sábado, 25 de outubro de 2008

Parte 59 - Quando as pessoas importam mais do que a própria vida e honra.

Quantos segundos até perder tudo?
Quantos passos para a frente até perder tudo?
Por que justo Amai?

A nova queridinha das Campinas? A garota que todos amavam, a que colhia flores do campo, a que criava poemas com dedicação absoluta, a adorada pela tia que enfrentou toda uma sociedade para criá-la?

E quantos, meu Deus, dias se perderiam até ter Amai de volta? Se é que teriam?
Não vou deixar Amai morrer.

Ainda se lembrava. Uma hora antes de partirem, Kitsune estava preocupada. Fria como sempre era, mas seus olhos estavam cheios de ternura e desejavam boa sorte.
- Você vai protegê-la, não é, Kibii?
Kibii engoliu em seco. Protegeria?
- Sim, Kitsune. Eu vou protegê-la.

E agora, ela cumpriria a promessa? Estava aqui a chance de fazer. Para não deixar Amai ser morta, o quão ela poderia arriscar? Amai não era mais uma criança, mas ainda assim...

Seus cortes se cicatrizavam lento demais, a deixando estressada. Kibii colocou o cabelo para trás, afastando os fios do rosto. Se apoiou na espada. Um passo para a frente.
Um sorrir. Só um sorrir de lábios. E que vinha de Kibii, não de Ophelia.

- Eu sou a sua adversária, Ophelia.
Rafitcha não conseguiu se segurar, teve que derramar as lágrimas. Seu nariz se avermelhava, Umrae se conformava com o destino. Não dava para fugir, então alguém tinha que ficar para contentar Ophelia por meros instantes.
- Vão fugir agora? Só uma não me satisfaz - Ophelia alfinetou, seus olhos como punhais.
- É pegar - Kibii deu um passo para trás - ou largar.
Ophelia crispou os lábios. Uma olhadela para Umrae e percebeu que estava falando sério. Mas aquela ruiva parecia ser tão deliciosa...

- Está bem, fico com essa morena somente - Ophelia deu um longo suspiro, como se estivesse cansada. Uma mentira, é claro, mas tem que se manter as aparências de forma cuidadosa.
Kibii desabou no chão, se permitindo alguns segundos de distração e fraqueza.
- Kibii - Umrae não queria dar as costas.
- Vá - Kibii rosnou, encarando os olhos dourados da amiga - protejam Amai, custe o que custar, entendeu?
- Kibii... - Umrae mordeu o lábio inferior.
- Vá.

Umrae deu as costas. Cinco minutos se arrependera do que tinha feito. Contrariando o senso comum, Ophelia deixara o grupo partir. Bia seguiu em frente, e todos deixaram Kibii sozinha.
- Você acha que acertou, Ophelia? - foi o que Lala disse, quando o grupo partiu do castelo.
- Acho - Ophelia sorriu, encarando Kibii. Se ajoelhou diante da guerreira, aquele sorriso meigo, erguendo a face da garota - essa garota tem bastante potencial.
- Céus, Ophelia - Lala parecia repugnada - esse modo de falar é nojento.
- Alicia - Ophelia levantou o rosto - venha logo, sua idiota. E Siih também.

Alguns passos. E a noite que se infiltrava no aposento, deixando tudo cada vez mais escuro: ninguém acendera uma tocha sequer.
- O que vai fazer comigo? - a pergunta de Kibii era simples, mas Ophelia não soube o que responder. Suas idéias eram tantas!
Alicia e Siih se aproximaram, uma a cada lado. Simples, funcionais, práticas, sérias. Compenetradas em uma única tarefa: sobreviver. Kibii aceitou ser levada por duas mulheres a quem podia derrotar facilmente para algum lugar. Foi vendada pelas mãos agéis de Siih, as mãos amarradas atrás por Alicia. E a espada, a espada não soube o que fizeram com ela.

É assim que vai partir?
Triste, como se fosse indesejada?


Como era mesmo? A mesa enorme, comida farta, três reis. Como era a música que ecoava pelo salão, que todos cantavam tão felizes? Como eram aqueles dias que se terminaram com um incêndio, alguns assassinatos?

É assim que vai sair?
Como se tivesse desistido de ser apaixonada?


Aquela voz adocicada que lhe mandou embora. Aquelas mãos ternas que lhe deram um anel, com algumas lembranças. Algumas coisas para ela se apegar quando fosse mais velha. Um anel que ela não ia largar. Sentia a prata no dedo anelar, a prata fria que lhe aquecia o espiríto. Mesmo vendada, ela podia pressentir por onde andava. Chão frio, de gelo.

Quantos minutos até ela se ferrar completamente?
Quantos minutos até ela precisar da espada?
Quantos minutos até ela morrer?

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- Vai.
Foi a ordem que Maria dirigiu ao seu filho, a criança inocente, de olhos duradouros e azuis. E o Gabriel obedeceu, sem nenhuma hesitação. Compreendia pelas roupas amassadas de Rafitcha, pela confiança quebrada de Bia, pela amarga derrota de Umrae que ali não era para crianças. Era uma conversa séria.

- Então Kibii ficou - Maria mordeu o lábio inferior. Amai confirmou, segurando as lágrimas. Nunca, nunca, nunca, nunca mais queria dar esse tipo de trabalho. Ser protegida? Ser mimada? Ser trocada para outra pessoa ficar em perigo, por sua causa? Isso não valia a pena, nunca.
Maria crispou os lábios, erguendo os olhos. Não pensou duas vezes antes de mandar Bia se tratar com Nath, de tão machucada que estava. E agora, estava ali encarando Amai. Umrae não a olhava, preferia observar os dedos trêmulos de Maria. Ly e Rafitcha estavam logo atrás da dupla, também não olhavam Maria nos olhos.
- E como vamos resgatar Kibii? - Maria fez a pergunta, mais para si mesma do que para qualquer um dos presentes. Ela parecia absorta nos próprios devaneios, provavelmente imaginando planos de resgate.
Umrae deu um passo para trás.
- Fomos dispensados? - foi a pergunta, simples e desimportante, pois mesmo que Maria respondesse "não", Umrae sairia da sala de qualquer jeito. Aquilo era angustiante.
- Sim - foi a resposta definitiva de Maria.
E assim todos deixaram Maria sozinha.

- AMAI! - Kitsune exclamou, seu sorriso se abrindo - como... como está?
Tudo o que Amai pôde fazer foi desabar em uma cadeira qualquer, tonta. Rafitcha foi recebida com abraços de Johnny e chás mal-feitos de Raveneh, Ly foi quem recebeu maior alívio: Doceh simplesmente desabou em cima do marido, o abraçando com todas as forças do mundo, seus gritos enchendo o aposento, sufocando qualquer luto que sentissem por Kibii.
- Como foi lá? - Raveneh perguntou, tentando melhorar a qualidade de seus chás e falhando. Suas mãos tremiam demais só ao cortar a mínima erva.
- Raveneh, abaixe o fogo ou o chá ficará ralo demais - aconselhou Rafitcha que observava Raveneh fazer o chá, enquanto era acolhida pelo irmão - foi horrível... horrível, horrível...
- Diga-me, o que houve? - Johnny pediu por mais informações.
Nath entrou no aposento, e reclamou que Rafitcha também devia estar na ala médica.
- Vocês passaram por uma situação muito traumática! Não sei o que Maria acha que só Bia teve que ir, mas você também! Ficou sozinha com Ophelia, céus, e Kibii... tem certeza que não está machucada, Rafitcha? - foi o que disse severamente, seus olhos verdes fazendo com que Rafitcha se sentisse nua e constrangida.
- Como está Bia? - Rafitcha preferiu desviar o assunto. Nath deu um longo suspiro, olhou para as suas mãos que estavam sujas de sangue e disse:
- Foi machucada, bastante machucada. Mas fisicamente, estará bem daqui a uns três dias, embora os cortes só vão se curar mesmo a partir de uma semana - sentou-se em uma cadeira qualquer - mas não é com isso que eu me preocupo. É com o psicológico dela. A confiança dela se quebrou toda, ela não está mais do jeito que era.
- Não é somente choque? - Raveneh tentou sugerir, sem sucesso. Nath abanou a cabeça:
- Bia não sabe mais o que é perder - entrelaçou os próprios dedos, cansada - e Ophelia não só a fez perder, como fez perder a confiança em si mesma.
Rafitcha fechou os olhos, revivendo as cenas no palácio. Nítidas, claras. Ophelia arrebentando com Bia e Kibii. A face de Bia quando ela disse que ia matá-la. A frustração de Bia quando viu que não conseguia derrotar Lala. A recusa de Bia em admitir a própria derrota.
A crueldade, a crueldade de Ophelia em esfregar na cara de Bia que ela não era boa o bastante para derrotar a Oitava Musa.

