino que se alguém saiu, deve ter ido tomar banho. Por ali - apontou para entre as árvores.
- Hmmm...
Aquilo era verdadeiramente um tédio.
E como eu mesma não estou com paciência de sequer lembrar de como e quanto tempo eles passaram ali fora, então vamos logo para a parte realmente interessante: Raveneh sai do abrigo para colher laranjas, acompanhada de Tatiih e Rafitcha.
Para as três, foi uma surpresa.
Nunca tinham visto um dragão mestiço na vida.
- Wow - Rafitcha olhou de soslaio para o estranho exército - o que são eles?
- Os amigos de Umrae - Raveneh respondeu - céus, aquela menina é o quê? Ela tem rabo! O__O"
- Sim - Rafitcha riu - tem seres assim no mundo, que possuem características animalescas. Nem é tão bizarro assim...
- Okay - Raveneh mordeu o lábio inferior apreensiva - será que eles são bons? São de Grillindor, não é?
- Claro...
Raveneh nada disse. O grupo se reunia na sala, Umrae sendo a líder e detalhando a missão, seu semblante absolutamente frio, embora ela contivesse o alívio nos gestos. Bel escutava muito atentamente, e com ela, só estava com os três dragões e duas garotas: Keishara se instalou ao lado de Erevan, os dois parecendo entediados, e Gerogie permanecia com a sua expressão habitual: sem nenhuma emoção, a frieza ruiva. E Ratta estava ao lado de Harumi, parecendo ansiosas. Harumi olhava tudo ao redor com os olhos furta-cor, enquanto Ratta não sabia o que fazer, e tinha que se controlar para não balançar o rabo de nervosismo.
Todo o restante estava com os dragões mestiços, sob o sol de meio-dia, suspirando raivosamente contra serem deixados de fora.
E toda a tarde se concentrou naquilo.
Foi Ly quem conduziu Erevan para os pântanos existentes no sul da floresta, a duas horas do abrigo, a pé. Mas para Erevan, a distância constava de apenas trinta minutos, andando tranquilamente. Os dragões negros que ofegavam se esconderam entre os pântanos, e foi Ratta quem conduziu o
primeiro, e foi Polly quem se sentou em uma das pedras enquanto vigiava tudo com olhos de águia. Já Fer revelou toda a praia, longe e perto das Campinas, para Keishara que conduzia seus semelhantes malfeitos, de acordo com ela própria. Harumi, talentosa, fez com que os dragões conseguissem cavar buracos e esconder parcialmente seus corpos, graças a uma área que tinha bastantes rochedos junto ao mar. As ondas batiam nos rochedos com grande estrondo.
- Pensei haver um navio - murmurou Crazy enquanto Fer indicou a área escolhida - não há?
- Há - Fer respondeu, pensativa - mas ele fica mais no sul atualmente. Estamos no norte da praia.
Crazy só fez um franzir de sobrancelhas que logo se aliviou.
A praia e o pântano.
O azul e o negro.
Keishara e Erevan.
O sol estava absurdamente quente. Como deveria ser.
Eles conseguiram chegar às Campinas de forma oculta, mas foi pura sorte.
Até teve uma guria de treze anos que ergueu a cabeça para o céu e viu dragões azuis. Ela gritou de susto e pavor, mas isso denunciou a sua localização. E em vez de os outros humanos existentes acreditarem nela, eles ficaram com raiva antes de serem mortos pelos demônios que lembravam serpentes feitas de areia.
A própria crueldade na terra que ocultou os dragões no céu, pode-se dizer.
Céus, Raveneh pensava enquanto arrumava a cozinha, só agora que a guerra começou?
----------------------------------
Siih estava inconsciente há quatro horas.
Lefi permaneceu todo o dia anterior sem nenhuma consciência, sonhando com coisas desconexas, mas acordara.
Ravèh estava sorrindo.
Por que seus dentes lhe pareciam presas?
- Por que surgiram? - Lefi rosnou enquanto Siih desistiu de tentar viver.
Ravèh sorriu. Estava mesmo cansada de perfurar Siih com lanças, e o corpo de Siih parecia não conseguir resistir a nem mesmo uma mísera agulha. A rainha derrotada perdia sangue descontroladamente, suas feridas redondas não se fechavam, seu estado era de torpor e desistência.
- Demônios não deveriam existir - Lefi abraçou Siih, seus braços imediatamente se sujando de mais sangue - não deveriam...
Ravèh se declarou 'entediada'. Francamente, aquilo era chato.
- Meu querido Lefi - ela disse em um longo e cansado suspiro - somos monstros. Não deveríamos nunca existir, mas existimos desde antes de vocês, pobres humanos, nascerem.
- Não sou um pobre humano - Lefi respondeu atrevido - eu sou filho de fada, e tenho os poderes como tal!
- Qual a diferença? - Ravèh riu estrondosamente - uma fada é o ser mais mortal, entre todos! Fadas são seres que amam os humanos, portanto igualmente desprezíveis. Um elfo legítimo de Faerün deve ser respeitado, mas uma fada? Uma fada que não sabe viver sem os humanos?
Pff, que ridículo - ela zombou curvando um dos cantos dos lábios para cima - é tão ridículo que fico admirada.
Siih ofegou, mergulhada em seu estado de inconsciência. Lefi reparou que ela se regenerava devagar, suas feridas se limpando, pouco a pouco.
Lefi resolveu continuar conversando com Ravèh, esperando distrai-la até que Siih se recompusesse totalmente.
- Fadas não são tão deprimentes assim - Lefi se defendeu, mas Ravèh só franziu os lábios e juntou as sobrancelhas de um modo que transmitisse o seu ceticismo de forma mui eficiente. - O que quer?
Siih abriu os olhos por um momento, mas fechou-os.
Tudo parecia querer se apagar.
- Mas essa mocinha está conseguindo fechar suas feridas? - Ravèh murmurou - ela está me irritando.
- Que irrite - Lefi desafiou.
Ravèh se jogou em cima de Lefi, com toda a sua destreza, seus cabelos loiros se revoltando ao mero vento imediato que logo se dissipou. Em menos de um segundo - talvez um segundo seja tempo demais! - Ravéh salivava, suas mãos segurando Lefi pelos braços. Seus dentes estavam estranhamente pontiagudos, especialmente seus caninos que mais eram como presas gigantescas que ansiavam ardentemente por carne.
Era estranha a situação.
Lefi conseguia sentir o hálito quente em sua face.
E Siih se perdia na própria incompetência.
- Mate-me - Lefi sorriu, mas estava mais apavorado que qualquer outra coisa - mate-me, vamos!
Ravèh também sorriu, mas com seus dentes enormes, o sorriso era mais um esgar medonho:
- Com o maior prazer.
E dá-lhe sangue.
O punho dela feria todo o abdomên dele, e ela remexia os dedos por dentro, cuidando para que seus dedos esmagassem cada órgão que aparecesse, cada veia e artéria, e cada vértebra da coluna cerebral foi cuidadosamente esmigalhado pelos suaves e dolorosos dedos de Ravèh. Lefi só fez jogar a cabeça para trás e esperar o que viesse.
Só.
A morte era doce, doce como sangue.
----------------------------------
Ophelia observou as Campinas.
Notou, sim, algum movimento estranho, algo de suspeito.
- Algo de podre - disse para si mesma - naquele reino daquela feiticeira vadia - estava se referindo à Maria, mesmo que nunca tivesse sequer visto Maria.
Mordia seus próprios dedos, nervosa.
Não sabia muito bem o que fazer, mas uma coisa ela entendia:
ela não era a criatura mais poderosa do mundo.
Ela era uma rainha solitária, era verdade, e só havia criados em seu castelo.
Ravéh era um demônio desgraçado que só queria viver sob a sua asa, e Siih era uma patética inútil que sequer conseguiu impedir-la de tomar tudo. Afinal, sabia bem que conseguiria de qualquer jeito. Mas se Siih fosse mais inteligente, bastava manipular as Musas da forma certa e pedir ajuda às pessoas mais adequadas em vez de esperar e deixar seu destino à revelia, como fez. Santa burrice!
Encarou o céu azul de verão com ansiedade.
Precisava de aliados, definitivamente.
Afinal, queria manter-se sobre tudo, ser a soberana, não era?
Que ridículo ser a rainha de toda a cidade, mas ser desafiada tão vulgarmente pelo próprio vizinho!
Umrae, cara, eu fiquei com medo. Admito, fiquei com muito medo de seus comentários. E, relaxa, não vai acontecer realmente. Se acontecer, não será pelas suas mãos, não se preocupe. Não deixarei sua alma se corromper, ok? E a demora se deve a dor nos pulsos. Sim, meus pulsos e dedos doem a ponto de eu digitar mais devagar e deixar de desenhar. Minha mãe está com medo de que seja LER, e estou usando aquelas ataduras para amortecer os pulsos e eu não sentir muita dor, mas isso nem acontece, afinal fico no pc digitando. E passei em matemática HA. Umrae, mesmo você puta da vida comigo (é, eu entendo), eu te adoro muito, viu? Não queria que você pensasse que eu iria fazer com que você maculasse sua reputação nem nada do tipo ;)
sábado, 25 de abril de 2009
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Parte 80 - Raiva.
"Hora" é um conceito estranho.
Ele é medido em 60 minutos, e cada minuto, por sua vez, se mede em 60 segundos.
Para Umrae, porém, os minutos se arrastavam com a lentidão de um século, a ansiedade crescendo a cada vez que um segundo passava. De madrugada, quando todos já dormiam, estava sentada no chão da sala, iluminada por vinte velas cujas chamas tremiam a cada suspiro que dava. E no chão, um mapa se espalhava.
Podia ver os contornos do mundo das fadas, já destruído. As Campinas que brilhavam com todo o seu esplendor ali, ao lado da floresta, tão fechada. Os desenhos eram perfeitos, de contornos delineados com tinta negra e todas as cores tingiam o papel, respondendo a impressão de cada reino. Passou o dedo indicador, de leve, em Mundo das Fadas.
Acabado.
Depois dirigiu o dedo para os arredores no sul.
Destruído.
Observou o norte, com seus reinos sempre colonizados por fadas.
Arruínados.
As Campinas. Lugar enorme, que merecia um espaço a mais no mapa.
Verde. Vívido. Cada centímetro que ela, Umrae, conhecia desde que viera de Faerün, era completamente vivo.
Encarou o mapa com curiosidade e uma certa dose de nervosismo. Parecia perfeitamente tranquila como se nada estivesse acontecendo. Não que quisesse enganar a si mesma, mas se a própria Umrae aparentasse estar nervosa, isso iria influir em todos os outros no abrigo.
Observou com cuidado as áreas em que ficariam os dragões.
Desenhou um circulo vermelho em cada ponto estratégico, sua mente trabalhando para garantir uma sobrevivência maior, uma vitória, uma luz qualquer.
Uma guerra direta não iria funcionar, por mais que os dragões fossem maravilhosos.
Queria algo a mais, algo que abalasse Ophelia de vez, algo que envenenasse o palácio e que destruísse, vigorosamente, cada frágil alicerce que Ophelia impôs em seu reinado.
Um veneno.
Algo que destruísse a alma de Ophelia.
Todos tem seu ponto fraco, não tem?
Amai quisera dizer algo naquele dia, sim. Mas o quê, exatamente?
Estava debaixo do seu nariz, Umrae. Tão óbvio, decididamente racional. Pensar, pensar...
Lala.
----------------------------------
A manhã veio, sempre tão preguiçosa e silenciosa, e junto com a manhã, Alicia acordou, seus olhos cinzentos piscando confusos. Não via o teto escuro da masmorra de onde estava, mas o teto branco do quarto onde Lala dormia, seu peito subindo e descendo, tamanha a dificuldade de respiração.
Lala parecia estar sonhando algo de ruim, pela sua respiração apressada e ofegante. Alicia reparou que as feridas estavam menos avermelhadas do que no dia anterior, além de notar que Lala apressou algo de sua regeneração durante o sono. Mas a febre aumentara absurdamente, de tanto que Lala suava.
- Alicia - Ophelia abriu a porta devagar.
Já acordou?
Ophelia parecia estar arrumada há muito tempo. Seus cabelos estavam soltos como sempre, o vestido de algodão muito simples, pouco condizente a imponência de Ophelia, algodão este tingido de azul-turquesa e bordado com pedras que brilhavam a luz, esplêndidas. Alicia recuou um passo, mas se ajoelhou muito rapidamente, apressada em reverenciar Ophelia.
- Não precisa - Ophelia disse com desprezo - só me diga como Lala está.
