- Bem... - disse Maria - nós temos que saber o que fazer com os nortistas. Eles estão quase nos nossos portões - as outras fadas começaram a cochichar.
- Sim, temos que expulsar-los do reino - observou Siih - mas quando eles se forem, quem governará? O único descendente é o Calvin Mo...
- E ele vai estar em julgamento - disse uma fada de vestido verde e cabelo marrom - daqui a seis dias.
- Bem, Clah - falou Siih - e se ele for considerado culpado?
- O que vai ser, com toda a certeza! - exclamou Maria - bem, tem o filho dele! Poderemos treinar-lo para a coroa!
- Mas, até o menino crescer? - observou outra fada de bochechas rechonchudas e coradas - quem?
- É. Quem? - indagou Maria para si mesma tristemente.
- Quem?
As fadas ficaram em silêncio.
--------------------------
Enquanto Johnny refletia sobre a desconversa que Raveneh teve ("o que foi mesmo que eu falei? Ah, nada, bem... eu preciso ir, tenho terapia" dissera Raveneh), Gika refletia sobre o dia anterior, quarta-feira. Na segunda consulta, Catherine apareceu. E o que ela contou foi suficiente para deixar Gika abaladissíma a ponto de não conseguir se concentrar em outra tarefa.
Memória de Gika: quarta-feira, consulta de Raveneh:
Raveneh entrara no escritório de Gika confiante.
- Voltou a ser loira! - exclamou Gika - como se sente a respeito?
- Livre. - Raveneh respondeu, porém sem sorrir. Sentou-se no divã.
- Que bom! - disse Gika - bem, eu gostaria que você retornasse ao seu passado. Quando Catherine morreu, para ser mais específica.
Raveneh assumiu um olhar bastante estranho, um olhar quase fatal, por assim dizer, e sussurrou:
- Raveneh foi uma tola medrosa.
Hã?, Gika assustou-se. Essa era a Catherine, que Lych lhe falara? A segunda personalidade de Raveneh? Bem, era ótimo que ela aparecesse. Dava-se para perceber que Catherine guardava todas as memórias que faltavam na Raveneh, sem contar que adorava se insinuar, se gabar do que fazia.
- Qual o seu nome? - indagou Gika.
- Catherine - respondeu - Johnny falou de mim, não? Eu sou um peso nas costas dele - riu amargamente - posso dizer que tirando você, ele é o único que me conhece nessas bandas. Mas eu fui mais importante na vida de Raveneh do que ele imagina. Afinal, eu é que aguentava tudo de ruim que acontecia com Raveneh. E adianto-lhe, doutora: não era pouca coisa. Com uma mãe que nem aquela que Raveneh teve, quem terá uma vida feliz? E claro, não é algo muito feliz o fato de o pai, volta e meia, ser preso graças a um regime absolutamente idiota e fascista.
- Bem - disse Gika - poderia nos contar sobre a morte de Catherine?
- Ih, Raveneh não falou não? - Catherine murmurou. Assumindo um olhar divertido, completou: - ah, do jeito que ela é medrosa, claro que ela não falou. O que foi que ela disse? Que a irmãzinha se enforcou, não foi? Tola, teve medo de encarar a verdade.
- O que você está querendo dizer, Catherine? - indagou Gika, com a voz trêmula. Raveneh mentira a respeito da morte da irmã? Mas... o que havia de tão assombroso, de aterrorizante assim? Raveneh se sentiu culpada pelo suicídio da irmã?
- Foi quando Raveneh tinha uns... digamos, quatorze anos. Eu já existia, claro. Eu sempre acompanhei Raveneh. Eu que carreguei todas as marcas de tortura...
- Fale de como era a rotina na sua casa.
Catherine hesitou, porém seguiu o que Gika pedira:
- Até meus quatorze anos, acordavámos umas oito da manhã. Café da manhã feito por mãe, de vez em quando meu pai estava também. Catherine sentava-se ao lado da mãe, e todos os meus irmãos recebiam ovos inteiros, sanduíches, coisas assim. Mas eu era a única que só recebia um pão com mel e para beber, suco que tinha mais água que fruta. Minhas roupas eram as piores recebidas. Era de longe, a mais maltratada de todas as filhas: a última a comer, a última a tomar banho, a última em receber roupas, etc, etc, etc. Não creio que queira escutar essa história de "oh, pobre criança, foi esculhambada e agora tá aí sozinha". Não quero ficar remoendo a minha infância e tanto quando Catherine quanto a minha mãe tiveram o que merecem.
- Como assim? - indagou Gika.
- Doutora... - disse Catherine - se você tivesse quatorze anos de idade, e a qualquer coisinha, levasse uma chicotada, como iria pensar? Duvido que você iria ser um doce de pessoa para o resto da vida. Isso é coisa de novela. É coisa de Raveneh também. Ela é doce por natureza. E quem não seria, se só tivesse momentos bons? Claro, os ruins sou eu quem passo por eles.
- Catherine - interrompeu Gika - o que você quis dizer com "Catherine quanto a minha mãe tiveram o que merecem"?