Como Bia estava reagindo a isso?

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- Esse é um lugar que eu sempre quis, um dia, usá-lo - confidenciou Ophelia em um tom romântico, batendo as palmas animadamente. Quando ela fazia coisas como bater palma, Lala achava que ela voltava a ser criança. Era nesses momentos que Lala a amava e lembrava porque continuava sendo sua amiga, mais do que sua escrava.
Kibii não disse nada. Sua expressão estava dura, causando má impressão à Ophelia que discutia tudo como se falasse de sorvetes e bolos.

Quais eram os limites da maldade? Quais eram os limites de Ophelia? Existiam? Lala acompanhou o pequeno grupo até o lugar, que era um quarto grande, quadrado e escuro. Havia uma única janela no alto, por onde a luz entrava. Mas era algo tão tímido, tão pequeno e impossível de se alcançar. Alicia tirou a venda dos olhos de Kibii, desejando mentalmente conseguir se perdoar algum dia. E Siih libertou as mãos da garota, sendo vigiada por Ophelia.

- Então é aqui que vou ficar - murmurou Kibii, andando pelo aposento - isso lembra um galpão palaciano.
- É um galpão palaciano - retrucou Siih.
Ophelia tocou o ombro de Siih com leveza, indicando que tanto a ex-rainha como a Alicia deveriam sair. Obedeceram prontamente e silenciosamente. Kibii desdenhou um riso:
- É nisso que você transformou a Siih? Em uma escrava?
- Exatamente - Ophelia sorriu, olhos brilhando de felicidade - Lala, feche a porta.
Lala fechou a porta, deixando o galpão ainda mais escuro. Nenhuma luz, só sombras.

Kibii do outro lado.
Ophelia sorria. E Lala queria somente um lugar para descansar.

- Me conte - Ophelia não estava cansada. E tinha pressa - me conte tudo, Kibii.
- Tudo o quê? - desafiou Kibii que já estava ajoelhada em um canto do galpão - o que há para contar?
- Por que Umrae é considerada perigosa? - Ophelia começou. Não se aproximou, sequer fez um movimento. Mas ela se ajoelhou, e a voz se confrontava com o vazio dos olhos de Kibii.
Kibii hesitou antes de responder. Sabia que cada gesto seu estava sendo vigiado e cada palavra que diria seria averiguada. E sabia que aquela moça de cabelos laranja não hesitaria em matá-la, machucá-la o quanto fosse possível.
- Porque ela é - decidiu responder olhando para a escuridão - não é o suficiente?
- Não brinque comigo, garota - Ophelia sussurrou. Mesmo com a voz baixa, mesmo com o galpão grande demais, a ameaça chegou aos ouvidos de Kibii e atiçou sua vontade de 'brincar', como Ophelia preferisse.
- E se eu quiser? - Kibii rosnou, tentando escolher bem as palavras - vai fazer o quê? Me matar? Não pode, eu sou a única refém.
A tensão podia ser cortada com uma faca.

- Ophelia?
Lala se ajoelhara ao lado de Ophelia, seus olhos cor de mel tentando enxergar os contornos de Ophelia. Os olhos castanhos e estreitos de raiva, os lábios que mordia toda hora de apreensão, os cabelos meio desarrumados. Uma rainha que não parecia rainha. Uma rainha que preferia ter poucos subalternos, fazer tudo ela mesma.
- Lala, fique aí - Ophelia parecia estar irada.

A noite estava linda. E o que Kibii estava pensando ao provocar Ophelia de forma tão insensata?

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Água. Água fria, bem gelada. Lave todas as roupas. Lave o cabelo. Tire esse cheiro de sangue do seu corpo.
Esse cheiro de culpa.
O que dá para fazer?
Esfregue direito cada espaço entre os dedos. Atrás das orelhas também.
Como se resgata mesmo alguém?
Corte as unhas. Penteie os cabelos direito.
Como é que se chora mesmo?
Escolha as roupas.

Camisa branca.
Calças negras.
Sem sapatos, sem luvas, sem nada. Os cabelos completamente soltos. Ela não chorou. Em nenhum momento ela chorou pela amiga. Em nenhum momento ela pensou que deveria chorar, nem que fosse para aliviar a sensação insuportável de uma missão que não teve sucesso completo.
Ela somente tomou banho, pôs uma roupa limpa e pensou.

Como se pensar resolvesse os problemas.

Venenos. Será que venenos adiantariam na Rainha? Será que poderia se infiltrar, matar Ophelia de forma disfarçada, fria? Se fosse para salvar a amiga... afinal os fins justificam os meios, não é isso?

- Umrae - Raveneh parecia insegura ao entrar no minúsculo laboratório provisório - Umrae.
- Entre.
Raveneh entrou, suas mãos trêmulas segurando uma xícara de porcelana. Frágil.
- Eu... eu fiz um chá - murmurou Raveneh - quer uma xícara? É de maracujá, e... e acalma a pessoa.
Umrae podia ter dito mil alfinetadas de "não, não quero" até "nós temos uma amiga sequestrada e vocês querem que eu me acalme", mas ela preferiu sorrir e agradecer gentilmente, aceitando o chá de bom grado.
Podia ver pelos olhos azuis de Raveneh o cuidado que ela tentara fazer o chá, a bondade quase infinita. Inocência em seu estado mais puro.
- Então - Raveneh deu um fraco sorriso - qualquer coisa, é só chamar.
- Obrigada - Umrae agradeceu pela segunda vez. Bebericou um gole.

Era um sabor fraco, tímido que se infiltrou nas papilas de forma sutil. Adocicado, esquentava o corpo. Não era o melhor chá do mundo, mas era totalmente bebível. Decerto Raveneh se empenhou bastante em tentar criar algum sabor que remontasse aos chás de Rafitcha. Não ficou a mesma coisa, mas Umrae não ia dizer um negócio desses na frente de Raveneh.

Onde está você, Kibii?
Encarou um vidro com um líquido transparente, viscoço que borbulhava.
O que estão fazendo com você?
Passou pelos vidros de soníferos de todos os tipos, qualidades e intensidades.
O quão você está machucada?
Tocou de leve nos potes grandes, cristalinos que guardavam ingredientes. Pedacinhos de dentes de dragões.
Dragões?
Sim, dragões.
Animais alados e de índoles variadas, com potencial incrivelmente destruidor. Dragões. Como não pensara nisso antes? A sério?

Foi só pensar durante um minuto.
- Umrae? Umrae, aonde vai? Nem bebeu seu chá, Umrae, volte aqui! - Raveneh correu atrás de Umrae por todo o abrigo, carregando a xícara de porcelana, derramando pingos de chá de maracujá.
Só na hora de subir as escadas que Umrae deu um sutil sorriso e disse:
- Não se preocupe comigo.
Raveneh bufou de impaciência. E tomou o chá que restara, tentando acalmar a si mesma com as propriedades mágicas do maracujá. Logo tentou formular várias hipóteses para onde Umrae foi, mas teve que se preocupar com a May que acordara.