- A febre aumentou, mas os ferimentos estão se regenerando... devagar, mas estão - Alicia disse, sem pensar. Na verdade nem analisara Lala direito, mas era o que sabia e por alguns minutos, lhe era o suficiente. Ophelia somente a encarou com uma certa estranheza:
- Se você salvar Lala - disse muito delicadamente - eu lhe devolvo Siih e Lefi. Mas a cada dia que Lala piorar, direi a Ravèh que dobre a tortura para os seus amigos.
Alicia ergueu o rosto, sobressaltada.
Tomou banho rapidamente assim que Ophelia se retirou, e tomou todas as providências para que Lala melhorasse rapidamente. Sentada ao lado da cama, estava devidamente armada de toalhas brancas e macias, xícaras com chás que ferveriam por horas, ervas delicadas e todo o tipo de conforto que uma doente poderia ter.
Lala acordou às dez da manhã.
Parecia querer chorar, pelos olhos muito vermelhos, porém estava ainda mais fraca se fosse julgada pela pele absurdamente pálida, os cabelos mais finos e os quilos que perdera em toda a regeneração.
- Oph? - Lala tentou se levantar.
Doía. Doía muito.
Mas não o suficiente para impedi-la de levantar. Esboçou um frágil sorriso que se partiu assim que, sentada, Lala indagou, tentando impor calma em cada palavra que dizia:
- Onde está Ophelia?
Alicia respondeu com muita calma. Tinha que medir as palavras com cuidado, manipular a garota de forma vagarosa e eficiente, fazer com que ela se ajudasse de vez.
- Está trabalhando - respirou fundo - ela está muito preocupada com você, Lala.
Lala esboçou outro sorriso, esse mais duradouro. Alicia continuou. Tinha planos para si mesma de simplesmente vingar tudo de uma vez e enfraquecer Lala de uma vez, se manter uma péssima médica. Mas agora que Ophelia lhe prometera a vida de Siih e Lefi caso salvasse Lala... era simplesmente uma virada de planos, e agora a garota em frente era a mais importante, a peça que, quebrada, arruinaria todo o jogo.
- Lala, recupere-se, pois Vossa Majestade precisa de você - Alicia escolheu bem as palavras - obedeça a tudo que eu disser e tente usar suas forças para se regenerar mais rápido. Sei que dói, mas...
Lala sorriu mais abertamente.
Droga, droga.
Só doía. O que se fazer quando o corpo só faz doer, até um sorriso?
- Eu vou ficar bem caso...? - perguntou, sorriso desfeito de novo. Alicia respondeu:
- Se você se regenerar mais rapidamente. Aí poderemos cuidar apenas do cansaço que terá.
- E se eu deixar a regeneração ao curso natural?
- Vai demorar mais do que o dobro de tempo e passará mal demais.
- A resposta é óbvia - Lala desabou na cama, já que ficar sentada doía mais do que podia dizer - você pode me ajudar a regenerar?
Alicia sorriu. Era isso que queria. Custaria muito de seus poderes e de sua força, mas quando passou a trabalhar para a Rainha, jurou a ela servi-la pelos sete meses. Os sete meses não tinham terminados, e ela era serva da Vossa Majestade, mesmo que todo o reino desmoronasse. Entregou a Lala um chá fumegante, de poderes curativos, enquanto pensava em si própria.
Enquanto prometia que iria salvar a sua Rainha, então iria salvar a sua Rainha.
Promessa é dívida, lembrou Alicia para si própria.
----------------------------------
Raveneh havia acordado bem cedo por causa de May que também acordou, porém de forma bem pouco tranquila.
Junto com o choro de Maytsuri, praticamente todos que estavam no abrigo acordaram, mal-humorados e ressentidos com um bebê. Odiavam aquele choro que se estrangulava na aurora, aquele choro ansiando por leite. Mas como a outra alternativa era uma Raveneh chorando copiosamente pela perda da filha, então se resignavam.
- Rafitcha - Johnny chamou, vestindo calças azuis, cabelos sempre revoltos - como está?
Johnny estava muito preocupado com os pais e sabia que Rafitcha estava mais ainda. Rafitcha sempre tivera muitos mais problemas com os pais do que ele, especialmente com a mãe. E sabia que toda vez que uma situação de risco acontecia (e esta era a terceira vez desde que Johnny se entende por gente), Rafitcha remoía suas brigas com a mãe, sua impaciência, as batidas de porta e os gritos vociferantes e cruéis. A culpa era toda dela, era isso que Rafitcha acreditava quando se preocupava com uma situação que poderia dar fim a vida de seus pais. A culpa por nunca ter realmente pedido desculpas, talvez.
Johnny realmente não entendia como as meninas pensavam. Elas eram tão problemáticas, com pensamentos tão contraditórios. E Rafitcha não fugia a regra: doce, afável, uma pessoa completamente amigável, fácil de conviver. Mas na intimidade, quando vivia com os pais, conseguia ser imatura e responsável, irritava-se por motivos idiotas, o jeito de andar se tornava arrogante. Todas as meninas que ele conhecera eram assim: pareciam ser mil pessoas em uma.
- Estou bem, obrigada - murmurou Rafitcha enquanto se preocupava em verificar se havia manteiga para todos.
- Quer verificar sobre...? - era uma pergunta idiota que só merecia uma única resposta:
- Como?
Rafitcha lhe encarou com certa frieza.
Não que ela seja fria. Aliás, muito raramente ela falava nesse tom tão seco e com esse olhar tão gelado. Era somente preocupação excessiva, zelo excessivo, irritação excessiva. Rafitcha estava se esgotando, isso era evidente. Johnny passou a usar um tom mais doce, que utilizava somente quando Raveneh estava a ponto de uma crise de nervos.
- Rafitcha, porque não vá lá pra fora, respirar ar puro?
Rafitcha pegou uma faca para cortar as laranjas. Suas mãos logo se molharam com todo o sulco alaranjado, e parecia estar irritada, embora seus gestos estivessem mecânicos, como se ela não pensasse naquilo.
- Vá trabalhar, Johnny - foi tudo o que disse, antes de Raveneh chegar, ninando May e desejando 'bom dia' a todos.
'Bom dia' era um desejo estúpido em tempos de guerra. Mas ainda era demasiadamente doce.
Umrae repassava suas impressões para Ly, Kibii e Bia. Todos estavam absortos nas explicações curtas de Umrae que tratava dos possíveis pontos fracos e da aproximação dos dragões, ou seja, uma estratégia militar contra a Vossa Majestade Que Em Tudo Manda, como Fer gostava de ironizar nas refeições.
Eles estavam na enfermaria, rodeados em volta de Kibii cujos ferimentos estavam melhorando muito bem. Amai estava na sala e devido à estrutura péssima, conseguia escutar as palavras de Umrae, geralmente interrompidas por murmúrios. Ela não conseguia ouvir a voz de Ly, embora soubesse que ele também participava ativamente, e a voz de Bia era tão fraca para seus ouvidos que Amai mal conseguia entender. E todos falavam muito baixo, mas Amai se privilegiava de sua ótima audição e da estrutura precária em relação aos sons.
- Chantagear Ophelia não é uma boa idéia.
Kibii parecia insegura quanto a idéia. Ela mesma vira Lala, e tivera ódio daqueles olhos da cor de mel e tão frios, assim como experimentara satisfação plena ao não se entregar a loucura. Mas... sequestrar? Era um plano longe demais.
- Como poderíamos fazer isso?
Era a dúvida de Bia que não conseguia entender como conseguiriam invadir o palácio, mesmo que os jakens fossem estúpidos e a segurança fragilizada, e simplesmente tomar Lala. E Bia não queria nem pensar na mais provável reação de Ophelia.
- Eu sei, é idiota... Mas... eu ainda acho que pode dar certo.
Umrae parecia insegura às próprias idéias. Sim, Amai concordava com Kibii e Bia: era arriscado, louco. Mas também concordava com Umrae: Lala parecia ser tão leal à Ophelia e Ophelia parecia gostar de Lala. Mas Kibii, com extremo cuidado, manifestou sua opinião sincera:
- Umrae, acho difícil que conseguimos pegar Lala. Ela é forte, sabe lutar. Tive o desprazer de ser mantida sobre a tortura dela e devo te dizer que ela não é uma donzela perdida que aguardará o resgate com paciência.
Amai não ouviu mais nada, pois May irrompeu mais uma vez em um choro sem limites, ultrapassando todas as noções básicas sobre a quantidade máxima de décibeis que um humano pode ouvir sem ficar surdo. Era simplesmente inacreditável o quanto May conseguia chorar, mas o choro parou logo depois de meros dez segundos - torturantes para Amai que queria se concentrar em arrumar a sala e para a Rafitcha que mal conseguia fazer o suco de tanta dor de cabeça que sentia - graças a Raveneh, tão calma e sempre um eterno calmante.
Catherine nunca se manifestara na parte realmente mãe, sempre expressada nesses momentos em que Raveneh provava a si mesma que sua loucura não a impedia de ser uma mãe decente.
Esperava que seja assim, pelo menos.
----------------------------------
Onze humanos e três dragões.
- Vamos - murmurou Harumi para Ratta, feliz - xeque.
Ratta resmungou, movendo um cavalo que acabou por derrotar o bispo de Harumi. Mas de nada adiantou porque o próximo movimento foi a torre de Harumi se aproveitar da brecha deixada pelo bispo para derrotar o rei definitivamente.
- Xeque mate - Harumi sorriu, seus olhos furta-cor brilhando de felicidade.
Gerogie lia um livro grosso, de mais de duas mil páginas com letras de um tamanho minúsculo, provavelmente sobre a História de Faerün desde que o nome apareceu para designar os territórios élficos. Mas o chute de Polly estava errado, pois o que Gerogie lia, realmente, era simplesmente a narração de vinte gerações de uma família de bruxos.
E cada livro só cabia umas cinco gerações.
- Vamos lá - murmurou Keishara, parecendo entediada. Era um dragão azul e gostava de se manter na forma humana simplesmente pra não sentir as descargas elétricas que era capaz de causar. Seus cabelos estavam curtos na altura dos ombros, os fios escorregadios e rebeldes, sempre apontando para todas as direções. Mas Keishara nunca se incomodou com isso, até gostava da rebeldia em seus cabelos.
O outro dragão a olhou com certa ironia e deboche.
Pareciam se encarar com raiva, quase como se estivessem marcando território enquanto disputavam a vitória no jogo de baralho. Não falaram o nome e ninguém foi perguntar o quê eles estavam jogando. Mas os insultos trocados eram suficiente para entender que o jogo era um tanto conflituoso.
- Bem - disse Erevan de cabelos negros e olhos de um estranho tom de violeta - acho que isso é o suficiente para me garantir a vitória.
- Não quando se tem isso - Keishara riu desdenhosamente, jogando um trio de cartas de números iguais - e aí?
- Ora, ora - Erevan sorriu de canto - não se pode ganhar de ti, então?
Keishara assumiu todas as cartas para si, com imenso orgulho em seu sorriso.
Zidaly estava do lado oposto a Crazy, mas o fitava com tanto amor que Crazy podia ficar corado se fosse um adolescente comum de rubores desnecessários. Mas Crazy ignorava, seus olhos se concentrando em um livro muito grosso de capa vinho de letras miúdas que descreviam minuciosamente os compostos quimícos e como eles reagiam um contra o outro. Zidaly suspirou tristemente, seus olhos se esquadrinhando levemente nas mãos de Crazy.
Bel teve que admitir que Zidaly parecia uma perfeita apaixonada. Droga.
Seria difícil, muito difícil lidar com esses egos estúpidos e apaixonados. Quando Zidaly iria aprender que para ser a melhor combatente, a com o sangue mais frio e indestrutível, teria que abrir mão de suas emoções? Em vez de desperdiçar as emoções por um homem, deveria simplesmente usar toda a paixão do corpo e do espírito para se guerrear.
Bel realmente não conseguia entender a lógica de Zidaly que gastava seus esforços para se fazer notada por Crazy...
Hmpf. Logo a viagem terminaria, a guerra começaria e toda aquela história se acabaria, de uma vez por todas. De preferência, com uma cruz em cima do corpo enterrado de Zidaly.
Wow! E a escola continua se sobressaindo à internet, limitando minha imaginação. Ultimamente estou resolvendo mais logaritmos do que conseguindo pensar em qualquer personagem de Três Fadas, sem contar que acabei me envolvendo em um livro aí. Sinopse do livro? Surpresa, mas posso garantir que ele é mais sério. É um drama (vocês sabem como adoro um bom drama envolvendo famílias despedaçadas e bastante sangue), e espero ir bem nele, sinceramente. De qualquer modo, tenho que voltar a escrever isso urgentemente, e me envolver nisso. Enfim, é isso. Espero que tenham gostado desse capítulo! ^^
E até a próxima! Estou com saudades de vocês =**
Ele é medido em 60 minutos, e cada minuto, por sua vez, se mede em 60 segundos.