- Ah simples - riu Catherine, com um olhar sombrio - com a Catherine foi fácil. Eu tinha quatorze anos na época, e a Catherine tinha uns vinte, vinte e um, vinte e dois anos, por aí. Tinha muitos pretendentes, de tão bela que era. Mas por um acaso acabou se apaixonando justamente por um garoto de dezessete anos recém-casado que não lhe dava bola. Catherine ficou arrasada. A noiva do garoto chamava-se Liin, vinha do Oriente, tinha quatorze anos e fazia um ótimo par com o garoto por quem Catherine era apaixonada, se quiser saber. E Catherine era tão bela quando Raveneh era... porém era orgulhosa e burra, coisa que Raveneh não é. Sabe, existe uma grande diferença entre ser burra e ser ingênua. Raveneh é ingênua: não percebe o quanto Johnny gosta dela. Aposto que Johnny vai fazer um pedido de casamento, e ela: 'hã?? eu já posso casar?". Ela é tola. Mas não é burra, devo dizer. Mas a sua irmã era. Quis fazer ciúmes ao garoto. Se envolveu com o primeiro garoto que encontrou pela frente, um pé-rapado chamado Chouin, e como toda boa história de família que termina em tragédia, engravidou. E idiota como era, tentou abortar. Foi durante uma noite, estávamos somente eu, ela e a minha mãe. Minha mãe dorme feito pedra. E eu estava acordada. E ela - nesse ponto do relato, Catherine repetiu várias vezes: 'tola, tola, tola, tola, tola!!" e continuou - tentou abortar com uma faca, rasgando o ventre. Podia pedir a Velha do Lírio, que dava as ervas para a nossa família, umas ervas abortivas, mas não: pegou uma faca e rasgou o próprio ventre. Eu escutei seus gemidos, e fui para o quarto dela. Raveneh não se lembra bem disso, pois quem assumiu o controle fui eu. Ela estava sangrando muito, e seus lençóis estavam ensopados de sangue. A faca estava no chão. Bom, você pode dizer que eu sou malvada nesse ponto. Mas eu cheguei perto dela e sussurrei bem baixinho: "você não queria morrer? Terá o pedido atendido". Ela estendeu a mão e implorou para que eu a ajudasse, pois sangrava muito e não conseguia se mover. Eu só sentei ao lado dela, e ela gritava: "você não vai me ajudar?" e eu respondi: "não. Eu espero a sua morte há quatorze anos. Não vou perder-la". Ela começou a berrar, chorando...
Gika estava definitivamente pálida, assustada, chocada. Quem era a Catherine? Uma personalidade assassina? Era um relato de omissão diante do suicídio. A irmã não queria realmente morrer, queria tirar o feto dentro de si. Porém o sangramento condicionou a morte e...
... a Raveneh não ajudou.
- Ela era muito tola - continuou Catherine - ela gemeu de dor durante uma hora mais ou menos. Acho que nunca fiquei tão feliz na minha vida, ao ver aquelas gotas de sangue pingando e pingando, sempre gentis... Agora eu estava quase livre. Quando iria amanhecer, Catherine já estava morta. Levantei-me, tomei banho e dormi na minha cama mal podendo esperar quando mamãe acordaria e veria a cena. Não deu uma hora, mamãe soltou um berro que sacudiu a casa. Tive que conter o riso, mas... achei tão engraçado!
- Como você pode achar engraçado a morte da própria irmã? - chocou-se Gika. Catherine sorriu.
- Ahn... - disse - você é uma dessas moralistas? Minha irmã era muito chata. Inútil para a humanidade. Inútil mesmo. Tola, burra, idiota. Mereceu morrer.
Gika se arrepiou ao ouvir aquelas palavras, mas pediu que continuasse o relato.
- Bem, papai chegou dois dias depois, e teve o enterro e o funeral e o bla bla bla. Todos me deram os pêsames, mas eu ria demais. Raveneh, claro, ficou chocada! Ela se escandalizou, chorou, foi terrível! Mas ela nunca soube da verdade, creio. Os pais dizeram que a irmã se enforcara no celeiro e disseram também que ela estava na ocasião. Raveneh sabe que não é verdade, sabe que é mentira. Ela acha que é a culpada pela morte. Mas ela não se lembra realmente do que aconteceu, e como não sabe desculpa melhor, bem, é o que ela diz: a irmã se enforcou no celeiro. Ela não se lembra de nada. Uma semana depois da morte, veio o Charlin, rapaz simplório, tolo. Passei a conviver com ele durante dois anos. Nesse meio tempo, meu pai morreu na minha frente. Disso, Raveneh se lembra um pouco. Meu pai estava em casa, com toda a família reunida em volta da mesa. Havia se passado um ano desde que Catherine morreu. Eis que chega a Dark Milk (N/A: 'dark milk' significa 'leite preto' ou 'leite negro' em inglês. Ninguém sabe o porquê do nome), batendo na porta. Olharam para o meu pai e gritaram: "é este. Peguem-no!". Minha mãe catou todos os filhos e levou pra cima. "Vagabunda" disse um deles "pariu um bocado de neném. Olha só a cambada de cria dessa vadia". O outro riu. "Mas o que queremos é o marido da vagabunda" observou o maior deles "matem-no". "Não!" mamãe gritou "vocês não podem fazer isso!". Somente foi empurrada para a escada, e para evitar ser espancada, subiu a escada. Nós víamos tudo de lá em cima... bateram muito no meu pai. Muito mesmo. Nós gritávamos demais, mas não teve jeito: eles só riam, batiam mais. Eles tinham prazer em nos ver sofrendo aquilo. Nessa noite, era eu e Raveneh alternando. Aquela cena foi tão violenta que eu mesma não aguentei muito... fechei os olhos, deixei Raveneh ver um pouco... depois ela cedia o controle e eu assumia, e foi nisso durante toda a cena. Eu e ela ficamos doentes durante dois dias, depois da cena de barbaridade. No final, meu pai era somente um corpo todo esfrangalhado. Parecia uma massa de carne disforme. Eu não vi, pois tive medo. Mas meus irmãos me disseram que nunca viram um corpo mais maltratado, nem quando a Dark Milk decapitou uma mulher que morava perto da nossa vila e nós encontramos seu corpo. Seu corpo somente não tinha cabeça, mas não havia marcas de espancamento. Mas com papai... não admira que Raveneh tenha pesadelos com essa cena todos os dias.
Gika mordeu o lábio inferior. Já tinhas duas cenas marcantes e fontes de pesadelos de Raveneh, que ajudaram muito³³³ a piorar seus distúrbios de dupla personalidade.