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- Louca!
Lefi olhava para o céu, absurdamente estrelado, anunciador da esplêndida estação que era o verão. Umrae riu. Não demonstrava sentir frio e nem mesmo cansaço em usar um cavalo normal, depois as próprias pernas, para chegar ao palácio. Não que fosse resgatar Kibii naquela hora.
- Louca mil vezes! - repetiu Lefi - Ophelia está ensandecida lá dentro, sabia? Parece que ela está querendo que Kibii fale alguma coisa e ela se recusa.
Umrae sorriu.
- Kibii vai se safar dessa - disse - se você me ajudar.
Lefi também sorriu. Estavam os dois na frente do palácio, escondidos. Ninguém poderia vê-los aí, Umrae se controlava para parecer fria, usando um pesado sobretudo amarronzado.
- O que quer que eu faça? - Lefi concordou. Seus cabelos negros se mexiam com a leve brisa de verão, e um sorriso que se desenhou em seus lábios se desfez rapidamente.
- Quero que você contate Bel.
- Bel? A...
- Qual é a outra Bel que você conhece? - Umrae mordeu o lábio inferior - mexa seus pauzinhos e comunique-se com ela. Entendeu?
- Tá - Lefi ergueu o canto direito dos lábios em um sorriso desdenhoso - e o que eu digo? Que está com saudades e pedir para uma visitinha?
- Não - Umrae respondeu prontamente - diga que eu preciso que ela pague a dívida que tem comigo agora. Eu preciso dos serviços dela, de forma integral.
- Ah - Lefi cruzou os braços - entendo. Bel realmente poderá lhe ajudar muito.
- E preciso do seu apoio - Umrae sussurrou, imaginando onde Ophelia estaria - e preciso que você faça a cabeça de Siih e Alicia para elas se rebelaram.
- Não posso - a voz estava cheia de medo - Siih se machucou demais por causa de Ophelia, Alicia mais ainda. As duas são torturadas todos os dias e você me pede para elas arriscarem a própria vida?
- Eu também estou arriscando a minha vida ao ficar aqui! - Umrae exclamou com veemência - e Kibii também está lá dentro, arriscando a própria vida para salvar a de Amai! E elas não precisam se rebelar diretamente.
- O que está querendo dizer? - Lefi parecia curioso.
Umrae parecia impaciente.
- É o seguinte. Contate Bel. Isso é a prioridade e deve ser feito ainda hoje, entendeu? - no que Lefi assentiu, Umrae continuou - Alicia e Siih tem que cobrir as mentiras que vamos contar. Elas tem que dar cobertura e aprender a mentir para Ophelia, entendeu?
- Ninguém mente para Ophelia - Lefi observou.
- Claro que mente - Umrae desdenhou - realmente precisam que a verdade tenha que ser estampada na cara a todo segundo?
Lefi deu as costas.
- É só isso então? Vou entrar, é noite e Ophelia deve ter terminado a sessão de tortura com a sua amiga.
- É.
- Boa sorte pra voltar.
- Boa sorte para chamar Bel. Diga a ela que dou sete dias, estendendo bastante o prazo.
- Sim.
- Tchau.
- Adeus.

E o céu estava lindo.

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Ophelia preferiu fazer tudo sozinha. Ela gostava dessa sensação, de ser a responsável direta pelos seus resultados.
Suas mãos prenderam Kibii junto à parede, cada pulso pendurado por uma corrente de ferro. Os pés suspensos no ar, os cortes que pediam por um médico. Kibii não se debateu nem protestou. Aceitou ser surrada a cada cinco minutos, receber ofensas a cada dois minutos e ser pendurada do teto, ter a sufocante sensação de os pés não poderem tocar o chão, do coração batendo rápido.
- Pronto, querida - Ophelia sorriu - essa é a sua casa agora.
- Ah - Kibii também sorriu - não dói.
Essa era uma frase que irritava Ophelia, demonstrando a incompetência de Ophelia em machucar realmente. "Não dói". E a voz calma e tranquila, a expressão sonhadora confirmavam a frase. Não era uma mentira para provocar, era uma verdade irreparável.
Não doía.
Não doía em Kibii.
Nada mais doía.

- Aquela menina está me dando nos nervos! - protestou Ophelia se recusando a comer qualquer coisa. Estava irada.
- Coma alguma coisa - Lala tentava persuadir Ophelia, mas sem sucesso - beba água, vinho!
- Vá pra merda, Lala - Ophelia rosnou, batendo com a mão na mesa - aquela menina... ah, mas eu mato!
- Você não vai matar ninguém do jeito que está, Ophelia - Lala repreendeu com severidade - coma a salada, Ophelia.
Ophelia meteu o garfo no pobre do alface sem cuidado nenhum, seus dentes se rangendo de tanta raiva. Parecia que ia explodir de ódio. As bochechas demasiadas vermelhas, seu tremor incontrolável. Lala suspirou. Ophelia era uma pessoa muito passional, emotiva mesmo que tentasse se controlar para não agir assim. Comeu a salada com impaciência, a carne com fervor quase fanaticamente religioso. Pela concentração absoluta em não reclamar de nada, Lala percebeu que ela estava tendo idéias para obter os objetivos.
- Ophelia, por favor, não fique tão tensa assim - Lala pediu - está me incomodando.
- Está bem - cedeu Ophelia parecendo bem mais relaxada - quero matar Kibii, está me ouvindo? Ela é minha.
- Entendi.
- Ninguém toca um dedo nela. Quem vai ter o prazer de matá-la sou eu e somente eu - Ophelia rangeu os dentes.
- Entendi, Ophelia. Agora continue a comer.
Lala suspirou. Se acostumara em cuidar de Ophelia delicadamente, controlar o seu temperamento violento, agir como uma mãe na maior parte do tempo, embora seja completamente escrava na frente dos outros. A deixava livre para exterminar quem quisesse, causar quantas guerras quisesse causar. Mesmo que depois de cada um dos confrontos, Lala saisse machucada só por estar perto.
Era como cuidar de uma bomba que podia explodir a qualquer minuto.

E Lala rezava para não estar por perto quando a bomba explodisse de vez.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Parte 58 - Protejam Amai, custe o que custar.

- Abriram a porta - notou Kibii que foi a primeira a perceber o ranger das portas. Sua espada estava suja de sangue demoníaco, mas ela não se importava. Sujaria aquela espada quantas vezes precisasse para obter um pouco de sossego. Aquele demônio que a surpreendeu no banho ainda não estava de todo vingado. E não estava com medo. Mesmo que soubesse de cor sobre as lendas envolvendo Ophelia e demônios, não estava com medo.
Ninguém pode ser tão poderoso assim, era o seu raciocínio natural, todos tem as suas fraquezas.
- O que estão esperando? Entrem! - uma voz convidativa, doce ecoou. Não se precisou olhar para a direção de onde a voz saíra para descobrir a quem ela pertencia.
- Amai - Umrae se virou, vendo as duas companheiras abraçadas, em um canto. Próxima a elas, Bia existia com toda a sua posse, a espada apontada o chão. Lala com seus longos e desarrumados cabelos laranja, ao lado da sua eterna amiga, Ophelia. E do outro lado, Siih respirava pesadamente, sua realeza há muito esquecida. Alicia fizera questão de sumir da cena antes que sobrasse para ela: abriu as portas novamente, e evaporou para o canto da sala, onde havia várias cortinas que eventualmente cobriam as janelas.
Está anoitecendo.
- Então - Kibii sussurrou, se virando para Bia - é isso?
- Teremos que derrotar a própria Ophelia - Bia respondeu solenemente - ou ela não nos deixará sair daqui.
- Ela não é um problema tão grande, certo? - Ly sorriu - ela parece frágil.
- Não se deixe enganar - Umrae aconselhou, caminhando até Rafitcha e Amai, sem ser impedida - às vezes, a pequenez que é a vantagem do diabo.
- Sábia Umrae - Rafitcha conseguiu rir. Mas o riso lhe pareceu estranhamente falso, artificial. E em um tom mais baixo, disse: - precisamos sair daqui, custe o que custar. E não podemos deixar Amai sozinha.
Amai não reclamou. Estava acostumada a ser super-protegida por ser a garotinha, a órfã, a que era a mais nova. Umrae deu a mão para Amai se levantar, o que ela fez com rapidez e leveza.
- Umrae - Amai sussurrou. Percebeu que Ophelia estava concentrada especialmente nas duas, vigiando cada movimento - todos têm um ponto fraco, certo?
- Claro - Umrae cochichou de volta.
- O que falam tanto aí, em cochichos? - Ophelia perguntou, sua voz se sobrepondo a tensão no ar - algum plano secreto?
Rafitcha se levantou, estranhamente calma. Estava fria, gélida, tranquila demais. Umrae achou estranha: Rafitcha podia não ser a pessoa mais melodramática do mundo, mas também não era toda fria e insensível desse jeito.
- Rafitcha? Está bem? - perguntou Kibii, preocupada. Seus cachos negros estavam amarrados no alto da cabeça, e eles lhe davam um sereno ar de guerreira.
- Estou. Obrigada, Kibii.
- Kibii - Ophelia sussurrou - Umrae, Rafitcha, Amai. E Bia.
Ela olhou para todas as garotas atentamente, friamente. E apontou uma a uma, como se juntasse um quebra-cabeça:
- Você é a Rafitcha, que veio me dar o recado. Você é a Amai que é super-protegida. Umrae, você é a perigosa. Pelo visto, tem muito conhecimento e capacidade de liderança. E essa de cabelos cacheados é a Kibii, que conhece a arte das flechas. E essa garota pretenciosa é a Bia. Interessante, todas garotas. Só há um rapaz aqui. Qual seu nome, meu caro?
- Eu deveria lhe dizer? - Ly perguntou, tentando imaginar o motivo de Ophelia querer saber os nomes.
- É uma questão de cortesia, rapaz - Ophelia sorriu - educação, bons modos. Conhece? Imagino que sim. É casado?
Ly percebeu no átimo. Sacana. Mulher sacana aquela. Mas ele não ia ficar para trás.
- Meu nome é Jonas - respondeu Ly com um leve sorriso. Deu um olhar para Kibii, como se pedisse permissão para algo. Doceh nunca vai me perdoar por isso. Nunca, nunca... mas... - eu sou viúvo.
- Nem tem filhos? - ao que Ly disse "não", Ophelia exclamou: - coitado!
E Kibii compreendeu o olhar. Sorriu para dentro: realmente a estratégia da Rainha era bem esperta, talvez. Explorar os pontos fracos, não era isso. E assim, Umrae se perguntou o quê Amai queria dizer quando perguntou se todos tinham um ponto fraco.
- Eu sou a irmã dele - Kibii disse, ajudando com a farsa - mas o que isso tem a ver?
Ophelia analisou as reações quase simultâneas: Amai deu um leve olhar intrigado, Rafitcha crispou os lábios preocupada, Umrae escondeu um zombateiro sorriso com perfeição que Ophelia não enxergou a ironia naquelas linhas dos lábios, Bia permaneceu inexpressiva.
Estão mentindo.