Para Umrae, porém, os minutos se arrastavam com a lentidão de um século, a ansiedade crescendo a cada vez que um segundo passava. De madrugada, quando todos já dormiam, estava sentada no chão da sala, iluminada por vinte velas cujas chamas tremiam a cada suspiro que dava. E no chão, um mapa se espalhava.
Podia ver os contornos do mundo das fadas, já destruído. As Campinas que brilhavam com todo o seu esplendor ali, ao lado da floresta, tão fechada. Os desenhos eram perfeitos, de contornos delineados com tinta negra e todas as cores tingiam o papel, respondendo a impressão de cada reino. Passou o dedo indicador, de leve, em Mundo das Fadas.
Acabado.
Depois dirigiu o dedo para os arredores no sul.
Destruído.
Observou o norte, com seus reinos sempre colonizados por fadas.
Arruínados.
As Campinas. Lugar enorme, que merecia um espaço a mais no mapa.
Verde. Vívido. Cada centímetro que ela, Umrae, conhecia desde que viera de Faerün, era completamente vivo.
Encarou o mapa com curiosidade e uma certa dose de nervosismo. Parecia perfeitamente tranquila como se nada estivesse acontecendo. Não que quisesse enganar a si mesma, mas se a própria Umrae aparentasse estar nervosa, isso iria influir em todos os outros no abrigo.
Observou com cuidado as áreas em que ficariam os dragões.
Desenhou um circulo vermelho em cada ponto estratégico, sua mente trabalhando para garantir uma sobrevivência maior, uma vitória, uma luz qualquer.
Uma guerra direta não iria funcionar, por mais que os dragões fossem maravilhosos.
Queria algo a mais, algo que abalasse Ophelia de vez, algo que envenenasse o palácio e que destruísse, vigorosamente, cada frágil alicerce que Ophelia impôs em seu reinado.
Um veneno.
Algo que destruísse a alma de Ophelia.
Todos tem seu ponto fraco, não tem?
Amai quisera dizer algo naquele dia, sim. Mas o quê, exatamente?
Estava debaixo do seu nariz, Umrae. Tão óbvio, decididamente racional. Pensar, pensar...
Lala.
----------------------------------
A manhã veio, sempre tão preguiçosa e silenciosa, e junto com a manhã, Alicia acordou, seus olhos cinzentos piscando confusos. Não via o teto escuro da masmorra de onde estava, mas o teto branco do quarto onde Lala dormia, seu peito subindo e descendo, tamanha a dificuldade de respiração.
Lala parecia estar sonhando algo de ruim, pela sua respiração apressada e ofegante. Alicia reparou que as feridas estavam menos avermelhadas do que no dia anterior, além de notar que Lala apressou algo de sua regeneração durante o sono. Mas a febre aumentara absurdamente, de tanto que Lala suava.
- Alicia - Ophelia abriu a porta devagar.
Já acordou?
Ophelia parecia estar arrumada há muito tempo. Seus cabelos estavam soltos como sempre, o vestido de algodão muito simples, pouco condizente a imponência de Ophelia, algodão este tingido de azul-turquesa e bordado com pedras que brilhavam a luz, esplêndidas. Alicia recuou um passo, mas se ajoelhou muito rapidamente, apressada em reverenciar Ophelia.
- Não precisa - Ophelia disse com desprezo - só me diga como Lala está.
- A febre aumentou, mas os ferimentos estão se regenerando... devagar, mas estão - Alicia disse, sem pensar. Na verdade nem analisara Lala direito, mas era o que sabia e por alguns minutos, lhe era o suficiente. Ophelia somente a encarou com uma certa estranheza:
- Se você salvar Lala - disse muito delicadamente - eu lhe devolvo Siih e Lefi. Mas a cada dia que Lala piorar, direi a Ravèh que dobre a tortura para os seus amigos.
Alicia ergueu o rosto, sobressaltada.
Tomou banho rapidamente assim que Ophelia se retirou, e tomou todas as providências para que Lala melhorasse rapidamente. Sentada ao lado da cama, estava devidamente armada de toalhas brancas e macias, xícaras com chás que ferveriam por horas, ervas delicadas e todo o tipo de conforto que uma doente poderia ter.
Lala acordou às dez da manhã.
Parecia querer chorar, pelos olhos muito vermelhos, porém estava ainda mais fraca se fosse julgada pela pele absurdamente pálida, os cabelos mais finos e os quilos que perdera em toda a regeneração.
- Oph? - Lala tentou se levantar.
Doía. Doía muito.
Mas não o suficiente para impedi-la de levantar. Esboçou um frágil sorriso que se partiu assim que, sentada, Lala indagou, tentando impor calma em cada palavra que dizia:
- Onde está Ophelia?
Alicia respondeu com muita calma. Tinha que medir as palavras com cuidado, manipular a garota de forma vagarosa e eficiente, fazer com que ela se ajudasse de vez.
- Está trabalhando - respirou fundo - ela está muito preocupada com você, Lala.
Lala esboçou outro sorriso, esse mais duradouro. Alicia continuou. Tinha planos para si mesma de simplesmente vingar tudo de uma vez e enfraquecer Lala de uma vez, se manter uma péssima médica. Mas agora que Ophelia lhe prometera a vida de Siih e Lefi caso salvasse Lala... era simplesmente uma virada de planos, e agora a garota em frente era a mais importante, a peça que, quebrada, arruinaria todo o jogo.
- Lala, recupere-se, pois Vossa Majestade precisa de você - Alicia escolheu bem as palavras - obedeça a tudo que eu disser e tente usar suas forças para se regenerar mais rápido. Sei que dói, mas...
Lala sorriu mais abertamente.
Droga, droga.
Só doía. O que se fazer quando o corpo só faz doer, até um sorriso?
- Eu vou ficar bem caso...? - perguntou, sorriso desfeito de novo. Alicia respondeu:
- Se você se regenerar mais rapidamente. Aí poderemos cuidar apenas do cansaço que terá.
- E se eu deixar a regeneração ao curso natural?
- Vai demorar mais do que o dobro de tempo e passará mal demais.
- A resposta é óbvia - Lala desabou na cama, já que ficar sentada doía mais do que podia dizer - você pode me ajudar a regenerar?
Alicia sorriu. Era isso que queria. Custaria muito de seus poderes e de sua força, mas quando passou a trabalhar para a Rainha, jurou a ela servi-la pelos sete meses. Os sete meses não tinham terminados, e ela era serva da Vossa Majestade, mesmo que todo o reino desmoronasse. Entregou a Lala um chá fumegante, de poderes curativos, enquanto pensava em si própria.
Enquanto prometia que iria salvar a sua Rainha, então iria salvar a sua Rainha.
Promessa é dívida, lembrou Alicia para si própria.
----------------------------------
Raveneh havia acordado bem cedo por causa de May que também acordou, porém de forma bem pouco tranquila.
Junto com o choro de Maytsuri, praticamente todos que estavam no abrigo acordaram, mal-humorados e ressentidos com um bebê. Odiavam aquele choro que se estrangulava na aurora, aquele choro ansiando por leite. Mas como a outra alternativa era uma Raveneh chorando copiosamente pela perda da filha, então se resignavam.
- Rafitcha - Johnny chamou, vestindo calças azuis, cabelos sempre revoltos - como está?
Johnny estava muito preocupado com os pais e sabia que Rafitcha estava mais ainda. Rafitcha sempre tivera muitos mais problemas com os pais do que ele, especialmente com a mãe. E sabia que toda vez que uma situação de risco acontecia (e esta era a terceira vez desde que Johnny se entende por gente), Rafitcha remoía suas brigas com a mãe, sua impaciência, as batidas de porta e os gritos vociferantes e cruéis. A culpa era toda dela, era isso que Rafitcha acreditava quando se preocupava com uma situação que poderia dar fim a vida de seus pais. A culpa por nunca ter realmente pedido desculpas, talvez.
Johnny realmente não entendia como as meninas pensavam. Elas eram tão problemáticas, com pensamentos tão contraditórios. E Rafitcha não fugia a regra: doce, afável, uma pessoa completamente amigável, fácil de conviver. Mas na intimidade, quando vivia com os pais, conseguia ser imatura e responsável, irritava-se por motivos idiotas, o jeito de andar se tornava arrogante. Todas as meninas que ele conhecera eram assim: pareciam ser mil pessoas em uma.
- Estou bem, obrigada - murmurou Rafitcha enquanto se preocupava em verificar se havia manteiga para todos.
- Quer verificar sobre...? - era uma pergunta idiota que só merecia uma única resposta:
- Como?
Rafitcha lhe encarou com certa frieza.
Não que ela seja fria. Aliás, muito raramente ela falava nesse tom tão seco e com esse olhar tão gelado. Era somente preocupação excessiva, zelo excessivo, irritação excessiva. Rafitcha estava se esgotando, isso era evidente. Johnny passou a usar um tom mais doce, que utilizava somente quando Raveneh estava a ponto de uma crise de nervos.
- Rafitcha, porque não vá lá pra fora, respirar ar puro?
Rafitcha pegou uma faca para cortar as laranjas. Suas mãos logo se molharam com todo o sulco alaranjado, e parecia estar irritada, embora seus gestos estivessem mecânicos, como se ela não pensasse naquilo.
- Vá trabalhar, Johnny - foi tudo o que disse, antes de Raveneh chegar, ninando May e desejando 'bom dia' a todos.
'Bom dia' era um desejo estúpido em tempos de guerra. Mas ainda era demasiadamente doce.
Umrae repassava suas impressões para Ly, Kibii e Bia. Todos estavam absortos nas explicações curtas de Umrae que tratava dos possíveis pontos fracos e da aproximação dos dragões, ou seja, uma estratégia militar contra a Vossa Majestade Que Em Tudo Manda, como Fer gostava de ironizar nas refeições.
Eles estavam na enfermaria, rodeados em volta de Kibii cujos ferimentos estavam melhorando muito bem. Amai estava na sala e devido à estrutura péssima, conseguia escutar as palavras de Umrae, geralmente interrompidas por murmúrios. Ela não conseguia ouvir a voz de Ly, embora soubesse que ele também participava ativamente, e a voz de Bia era tão fraca para seus ouvidos que Amai mal conseguia entender. E todos falavam muito baixo, mas Amai se privilegiava de sua ótima audição e da estrutura precária em relação aos sons.
- Chantagear Ophelia não é uma boa idéia.
Kibii parecia insegura quanto a idéia. Ela mesma vira Lala, e tivera ódio daqueles olhos da cor de mel e tão frios, assim como experimentara satisfação plena ao não se entregar a loucura. Mas... sequestrar? Era um plano longe demais.
- Como poderíamos fazer isso?
Era a dúvida de Bia que não conseguia entender como conseguiriam invadir o palácio, mesmo que os jakens fossem estúpidos e a segurança fragilizada, e simplesmente tomar Lala. E Bia não queria nem pensar na mais provável reação de Ophelia.
- Eu sei, é idiota... Mas... eu ainda acho que pode dar certo.
Umrae parecia insegura às próprias idéias. Sim, Amai concordava com Kibii e Bia: era arriscado, louco. Mas também concordava com Umrae: Lala parecia ser tão leal à Ophelia e Ophelia parecia gostar de Lala. Mas Kibii, com extremo cuidado, manifestou sua opinião sincera:
- Umrae, acho difícil que conseguimos pegar Lala. Ela é forte, sabe lutar. Tive o desprazer de ser mantida sobre a tortura dela e devo te dizer que ela não é uma donzela perdida que aguardará o resgate com paciência.
Amai não ouviu mais nada, pois May irrompeu mais uma vez em um choro sem limites, ultrapassando todas as noções básicas sobre a quantidade máxima de décibeis que um humano pode ouvir sem ficar surdo. Era simplesmente inacreditável o quanto May conseguia chorar, mas o choro parou logo depois de meros dez segundos - torturantes para Amai que queria se concentrar em arrumar a sala e para a Rafitcha que mal conseguia fazer o suco de tanta dor de cabeça que sentia - graças a Raveneh, tão calma e sempre um eterno calmante.
Catherine nunca se manifestara na parte realmente mãe, sempre expressada nesses momentos em que Raveneh provava a si mesma que sua loucura não a impedia de ser uma mãe decente.
Esperava que seja assim, pelo menos.
----------------------------------
Onze humanos e três dragões.
- Vamos - murmurou Harumi para Ratta, feliz - xeque.