- Mais um ano se passou. Meus irmãos, traumatizados, passaram a trabalhar para o governo. Todos eles. Quando eu completei dezesseis anos, morávamos somente eu e mamãe. Ela estava muito doente, do tipo que não conseguia viver sem ter alguém do lado. Eu, pessoalmente, achava isso um porre. Queria sair daquela vila, queria sair daquele inferno... Mas Raveneh praticamente me obrigava a ficar ali, cuidando da sua mãezinha nojenta e querida. É impressionante como Raveneh era. Sua mãe lhe torturou durante dezesseis anos seguidos, sempre com palavras "você é uma burrinha, não é, Raveneh?" dizia mamãe "você não vale nada!", e sempre com suas tenebrosas mãos: "vou pegar você, ah vou!" e dá-lhe chicotes, cintos, palmadas. Qualquer coisa que Raveneh fizesse era motivo pra surra. E já perdi a conta de vezes que a mãe tentou matar Raveneh: com suas mãos, apertava o pescoço de Raveneh bem forte, estrangulando-na. Ou então quando faziam o almoço ou jantar juntas, a mãe sempre dava um jeito de encostar a faca em Raveneh, fazendo cortar... Nos dias em que iam para o rio, Raveneh não sabia nadar e a mãe sabia. Ela ficava sempre ao lado da mãe, e quando estava prestes a se afogar, a mãe só fazia gritar: "louca! idiota! burra! como pode não saber nadar? Catherine faz isso muito bem!". E era sempre o pai a lhe salvar... O pai nunca prestou muita atenção em Raveneh, assim como nunca prestou atenção nos outros filhos. Foi um pai muito ausente. Mas não lembro de uma única vez que ele levantasse a mão contra mim. Não lembro de uma única vez que ele falasse que Catherine era melhor que eu, que eu era um desperdício de menina. Sei que meu pai nunca desejou que eu morresse, como mamãe desejava. Raveneh amava a seu pai, por isso, sofreu muito quando ele morreu... foi um sofrimento sincero, não falso quando a irmã morreu. Raveneh chorou, mas sabia que estava sendo falsa: ela odiava a irmã. Bem, retomando o rumo inicial... quando eu tinha dezesseis anos, tinha que administrar os remédios da mamãe. Quem fazia isso era Raveneh, eu não tinha saco pra contar os milímetros de água e coisas assim. Até que em um dia quente, Raveneh foi ministrar a dose de um remédio, muito bom em doses certas. Eu acabei assumindo o controle do corpo dela nessa hora, e exagerei nas doses. E o remédio era mortal. Pois bem, depois de ver o que tinha feito, deixei Raveneh assumir a responsabilidade. Raveneh sem desconfiar que havia muito mais remédio do que podia, deu-o para a mãe. A velha morreu na hora. Raveneh ficou muito assustada e com medo que a linchassem por ser culpada pela morte. Então deixou ela lá, fez as malas e ó, se mandou. Bem, aí está. Foi-se embora.
- Você é cruel, Catherine - disse Gika ao fim.
- Eu somente defendo a Raveneh - Catherine sorriu - eu não tenho vergonha do que já fiz. A irmã maltratou a Raveneh tanto quanto a mãe, eu a matei. A própria mãe quis que Raveneh morresse, eu a matei também. Quando Raveneh não podia sofrer, eu sofri por ela. Quando Raveneh foi capturada pelos nortistas e foi chicotada, quem recebeu fui eu. Quando Raveneh quis fugir, fui eu quem assumi o corpo dela e lhe dei energia para seguir em frente até desmaiar. Eu fiz tudo por Raveneh.
- Você a ama, Catherine? - indagou Gika.
- Eu quero que ela seja feliz. - respondeu Catherine admirando a janela.
- Com Johnny? - Gika começou a se perguntar... Catherine realmente estava parecendo sincera. Como seria a Raveneh hoje se a Catherine não tivesse deixado a irmã morrer ou matar a mãe? Será que Raveneh ainda estaria viva?
- Sim. - Catherine parecia sonhadora - quando eu compreendi que Johnny realmente amava a Raveneh, deixei que Raveneh ficasse com ele. Eu odeio a Raveneh? Não... é o que eu digo para Johnny. Eu sou orgulhosa, mas eu só quero o melhor pra ela.
- Catherine... - começou Gika - e se o melhor para a Raveneh é você deixar de existir?
- Simplesmente deixar de existir não é o melhor para a Raveneh - Catherine respondeu com convicção - Raveneh não quer lembrar do que fez. Ou melhor, do que eu fiz. Ela tem valores morais muito diferentes dos meus. E somente Raveneh pode saber o que é melhor para ela.
- Não quer se encontrar com Raveneh? - indagou Gika - vocês duas conversarem... sozinhas?
- É uma boa idéia - disse Catherine - excelente. Talvez eu consiga. Não sei... bem, doutora... quando Raveneh estiver com Johnny, não vou mais interferir... então... diga ao Johnny que eu... que eu peço desculpas, está bem? Eu não sou um monstro como ele pensa que eu sou. Apesar de eu ser completamente antipática, eu... - Catherine chorou.
- Catherine, você... - começou Gika, mas logo o rosto de Catherine se levantou, com as bochechas coradas.
- Catherine? Do que está falando, Gika? - indagou Raveneh. Gika se surpreendeu.
PEIIIIIIIMMMMMMMMMMMMM!!!!!!!!!!!!!!
- O sinal já tocou? - surpreendeu-se Raveneh - mas eu mal cheguei!
- Sim, Raveneh - disse Gika com um triste sorriso - precisarei falar com Johnny. Ele virá hoje?
- Não - respondeu Raveneh - amanhã.
- Oh sim - Gika sorriu - está dispensada, Raveneh.
Fim da memória de Gika. Voltemos ao roteiro normal: já se passou a quarta-feira. ;)
domingo, 21 de outubro de 2007
sábado, 20 de outubro de 2007
Parte 58 - o Outro Depoimento de Renegada/Rei
- Que interessante - disse Lala - Lefi acabou de me informar uma coisa curiosa. - estendeu um papel - Mycil Regallian. - Renegada mordeu o lábio inferior - posso afirmar que Regallian é a família que descende da antiga linhagem que reinava sobre Kuppytta, no norte?
Renegada suprimiu um riso: finalmente descobriram a sua família! Bem que suspeitava dos gestos suspeitos de Maria, ao recolher seu sangue, há muito tempo atrás... definitivamente Maria não era a melhor pessoa para fazer algo escondido.
- Sim. - respondeu Renegada.
- Bem, é uma coisa interessante - disse Lala - mas voltemos ao assunto. Por que você deixou Arthur nas mãos do Rei?
- Porque eu praticamente aproveitei da boa vontade de Renegada e sequestrei o Arthur - o Rei disse gravemente - quando Arthur deixou de amamentar, eu o escondi e disse para Renegada que...
- ...Se eu não o obedecesse prontamente, nunca mais veria meu filho - interrompeu Renegada em um múrmurio frio.