- Agora, vou querer a ruiva - recomeçou Ophelia - e também quero essa tal de Umrae. Algum motivo tinha para a Rainha anterior não gostar de você, sabe? Preciso me prevenir, não concorda?
- Claro - Umrae sorriu, daquele jeito caloroso e desconcertante, como se duvidasse seriamente da competência de Ophelia para tanto - eu concordo plenamente. Não me importo muito a meu respeito, sei me cuidar. Mas não vai levar mais ninguém.
Kibii se indignou.
- Só passando por cima do meu cadáver! - protestou, se posicionando em frente à Umrae, fitando a Rainha nos olhos.
- Isso - Ophelia bateu palmas animadamente - não é nenhum problema. Vamos lá!

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- AAAARRRRGGGGHHHH!!!
Doceh rugia a cada cinco minutos, trancada em uma sala para que ninguém escutasse seus gritos. Ela mesma fizera isso, procurando um lugar isolado onde pudesse sentir raiva, raiva de si mesma, raiva de Ly.
Mas ainda todos no abrigo escutavam a estranha dor de Doceh.

Nunca haviam visto uma Doceh tão sentida, tão desesperada. Não compreendiam porque tanto medo de Ophelia, tanto desespero em perder o Ly. Ela devia estar acostumada, lutaram juntos tantas vezes! E se conheceram, curiosamente, de lados opostos! Doceh, do norte, cuidara tanto de Ly quando ele lhe foi trago, como prisioneiro de guerra e assim humilhado todos os dias, simplesmente por pertencer as Campinas. No meio da guerra, do caos que assolou Heppaceneoh há doze, treze anos atrás. E eles haviam se decidido ali. Entre os leitos e lençóis sujos de sangue, remédios e cuidados médicos, ele lhe perguntou se não queria namorar com ele.
E ela rira, e disse que ele era um idiota.
Odeio você, Ly. Odeio.
Ele nunca fora sentimental. Era até engraçado, mas ele nunca chegava a ser completamente frio.
Ele era simplesmente direto, sem rodeios ou dramatismo, bem ao contrário dela. Não que ela fosse uma patética completa e tivesse crises o tempo todo. Na maior parte do tempo, ela era fria, muito mais perigosa que ele. Ly bem sabia o quanto lhe podia custar desafiá-la, causar ciúmes ou simplesmente discordar dela em algumas questões como que "Tal mulher é uma vadia". Mas ainda assim, ele a adorava daquela forma única, direta, simples.

E ela queria isso de volta. Às vezes odiava, se pegava desejando algo mais intenso, mais dramático, mais emotivo. Mas como ela concluia que ela não era desse feitio, nem tinha paciência com homem que fazia do tipo drama. O casamento dos dois era entre semelhantes e opostos, ao mesmo tempo.
E ela queria isso de volta.
.
Mas fazia tão pouco tempo que ele tinha ido!

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- Três contra um? Ou vai lutar também, Bia? - perguntou Ophelia docemente, seus olhos brilhando de forma tão meiga que não parecia em nada a cruel assassina que já ferira vários.
- Claro que sim - Bia respondeu como se a Rainha tivesse perguntado a coisa mais óbvia do mundo.
- Você não está machucada, Bia? - lembrou Rafitcha, preocupada. E se o desempenho de Bia fosse prejudicado pelo ferimento na perna?
- Claro que não - Bia se posicionou, a espada apontada para Ophelia - eu luto com demônios e eu sei regenerar.
- Isso é bom - Ophelia disse, batendo palmas novamente - essa é a primeira lição importantíssima. Ao lutar com um demônio, saibam regenerar seus membros. Mas não se preocupem, eu pegarei leve. O máximo que pode acontecer é perderem uns dedos.
- O máximo? Eu diria que o mínimo que pode acontecer a você é perder a cabeça. De forma literal - rosnou Umrae, gélida. Sua voz podia romper a tensão existente no ar, a ansiedade que podia ser tocada.
Ophelia crispou os lábios.

Agora!
Umrae teve que recuar, analisando bem o desempenho de Ophelia que preferiu manter uma luta com Kibii. E a todo segundo, Kibii se viu assustada, tendo que se defender o tempo todo. E Ophelia nem usava uma espada ou algo do tipo, suas armas eram suas mãos. Seus dez dedos cresciam, golpeando Kibii e esta se defendia com a espada. Diagonal, direita, esquerda, dianteira, recue! Kibii preferia a sutileza do arco e flecha, mas não era ruim na espada e sabia uns bons golpes que surpreenderiam Ophelia. Ou assim achava.
- Por que uma pessoa só? - perguntou Bia, se aproveitando da breve distração de Ophelia.
- Quer participar? Fique a vontade - Ophelia disse.
O que mais assustou a todos era que a voz estava controlada, fria. E todos sabem que é impossível falar desse jeito quando se faz algum exercício bem intenso, principalmente em uma luta. Naquele momento, todos perceberam que Ophelia não estava nem um pouco cansada, podia respirar normalmente e o pior: aquilo, para ela, era um hobby. Um hobby frio, sanguinolento, cruel.

- Vadia.
Um golpe que poderia simplesmente arrancar a cabeça de Ophelia se fosse bem-executado, mas foi quebrado ao meio. Dos dez dedos que viravam lâminas pontiagudas, afiadas e enormes, cinco se ocuparam de Bia. Era, de certo modo, impressionante ver como Ophelia se ocupava de duas oponentes ao mesmo tempo, cinco espadas perfeitamente maleáveis para cada uma. Kibii lutava com todas as suas forças, Bia procurava um pouco de sanidade na hora de golpear. Recuavam, esforçavam-se a cada segundo em machucar o máximo possível.

E Umrae tentava raciocinar. A prioridade ali não era derrotar Ophelia. Era levar todo mundo de volta para as Campinas, vivo. Precisava de tempo, mas não queria sacrificar Kibii e Bia. Se mantivessem aquele ritmo, seriam aniquiladas, percebeu isso rapidinho. Ao dar uma olhada para o Ly, percebeu que ele chegava à mesma conclusão.
- Ly - começou Umrae, sua mente já armando a estratégia - um.
Ly se posicionou, tentando fingir que a expressão de Lala não era tranquila demais, e ainda assim absolutamente calma.
- Um.
Umrae girou o próprio corpo para a frente, torcendo para aparentar que estava somente concentrada em Ophelia e assim Lala não a perturbaria.
- Dois.
Ly olhou fixamente para Amai e Rafitcha, as duas se abraçando desesperadamente, como se a outra fosse a última esperança de viver.
- Três.
A voz de Umrae se quebrou a partir do momento que dissera o numeral, com brevidade, o tom rouco. Tremeu no "s" ao ver que Ophelia conseguira derrubar Kibii na parede, com cortes em todas as partes do corpo imagináveis, e Bia estava tendo o mesmo destino. Cortar, ser fatiada, o quanto aquilo doeria.
- Merda, Umrae, vá logo! - o grito de Bia rompeu, a frieza sendo rompida pelas garras a cada cinco segundos. Ofegava e pela primeira vez, uma Bia completamente descontrolada com medo estava sendo apresentada a todos. Rafitcha tremeu, Amai escondeu o choro tentando ser forte. Tentativa inútil: seus olhos se inundaram de lágrimas e a visão cessou por breves instantes.
Ly se ocupou de Amai, Rafitcha não precisou ser protegida por Umrae. Estava bem, mesmo que com dor de cabeça e passando mal de tanto nervoso. A atmosfera era irrespirável, e aquela Lala que somente ficava parada, observando a todos sem se mover não ajudava. Continuava serena, inabalável.