Ratta resmungou, movendo um cavalo que acabou por derrotar o bispo de Harumi. Mas de nada adiantou porque o próximo movimento foi a torre de Harumi se aproveitar da brecha deixada pelo bispo para derrotar o rei definitivamente.
- Xeque mate - Harumi sorriu, seus olhos furta-cor brilhando de felicidade.
Gerogie lia um livro grosso, de mais de duas mil páginas com letras de um tamanho minúsculo, provavelmente sobre a História de Faerün desde que o nome apareceu para designar os territórios élficos. Mas o chute de Polly estava errado, pois o que Gerogie lia, realmente, era simplesmente a narração de vinte gerações de uma família de bruxos.
E cada livro só cabia umas cinco gerações.
- Vamos lá - murmurou Keishara, parecendo entediada. Era um dragão azul e gostava de se manter na forma humana simplesmente pra não sentir as descargas elétricas que era capaz de causar. Seus cabelos estavam curtos na altura dos ombros, os fios escorregadios e rebeldes, sempre apontando para todas as direções. Mas Keishara nunca se incomodou com isso, até gostava da rebeldia em seus cabelos.
O outro dragão a olhou com certa ironia e deboche.
Pareciam se encarar com raiva, quase como se estivessem marcando território enquanto disputavam a vitória no jogo de baralho. Não falaram o nome e ninguém foi perguntar o quê eles estavam jogando. Mas os insultos trocados eram suficiente para entender que o jogo era um tanto conflituoso.
- Bem - disse Erevan de cabelos negros e olhos de um estranho tom de violeta - acho que isso é o suficiente para me garantir a vitória.
- Não quando se tem isso - Keishara riu desdenhosamente, jogando um trio de cartas de números iguais - e aí?
- Ora, ora - Erevan sorriu de canto - não se pode ganhar de ti, então?
Keishara assumiu todas as cartas para si, com imenso orgulho em seu sorriso.
Zidaly estava do lado oposto a Crazy, mas o fitava com tanto amor que Crazy podia ficar corado se fosse um adolescente comum de rubores desnecessários. Mas Crazy ignorava, seus olhos se concentrando em um livro muito grosso de capa vinho de letras miúdas que descreviam minuciosamente os compostos quimícos e como eles reagiam um contra o outro. Zidaly suspirou tristemente, seus olhos se esquadrinhando levemente nas mãos de Crazy.
Bel teve que admitir que Zidaly parecia uma perfeita apaixonada. Droga.
Seria difícil, muito difícil lidar com esses egos estúpidos e apaixonados. Quando Zidaly iria aprender que para ser a melhor combatente, a com o sangue mais frio e indestrutível, teria que abrir mão de suas emoções? Em vez de desperdiçar as emoções por um homem, deveria simplesmente usar toda a paixão do corpo e do espírito para se guerrear.
Bel realmente não conseguia entender a lógica de Zidaly que gastava seus esforços para se fazer notada por Crazy...
Hmpf. Logo a viagem terminaria, a guerra começaria e toda aquela história se acabaria, de uma vez por todas. De preferência, com uma cruz em cima do corpo enterrado de Zidaly.
Wow! E a escola continua se sobressaindo à internet, limitando minha imaginação. Ultimamente estou resolvendo mais logaritmos do que conseguindo pensar em qualquer personagem de Três Fadas, sem contar que acabei me envolvendo em um livro aí. Sinopse do livro? Surpresa, mas posso garantir que ele é mais sério. É um drama (vocês sabem como adoro um bom drama envolvendo famílias despedaçadas e bastante sangue), e espero ir bem nele, sinceramente. De qualquer modo, tenho que voltar a escrever isso urgentemente, e me envolver nisso. Enfim, é isso. Espero que tenham gostado desse capítulo! ^^
E até a próxima! Estou com saudades de vocês =**
terça-feira, 7 de abril de 2009
Parte 79 - Estupidez de Mecci.
Ophelia andou pelas escadas.
Eram quatro da manhã, as estrelas estavam perfeitas e o seu estado era de uma raiva incontrolável.
Descia, subia, atravessava corredores, perturbando a todos com seu andar apressado, seus resmungos. Queria agir, e ser verdadeiramente uma rainha. Tinha alguma coisa que a incomodava desde a luta com Elyon e Catherine, alguma coisa que insistia em ficar ali. Ela não sabia o quê, mas a coisa estava ali, no pé de cada escada, atrás de cada porta, no fim de cada corredor. A coisa que insistia, que perturbava, que atormentava Ophelia com aquela ansiedade, aquela excitação lhe subindo o peito. Ophelia queria gritar, mas não conseguia.
Todos dormiam.
Todos adormeciam.
Alicia dormia no outro canto no quarto onde Lala adormecia, assim Ophelia mandava.
Os Glombs ficavam quietos, pois o barulho deles incomodava Ophelia.
Ravèh adormecia em um quarto só dela, cedido por Ophelia, e os irmãos dormiam.
Nada.
Nada acontecia.
Pensou que quando fosse rainha, conseguiria vingar tudo o que sofrera na infância. Pensou que sua sede de poder seria saciada, seria feliz, no fim das contas. Mas não era isso que acontecia. A cada dia que passava, se sentia mais vazia e o vazio corroía a sua alma por dentro. Estava perdida, e queria alguma emoção. Aquela emoção que sentira ao massacrar Elyon e Catherine.
Sentou-se no trono, encarou a frente. Ali em frente, Bia lutou com Lala, e ela conheceu Umrae, Ly. E também a doce Amai, a decidida Rafitcha e a calma Kibii. Kibii... tivera-a nas mãos, e foi resgatada tão facilmente, de modo tão estúpido, que Ophelia teve que se questionar sobre a atenção real que dava para seus prisioneiros.
Era uma rainha.
Mas era a rainha dos demônios, e ao menos, eles gostavam de seu reinado. Tinham carta branca para tudo, não é? A lei deixou de existir, a ordem deixou de ser assegurada, e todo o Conselho simplesmente sumiu, dissolvido na confusão. Estava praticamente sozinha para governar reinos e reinos, e se Lala não resistisse, aí que estaria sozinha de verdade. Tinha Lala para lhe ajudar, tinha Lala para lhe aconselhar e para tirar o gosto da solidão. Ela era seu escudo, seu saco de pancadas e seu confessionário.
A única pessoa viva que conhecia o lado humano de Ophelia, e ela não podia deixar morrer simplesmente.
Não iria deixar.
----------------------------------
- Pronto?
- Yeah.
Dez dragões na frente, acorrentados no pescoço, e correntes presas a uma grande carruagem que tinha o tamanho da sala de estar de uma casa japonesa, daquelas de estudante. Por fora, toda pintada de furta-cor e completamente encantada para se mesclar ao céu. Por dentro, toda de madeira com janelas fechadas, feitas de cristal, e dois compartimentos separados por uma porta. No compartimento menor, se guardava as malas e todo o material necessário. No maior, as pessoas se deitavam sobre cobertas e não conseguiam dormir devido ao balanço que fazia enjoar. No interior, onze humanos e três dragões.
Dez dragões, sendo que cinco eram de escamas azuladas que brilhavam à luz das estrelas e cinco eram completamente negros, exceto pelos chifres que tinham cor de osso, e todos os dez dragões voavam em alta velocidade, carregando a carruagem.
- Chamada básica e ordens básicas - disse Bel, que se sentava junto à uma das janelas, recostada em uma enorme almofada forrada de cetim azul - vamos lá. - olhou para uma prancheta onde tinha alguns papéis - Crazy, Giovanna, Harumi, Luka e Pauline: cuidarão dos dragões azuis. Polly, Ratta, Ti-Yi, Toronto, vocês ficarão com os negros. Eu também ficarei com um dos negros.
- E eu? - Zidaly protestou veemente - ficarei com qual?
- Nenhum - Bel afirmou categoricamente - será a cuidadora.
Todos tiveram que disfarçar o riso, enquanto Zidaly não entendia:
- Como assim?
Bel teve que explicar:
- A cuidadora é simplesmente o trabalho sujo. Lavar a sujeira que eles fazem, lavar os nossos uniformes - ao passo que Zidaly fazia uma careta de horror, Bel continuou sadicamente - sabe, você terá que usar uma roupa muito bonitinha, toda amarela, e manter tudo limpo, e tem que cuidar muito bem, senão eles ficarão furiosos com você e te matarão.
- Comendo viva - acrescentou Ti-Yi, risonho.
Zidaly recuou, abraçando os próprios joelhos. Parecia sinceramente apavorada.
- Eu não te conheço - Crazy comentou - você nunca deu ataque de frescura em missão, ainda mais quando você suborna para ser convocada.
- S-Subornar? - Zidaly quase que choramingava.
- Com o corpo - Bel alfinetou - eu aceitei que entrasse, mas infelizmente, você se esqueceu de decidir sobre que tarefa receberia, confiando na minha boa vontade. Infelizmente pra você, minha querida, eu estou com um desejo mortal de fazer criar o inferno na terra, sobre você.
Zidaly parou de tremer e choramingar, ficando fria como gelo.
- Não vai conseguir. Será dedurada quando eu voltar.
- Quem disse que vai voltar? Em uma guerra, costuma morrer gente, sabia? - Bel sorriu diabolicamente, ao que Zidaly mordeu o lábio inferior de raiva, seus dedos tremendo de tanto ódio. Polly ficou em alerta como costumava fazer quando a situação se tornava tensa, e Harumi ficou pronta para usar magia de defesa, coisa em que era muito boa.
Zidaly se levantou de supetão, postura ereta, procurando a espada no punho e reparou, com decepção, que não a possuia.
- Desculpe - Ratta disse cinicamente - mas todas as armas foram guardadas lá atrás. Ordens da Comandante.
Bel também se levantou, os punhos na posição.
- Quer lutar, criança? - sorriu - venha.
- De corpo? Que vulgar - Zidaly bateu o pé esquerdo no chão, direcionando alguma espécie de magia entre os ladrilhos de madeira e correndo até Bel com rapidez, fios de energia que se entrelaçavam em volta de Bel, fios azuis e mágicos que formaram uma espécie de gaiola. Mas Bel não se apavorou nem se intimidou.
Só deu um passo.
E os fios sumiram.
Zidaly bem que tentou, usando todas as magias de ataque nível um para iniciantes bakas aprendidos, mas Bel se defendeu de todas com tanta delicadeza e facilidade que Zidaly teve que admitir que a vitória era da Comandante. Desabou no chão depois da vigésima oitava magia lançada e defendida, e ofegou. Aquilo não lhe cansara quase nada, mas mesmo assim, não queria usar magia mais forte ou causaria uma forte interferência na magia que protegia a carruagem. Podia até matar Bel cantando e dançando, mas nunquinha que iria colocar o seu amado queridissímo Crazy em risco. Nunca.
- 1x0 para mim? - riu Bel bem baixinho.
Zidaly a encarou com um olhar de nojo, quando Gerogie disse friamente:
- Francamente, vocês me enjoam.
Pararam e ficaram quietos a viagem toda. Os três dragões dormiam tranquilamente, os humanos permaneciam com enjôo. É, fazer o quê.
E a noite chegaria, logo, ao fim.
----------------------------------
- Me ajuda?
Raveneh permaneceu com os olhos fechados, se revirou na cama.
- Não.
Respirava ofegante, mesmo dormindo, sentindo mágoa na garganta.
Droga. Droga.
- Raveneh.
- Raveneh, por favor, me ajuda
Johnny se levantou sobressaltado pelos gemidos de Raveneh, gemidos dolorosos de quem estava sofrendo demais.
- Espero a sua morte há catorze anos.
- Raveneh!
Johnny sacudiu a esposa que acordou, lágrimas nos cantos dos olhos. Se sentou, ofegante, as lágrimas correndo pelas bochechas, parecendo aturdida.
- Johnny...
- Sonhou com o quê?
Raveneh fixou o olhar no teto, não querendo responder. A resposta era vaga demais, a esperança estava sumindo.
- May está bem? - Raveneh perguntou, sua voz sempre tão adocicada, ao que Johnny respondeu com ternura:
- Sim, querida.
Johnny abraçou Raveneh com todo o carinho que podia reunir dentro de si, e embalou Raveneh com cochichos calmos e cantigas. Raveneh parecia uma criança dourada entre seus braços.
----------------------------------
- Porque tem duas belezinhas tão sozinhas? - riu o barman que servia as bebidas com uma desenvoltura íncrivel. Seu sorriso era de um homem galante, metido à conquistador, alto e imponente, peito de fora e calças verde-exército.
Elyon o encarou com desprezo:
- Quero só a mimatta de malte - resmungou - não quero você.