Aammm... Por isso que Renegada odeia tanto o Rei? Por isso que dói amar-lo... afinal, o Rei roubou o filho dela!, refletiu Lala concluindo sobre o caso.
- De modo que trabalhei para Calvin durante dez anos - disse Renegada - só via meu filho de mês em mês, e nunca ele sabia que era eu a sua mãe. - Renegada engoliu em seco, controlando suas lágrimas - há pouco tempo, resolvi parar com essa história. Mas antes de exigir a soltura de Arthur, pressenti a vinda de uma outra fada. Não era das trevas, pelo contrário. Nós, fadas das trevas, chamamos fadas do tipo de Raveneh de "fadas cor-de-rosa". E não sei porquê, tive a sensação que encontraria a salvação se estivesse com ela. De modo que parti, mas mal cheguei ao portão e fui capturada. O Rei previu o meu limite. Ele exigiu que eu contasse sobre tudo.
- Mas você não poderia ter feito algo? - indagou Lala - você é uma fada, ele é mortal comum.
- Mas Calvin conhece as minhas fraquezas - respondeu Renegada - se uma fada amar a outro ser que não seja fada, já fica um pouco mais vulnerável. E ele sabia se prevenir... De modo que eu não podia usar meus poderes em larga escala, nem poderia resistir caso ele me capturasse. O máximo que podia era ficar brava e obedecer. Calvin conseguiu arrancar as informações sobre Raveneh... Ele disse para eu manter-lo informado sobre ela. E fui.
- Encontrei Raveneh, chegamos até as Campinas - continuou Renegada - e voltei em segredo ao castelo. Exigi a soltura, ele não cedeu. Disse-lhe que ele não podia tocar em Raveneh, pois ela estava protegida por mim.
- Espere - interrompeu Lala em um múrmurio de surpresa - Raveneh está sob a sua proteção?
- Sim. Calvin tentou sequestrar-la para me chantagear - disse Renegada - ele não podia matar Arthur, pois este era o herdeiro. Mas com Renegada, era outra história: ele não nutria sentimento por Raveneh, e a mataria sem pestanejar. Mas mesmo sendo avisado de que eu a protegia, Calvin insistiu e tentou sequestrar Raveneh, causando pânico nas Campinas. Bem, isso é tudo.
- Vamos resumir a história: vocês tem um caso, ela tem filho, aí ela é sequestrada, ele a salva e ela como prova de gratidão, aceita criar o filho no castelo - disse Lala apressadamente, tentando resumir a história - mas aí ele pega o menino, e passa chantagear-la, e anos depois, ela não aceita mais a situação e tenta ir embora, e envolve uma menina que não tem nada a ver com a história, e... ok, não falarei mais senão meu cérebro vai dar um nó. Mas e os ataques às Campinas? - observou Lala interrogativamente.
- Isso é puro interesse - disse o Rei - as Campinas são fabulosas, e tomar-las é um sonho de consumo para muitos reis - sorriu - sabe, eu sempre desejei ser o Senhor das Campinas.
- Ah bem - disse Lala - e para isso, quebrou o Tratado.
- Eu não me incomodaria com isso - disse o Rei com um sorriso bastante sinistro - o Tratado foi que as fadas não me protegeriam nem me almadiçoariam, caso eu não invadisse nem as Campinas nem o Reino das Fadas. Bem, meus sonhos foram por terra e não me incomodo de ser julgado e ser condenado.
- Calvin, você vai ser morto, muito provavelmente - disse Renegada séria - sequestrar uma protegida é um crime punido com a morte. E desrespeitar a uma aliança mágica, também.
- Sim. - disse o Rei - eu sabia do que estava fazendo. Mas os nortistas intervieram... bem, o que posso fazer? O menino está bem, com as pessoas das Campinas. Ele tem o meu sangue e o sangue de Kycci. Não poderá existir pessoa mais dividida entre o bem e o mal - o Rei baixou o tom de voz ao falar a última frase.
- Eu escutei isso - afirmou Renegada - você acha que é o bem ou o mal?
- O bem, minha querida - respondeu o Rei - sempre serei o bem. Mas você, minha querida, é a pessoa mais dividida que conheço. Como pode uma fada das trevas ser uma pessoa de tão boa índole?
- Como pode um Rei aparentemente bom ser tão mau? - ironizou Renegada.
- Paremos com a tola discussão - disse Lala - os depoimentos foram suficientes. A verdade virá a tona daqui a uma semana, no julgamento. O crime do Rei será a tentativa de sequestro de uma protegida e a quebra do Tratado. O crime de Renegada será a "espionagem" que fez, pois fez em função do Rei. Mas - disse quando viu a expressão surpresa de Renegada - suspeito que você sairá inocente. Afinal foi chantageada, e creio que não havia outra solução.
- Oh... - murmurou Renegada - sim.
- Ficarão uma semana mantidos em cativeiro - disse Lala já em pé - tenho todos os fatos, e no julgamento vocês os repetirão quantas vezes for necessário. Guarda Real!
Vieram quatro fadas vestidas de branco com dourado para dentro da sala, e se encarregaram de levar Renegada e o Rei para os seus respectivos quartos.
- Calvin... - pensou Renegada consigo mesma - mal sabe o que o destino lhe reserva...
Renegada suprimiu um riso: finalmente descobriram a sua família! Bem que suspeitava dos gestos suspeitos de Maria, ao recolher seu sangue, há muito tempo atrás... definitivamente Maria não era a melhor pessoa para fazer algo escondido.
- Sim. - respondeu Renegada.
- Bem, é uma coisa interessante - disse Lala - mas voltemos ao assunto. Por que você deixou Arthur nas mãos do Rei?
- Porque eu praticamente aproveitei da boa vontade de Renegada e sequestrei o Arthur - o Rei disse gravemente - quando Arthur deixou de amamentar, eu o escondi e disse para Renegada que...
- ...Se eu não o obedecesse prontamente, nunca mais veria meu filho - interrompeu Renegada em um múrmurio frio.
Aammm... Por isso que Renegada odeia tanto o Rei? Por isso que dói amar-lo... afinal, o Rei roubou o filho dela!, refletiu Lala concluindo sobre o caso.