Siih era consolada por Alicia, ambas escondidas, querendo não ficar com o encargo de cuidar dos corpos restantes. Ambas admiravam a luta obcecadas pelos movimentos gentis de Ophelia, que apesar de tudo não conseguia deixar de ser bela. Por mais que fosse um monstro, por mais que seus traços faciais se endurecessem e franzissem em uma batalha, por mais que se encharcasse de sangue dos pés a cabeça, ela ainda assim era bela.
Irremediavelmente bela.

- Vamos.
O hálito quente de Ly encheu Amai de esperança, vigor. Sentiu coragem até para abrir os olhos, respirar um pouco. Abraçada pelos fortes braços de Ly, sendo arrastada para a porta, tendo todas as atenções atraídas para si.
- Aonde pensa que vai com essa garota? Eu não disse que essa ruiva era minha? - a voz de Ophelia era fria, gélida. Ela penetrava nos ouvidos de Amai, a torturando devagar, como se Ophelia gostasse de sorver cada pedaço de vida que se continha naquele corpo.

Todas as forças do mundo.
Todos os segundos necessários.
Todos os passos que deu, mesmo machucada.
Rompera a visão de Ophelia, foi vista por Lala, mas seu corpo quase que voou pelo salão até alcançar Amai. Ao seu lado, a protegeu inteiramente. Atrás de Amai, um Ly que a protegia como se fosse proteger a própria esposa. Ao lado direito de Amai, Rafitcha que apertava o braço da amiga, tentando imaginar uma fuga no meio daquele caos. E Umrae que estava na frente de tudo, sendo a linha de frente, arriscando a própria vida somente para cumprir a missão que lhe fora dada. E agora Kibii com pequenos cortes nos braços e pernas, se apoiando em Amai para olhar para Ophelia, concentrando-se somente em ter forças para uma nova luta.

E agora Bia que tentava se recuperar da breve pausa que lhe fora dada, pelo mínimo segundo de distração de Ophelia.
Ophelia sorriu. Aquele sorriso fanaticamente belo.
Lala preferia olhar para os vitrais, no alto. Parecia profundamente desinteressada.

Uma Umrae atenta, Rafitcha mordendo o lábio inferior, Amai insegura, Kibii machucada, Ly querendo viver para voltar a ver sua esposa, Bia cuspindo sangue. Ophelia se deliciando com as possíveis futuras presas, Lala tentando não se preocupar com ninguém ali.

Seis pessoas contra duas. Normalmente venceriam rápido.
Mas quando a dupla vale por dez pessoas, a situação muda rapidinho. E quando um dos dois oponentes é alguém com sede de sangue, alguém precisa se sacrificar.

Foi isso que os seis habitantes de Campinas compreenderam. E em uma atropelada decisão mental, tentaram definir quase que telepaticamente: quem vai ficar e quem vai embora?

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Parte 57 - Alguns pedaços de ouro e rubi. E algumas pretensões escondidas.

- Estão demorando demais - atestou Umrae, que começava a se preocupar.
Ela olhava para a porta, a sua besta cuidadosamente posta em um local estratégico. Mas achava que a tentativa era inútil: com certeza Rafitcha estava se ferrando, e talvez só Bia não fosse suficiente para conter Lala e Ophelia. Talvez.
Caminhou pelo muro com delicadeza, nunca deixando o portão principal fora do campo de visão. Sua intenção era alcançar Kibii-chan e Ly, para os três invadirem o castelo e assim tentarem ajudar, apoiando Bia.
Escolheu um dardo todo pintado de amarelo, um dos poucos que ela tinha. Não era fatal, somente um sinal que ela e Kibii combinaram antes: era como um código. E um dardo pintado grosseiramente de amarelo significava "ajudar os outros". Vindo de Umrae, significava se unir a Ly no portão. E assim, Umrae conseguiu passar seu recado.

- Droga - Kibii sussurrou, ao verificar o dardo amarelo que se encaixou com perfeição em uma falha, entre duas pedras que ajudavam a formar o muro.
Ela recolheu as flechas com cuidado, e com cuidado, apoiou-se em falhas no muro para descer sem barulho. O fato de ter derrubado um jaken serviu, pois o corpo do demônio ajudou a amortecer a sua queda, quando chegou ao chão. No final, tanto ela quanto Umrae sequer se arranharam na descida para o chão. Obviamente Ly achou intrigante a chegada inesperada das duas, mas ele não discutiu. Sabia que os instintos de Umrae sempre estavam certos. Não importa a situação.
- Dessa vez...? - Ly deu um sorriso de canto, claramente pedindo uma explicação detalhada dos motivos que faziam Umrae e Kibii se deslocar de onde estavam.
- Demoram demais - Umrae disse, como sempre, categórica e definitiva.
- Ah, sim - Ly disse - é verdade.
- O que devemos fazer? - Kibii olhava para a porta, seu peito descendo e subindo, tentando controlar a própria ansiedade.
Estava meio que nervosa demais.

Quando ela era criança, ganhara um colar de presente. Ela lembrava que recebera o presente aos nove anos, de seu professor que a ensinara a usar o arco e a flecha. Era um pingente curioso, com uma forma estilizada de uma sereia. Era feita de algum material que lembrava pedra, mas era bem macio. Os olhos eram grandes, o cabelo chegava à ponta da cauda. Mas era uma sereia bonita, e brilhava. Suas orelhas eram pontudas, e o cordão era de prata. Na época, achara que fora feito grosseiramente por algum forasteiro. Mas agora, ela tinha a estranha sensação de que a sereia era a simples retratação de um cruel demônio. Ela ainda tinha o pingente quebrado, não se lembrava mais de como se partira ao meio. Mas ela ainda tinha, guardada em seu enorme acervo de lembranças que ela não conseguia ter na mente.
Era até desesperador não conseguir lembrar de toda a sua vida, mas o fato de saber seu nome completo, sua condição e os ensinamentos de guerra lhe bastavam. Um pai, uma mãe. Não se lembrava direito dos parentes, tudo lhe parecia borrado demais.

Era assim que estava agora. Borrado demais. O portão do palácio estava borrado demais, as cores difusas e diluídas em um negro triste e sinistro. E quando Umrae conseguiu fazer a porta abrir, usando algum encantamento que ela não conseguira reter na mente, tudo lhe pareceu disforme e grosseiro. As portas, na sala circular, com estátuas estilizadas de demônios, uma acima de cada porta. Reparou, com um aperto no coração, que todas as portas estavam fechadas.

- Como...?
- O que você está fazendo?
- Essa voz... - Kibii fechou os olhos, identificando com facilidade.
- Sinto muito.
- Não conheço essa voz - disse Umrae, parecendo pensativa.
- Que droga você acha que está fazendo?
- É Amai - Ly observou.

- O que acha que está acontecendo? - Kibii se virou para Umrae, e esta com todo o seu conhecimento de guerras e muito senso crítico, logo deu a sua opinião, fria e exata.
- Bia perdeu a luta.

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Doía.
Doía demais, tudo doía. Até tomar o chá, feito por Thá, doía. Até o chá, que era uma fraca imitação dos esplêndidos e confortáveis chás de Rafitcha, doía tomar. A garganta dava nós impossíveis de desatar, ou pelo menos, Doceh acreditava assim. Ela só queria morrer, definhar, descansar de tudo aquilo.
Ela queria simplesmente parar de sentir.