- Você deveria reconsiderar, garota - o barman disse, enquanto servia dois copos repletos de mimatta fumegante - eu nunca decepciono as donzelas.
- pffff - riu Catherine sem achar graça - poderíamos matar cem desses em um golpe, mas ainda assim eles se acham...
- Obrigada, garotão - ironizou Elyon entregando duas moedas de bronze - acho que isso servirá.
- Não. Tem que ser um galleom por cada copo - o barman resmungou - por causa desses demônios - abaixou o tom de voz, quase que sussurrando - eu tenho mais dificuldades de manter esse bar... o preço aumentou, desculpe, senhoritas. Mas tem outro jeito de pagar...
Elyon jogou mais duas moedas de bronze, dando um olhar furioso:
- E mais duas, completa-se dois gm'. Pagaremos em moedas, não se preocupe.
Catherine pegou seu copo, bebendo um gole.
- Hey, - disse Catherine enquanto bebia aquela bebida tão amarga - veja só esses monstros. Completamente...
Elyon concordou com um aceno de cabeça.
A cena era triste.
Num canto, demônios jogavam baralho, bebendo mimattas que equivaliam à vários galões imperiais e discutiam sobre coisas obscenas, enquanto outros bebiam solitários. Ainda havia os humanos que dançavam ao som de humanos, e Elyon não conseguia sentir a energia deles, o que fazia pensar que eram realmente humanos em meio aos monstros.
- A qualquer minuto, eles podem explodir esse lugar - murmurou Catherine - esse bar só existe porque o barman conseguiu impor respeito...
- Sim - Elyon concordou, sentindo os efeitos do álcool - e ele também é um grande tarado. Se ele me atacar, vai perder muito mais do que o documento dele - rosnou maldosamente.
Catherine riu.
- Te odeio - gritou uma mulher, com três seios no tronco e quatro braços enormes - te odeio.
Outro demônio se levantou, fazendo cair várias cartas de baralho no chão. Media cerca de um metro e oitenta, e em seu rosto deformado, só havia um único olho grande, redondo de íris negra, e possuía vários dentes, pontiagudos e tortos.
- Também te odeio, Meicci - rosnou ele, erguendo as mãos em direção ao demônio feminino, que fez gritar, atraindo a atenção até dos mais desligados e bêbados.
Os quatro braços da tal Meicci bem que tentaram defendê-la, se movendo e rasgando o tronco do maior, mas nada adiantou. Seu pescoço foi apertado como em um estrangulamento, sua cútis facial se tornou arroxeada, seus olhos saíram das órbitas e desabou no chão, quando ele a largou. Todos o encararam, amedrontados e temerosos.
- Quem vai querer quebrar as regras do vinte-e-um comigo? - ele vociferou.
A voz ecoou no aposento.
E se sentou, solitário, jogando vinte-e-um sozinho, fingindo que tinha alguém ao lado.
Ninguém se movimentou para pegar o cadáver do demônio que ousara quebrar as regras do vinte-e-um com alguém que não tinha mais o bom senso de discernir entre o normal e o extravagante.
Oh céus, preciso melhorar isso logo. Mas estou me preparando, psicologicamente. Afinal não pensem que vai ser fácil digitar capítulos em que vidas serão desfeitas, sim, vidas. Ou vocês acham que o título do blog lá em cima vai permanecer verdade? E quando me refiro a 'todas', não me refiro somente às três principais. Por enquanto. Obrigada, boa noite. E comentem, eu gosto muito dos comentários que vocês fazem *-*
Eram quatro da manhã, as estrelas estavam perfeitas e o seu estado era de uma raiva incontrolável.
Descia, subia, atravessava corredores, perturbando a todos com seu andar apressado, seus resmungos. Queria agir, e ser verdadeiramente uma rainha. Tinha alguma coisa que a incomodava desde a luta com Elyon e Catherine, alguma coisa que insistia em ficar ali. Ela não sabia o quê, mas a coisa estava ali, no pé de cada escada, atrás de cada porta, no fim de cada corredor. A coisa que insistia, que perturbava, que atormentava Ophelia com aquela ansiedade, aquela excitação lhe subindo o peito. Ophelia queria gritar, mas não conseguia.
Todos dormiam.
Todos adormeciam.
Alicia dormia no outro canto no quarto onde Lala adormecia, assim Ophelia mandava.
Os Glombs ficavam quietos, pois o barulho deles incomodava Ophelia.
Ravèh adormecia em um quarto só dela, cedido por Ophelia, e os irmãos dormiam.
Nada.
Nada acontecia.
Pensou que quando fosse rainha, conseguiria vingar tudo o que sofrera na infância. Pensou que sua sede de poder seria saciada, seria feliz, no fim das contas. Mas não era isso que acontecia. A cada dia que passava, se sentia mais vazia e o vazio corroía a sua alma por dentro. Estava perdida, e queria alguma emoção. Aquela emoção que sentira ao massacrar Elyon e Catherine.
Sentou-se no trono, encarou a frente. Ali em frente, Bia lutou com Lala, e ela conheceu Umrae, Ly. E também a doce Amai, a decidida Rafitcha e a calma Kibii. Kibii... tivera-a nas mãos, e foi resgatada tão facilmente, de modo tão estúpido, que Ophelia teve que se questionar sobre a atenção real que dava para seus prisioneiros.
Era uma rainha.
Mas era a rainha dos demônios, e ao menos, eles gostavam de seu reinado. Tinham carta branca para tudo, não é? A lei deixou de existir, a ordem deixou de ser assegurada, e todo o Conselho simplesmente sumiu, dissolvido na confusão. Estava praticamente sozinha para governar reinos e reinos, e se Lala não resistisse, aí que estaria sozinha de verdade. Tinha Lala para lhe ajudar, tinha Lala para lhe aconselhar e para tirar o gosto da solidão. Ela era seu escudo, seu saco de pancadas e seu confessionário.
A única pessoa viva que conhecia o lado humano de Ophelia, e ela não podia deixar morrer simplesmente.
Não iria deixar.
----------------------------------
- Pronto?
- Yeah.
Dez dragões na frente, acorrentados no pescoço, e correntes presas a uma grande carruagem que tinha o tamanho da sala de estar de uma casa japonesa, daquelas de estudante. Por fora, toda pintada de furta-cor e completamente encantada para se mesclar ao céu. Por dentro, toda de madeira com janelas fechadas, feitas de cristal, e dois compartimentos separados por uma porta. No compartimento menor, se guardava as malas e todo o material necessário. No maior, as pessoas se deitavam sobre cobertas e não conseguiam dormir devido ao balanço que fazia enjoar. No interior, onze humanos e três dragões.
Dez dragões, sendo que cinco eram de escamas azuladas que brilhavam à luz das estrelas e cinco eram completamente negros, exceto pelos chifres que tinham cor de osso, e todos os dez dragões voavam em alta velocidade, carregando a carruagem.
- Chamada básica e ordens básicas - disse Bel, que se sentava junto à uma das janelas, recostada em uma enorme almofada forrada de cetim azul - vamos lá. - olhou para uma prancheta onde tinha alguns papéis - Crazy, Giovanna, Harumi, Luka e Pauline: cuidarão dos dragões azuis. Polly, Ratta, Ti-Yi, Toronto, vocês ficarão com os negros. Eu também ficarei com um dos negros.
- E eu? - Zidaly protestou veemente - ficarei com qual?
- Nenhum - Bel afirmou categoricamente - será a cuidadora.
Todos tiveram que disfarçar o riso, enquanto Zidaly não entendia:
- Como assim?
Bel teve que explicar:
- A cuidadora é simplesmente o trabalho sujo. Lavar a sujeira que eles fazem, lavar os nossos uniformes - ao passo que Zidaly fazia uma careta de horror, Bel continuou sadicamente - sabe, você terá que usar uma roupa muito bonitinha, toda amarela, e manter tudo limpo, e tem que cuidar muito bem, senão eles ficarão furiosos com você e te matarão.
- Comendo viva - acrescentou Ti-Yi, risonho.
Zidaly recuou, abraçando os próprios joelhos. Parecia sinceramente apavorada.
- Eu não te conheço - Crazy comentou - você nunca deu ataque de frescura em missão, ainda mais quando você suborna para ser convocada.
- S-Subornar? - Zidaly quase que choramingava.
- Com o corpo - Bel alfinetou - eu aceitei que entrasse, mas infelizmente, você se esqueceu de decidir sobre que tarefa receberia, confiando na minha boa vontade. Infelizmente pra você, minha querida, eu estou com um desejo mortal de fazer criar o inferno na terra, sobre você.
Zidaly parou de tremer e choramingar, ficando fria como gelo.
- Não vai conseguir. Será dedurada quando eu voltar.
- Quem disse que vai voltar? Em uma guerra, costuma morrer gente, sabia? - Bel sorriu diabolicamente, ao que Zidaly mordeu o lábio inferior de raiva, seus dedos tremendo de tanto ódio. Polly ficou em alerta como costumava fazer quando a situação se tornava tensa, e Harumi ficou pronta para usar magia de defesa, coisa em que era muito boa.
Zidaly se levantou de supetão, postura ereta, procurando a espada no punho e reparou, com decepção, que não a possuia.
- Desculpe - Ratta disse cinicamente - mas todas as armas foram guardadas lá atrás. Ordens da Comandante.
Bel também se levantou, os punhos na posição.
- Quer lutar, criança? - sorriu - venha.
- De corpo? Que vulgar - Zidaly bateu o pé esquerdo no chão, direcionando alguma espécie de magia entre os ladrilhos de madeira e correndo até Bel com rapidez, fios de energia que se entrelaçavam em volta de Bel, fios azuis e mágicos que formaram uma espécie de gaiola. Mas Bel não se apavorou nem se intimidou.
Só deu um passo.
E os fios sumiram.
Zidaly bem que tentou, usando todas as magias de ataque nível um para iniciantes bakas aprendidos, mas Bel se defendeu de todas com tanta delicadeza e facilidade que Zidaly teve que admitir que a vitória era da Comandante. Desabou no chão depois da vigésima oitava magia lançada e defendida, e ofegou. Aquilo não lhe cansara quase nada, mas mesmo assim, não queria usar magia mais forte ou causaria uma forte interferência na magia que protegia a carruagem. Podia até matar Bel cantando e dançando, mas nunquinha que iria colocar o seu amado queridissímo Crazy em risco. Nunca.
- 1x0 para mim? - riu Bel bem baixinho.
Zidaly a encarou com um olhar de nojo, quando Gerogie disse friamente:
- Francamente, vocês me enjoam.
Pararam e ficaram quietos a viagem toda. Os três dragões dormiam tranquilamente, os humanos permaneciam com enjôo. É, fazer o quê.
E a noite chegaria, logo, ao fim.
----------------------------------
- Me ajuda?
Raveneh permaneceu com os olhos fechados, se revirou na cama.
- Não.
Respirava ofegante, mesmo dormindo, sentindo mágoa na garganta.
Droga. Droga.
- Raveneh.
- Raveneh, por favor, me ajuda
Johnny se levantou sobressaltado pelos gemidos de Raveneh, gemidos dolorosos de quem estava sofrendo demais.
- Espero a sua morte há catorze anos.
- Raveneh!
Johnny sacudiu a esposa que acordou, lágrimas nos cantos dos olhos. Se sentou, ofegante, as lágrimas correndo pelas bochechas, parecendo aturdida.
- Johnny...
- Sonhou com o quê?
Raveneh fixou o olhar no teto, não querendo responder. A resposta era vaga demais, a esperança estava sumindo.
- May está bem? - Raveneh perguntou, sua voz sempre tão adocicada, ao que Johnny respondeu com ternura:
- Sim, querida.
Johnny abraçou Raveneh com todo o carinho que podia reunir dentro de si, e embalou Raveneh com cochichos calmos e cantigas. Raveneh parecia uma criança dourada entre seus braços.
----------------------------------
- Porque tem duas belezinhas tão sozinhas? - riu o barman que servia as bebidas com uma desenvoltura íncrivel. Seu sorriso era de um homem galante, metido à conquistador, alto e imponente, peito de fora e calças verde-exército.
Elyon o encarou com desprezo:
- Quero só a mimatta de malte - resmungou - não quero você.
- Você deveria reconsiderar, garota - o barman disse, enquanto servia dois copos repletos de mimatta fumegante - eu nunca decepciono as donzelas.
- pffff - riu Catherine sem achar graça - poderíamos matar cem desses em um golpe, mas ainda assim eles se acham...
- Obrigada, garotão - ironizou Elyon entregando duas moedas de bronze - acho que isso servirá.