- De modo que trabalhei para Calvin durante dez anos - disse Renegada - só via meu filho de mês em mês, e nunca ele sabia que era eu a sua mãe. - Renegada engoliu em seco, controlando suas lágrimas - há pouco tempo, resolvi parar com essa história. Mas antes de exigir a soltura de Arthur, pressenti a vinda de uma outra fada. Não era das trevas, pelo contrário. Nós, fadas das trevas, chamamos fadas do tipo de Raveneh de "fadas cor-de-rosa". E não sei porquê, tive a sensação que encontraria a salvação se estivesse com ela. De modo que parti, mas mal cheguei ao portão e fui capturada. O Rei previu o meu limite. Ele exigiu que eu contasse sobre tudo.
- Mas você não poderia ter feito algo? - indagou Lala - você é uma fada, ele é mortal comum.
- Mas Calvin conhece as minhas fraquezas - respondeu Renegada - se uma fada amar a outro ser que não seja fada, já fica um pouco mais vulnerável. E ele sabia se prevenir... De modo que eu não podia usar meus poderes em larga escala, nem poderia resistir caso ele me capturasse. O máximo que podia era ficar brava e obedecer. Calvin conseguiu arrancar as informações sobre Raveneh... Ele disse para eu manter-lo informado sobre ela. E fui.
- Encontrei Raveneh, chegamos até as Campinas - continuou Renegada - e voltei em segredo ao castelo. Exigi a soltura, ele não cedeu. Disse-lhe que ele não podia tocar em Raveneh, pois ela estava protegida por mim.
- Espere - interrompeu Lala em um múrmurio de surpresa - Raveneh está sob a sua proteção?
- Sim. Calvin tentou sequestrar-la para me chantagear - disse Renegada - ele não podia matar Arthur, pois este era o herdeiro. Mas com Renegada, era outra história: ele não nutria sentimento por Raveneh, e a mataria sem pestanejar. Mas mesmo sendo avisado de que eu a protegia, Calvin insistiu e tentou sequestrar Raveneh, causando pânico nas Campinas. Bem, isso é tudo.
- Vamos resumir a história: vocês tem um caso, ela tem filho, aí ela é sequestrada, ele a salva e ela como prova de gratidão, aceita criar o filho no castelo - disse Lala apressadamente, tentando resumir a história - mas aí ele pega o menino, e passa chantagear-la, e anos depois, ela não aceita mais a situação e tenta ir embora, e envolve uma menina que não tem nada a ver com a história, e... ok, não falarei mais senão meu cérebro vai dar um nó. Mas e os ataques às Campinas? - observou Lala interrogativamente.
- Isso é puro interesse - disse o Rei - as Campinas são fabulosas, e tomar-las é um sonho de consumo para muitos reis - sorriu - sabe, eu sempre desejei ser o Senhor das Campinas.
- Ah bem - disse Lala - e para isso, quebrou o Tratado.
- Eu não me incomodaria com isso - disse o Rei com um sorriso bastante sinistro - o Tratado foi que as fadas não me protegeriam nem me almadiçoariam, caso eu não invadisse nem as Campinas nem o Reino das Fadas. Bem, meus sonhos foram por terra e não me incomodo de ser julgado e ser condenado.
- Calvin, você vai ser morto, muito provavelmente - disse Renegada séria - sequestrar uma protegida é um crime punido com a morte. E desrespeitar a uma aliança mágica, também.
- Sim. - disse o Rei - eu sabia do que estava fazendo. Mas os nortistas intervieram... bem, o que posso fazer? O menino está bem, com as pessoas das Campinas. Ele tem o meu sangue e o sangue de Kycci. Não poderá existir pessoa mais dividida entre o bem e o mal - o Rei baixou o tom de voz ao falar a última frase.
- Eu escutei isso - afirmou Renegada - você acha que é o bem ou o mal?
- O bem, minha querida - respondeu o Rei - sempre serei o bem. Mas você, minha querida, é a pessoa mais dividida que conheço. Como pode uma fada das trevas ser uma pessoa de tão boa índole?
- Como pode um Rei aparentemente bom ser tão mau? - ironizou Renegada.
- Paremos com a tola discussão - disse Lala - os depoimentos foram suficientes. A verdade virá a tona daqui a uma semana, no julgamento. O crime do Rei será a tentativa de sequestro de uma protegida e a quebra do Tratado. O crime de Renegada será a "espionagem" que fez, pois fez em função do Rei. Mas - disse quando viu a expressão surpresa de Renegada - suspeito que você sairá inocente. Afinal foi chantageada, e creio que não havia outra solução.
- Oh... - murmurou Renegada - sim.
- Ficarão uma semana mantidos em cativeiro - disse Lala já em pé - tenho todos os fatos, e no julgamento vocês os repetirão quantas vezes for necessário. Guarda Real!
Vieram quatro fadas vestidas de branco com dourado para dentro da sala, e se encarregaram de levar Renegada e o Rei para os seus respectivos quartos.
- Calvin... - pensou Renegada consigo mesma - mal sabe o que o destino lhe reserva...
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
Parte 57 - O Poema de Regallian :3
- Mais uma confissão como a de ontem - disse Lala - e vocês já poderão ser julgados.
Renegada olhou para o teto, enquanto o Rei suspirou impaciente.
- Querem que a gente explique a causa e as consequências, não? - indagou Renegada.
- Exatamente isso. - concordou Lala - por favor, poderiam me revelar mais?
Renegada suspirou. Lala acabou refletindo o quão curioso era o fato de ela chegar ali com o intuito de torturar o Rei, mas bastou ser educada e manter os dois juntos que ele colaborava imensamente, respondendo a todas as perguntas. Renegada amante do Rei! Quando poderia chegar a esta conclusão?
Deu sinal verde para que Renegada e o Rei continuassem a história.
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- Siih... - disse Lefi - como está?
- Ammmm... - fez Siih - não consigo... ahn... eu... - ofegou, e tentou levantar a mão.
- Tome - disse Lefi - Vê fez um chá maravilhoso. Por que não o toma?
- Vê é... um amor... de pessoa - suspirou Siih - qual sabor?