Simplesmente doía.
Todas as pessoas estavam apáticas, as poucas crianças rapidamente silenciadas. E todos tremiam. Maria enfrentava tudo com firmeza, sempre se mostrando tranquila. Mas até mesmo o seu filho, uma delicada criança de dez anos, sabia que dentro daquela impenetrável couraça de serenidade e liderança, havia uma alma insegura e partida ao meio.
Maytsuri dormia.

- Acha que voltarão vivas? - Lynda perguntou, enquanto ajudava Thá a remendar algumas roupas.
- Acho - Thá tremeu na hipótese de Umrae voltar morta, ensanguentada ou qualquer coisa do tipo.
Lynda abaixou o capuz, seus cabelos aparecendo, presos. Ela parecia muito concentrada em consertar a bainha de um vestido muito comprido e pesado, pouco adequado aos trabalhos no campo.
- Umrae sobreviverá, não se preocupe - Lynda sussurrou - preciso voltar a ver minha irmã.
- Sua irmã? Mas... - Thá ergueu os olhos, surpresa.
- Eu vivi bastante tempo longe dela, isso é estranho - Lynda disse, toda calma, sem desconcentrar do seu vestido - nós fomos péssimas enquanto éramos mais jovens... mas agora tudo mudou. Desde que eu vim para cá por causa de Mycil, eu não a vejo.
Mycil... Thá conhecia esse nome somente de ouvir, mas sabia o que Lynda lhe contava e supunha o resto que a amiga ocultava discretamente. Devia ser doloroso perder a irmã mais nova, a irmã que protegera durante tantos anos. E tudo por causa de um estúpido amor, um amante que não dava a mínima bola. Chegava a ser ridículo.
- Eu... - Lynda abaixou os olhos, como sempre, fria - é melhor eu voltar.
- Estamos em uma guerra - Thá observou.
- Eu me viro - Lynda sussurrou - e vocês não precisam de mim. Todos sabem dar conta aqui, sozinhos.
Thá não pôde contestar a verdade dita nos lábios da amiga.

Quando tinha sete anos, Doceh aprendeu a fazer seu primeiro bolo deliciosamente confeitado e cuidadosamente envenenado. Ela havia feito peça por peça, maquinando cada junção de ingredientes, a beleza de se misturar o açúcar ao leite e a farinha bem batida, com os ovos logo adicionados e misturados à massa. E os venenos, sempre fatais, que se misturavam sutilmente à massa do bolo. Um gole a cada ingrediente adicionado. Com muita calma, frieza e paciência.
Mas de que valiam todos os estúpidos ensinamentos para matar, envenenar, cozinhar quando na hora do perigo, ela tremia como louca?
- Doceh? Você está bem?
Era Raveneh. Com toda a sua doçura simplesmente incomparável e suas longas madeixas douradas presas no alto da cabeça, ela estava ali, lhe perguntando como estava. Doceh deu um fraco sorriso, logo pousando a cabeça na mesa. Na mão direita, o chá esfriava.
- Não.
"Você está bem?"
Era a pergunta mais idiota que podia se fazer à uma mulher com medo. Com medo de ficar sozinha, de perder, de ficar desamparada.

- Hey, garota, o que acha de a gente se casar?
- Uma idiotice completa. - Doceh riu.
Ela ajeitou o remédio, a infusão de ervas estava no ponto. Mais um pouquinho, e ele estaria bem. Perfeitamente bem.
- Ora, vamos, querida.


Foi assim o dia que ela reconheceu o amor nos olhos dele, não foi? Quanto tempo desde essa cena? Onze anos? Doze anos? Tanto tempo para construir o amor de forma quase unilateral, de forma que ela nunca imaginou. Por mais que ela tivesse presenciado o marido ir pra guerra várias vezes, ela nunca realmente sentira esse aperto. Talvez porque os dois passaram a lutar do mesmo lado, juntos, como um só.
Perdera-se.

- Ly voltará - a voz doce de Raveneh chegou aos ouvidos da esposa que estava em casa quando não devia estar.
- Espero que esteja certa - foi tudo o que Doceh pôde dizer.

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Ophelia encarava as portas com absoluta frieza e calma, como se soubesse o que havia lá atrás. E Rafitcha percebeu. Ela percebeu a direção do seu olhar, percebeu que havia muito tempo desde que entraram e simplesmente somou dois mais dois. Umrae, Kibii, Ly. Tentou avaliar a força dos três, unidos. Será que conseguiriam vencer Lala? Com certeza, se unissem perfeitassem, funcionando em perfeita sintonia.
Umrae poderia vencer se mantivesse calma, como sempre.
Unida com Kibii, praticamente formavam uma perfeita dupla. E com Ly de apoio...
- Bia... - Amai sussurrou, quase aos prantos. Estava com medo demais, tinha que admitir.
Alicia amarrou os cabelos, como se tivesse tomado uma rápida decisão. Não que funcionasse, mas tinha que servir à Ophelia, mesmo contrariando o próprio orgulho. Ou isso ou a própria vida. E não estava afim de perder a própria vida por culpa de uma qualquer.

E logo, a Rainha começou a raciocinar se seria melhor abrir as portas para os três novos visitantes que não sabia quem era. Se estavam ali, e suas energias eram um tanto diferente. Teve que se concentrar melhor, até perceber o motivo de tanta diferença: duas das pessoas ali fora eram elfos, portanto muito diferentes de fadas. E um deles sequer tinha energia, mas Ophelia era astuta e conseguia perceber que era um humano, absolutamente comum. E em todos os visitantes, havia rastros de jakens, demônios derrotados.
Conseguiram derrotar os meus soldados?
Ela sorriu. Uma luta com eles seria deveras interessante. E caso se unissem com Bia, seria bem melhor, sem dúvida! Seu desejo de tomar as Campinas aumentou, causando ardência em seu estômago, lhe dando excitação e ansiedade. Seus olhos grandes e castanhos brilhavam vivamente, seu sorriso parecia ser de uma criança. Lala tremeu ao ver aquele rosto, e logo compreendeu o motivo.

Se fechasse os olhos, podia sentir três pessoas lá fora. Três guerreiros que lutavam com todas as suas forças, guerreiros que jamais deviam ser desprezados. Não queria lutar de novo, estava meio que cansada. Porém se fosse preciso fazer por Ophelia... se ajoelhou diante da amiga e mestre, e curvando a cabeça em sinal de submissão, perguntou, a voz exausta:
- Pede que eu abra a porta?
Ophelia não disse nada. Sentada na cadeira, seu vestido sempre decorado com um bonito decote que mostrava o seu bonito e reluzente colo e a sutil linha que indicava seus redondos seios, o sorriso de criança brilhando, os cabelos castanhos e ondulados que somente cresciam. E a coroa reluzindo, de ouro e rubi, uma coroa que Ophelia amava usar. Ela estava lá na poltrona, acima de todos.
E quando Lala piscou os olhos, ela não estava mais lá.

- Ophelia?
Se virou, percebendo que Ophelia estava ao lado de Rafitcha, a fitando friamente. Rafitcha estava com medo, mas nunca demonstrava isso.
Estúpida, achou Lala naquele momento, Ophelia vai torturá-la antes de matá-la se continuar com essa postura de "não tenho medo de você"!
Rafitcha estava com os cabelos despenteados, os olhos absurdamente inexpressivos e a postura meio que curvada, como se estivesse desanimada. Na verdade, estava curvada porque Amai se dependurava nas suas costas, uma se apoiando na outra. Pareciam simples mulheres do campo.

Tão rápido como Ophelia foi até Rafitcha, foi Bia que logo se ajeitou atrás de Ophelia, a sua espada na posição correta, logo acima de Ophelia.
- Se fizer qualquer contra elas - a voz de Bia penetrou em todo o ambiente, quase como um silvo de cobra - eu te mato.
- Ora, tolinha - Ophelia riu, sua voz bastante adocicada - acha que pode me matar? Você, uma reles caçadora de demônios?
- Eu não sou uma reles caçadora de demônios - a espada estava a menos de cinco centimetros da cabeça de Ophelia. Mas ela continuava rindo, olhando para Rafitcha, sem qualquer forma de se mexer já que qualquer movimento faria a espada se mover, e fatalmente, machucá-la - não me conhece.
- Ah, é? - Ophelia parecia feliz - então qual seu nome, mesmo, e quem foi sua mestre?
- Meu nome é Bia - a espada agora acariciava a coroa que poderia ser cortada a qualquer momento - e a minha mestre foi a Lia.
- Lia? - Ophelia fechou os olhos como se tentasse lembrar de quem era. E logo os abriu, triunfante - por acaso, eu já ouvi falar. Não é uma caçadora de demônios que brigou com Elyon?
- Exatamente. Sabe qual foi o final da briga, não é? - Bia parecia se divertir com toda aquela expectativa pré-morte, embora nada em seu rosto demonstrasse isso - Elyon perdeu.
- Claro que sei - Ophelia disse - acontece que eu não posso perder pra uma aprendiz de Lia. Sou mais forte que a mestre, que dirá da aprendiz!