- Não. Tem que ser um galleom por cada copo - o barman resmungou - por causa desses demônios - abaixou o tom de voz, quase que sussurrando - eu tenho mais dificuldades de manter esse bar... o preço aumentou, desculpe, senhoritas. Mas tem outro jeito de pagar...
Elyon jogou mais duas moedas de bronze, dando um olhar furioso:
- E mais duas, completa-se dois gm'. Pagaremos em moedas, não se preocupe.
Catherine pegou seu copo, bebendo um gole.
- Hey, - disse Catherine enquanto bebia aquela bebida tão amarga - veja só esses monstros. Completamente...
Elyon concordou com um aceno de cabeça.
A cena era triste.
Num canto, demônios jogavam baralho, bebendo mimattas que equivaliam à vários galões imperiais e discutiam sobre coisas obscenas, enquanto outros bebiam solitários. Ainda havia os humanos que dançavam ao som de humanos, e Elyon não conseguia sentir a energia deles, o que fazia pensar que eram realmente humanos em meio aos monstros.
- A qualquer minuto, eles podem explodir esse lugar - murmurou Catherine - esse bar só existe porque o barman conseguiu impor respeito...
- Sim - Elyon concordou, sentindo os efeitos do álcool - e ele também é um grande tarado. Se ele me atacar, vai perder muito mais do que o documento dele - rosnou maldosamente.
Catherine riu.
- Te odeio - gritou uma mulher, com três seios no tronco e quatro braços enormes - te odeio.
Outro demônio se levantou, fazendo cair várias cartas de baralho no chão. Media cerca de um metro e oitenta, e em seu rosto deformado, só havia um único olho grande, redondo de íris negra, e possuía vários dentes, pontiagudos e tortos.
- Também te odeio, Meicci - rosnou ele, erguendo as mãos em direção ao demônio feminino, que fez gritar, atraindo a atenção até dos mais desligados e bêbados.
Os quatro braços da tal Meicci bem que tentaram defendê-la, se movendo e rasgando o tronco do maior, mas nada adiantou. Seu pescoço foi apertado como em um estrangulamento, sua cútis facial se tornou arroxeada, seus olhos saíram das órbitas e desabou no chão, quando ele a largou. Todos o encararam, amedrontados e temerosos.
- Quem vai querer quebrar as regras do vinte-e-um comigo? - ele vociferou.
A voz ecoou no aposento.
E se sentou, solitário, jogando vinte-e-um sozinho, fingindo que tinha alguém ao lado.
Ninguém se movimentou para pegar o cadáver do demônio que ousara quebrar as regras do vinte-e-um com alguém que não tinha mais o bom senso de discernir entre o normal e o extravagante.
Oh céus, preciso melhorar isso logo. Mas estou me preparando, psicologicamente. Afinal não pensem que vai ser fácil digitar capítulos em que vidas serão desfeitas, sim, vidas. Ou vocês acham que o título do blog lá em cima vai permanecer verdade? E quando me refiro a 'todas', não me refiro somente às três principais. Por enquanto. Obrigada, boa noite. E comentem, eu gosto muito dos comentários que vocês fazem *-*
sábado, 28 de março de 2009
Parte 78 - Em vão, creio.
- Vamos lá. Já que perdi a amiguinha de vocês, então vou usar você, tá? - Ravèh sorriu levemente.
As algemas que acorrentavam Lefi se desfazeram em pó, fazendo Ravèh sorrir mais abertamente. Siih não conseguia dormir, é verdade, encarava Ravèh com um olhar completamente blasé como se não desse a mínima para o que acontecesse ali.
- Você tem que tirar as bolas lá de cima. Lembre-se, não deixe cair uma ou é muito provável que ela esmague sua irmã - Ravèh disse - Siih pode utilizar magia de proteção de primeiro grau, e você, meu querido Lefi, poderá proteger sua irmã usando a mesma magia de proteção de primeiro grau. Mas fiquemos atento: a única coisa que vocês podem criar é o Escudo Primário I. Só. É o único feitiço permitido nessa masmorra em especial.
Apareceram várias escadas até o teto, escadas de degraus com grande espaço entre um e outro, e finos, prestes a cair a qualquer momento.
- Vamos lá, meu amado Lefi.
Siih não movia os pulsos, ficando cada vez mais nervosa e enfurecida. Lefi podia jurar que sentia alguma centelha de poder se movendo dentro dela, mas julgou que devia ser ilusão e continuou.
Os degraus eram frágeis, mas nenhum caiu a cada vez que Lefi subia. Queria muito que Alicia estivesse ali para ajudá-lo e mantê-lo calmo com o seu habitual sangue frio, mas calculou que Alicia arrumaria um modo de libertá-lo daquela prisão. As bolas de ferro estavam longe demais... subiu com todas as forças que ainda tinha, até alcança uma delas. Com todo o cuidado, com todo o medo, conseguiu tirá-la e a lançou longe de Siih. A bola bateu no outro extremo da sala, fazendo Ravèh rir.
- Parabéns! Mas faltam outras.
Lefi observou que não tinha como pegar as outras bolas sem mexer nas cordas, e assim elas desabassem.
- SIIH!
Siih não se mexeu, tentando reunir forças.
- Siih! Crie o escudo a toda hora, entendeu? Não pare de criar escudos!
- Entendi... irmão.
Siih não parecia animada, como se entregasse os pontos. Um escudo se moveu em cima dela, protegendo-a muito rapidamente, por meros segundos. Lefi criou outro, escudos que se chocavam. A única mágica permitida, feita para salvar a vida em um segundo.
E as bolas eram lançadas em cima dos escudos que se moviam, e por pouco não esmagavam Siih.
Siih não se mexia, não olhava para a frente, e sequer tentava respirar fundo. Só ficava parada, tentando perfurar a proteção contra magias que aquele lugar tinha. Parecia querer explodir.
Lefi acabou com todas as bolas e nenhuma atingiu Siih, por causa dos escudos que tinham de ser criados a todo instante. No fim, a última bola rolou e se chocou com a primeira bola, no extremo da sala. Os escudos se desfizeram completamente, e ninguém mais tinha forças para manter algum tipo de magia, mesmo que ela fosse minúscula. E Lefi simplesmente caiu, deixando-se entregar ao ar. Desabou na frente de Siih que mudou de expressão mais rápido que você pode dizer 'Siih'.
- LEFI!
Siih mexeu os pulsos, podendo sentir o gostinho de liberdade.
Lefi moveu a cabeça para o lado, sua testa sangrando pela queda.
- Irmã.
- O que pensa que está fazendo, desistindo? - Siih gritou, tentando se manter sã - não morra! Por favor, não desista! Pelo reino!
- Ora, irmã - Lefi sorriu - isso importa a essa altura? Se Ophelia for derrotada, não será pela gente. Só o que podemos fazer é tentar sobreviver...
Ravèh encarava a cena com deboche. Sem avisar, saiu da masmorra. Queria comer alguém, e isso só poderia ser permitido fora do castelo.
- Irmã, me diga, se Ophelia for derrotada, o que vai fazer? - Lefi parecia ter dificuldade em respirar, encarava o teto - irmã, não será mais a rainha, deixe-me lembrar disso. Mas você tem que sobreviver de qualquer jeito, entende?
- Eu não preciso sobreviver - Siih murmurou - sou uma péssima rainha, sou incompetente e não consigo sentir energia nenhuma agora. Queria poder matar Ophelia, mas não tenho poder para isso.
- Irmã, o que interessa agora não é Ophelia - Lefi murmurou - nada disso interessa mais. Irmã, o que temos de fazer é sobreviver e ponto final. Depois a gente decide o que fazer.
Siih ficou em silêncio.
O que faria?
Queria tanto conseguir furar a segurança daquela masmorra...
----------------------------------
Raveneh foi até a superfície, ficando perto da entrada do abrigo. Olhava para o céu, completamente escuro. May estava com Johnny, e ela tinha pedido para ficar lá fora. Queria voltar a treinar espada, mesmo que não fosse tão talentosa como Umrae ou Bia. Era mais nova que ambas, praticamente uma criança que engravidara e casara cedo.
A espada em sua mão lhe lembrava de que ela não podia ser protegida a vida inteira. Era o primeiro dia que ela treinava, depois que May nasceu, mas todas as lições lhe pareciam voltar com naturalidade. Dianteira, recuar. A espada se movia com velocidade, de forma precisa, embora ela fosse mais lenta e tivesse menos força.
- Não vou deixar May viver em um abrigo.
Queria poder usar magia, mas tinha medo demais. Sabia que enquanto Catherine existir dentro de seu corpo, seus poderes iam ter um limite indefinido, impossível de se mapear, um limite vago. Sabia que conseguira um corpo para sobreviver, uma cópia de si mesma, e isso a havia desgastado muito na época. Desde o seu julgamento, seus poderes pareciam que queriam lhe sufocar.
Nunca podia usar magia enquanto era criança. Era extremamente proibido onde vivera, e era tão castigada quando usava, que aos poucos seus poderes pareceram parar de repente. Ela nunca conseguira controlá-los porque nunca se acostumara com eles. Catherine que era a face que sabia usar sempre foi alguém clandestino, alguém que se servia de magia para prejudicar os outros, alguém que gostava de explorar os próprios limites.
É tão horrível ter alguém dentro de mim que sabe mais do que eu...
A espada cortou a grama com precisão absurda. Ao que parece, Raveneh estava melhorando graças a algum treino.
- Raveneh, você quer alguma magia?
Mais grama foi cortada, o ar se mexeu com a pressão da espada se movendo o tempo todo.
- O mais importante... você precisa de magia?
A espada parou, Raveneh ficou calada. Fitou as estrelas novamente, os cabelos soltos. Lá embaixo, Johnny cuidava de May. Se perguntou se May herdaria as suas habilidades mágicas, se ela teria algum problema psicológico assim como a mãe. Raveneh se perguntou se May teria problemas com a própria sanidade, assim como a mãe tinha.
Johnny tinha que ter amor demais para cuidar de Raveneh, e ele não se incomodava. Corria o risco de que Raveneh se descontrolasse, de que Catherine surtasse de uma vez, e de que o poder não fosse nada pequeno. Mas embora Raveneh fosse alguém de poder relativamente grande, não era nada comparado à Siih ou uma das Musas. Era uma fada normal que parecia simplesmente mais poderosa e usava a magia de forma mais inconsequente. Só isso.
- Não pode proteger a sua filha sem ser pela magia?
Sentou no chão, massageando os joelhos. A espada deitada ao seu lado, hesitação pulsante em seus movimentos. Parecia insegura do que queria, e estava sozinha. Todos estavam dentro do abrigo, embora Johnny estivesse na escada. Ele escutava os movimentos de Raveneh, pronto para defendê-la se precisasse.
Cale-se, Catherine.
Raveneh escondeu a cabeça com os braços, quase que chorando.
Eu não aguento mais ouvir você.
As lágrimas rolavam pelas bochechas, quentes, acariciavam a pele.
- Não vai conseguir se libertar de mim...
... irmã.
Havia alguma risada no seu íntimo.
Alguma risada
no seu íntimo.
As estrelas pareciam concordar que Raveneh seria inútil naquela guerra.
----------------------------------
Duas da manhã.
Grillindor completamente prontos.
Dez dragões mestiços prontos. Não necessariamente para a batalha, pois Bel queria conhecer o terreno e montar um plano primeiro, mas eles estavam prontos para viajar. E mais três dragões verdadeiros: um vermelho, um azul e um negro. Sim, não era um território apropriado para dragões vermelhos, mas Gerogie era ótima para espionar e vigiar territórios, então ela poderia ficar em sua forma humana.
Toda a tropa estava reunida no escritório de Bel, as malas no canto, e todos estavam nervosos. Apreensivos de imaginar controlando dragões diretamente. Bel mostrou um mapa na mesa:
- Observem - disse - aqui é Campinas - apontou para um desenho - debaixo fica o Mundo das Fadas, como podem perceber.
- É um território bem grande - observou Ti-Yi que parecia intrigado - só uma pergunta... nunca fui ao Mundo das Fadas, mas ouvi dizer que fica nas nuvens. Então debaixo do Mundo das Fadas, o que se tem?