- O seu predileto - respondeu Lefi estendendo a xícara - com cubos de chocolate :)
- Wow... - Siih sorriu - Lefi... se eu tenho poderes tão imensos assim, por que não os uso para me recuperar?
- Porque o seu poder é de manipular mentes e corpos - Lefi disse - e a sua doença está justamente nisso. O seu corpo não está preparado para tanto poder assim.
- E por isso estou de cama? Céus, quer dizer que eu posso morrer?
- Exato. - Lefi estava com um tom bastante sombrio - mas você sempre pode abrir mão deles...
- Nunca! - protestou Siih - se eu posso manipular mentes, vai ser a nossa vitória! Basta um piscar de olhos, Lefi, e os nortistas sumirão dos nossos portões!
- O que está dizendo? - surpreendeu-se Lefi.
- Agora está tão claro! Nem me sinto mais doente - Siih olhou para a xícara quase vazia - bendita seja Vê e o seu chá... Veja, eu poderei usar meus poderes para o bem... E meu corpo irá aguentar, eu sei. E se realmente não aguentar... Eu cedo meus poderes!
- Wow. Tenho que admitir que dessa vez você pensou bem, irmã - disse Lefi - bem, o julgamento de Renegada e Rei foi marcado.
- Já? Mas eu nem recebi os relatórios - Siih comentou - se bem que estava doente. Isso quer dizer que Lala conseguiu obter informações! Que bom!
- Sim, Lala diz que em uma semana, terá todas as informações possíveis - disse Lefi - mas ela ainda não contou sobre nada. Somente soltou algumas falas suspeitas, e digo que o Rei e a Renegada falaram muitas preciosidades.
- O julgamento decidirá se o Rei deve voltar a sua terra natal ou ser condenado por desrespeitar o Tratado... - disse Siih mais para si do que para Lefi - e Renegada deverá ser julgada por manter relações com o Rei em segredo, sendo que ele era condenado 'persona non grata' tanto aqui quanto nas Campinas... espero que Renegada saia inocente, já o Rei... espero que a pena seja de morte. Não creio que ele deva ser condenado a danação eterna. Mas... pode parecer que sim, mas na verdade a minha palavra não vale mais que a lei. - Siih respirou fundo - poderia pedir a Vê preparar mais um chá desses? Ele realmente me fez bem! Não duvido que logo possa andar sem sentir dor.
- Que bom, Siih - disse Lefi - é realmente uma boa notícia.
- Bem, vou dormir um pouco - disse Siih - e... não deram mais notícias a respeito do exame de sangue que fizeram. Em Renegada.
- Bem - Lefi observou - o resultado foi que Renegada ocultou as propriedades do seu sangue, e tudo que se pode descobrir foi que ela descende da realeza.
- Mas especificou se era descende diretamente ou não? - indagou Siih.
- Indiretamente. Ao que parece, a família real dela governava alguma região há muitos e muitos anos - disse Lefi - ela não é mais considerada princesa.
- Ela veio do norte... - murmurou Siih - e possui o título 'Renegada'. Porém nasceu no Mundo das Fadas e é uma f ada, mais especificamente, fada das trevas. De que família ela descende?
- Mas isso tem alguma importância no julgamento dela? - Lefi perguntou.
- Talvez sim, talvez não - disse Siih - espere... não houve uma família de f adas que nasciam todas neste reino, mas governavam o Reino Kuppytta? (N/A: pronuncia-se 'cupita') Eu lembro da lenda... era cantada por mamãe, lembra, irmão?
Siih ajoelhou-se na cama, soltando somente um múrmurio de dor e começou a entoar um cântico.
Há muitos anos, quase ninguém se lembra
Houve uma família tão bonita
Era o pai e a mãe e quatro filhas
E uma estrada sempre dourada
A mulher sempre ia parir aqui
E logo depois agradecia e ia partir
Ia embora por uma estrada
Sempre dourada
Eles governavam o reino de Kuppytta
E eram tidas como seres das trevas
Mas... não eram cruéis, nem sem-coração
Somente nasciam como seres ocultos
Seu sangue era oculto para nós
E seus encantos eram desconhecidos
Para nós
Um dia desses, encontrei uma princesa
Que era dessa família
Contou-me uma triste história
E eu venho a relatar-la
O reino sucumbiu
A família inteira foi morta
Por outra família rival
Os sobreviventes foram embora
E nunca mais haver reino igual
Hoje ainda existem
Os filhos dos filhos dos filhos
E eles hojem foram renegados
E carregam esse triste título
Vivem entre as sombras
Escondendo-se na escuridão
Eles não são sem-coração
Mas sabem fazer dos seus poderes
Um perigo...
- Uau - disse Lefi.
- Acho que sabemos agora a ascendência de Renegada - disse Siih com um sorriso - comunique isso a Lala, por favor.
Renegada olhou para o teto, enquanto o Rei suspirou impaciente.
- Querem que a gente explique a causa e as consequências, não? - indagou Renegada.
- Exatamente isso. - concordou Lala - por favor, poderiam me revelar mais?
Renegada suspirou. Lala acabou refletindo o quão curioso era o fato de ela chegar ali com o intuito de torturar o Rei, mas bastou ser educada e manter os dois juntos que ele colaborava imensamente, respondendo a todas as perguntas. Renegada amante do Rei! Quando poderia chegar a esta conclusão?
Deu sinal verde para que Renegada e o Rei continuassem a história.
--------------------------
- Siih... - disse Lefi - como está?
- Ammmm... - fez Siih - não consigo... ahn... eu... - ofegou, e tentou levantar a mão.
- Tome - disse Lefi - Vê fez um chá maravilhoso. Por que não o toma?
- Vê é... um amor... de pessoa - suspirou Siih - qual sabor?
- O seu predileto - respondeu Lefi estendendo a xícara - com cubos de chocolate :)
- Wow... - Siih sorriu - Lefi... se eu tenho poderes tão imensos assim, por que não os uso para me recuperar?
- Porque o seu poder é de manipular mentes e corpos - Lefi disse - e a sua doença está justamente nisso. O seu corpo não está preparado para tanto poder assim.
- E por isso estou de cama? Céus, quer dizer que eu posso morrer?
- Exato. - Lefi estava com um tom bastante sombrio - mas você sempre pode abrir mão deles...