Um segundo. Um centímetro.
Um baque de ouro e rubi no chão. E alguma coisa cortando o vazio.
A espada cortou o ouro. Rompeu o poderoso rubi em questão de segundos, segundos que não foram vistos nem contados. E Bia já estava preparada para a sensação familiar de cortar a carne, sentir o sangue em si, o alívio que sempre invadia seu corpo nessas ocasiões. Mas depois do ouro e rubi, o que veio foi simplesmente o nada. Rafitcha se encostara na parede, Amai quase sendo esmagada, em um reflexo rápido. Quando Bia se deu conta, a espada estava apontada para o chão, nada mais havia entre ela e Rafitcha. E o alívio se dissipou assim que ela percebeu que Ophelia escapou.

- Quanta pretensão em achar que pode acabar comigo. Ainda vai precisar comer muito feijão com angu para me encarar, hein, garota?
Ophelia ria, já posicionada para lutar. Bia reparou que ela rasgara o vestido desde a bainha até a cintura, provavelmente para se mover melhor.
- Mas eu vou matá-la - Bia sussurrou.
Ophelia abanou a cabeça, como se sentisse pena da garota. Um passo para trás, seu raciocínio dando mil voltas.
- Não conseguiu matar Lala!
- Ei! - Lala exclamou quase que indignada. Estava sentada ao lado da poltrona, admirando a luta, desinteressada.
Bia recuou. Embora ela estivesse tão irada, tão tentada para lutar, tinha que admitir: não podia vencer Ophelia. Não conseguira sequer machucar Lala direito, que dirá de Ophelia que era bem mais poderosa que a aprendiz? Suspirou, como se tivesse desistido.
- Bem, então deixe-nos ir embora - disse - você deve ter percebido que há três pessoas lá fora. E tenho certeza que elas acabariam com Lala em um segundo.
- De jeito nenhum - Lala riu de canto, seus olhos cor de mel brilhando de uma forma estranhamente fanática - ninguém pode me matar, exceto alguma das Musas.
- Veremos - Bia parecia fuzilar a garota com os olhos.
E Ophelia sorriu.

Estava prestes a deixar os recém-chegados entrarem, e assim mais algum sangue ser derramado.

sábado, 6 de setembro de 2008

Parte 56 - Angustiante.

Ophelia havia distribuido exatamente cinquenta jakens em volta do palácio. Dez no norte, dez ao leste, dez ao oeste e outros dez ao sul. E os outros dez estavam espalhados, sempre ajudando quem fosse preciso. Normalmente, eles ficavam arrumando confusão pela cidade.
Eram jakens brancos, lembrando humanos. Viviam nus, os olhos amarelados e nervosos, carecas. Os narizes lembravam fendas horríveis, as línguas eram enormes, alcançando um metro de comprimento e eram vermelhas, os dentes lembrando presas, afiados de forma desigual.

Kibii até que gostou de lutar com eles. Eles eram chamados de "jakens amaldiçoados", da espécie que aprendia a manipular as mãos como espadas embutidas no próprio corpo. Eram quase canibais, de certo modo, e Kibii sorriu ao ver que eles até sabiam lutar, mas ela era ainda melhor. O mesmo sentimento era experimentado por Umrae e por Ly que também lutavam.
- Maldito - Umrae ofegava, após desferir um golpe no abdomên de um deles, rasgando todo o estômago - Maldito...
Não iria deixar ninguém morrer. Ninguém. Mataria esses demônios que pareciam surgir como ratos em todo o canto, protegeria Rafitcha e Amai como foi dada a sua missão. Todos retornariam para o abrigo vivos.

Atrás de si, cortou a cabeça de um deles e novamente detestou o cheiro de sangue. Mas não iria deixar seu trabalho por uma frescura somente. Seus cabelos, que estavam amarrados em um coque simples, acabaram por se soltar no meio da luta. É ridículo. Lutava agora com somente um demônio, certamente mais habilidoso que os outros. Os passos que dava para trás eram certeiros, bem medidos, e a força que punha em cada ataque com a cimitarra era bem calculado. Estavam em cima de um muro bem largo, do tipo que era usado para arqueiros atirarem suas flechas de cima. Então o lugar era vantajoso para uma luta.
- Maldita... matou meus irmãos...
O jaken tinha a voz pastosa e incômoda, porém ela não alcançava os ouvidos de Umrae. Se recusava a ouvir qualquer coisa, somente em sentir, tentar medir a força, tentar saber onde o próximo ataque seria tentado. Ele era bem melhor do que os outros, sem dúvida. Enquanto os quatro que matara anteriormente eram estúpidos e somente vieram com tudo em cima dela, sendo estraçalhados no segundo seguinte, este queria ganhar tempo, sorria, zombava, amaldiçoava e pensava mais antes de agir.

Com um olho no portão, onde Ly derrotou o último demônio e o outro olho no demônio que golpeava às cegas na visão sofisticada de Umrae, ela decidiu dar um fim àquela luta. Deu um passo para trás, e parou de recuar. O pé esquerdo ficou exatamente meio passo atrás do pé direito, e ela girou o corpo para a direita, segurando a espada à direita do corpo do jaken. O demônio parou subitamente, quase que perguntando o porquê do estranho movimento. Mas Umrae não lhe deu o tempo suficiente para agir: moveu o pé esquerdo tão rapidamente, praticamente chutando a lateral do corpo do jaken, fazendo-o cambalear para trás. O chute fora potencializado graças ao impulso que teve com o pé. E tão rapidamente como chutou, ela moveu a espada para a esquerda, a enfiando para a frente. Fechou os olhos, evitando o sangue.

E logo abriu-os novamente e deu um curto sorriso. Vencera a luta. Como sempre, ela vencera a luta.

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- Somente nomes... é tudo o que eu tenho...
Ophelia escolhera os nomes aleatoriamente, sem saber quem era realmente todas aquelas pessoas cujos nomes foram anotados. Mas já tinha uma vaga idéia... pegaria a menina ruiva, a que era protegida pela morena, a que dera a resposta. Pelo jeito que a morena protegia a ruiva, indicava que algum afeto o pessoal de Campinas nutria pela ruiva.
Pegar a tal da menina que ia lutar com Lala também era importante. Tinha que pegar todos que sabiam lutar, todos que agiam como líderes, todos que eram considerados "perigosos" na lista.
- Siih - sussurrou, enquanto Lala recuou do primeiro golpe de Bia, e as duas se encararam.
- Sim? - Siih sussurrou de volta, querendo não saber o que Ophelia tinha que falar naquela hora.
- Chame Alicia e bloqueie as portas. Eu não quero que a ruiva vá embora, entendeu?
- Você vai--
- Vá logo - Ophelia não se dignou a olhar para a, agora, escrava - antes que eu me estresse.
Siih se levantou, resignada, e seus pés descalços imediatamente abandonaram o aposento. Ophelia voltou a se concentrar na luta.

A luta estava de causar falta de ar desde o começo, desde o golpe que visava a cabeça de Lala. Mas, felizmente, ela escapou quase deslizando pelo chão, e tudo o que se escutou foi o ruído da espada se chocando contra o metal que fazia parte da armadura de Bia. Se não fosse a armadura, Bia seria atingida gravemente na lateral do abdomên. Depois disso, foram seguidos golpes, tão rápidos que ninguém conseguia enxergar para onde os movimentos se dirigiam. As espadas se chocavam o tempo todo, os pés recuavam a cada segundo que se passava, e por pouco, vidas não se perdiam. Lala começou a suar, Bia começou a fraquejar.