- Terra, mais nuvens, árvores e uma floresta estranha. De qualquer forma, também é território das fadas. Mas a parte realmente civilizada e bonitinha fica nas nuvens - Bel respondeu com seriedade - ao lado se tem Heppaceneoh, atualmente um território governado por fadas, oficialmente. Mas toda essa área - apontou Heppaceneoh e todo o leste do mapa - foi destruída por demônios. As Campinas não possuem demônios em seu território, mas só porque eles possuem uma proteção mágica que pode se romper a qualquer tempo, bastando Ophelia sentir vontade. O Mundo das Fadas está arruinado. A capital que fica, vejamos, aqui - fez um ponto na fronteira de Mundo das Fadas com as Campinas - está acabada. Demônios estão comendo gente, e o plano de evacuação que a rainha anterior, Siih, começara acabou não sendo completado a tempo, ou seja, muitos civis foram mortos. Os abrigos estão protegidos, e eu imagino que eles estejam 'debaixo' das nuvens que é um território muito bem protegido. Ou seja, vamos estar em um território completamente cercado. E não dá para conseguir controlar dragões, se as informações passadas por Umrae estiverem corretas.
- Eu não entendi - disse Ratta - dá para explicar melhor?
- Primeiro, não podemos nos dar ao luxo de perder dragões e sabemos que é melhor controlar diretamente. - alguém murmurou que era mais provável um dragão morrer pelo controle direto do que pelo indireto, mas Bel não deu atenção - segundo, os Encantos que existem nas Campinas atrapalham. Eles bloqueiam magia dos adversários, e do ponto de vista das fadas, nós somos adversários. Esse é o principal motivo de porque vamos controlar diretamente, entendem? Se ficarmos nas Campinas, controlando a distância, a magia existente lá vai interferir e podemos perder dragões por besteira.
- Entendo... - sussurrou Polly - então realmente, o controle direto...
- Não tem outra saída.
Bel encarou seus onze soldados [incluindo Zidaly, a intrusa] com severidade:
- Me desculpem por colocá-los em situação de risco. Eu não quero isso, eu não queria simplesmente colocá-los em risco... - seus dedos tremiam - eu sei que é uma guerra de graça para vocês, é uma guerra sem motivos, é simplesmente porque vamos ajudá-los... eu sei que morrer nessa guerra é morrer por nada, então me desculpem, mas... - odiava chorar na frente de alguém, mas não podia evitar.
Droga, não tinha idéia do que podia envolver...
- Comandante - Harumi sorriu, seus olhos furta-cor brilhando vivamente - não vamos morrer por nada. Vamos morrer para matar Ophelia antes que ela destrua Grillindor.
Bel ergueu o rosto, lágrimas brilhando. Ninguém a culpava ali.
Crazy sorria, Polly e Ratta davam oizinho, Harumi a olhava com doçura, Toronto e Ti-Yi cruzaram os braços como se estivessem decididos, Pauline se apoiava em Giovanna e ambas pareciam sinceramente contentes em ajudar na luta contra Ophelia.
- Você disse que Ophelia destruiu todos os reinos em volta - Harumi continuou, sua voz permanecendo doce - veja bem, somente a Terra Seca separa nós dos reinos destruídos. Não é nada improvável que os demônios se movimentem à Terra Seca que tem mais humanos sem nenhuma mágica, e sabemos que quanto menos mágica uma pessoa tem, mais saborosa ela tem. Se alcançarem a Terra Seca, vão atravessá-los sem nenhuma dificuldade porque eles não tem nenhuma defesa. E aí eles vão acabar com Grillindor, porque nós não nos preparamos direito. Temos que acabar com os demônios e com Ophelia enquanto eles não chegam aqui.
- Eu concordo com Harumi - Pauline apoiou - não vamos morrer de graça, Comandante. Vamos morrer por Grillindor, e é pra isso que fomos treinados, não é?
- Claro - Ti-Yi disse - senão não seríamos soldados.
- Eu sou soldado porque me mandaram ficar aqui, por lei - Polly confessou - mas não me incomodo em morrer, se souber que mais gente poderá viver com isso.
- Você é tão altruísta, Polly - Ratta disse com um riso disfarçado - eu jamais morreria por aquelas fadas. Mas, bem... Comandante, eu arrisco a minha vida se isso significar uma promoção minha no trabalho. - fez uma continência
- Ora, Ratta, deixe de ser tão arrogante - divertiu-se Bel - vamos guerrear. Todos nós vamos arriscar as nossas vidas. Se não quiserem morrer, lutem com tudo que tem. E...
Respirou fundo antes de continuar.
- Ophelia ameaça a nossa segurança. Se ela continuar destruindo nesse ritmo, ela só vai parar de verdade quando alcançar Faerün, onde tem seres pau a pau com ela. Vamos partir agora. Despeçam-se de quem puderem se despedir, pois podem ser que vocês nunca mais verão este castelo.
Ela não falou com tristeza.
Ela não falou com pesar.
Ela só falou com sinceridade e uma certa nostalgia.
Mas soldados são assim... eles nunca podem se apegar a alguém, pois podem perder este alguém logo, logo.
----------------------------------
Elyon andava pela cidade, acompanhada por Catherine. O corpo doía demais, e de fato a regeneração não estava completa, mas nenhuma das duas se incomodaram. Usando o máximo-máximo de seus poderes, conseguiram fechar as feridas, mas o corpo não conseguia se acostumar com a regeneração forçada e protestava.
- Porque estamos andando pela cidade? - perguntou Catherine, cuja orelha ainda sangrava - até parece que vamos conseguir derrotar Ophelia assim.
- Não vamos - Elyon murmurou - eu só queria beber alguma coisa. Será que tem alguma bebida por aqui?
Catherine sorriu:
- Elyon, essa cidade está acabada pelos demônios - lembrou - onde você vai achar um bar?
- Demônios bebem, não bebem?
As ruas estavam completamente desertas, exceto por um ou outro humano andando por aí, de vestes esfarrapadas, parecendo se fundir à escuridão. Elyon chutou o chão, resmungando sobre as roupas rasgadas e sujas de sangue que vestia.
- Pare de resmungar - Catherine reclamou - não vamos achar roupas decentes nessa cidade, de qualquer jeito, então se acostume.
Resmungou mais uma vez.
O céu estava tão claro, depois da chuva.
As calçadas tão molhadas, e as pessoas tão lúgubres por todo o canto.
E as estrelas estavam perfeitas, brilhando em toda a sua imensidão.
Elyon ergueu o rosto para cima, Catherine a imitou:
- O que olha?
- Estrelas.
Catherine passou a fitar Elyon, que continuava encarando as estrelas, tão vivas!
- Catherine, o que você acha que existe após a morte? - perguntou Elyon - para onde você acha que Olga foi?
- Elyon...
Vida após a morte. Não, ela não sabia. Sabia que existiam casas mal-assombradas, espíritos que não tinham paz, e ela nunca duvidou dos relatos sobre fantasmas que apareciam aos montes, geralmente sempre depois de uma guerra ou tragédia. Mas não sabia, e a idéia da morte a tinha apavorado por alguns anos, no começo de sua vida. Agora ela podia ficar assegurada que só morreria se assim quisesse, e assim descobriria o que haveria depois da morte.
- Existe um céu, Catherine? Você sabe se existe um inferno? - Elyon insistiu, querendo uma resposta. Catherine continuou sem resposta, sem saber. Se nem Elyon, que conhecia a morte de perto, sabia o que existia depois, quem era ela para saber?
- Olga não existe mais - Catherine disse, depois de muito hesitar - para nós, ela não existe mais.
O silêncio era tão estranho.
É.
Olga não existia mais e...
E elas continuavam vivendo.
Decerto, isso era estranho. Catherine deu a mão para Elyon, apontando uma porta aberta com luz dentro, e uma singela tabuleta 'Taverna Gladys'. Pela porta aberta, podiam escutar uma música tocada no piano, risadas estrondosas e podiam ver um ser com tentáculos saindo pelas orelhas e bebendo com a tromba de elefante que possuía.
Elyon sorriu, acompanhando Catherine.
É.
Olga morreu para que elas ficassem bem.
Então porque elas se arriscavam tanto e se lançavam para a morte?
Eu vi. Achei bizarro o Papai Noel mesclado ao Coelhinho da Páscoa (ou seria o contrário? rs). E Umrae, pra seguir um blog, creio que ele tenha que ter o espaço para ser seguido, e tem botão tipo 'seguir'. Espero ter ajudado a ti =*
As algemas que acorrentavam Lefi se desfazeram em pó, fazendo Ravèh sorrir mais abertamente. Siih não conseguia dormir, é verdade, encarava Ravèh com um olhar completamente blasé como se não desse a mínima para o que acontecesse ali.
- Você tem que tirar as bolas lá de cima. Lembre-se, não deixe cair uma ou é muito provável que ela esmague sua irmã - Ravèh disse - Siih pode utilizar magia de proteção de primeiro grau, e você, meu querido Lefi, poderá proteger sua irmã usando a mesma magia de proteção de primeiro grau. Mas fiquemos atento: a única coisa que vocês podem criar é o Escudo Primário I. Só. É o único feitiço permitido nessa masmorra em especial.
Apareceram várias escadas até o teto, escadas de degraus com grande espaço entre um e outro, e finos, prestes a cair a qualquer momento.
- Vamos lá, meu amado Lefi.
Siih não movia os pulsos, ficando cada vez mais nervosa e enfurecida. Lefi podia jurar que sentia alguma centelha de poder se movendo dentro dela, mas julgou que devia ser ilusão e continuou.
Os degraus eram frágeis, mas nenhum caiu a cada vez que Lefi subia. Queria muito que Alicia estivesse ali para ajudá-lo e mantê-lo calmo com o seu habitual sangue frio, mas calculou que Alicia arrumaria um modo de libertá-lo daquela prisão. As bolas de ferro estavam longe demais... subiu com todas as forças que ainda tinha, até alcança uma delas. Com todo o cuidado, com todo o medo, conseguiu tirá-la e a lançou longe de Siih. A bola bateu no outro extremo da sala, fazendo Ravèh rir.
- Parabéns! Mas faltam outras.
Lefi observou que não tinha como pegar as outras bolas sem mexer nas cordas, e assim elas desabassem.
- SIIH!
Siih não se mexeu, tentando reunir forças.
- Siih! Crie o escudo a toda hora, entendeu? Não pare de criar escudos!
- Entendi... irmão.
Siih não parecia animada, como se entregasse os pontos. Um escudo se moveu em cima dela, protegendo-a muito rapidamente, por meros segundos. Lefi criou outro, escudos que se chocavam. A única mágica permitida, feita para salvar a vida em um segundo.
E as bolas eram lançadas em cima dos escudos que se moviam, e por pouco não esmagavam Siih.
Siih não se mexia, não olhava para a frente, e sequer tentava respirar fundo. Só ficava parada, tentando perfurar a proteção contra magias que aquele lugar tinha. Parecia querer explodir.
Lefi acabou com todas as bolas e nenhuma atingiu Siih, por causa dos escudos que tinham de ser criados a todo instante. No fim, a última bola rolou e se chocou com a primeira bola, no extremo da sala. Os escudos se desfizeram completamente, e ninguém mais tinha forças para manter algum tipo de magia, mesmo que ela fosse minúscula. E Lefi simplesmente caiu, deixando-se entregar ao ar. Desabou na frente de Siih que mudou de expressão mais rápido que você pode dizer 'Siih'.
- LEFI!
Siih mexeu os pulsos, podendo sentir o gostinho de liberdade.
Lefi moveu a cabeça para o lado, sua testa sangrando pela queda.
- Irmã.
- O que pensa que está fazendo, desistindo? - Siih gritou, tentando se manter sã - não morra! Por favor, não desista! Pelo reino!
- Ora, irmã - Lefi sorriu - isso importa a essa altura? Se Ophelia for derrotada, não será pela gente. Só o que podemos fazer é tentar sobreviver...
Ravèh encarava a cena com deboche. Sem avisar, saiu da masmorra. Queria comer alguém, e isso só poderia ser permitido fora do castelo.
- Irmã, me diga, se Ophelia for derrotada, o que vai fazer? - Lefi parecia ter dificuldade em respirar, encarava o teto - irmã, não será mais a rainha, deixe-me lembrar disso. Mas você tem que sobreviver de qualquer jeito, entende?
- Eu não preciso sobreviver - Siih murmurou - sou uma péssima rainha, sou incompetente e não consigo sentir energia nenhuma agora. Queria poder matar Ophelia, mas não tenho poder para isso.
- Irmã, o que interessa agora não é Ophelia - Lefi murmurou - nada disso interessa mais. Irmã, o que temos de fazer é sobreviver e ponto final. Depois a gente decide o que fazer.
Siih ficou em silêncio.
O que faria?
Queria tanto conseguir furar a segurança daquela masmorra...
----------------------------------
Raveneh foi até a superfície, ficando perto da entrada do abrigo. Olhava para o céu, completamente escuro. May estava com Johnny, e ela tinha pedido para ficar lá fora. Queria voltar a treinar espada, mesmo que não fosse tão talentosa como Umrae ou Bia. Era mais nova que ambas, praticamente uma criança que engravidara e casara cedo.