- Nunca! - protestou Siih - se eu posso manipular mentes, vai ser a nossa vitória! Basta um piscar de olhos, Lefi, e os nortistas sumirão dos nossos portões!
- O que está dizendo? - surpreendeu-se Lefi.
- Agora está tão claro! Nem me sinto mais doente - Siih olhou para a xícara quase vazia - bendita seja Vê e o seu chá... Veja, eu poderei usar meus poderes para o bem... E meu corpo irá aguentar, eu sei. E se realmente não aguentar... Eu cedo meus poderes!
- Wow. Tenho que admitir que dessa vez você pensou bem, irmã - disse Lefi - bem, o julgamento de Renegada e Rei foi marcado.
- Já? Mas eu nem recebi os relatórios - Siih comentou - se bem que estava doente. Isso quer dizer que Lala conseguiu obter informações! Que bom!
- Sim, Lala diz que em uma semana, terá todas as informações possíveis - disse Lefi - mas ela ainda não contou sobre nada. Somente soltou algumas falas suspeitas, e digo que o Rei e a Renegada falaram muitas preciosidades.
- O julgamento decidirá se o Rei deve voltar a sua terra natal ou ser condenado por desrespeitar o Tratado... - disse Siih mais para si do que para Lefi - e Renegada deverá ser julgada por manter relações com o Rei em segredo, sendo que ele era condenado 'persona non grata' tanto aqui quanto nas Campinas... espero que Renegada saia inocente, já o Rei... espero que a pena seja de morte. Não creio que ele deva ser condenado a danação eterna. Mas... pode parecer que sim, mas na verdade a minha palavra não vale mais que a lei. - Siih respirou fundo - poderia pedir a Vê preparar mais um chá desses? Ele realmente me fez bem! Não duvido que logo possa andar sem sentir dor.
- Que bom, Siih - disse Lefi - é realmente uma boa notícia.
- Bem, vou dormir um pouco - disse Siih - e... não deram mais notícias a respeito do exame de sangue que fizeram. Em Renegada.
- Bem - Lefi observou - o resultado foi que Renegada ocultou as propriedades do seu sangue, e tudo que se pode descobrir foi que ela descende da realeza.
- Mas especificou se era descende diretamente ou não? - indagou Siih.
- Indiretamente. Ao que parece, a família real dela governava alguma região há muitos e muitos anos - disse Lefi - ela não é mais considerada princesa.
- Ela veio do norte... - murmurou Siih - e possui o título 'Renegada'. Porém nasceu no Mundo das Fadas e é uma f ada, mais especificamente, fada das trevas. De que família ela descende?
- Mas isso tem alguma importância no julgamento dela? - Lefi perguntou.
- Talvez sim, talvez não - disse Siih - espere... não houve uma família de f adas que nasciam todas neste reino, mas governavam o Reino Kuppytta? (N/A: pronuncia-se 'cupita') Eu lembro da lenda... era cantada por mamãe, lembra, irmão?
Siih ajoelhou-se na cama, soltando somente um múrmurio de dor e começou a entoar um cântico.
Há muitos anos, quase ninguém se lembra
Houve uma família tão bonita
Era o pai e a mãe e quatro filhas
E uma estrada sempre dourada
A mulher sempre ia parir aqui
E logo depois agradecia e ia partir
Ia embora por uma estrada
Sempre dourada
Eles governavam o reino de Kuppytta
E eram tidas como seres das trevas
Mas... não eram cruéis, nem sem-coração
Somente nasciam como seres ocultos
Seu sangue era oculto para nós
E seus encantos eram desconhecidos
Para nós
Um dia desses, encontrei uma princesa
Que era dessa família
Contou-me uma triste história
E eu venho a relatar-la
O reino sucumbiu
A família inteira foi morta
Por outra família rival
Os sobreviventes foram embora
E nunca mais haver reino igual
Hoje ainda existem
Os filhos dos filhos dos filhos
E eles hojem foram renegados
E carregam esse triste título
Vivem entre as sombras
Escondendo-se na escuridão
Eles não são sem-coração
Mas sabem fazer dos seus poderes
Um perigo...
- Uau - disse Lefi.
- Acho que sabemos agora a ascendência de Renegada - disse Siih com um sorriso - comunique isso a Lala, por favor.
sábado, 13 de outubro de 2007
Parte 56 - Rei e Renegada explicam o que houve há dez anos atrás (I Depoimento)
- Iuihuu!! - exclamou uma Raveneh radiante, diante de Johnny que lia o jornal do dia.
- Raveneh? - disse Johnny surpreso.
A Raveneh rodopiou contente, mostrando as longas madeixas loiras. É, Raveneh tirara a tinta negra.
- Voltou a ser loira? - riu Johnny - ficou mais linda ainda!
- Ah... ser morena me fazia lembrar Catherine - disse Raveneh com tristeza - era só nela em que eu pensava. Sabe, nós somos parecidas em boca, olhos, essas coisas.
- Wow... - fez Johnny - é um motivo válido.
- Oh sim! - Raveneh rodopiou mais uma vez - eu amo ser loira!
Johnny sorriu, e logo lembrou:
- Não é a hora da terapia?
- Hmmm - fez Raveneh - preciso mesmo ir?
- Você precisa de tratamento, Raveneh - observou Johnny.
- Mas eu já superei! - insistiu Raveneh - com uma consulta, mas já superei. E...
Raveneh suspirou.
- É por causa da Catherine, não é? - indagou.
- Ca... o quê?
- Catherine, minha irmã. Eu falo demais sobre ela...
- Não é por isso - Johnny disse - por favor, vá.
Raveneh assumiu um aspecto triste, e olhando vagamente para o céu, disse:
- Está bem, Johnny. Não é tão ruim passar uma hora por semana com a Gika, afinal das contas.
Johnny sorriu, e erguendo o rosto, beijou Raveneh na testa suavemente.
Raveneh levantou o rosto, com o olhar sombrio e uma voz séria:
- Sabe, Johnny - disse Raveneh - eu odeio a Catherine. Será que tal ódio foi o que fez fazer-la surgir dentro de mim?
- Hã?
--------------------------
- Já se passaram muitos dias - disse Lala - e não descobrimos muitas coisas interessantes. Vocês só sabem me enrolar.