Diagonal esquerda, dois passos para trás, um para a frente com toda a força, mirando na barriga. As noções de luta rondavam a cabeça de Lala, cenas que lhe eram familiares há muito tempo. A frágil katana contra a enorme espada, feita para romper carne de demônios. Lala tentou um golpe na horizontal, como que quase espetando o corpo de Bia, mas levou um chute na coxa esquerda o que a fez cair para trás, quase soltando a espada.
- Chutes não vão funcionar em mim - disse Lala sorrindo, se levantando.
- Claro que vai - Bia sorriu.
E sua espada se mexeu novamente, o punho quase que girando os 360º graus, de forma tão suave e leve, tão rápida que Lala não viu. Somente conseguiu sentir o fluxo de ar se dirigindo para ela, a lâmina fria que rompeu com a sua carne na área da coxa direita, o sangue empapando a negra roupa.
- Um ponto! - Rafitcha gritou - um corte!
Lala desabou de novo no chão, e conseguiu resistir à segunda investida, esta sim que acabaria com a sua vida. Bia recuou, como que quisesse dar alguns segundos de vida. Mas Lala se levantou, assumiu a postura correta e apontou a espada.
- Venha - disse Lala - venha com tudo.
- Eu vou te matar - Bia se arrumou novamente, a espada apontando para a frente, o sorriso frio decorando seu rosto.
- Não vai - Lala respondeu friamente, sem fraquejar - ninguém consegue me matar. E eu vou te dizer o porquê.
Lala deu um golpe tão perfeito que Bia nada pôde fazer.

Deu cinco passos exatamente iguais em comprimento, tão rápidos, tão ligeiros que ninguém viu, nem mesmo Ophelia. E mexeu a sua espada tantas vezes em tão pouco tempo que confundiu os olhos de Bia que já não sabia mais se Lala atacaria de direita ou esquerda, o que a fez recuar. Mas nem mesmo recuar adiantou, porque Lala simplesmente contrariou a intuição de todos e manipulou a sua energia para que ela enganasse todos: ao término dos perfeitos cinco passos, girou o próprio corpo na direção de Bia, a espada com toda a força nas costas de Bia.

E assim Bia se viu, pela primeira vez, confrontada com a possível derrota contra uma adversária de igual para igual.

- Mas ela fez tão perfeito! - gritou Amai - como ela... a perna, a perna estava sangrando!
Rafitcha deu uma rápida olhada para a perna. E ela, assim como Ophelia, constatou a mesma coisa: o ferimento estava curado. Olhou para Ophelia e percebeu que ela tinha um sorriso que somente decorava o rosto, já inocente.
- E aí? - Lala deu um leve sorriso que brilhou por apenas uns instantes.
Bia estreitou os olhos, quase que furiosa.
- Maldita - Bia sussurrou.
Lala é mais poderosa do que imaginavámos... - concluiu Rafitcha, percebendo somente o sangue que secava devagar. Não havia nenhuma marca na pele, nem mesmo um sutil arranhão. Renegeração... não dissem que esse é o forte de Ophelia?
- Maldita - Bia repetiu.
Lala somente mexeu a cabeça para a direita, seus cabelos se soltando do coque mal-feito:
- Ninguém pode me matar, garota.
- Eu percebi - Bia rosnou em resposta - então vou somente te machucar bastante.

Ambas deram passos desiguais para trás, recuando e procurando equilíbrio. Ainda dói. Lala recuou mais ainda, encostando-se na parede. Procurava uma ínfima brecha para atacar Bia, para machucar Bia, para matar Bia.
- Vai, Bia! - incentivava Rafitcha.
Quem são essas?
Pelo menos agora sabia que sua adversária se chamava Bia. Não parecia um nome típico de guerreira, e pelos olhos frios, ela havia sido educada para matar. Não existem mais caçadores de demônios que foram educados para isso... Olhou nos olhos de Bia, encarando-a, as duas sempre medindo o próximo ataque.

Uma vez Bia perdera todos os dedos da mão direita quando tinha sete anos. Sua mestra lhe cortara os dedos de propósito para fazê-la aprender sobre regeneração, na base da força. E Bia, desesperada, conseguiu pela primeira vez regenerar membros completos. Depois disso ela conseguira fazer muitas vezes, principalmente ao lutar com demônios. Mas ela tinha a sensação de que nunca conseguiria algo próximo que Lala fazia, em tão pouco tempo, tão tranquilamente. A serenidade de Lala era o que mais a assustava: ela tinha a sensação de que por mais que golpeasse, nunca conseguiria machucar a adversária. Ela continuava impassível, somente com aquele cínico sorriso que fazia questão de desequilibrá-la.
Esse é o seu poder secreto, garota?
Moveu os pés para a frente, a espada apontando para o alto, a lâmina fria que brilhava com a luz do sol que se infiltrava pelas janelas, que esquentava pouco. Logo, logo seria noite.
Isso não vai adiantar. Eu também sei fazer isso, garota.
Correu para o outro lado do salão, avançando em direção à Lala, correu como se não tivesse obstáculos ou mesmo a simples noção de gravidade. E a espada que continuava em pé, no alto, em suas mãos que seguravam o punho tão firme que quase se machucavam. E ao chegar em frente da Lala, parou os pés e baixou a espada ao mesmo tempo. Em um instante viu os olhos cor-de-mel a encararam, a postura despreocupada. No instante seguinte, um borrão laranja.
- É isso que é o seu melhor?
A voz vinha de trás. E a sua espada cortara somente o vazio.

- Argh - Bia sussurrou.
Ela é forte.
E a maldita nem estava ofegando.

Parabéns, Lala.
Ophelia sorria, se deliciando com a luta e com a forma que Lala melhorara muito suas técnicas desde que conhecera a atual Rainha...
Se ela lutasse assim como lutou na primeira luta, ela nunca teria sido tão machucada...
Ophelia observou que Siih entrou no aposento, acompanhada de Alicia.
- Quê? Ainda não se mataram? - perguntou Siih, a pergunta levemente desinteressada.
- Não - Ophelia sussurrou - ambas são muito fortes. Lala!

Na mesma hora, Bia parou de erguer a espada acima de si para tentar golpear Lala. As duas oponentes olharam para Ophelia, um sinal de interrogação em seus rostos.
- Pode parar - Ophelia disse - já chegou.
- O quê? - Lala rosnou - nunca te disseram que é descortês interromper uma luta, Ophelia?
Ophelia sorriu, mostrando os dentes.
- Alicia e Siih - sussurrou - quero a ruiva. Entendeu?
- Sim - Alicia e Siih disseram em uníssono, evitando os olhares de Rafitcha e Amai.
Não queriam passar por monstros. E tinham medo demais de Ophelia para contrariar alguma ordem...

- Sinto muito - Alicia sussurrou, controlando sua tristeza. Fechou todas as portas, as trancando.
Rafitcha que ainda abraçava Amai a observava tentando compreender.
- O que você está fazendo? - gritou Rafitcha, vendo Alicia trancar a última porta.
- Sinto muito - Alicia disse, um pouco mais alto - Sinto muito.
Os cabelos loiro-prateados de Alicia estavam soltos e despenteados, e junto com seus olhos cinzentos, lhe davam um ar de tristeza e mágoa.
- Que droga você acha que está fazendo? - Amai gritou, repetindo a pergunta, mas dessa vez se dirigiu à Ophelia.
Ophelia não pôde esconder o risinho de satisfação.
- Simples, querida. Não entende?
- Isso era o que você temia, não era? - Rafitcha sussurrou, o coração sendo tomado pelo ódio - foi por causa disso que todas aquelas pessoas estão lá fora, que Bia está aqui... por culpa de...
- Sequestro... - Amai cochichou, não querendo ser ouvida por Ophelia.

Todos estavam parados, tentando calcular o próximo movimento. Lala suspirou, impaciente, e se encostou na parede, profundamente decepcionada.
- A gente termina essa luta numa próxima oportunidade.
- Claro - Bia respondeu, com um sorriso.
Bia se aproximou de Rafitcha e de Amai, verificando uma brecha. Uma janela? Todas eram altas demais, tinha que voar ou qualquer coisa do tipo. Teria que quebrar as portas ou chamar Umrae, Kibii e Ly lá fora. Mas, como?
- Deixe a gente sair - Rafitcha murmurou.
- Claro que não - zombou Ophelia - eu quero uma de vocês.
- Não vai ter - Amai disse.
- Claro que vou - Ophelia disse - é óbvio que terei. Eu quero essa ruiva.
E pelo olhar gélido de Ophelia, todos sabiam ali que se ela queria a ruiva, ela teria a ruiva.