A espada em sua mão lhe lembrava de que ela não podia ser protegida a vida inteira. Era o primeiro dia que ela treinava, depois que May nasceu, mas todas as lições lhe pareciam voltar com naturalidade. Dianteira, recuar. A espada se movia com velocidade, de forma precisa, embora ela fosse mais lenta e tivesse menos força.
- Não vou deixar May viver em um abrigo.
Queria poder usar magia, mas tinha medo demais. Sabia que enquanto Catherine existir dentro de seu corpo, seus poderes iam ter um limite indefinido, impossível de se mapear, um limite vago. Sabia que conseguira um corpo para sobreviver, uma cópia de si mesma, e isso a havia desgastado muito na época. Desde o seu julgamento, seus poderes pareciam que queriam lhe sufocar.
Nunca podia usar magia enquanto era criança. Era extremamente proibido onde vivera, e era tão castigada quando usava, que aos poucos seus poderes pareceram parar de repente. Ela nunca conseguira controlá-los porque nunca se acostumara com eles. Catherine que era a face que sabia usar sempre foi alguém clandestino, alguém que se servia de magia para prejudicar os outros, alguém que gostava de explorar os próprios limites.
É tão horrível ter alguém dentro de mim que sabe mais do que eu...
A espada cortou a grama com precisão absurda. Ao que parece, Raveneh estava melhorando graças a algum treino.
- Raveneh, você quer alguma magia?
Mais grama foi cortada, o ar se mexeu com a pressão da espada se movendo o tempo todo.
- O mais importante... você precisa de magia?
A espada parou, Raveneh ficou calada. Fitou as estrelas novamente, os cabelos soltos. Lá embaixo, Johnny cuidava de May. Se perguntou se May herdaria as suas habilidades mágicas, se ela teria algum problema psicológico assim como a mãe. Raveneh se perguntou se May teria problemas com a própria sanidade, assim como a mãe tinha.
Johnny tinha que ter amor demais para cuidar de Raveneh, e ele não se incomodava. Corria o risco de que Raveneh se descontrolasse, de que Catherine surtasse de uma vez, e de que o poder não fosse nada pequeno. Mas embora Raveneh fosse alguém de poder relativamente grande, não era nada comparado à Siih ou uma das Musas. Era uma fada normal que parecia simplesmente mais poderosa e usava a magia de forma mais inconsequente. Só isso.
- Não pode proteger a sua filha sem ser pela magia?
Sentou no chão, massageando os joelhos. A espada deitada ao seu lado, hesitação pulsante em seus movimentos. Parecia insegura do que queria, e estava sozinha. Todos estavam dentro do abrigo, embora Johnny estivesse na escada. Ele escutava os movimentos de Raveneh, pronto para defendê-la se precisasse.
Cale-se, Catherine.
Raveneh escondeu a cabeça com os braços, quase que chorando.
Eu não aguento mais ouvir você.
As lágrimas rolavam pelas bochechas, quentes, acariciavam a pele.
- Não vai conseguir se libertar de mim...
... irmã.
Havia alguma risada no seu íntimo.
Alguma risada
no seu íntimo.
As estrelas pareciam concordar que Raveneh seria inútil naquela guerra.
----------------------------------
Duas da manhã.
Grillindor completamente prontos.
Dez dragões mestiços prontos. Não necessariamente para a batalha, pois Bel queria conhecer o terreno e montar um plano primeiro, mas eles estavam prontos para viajar. E mais três dragões verdadeiros: um vermelho, um azul e um negro. Sim, não era um território apropriado para dragões vermelhos, mas Gerogie era ótima para espionar e vigiar territórios, então ela poderia ficar em sua forma humana.
Toda a tropa estava reunida no escritório de Bel, as malas no canto, e todos estavam nervosos. Apreensivos de imaginar controlando dragões diretamente. Bel mostrou um mapa na mesa:
- Observem - disse - aqui é Campinas - apontou para um desenho - debaixo fica o Mundo das Fadas, como podem perceber.
- É um território bem grande - observou Ti-Yi que parecia intrigado - só uma pergunta... nunca fui ao Mundo das Fadas, mas ouvi dizer que fica nas nuvens. Então debaixo do Mundo das Fadas, o que se tem?
- Terra, mais nuvens, árvores e uma floresta estranha. De qualquer forma, também é território das fadas. Mas a parte realmente civilizada e bonitinha fica nas nuvens - Bel respondeu com seriedade - ao lado se tem Heppaceneoh, atualmente um território governado por fadas, oficialmente. Mas toda essa área - apontou Heppaceneoh e todo o leste do mapa - foi destruída por demônios. As Campinas não possuem demônios em seu território, mas só porque eles possuem uma proteção mágica que pode se romper a qualquer tempo, bastando Ophelia sentir vontade. O Mundo das Fadas está arruinado. A capital que fica, vejamos, aqui - fez um ponto na fronteira de Mundo das Fadas com as Campinas - está acabada. Demônios estão comendo gente, e o plano de evacuação que a rainha anterior, Siih, começara acabou não sendo completado a tempo, ou seja, muitos civis foram mortos. Os abrigos estão protegidos, e eu imagino que eles estejam 'debaixo' das nuvens que é um território muito bem protegido. Ou seja, vamos estar em um território completamente cercado. E não dá para conseguir controlar dragões, se as informações passadas por Umrae estiverem corretas.
- Eu não entendi - disse Ratta - dá para explicar melhor?
- Primeiro, não podemos nos dar ao luxo de perder dragões e sabemos que é melhor controlar diretamente. - alguém murmurou que era mais provável um dragão morrer pelo controle direto do que pelo indireto, mas Bel não deu atenção - segundo, os Encantos que existem nas Campinas atrapalham. Eles bloqueiam magia dos adversários, e do ponto de vista das fadas, nós somos adversários. Esse é o principal motivo de porque vamos controlar diretamente, entendem? Se ficarmos nas Campinas, controlando a distância, a magia existente lá vai interferir e podemos perder dragões por besteira.
- Entendo... - sussurrou Polly - então realmente, o controle direto...
- Não tem outra saída.
Bel encarou seus onze soldados [incluindo Zidaly, a intrusa] com severidade:
- Me desculpem por colocá-los em situação de risco. Eu não quero isso, eu não queria simplesmente colocá-los em risco... - seus dedos tremiam - eu sei que é uma guerra de graça para vocês, é uma guerra sem motivos, é simplesmente porque vamos ajudá-los... eu sei que morrer nessa guerra é morrer por nada, então me desculpem, mas... - odiava chorar na frente de alguém, mas não podia evitar.
Droga, não tinha idéia do que podia envolver...
- Comandante - Harumi sorriu, seus olhos furta-cor brilhando vivamente - não vamos morrer por nada. Vamos morrer para matar Ophelia antes que ela destrua Grillindor.
Bel ergueu o rosto, lágrimas brilhando. Ninguém a culpava ali.
Crazy sorria, Polly e Ratta davam oizinho, Harumi a olhava com doçura, Toronto e Ti-Yi cruzaram os braços como se estivessem decididos, Pauline se apoiava em Giovanna e ambas pareciam sinceramente contentes em ajudar na luta contra Ophelia.
- Você disse que Ophelia destruiu todos os reinos em volta - Harumi continuou, sua voz permanecendo doce - veja bem, somente a Terra Seca separa nós dos reinos destruídos. Não é nada improvável que os demônios se movimentem à Terra Seca que tem mais humanos sem nenhuma mágica, e sabemos que quanto menos mágica uma pessoa tem, mais saborosa ela tem. Se alcançarem a Terra Seca, vão atravessá-los sem nenhuma dificuldade porque eles não tem nenhuma defesa. E aí eles vão acabar com Grillindor, porque nós não nos preparamos direito. Temos que acabar com os demônios e com Ophelia enquanto eles não chegam aqui.
- Eu concordo com Harumi - Pauline apoiou - não vamos morrer de graça, Comandante. Vamos morrer por Grillindor, e é pra isso que fomos treinados, não é?
- Claro - Ti-Yi disse - senão não seríamos soldados.
- Eu sou soldado porque me mandaram ficar aqui, por lei - Polly confessou - mas não me incomodo em morrer, se souber que mais gente poderá viver com isso.
- Você é tão altruísta, Polly - Ratta disse com um riso disfarçado - eu jamais morreria por aquelas fadas. Mas, bem... Comandante, eu arrisco a minha vida se isso significar uma promoção minha no trabalho. - fez uma continência
- Ora, Ratta, deixe de ser tão arrogante - divertiu-se Bel - vamos guerrear. Todos nós vamos arriscar as nossas vidas. Se não quiserem morrer, lutem com tudo que tem. E...
Respirou fundo antes de continuar.
- Ophelia ameaça a nossa segurança. Se ela continuar destruindo nesse ritmo, ela só vai parar de verdade quando alcançar Faerün, onde tem seres pau a pau com ela. Vamos partir agora. Despeçam-se de quem puderem se despedir, pois podem ser que vocês nunca mais verão este castelo.
Ela não falou com tristeza.
Ela não falou com pesar.
Ela só falou com sinceridade e uma certa nostalgia.
Mas soldados são assim... eles nunca podem se apegar a alguém, pois podem perder este alguém logo, logo.
----------------------------------
Elyon andava pela cidade, acompanhada por Catherine. O corpo doía demais, e de fato a regeneração não estava completa, mas nenhuma das duas se incomodaram. Usando o máximo-máximo de seus poderes, conseguiram fechar as feridas, mas o corpo não conseguia se acostumar com a regeneração forçada e protestava.
- Porque estamos andando pela cidade? - perguntou Catherine, cuja orelha ainda sangrava - até parece que vamos conseguir derrotar Ophelia assim.
- Não vamos - Elyon murmurou - eu só queria beber alguma coisa. Será que tem alguma bebida por aqui?
Catherine sorriu:
- Elyon, essa cidade está acabada pelos demônios - lembrou - onde você vai achar um bar?
- Demônios bebem, não bebem?
As ruas estavam completamente desertas, exceto por um ou outro humano andando por aí, de vestes esfarrapadas, parecendo se fundir à escuridão. Elyon chutou o chão, resmungando sobre as roupas rasgadas e sujas de sangue que vestia.
- Pare de resmungar - Catherine reclamou - não vamos achar roupas decentes nessa cidade, de qualquer jeito, então se acostume.
Resmungou mais uma vez.
O céu estava tão claro, depois da chuva.
As calçadas tão molhadas, e as pessoas tão lúgubres por todo o canto.
E as estrelas estavam perfeitas, brilhando em toda a sua imensidão.
Elyon ergueu o rosto para cima, Catherine a imitou:
- O que olha?
- Estrelas.
Catherine passou a fitar Elyon, que continuava encarando as estrelas, tão vivas!
- Catherine, o que você acha que existe após a morte? - perguntou Elyon - para onde você acha que Olga foi?
- Elyon...
Vida após a morte. Não, ela não sabia. Sabia que existiam casas mal-assombradas, espíritos que não tinham paz, e ela nunca duvidou dos relatos sobre fantasmas que apareciam aos montes, geralmente sempre depois de uma guerra ou tragédia. Mas não sabia, e a idéia da morte a tinha apavorado por alguns anos, no começo de sua vida. Agora ela podia ficar assegurada que só morreria se assim quisesse, e assim descobriria o que haveria depois da morte.
- Existe um céu, Catherine? Você sabe se existe um inferno? - Elyon insistiu, querendo uma resposta. Catherine continuou sem resposta, sem saber. Se nem Elyon, que conhecia a morte de perto, sabia o que existia depois, quem era ela para saber?
- Olga não existe mais - Catherine disse, depois de muito hesitar - para nós, ela não existe mais.
O silêncio era tão estranho.
É.
Olga não existia mais e...
E elas continuavam vivendo.
Decerto, isso era estranho. Catherine deu a mão para Elyon, apontando uma porta aberta com luz dentro, e uma singela tabuleta 'Taverna Gladys'. Pela porta aberta, podiam escutar uma música tocada no piano, risadas estrondosas e podiam ver um ser com tentáculos saindo pelas orelhas e bebendo com a tromba de elefante que possuía.
Elyon sorriu, acompanhando Catherine.
É.
Olga morreu para que elas ficassem bem.
Então porque elas se arriscavam tanto e se lançavam para a morte?
Eu vi. Achei bizarro o Papai Noel mesclado ao Coelhinho da Páscoa (ou seria o contrário? rs). E Umrae, pra seguir um blog, creio que ele tenha que ter o espaço para ser seguido, e tem botão tipo 'seguir'. Espero ter ajudado a ti =*
Assinar:
Postagens (Atom)