O Rei riu.
- Lala - suspirou Renegada - eu tive o filho com o Rei, que é o Arthur, e eu desejo ver-lo, ao menos.
- Renegada - disse Lala ignorando a afirmação da Mycil - você é uma fada das trevas. Estou correta, não?
- Sim, em absoluto - confirmou Renegada.
- Por que não utiliza de seus poderes para livrar-se da prisão? Você não me parece uma iniciante, muito pelo contrário - indagou Lala.
- Porque - Renegada baixou o olhar, triste - quando se perde a liberdade, seus poderes se vão e só restam os mais inúteis.
- Só por isso? - disse Lala.
- Só? Bem, também foi porque eu desejei que tudo fosse esclarecido, e também... - Renegada levantou o olhar com um sorriso bastante sinistro - eu acabei por deixar o ódio tomar meu coração...
Lala se assustou com a última afirmação, mas não demonstrou tal surpresa. Somente ficou séria, e perguntou:
- Por que Arthur veio a cair nas mãos do Rei?
Renegada mordeu o lábio inferior, o Rei riu.
- Bem - disse o Rei - digamos que Kycci foi capturada.
- Por quem? - Lala anotava tudo, mesmo que o pássaro gravasse tudo em sua mente.
- Pelos nortistas - disse Renegada - fui tida como uma traidora. Há dez anos, fui ser empregada na Conferência servindo aos nortistas, envolvi-me com o Calvin, enfim, o que você já sabe. Quando eu engravidei, Calvin disse para eu voltar a minha terra. Ele renegou a mim e ao filho. Isso você já sabe também.
- Sim, mas eu quero saber... por que foi capturada?
- Insisti e preferi ficar morar no reino de Heppaceneoh. E foi justamente na Ofensiva Sexta, a sexta vez que os nortistas tentaram tomar o reino. Estava grávida de sete meses - Renegada suspirou - sabe, e eu tinha que aturar aquele castelo cheio de festas, luzes, o escambau. Ainda por cima, quando estava grávida, o Calvin casou-se com aquela vagabunda da Seelie.
- Hey, a Seelie não é uma vagabunda! - protestou o Rei - aliás...
- Aquela mulherzinha não era vagabunda? - Renegada riu sarcasticamente - ah, você me faz rir! Seelie era uma vadia completa, só você que não viu. Ainda bem que morreu tão logo que casou. Mas uma vez corno, corno para sempre - gargalhou de uma forma desagrável que fez Lala se arrepiar toda.
O Rei mordeu o lábio inferior, furioso.
- Quando eu tive Arthur, foi no dia em que os nortistas tentaram invadir a cidade - contou Renegada - lembro muito bem, como se fosse ontem. Era noite, e eu estava sozinha. Da minha janela, dava-se para ver as luzes do castelo a brilhar. Lá dentro eu podia imaginar Calvin e Seelie, e eu me roía por dentro com isso. Eu não podia chegar ao castelo e dizer que eu estava grávida dele na frente de todos, senão meu pescoço iria rolar. Sabe, Calvin sabe enganar uma mulher muito bem. Ele não nutre sentimentos por ninguém, ele finge, engana, trapaceia. É uma coisa triste de se ver.
- Nesta noite, deitei-me na cama e senti as contrações. Foi a maior dor que eu senti na minha vida, e foi ainda mais dolorosa o fato de eu estar completamente sozinha. Lynda, antes de eu partir, disse para mim que estaria sempre comigo, não importando a situação. As fadas, de modo geral, podem manter contato mental uma com a outra. Acho que foi somente isso que me salvou naquela noite: Lynda se comunicar comigo, mesmo estando muito longe. Banhei-me, e lavei o Arthur com imenso carinho. Era meu filho. Somente meu. A esta hora, os nortistas foram derrotados na primeira batalha. No dia seguinte, visitei o Rei para parabenizar-lo pela vitória na primeira batalha, como muitos cidadãos fazem. A Rainha Seelie recebeu-me bem, mas ela nunca gostou de mim e sempre suspeitou das minhas reais intenções. Apresentei-me ao Rei, e apresentei-lhe também o Arthur. Foi o maior erro que cometi. Logo ele começou com uma conversa mole de que eu tinha que dar o filho para ele, coisa que recusei. Ele não falou nada. Voltei para a casa, e continuei a criar meu filho. Enquanto isso a guerra acontecia. Foi um ano e meio de guerra, devo dizer. Já estávamos no meio, e os dois lados estavam cansados, exaustos. Nessa época que o Rei resolveu contar com a ajuda das Campinas e das Fadas. Quando meu bebê tinha dois meses de vida, vi as fadas marchando vigorosamente nas ruas. Pressenti que algo de grandioso iria acontecer. Também vi as pessoas das Campinas. Eram sorridentes, felizes. Ah, como eu as invejei naquele momento. Eu poderia chegar com o bebê lá, eram tão receptivos!
- Aos três meses, as fadas começaram a vencer os nortistas e resolvi me apresentar de novo ao Rei. Ele continuou com a mesma proposta, e disse que a Seelie não conseguia engravidar sem abortar. Dizia que ela era estéril. Maldita, tenho certeza de que ela abortava de propósito. Quando as fadas conseguiram matar a maior parte dos nortistas, Seelie ficou grávida novamente. E quando ela completou dois meses de gravidez, uns nortistas penetraram o castelo e mataram quase todos os empregados. Sequestraram a rainha Seelie e disseram que se não entregasse as minas de Ockötti, eles iriam matar a Rainha. Seelie passou quatro semanas com os nortistas, mantida em cativeiro.
Renegada silenciou, cansada de tanto falar. O Rei então passou a continuar a história que Renegada contava:
- Fiz um trato com as fadas para que salvassem o meu reino. Almejava na época tomar as Campinas, mas agora precisava do apoio daquele povo. As fadas concordaram em me ajudar e em não me machucarem, contanto que eu não machucasse ninguém sob a proteção das fadas ou do povo das Campinas. Elas conseguiram descobrir onde a Seelie estava presa, e mataram todos os nortistas em volta. Mas quando chegaram, Seelie estava muito fraca e sangrando. Lembro até hoje... foi terrível. Ela tentava respirar, seu vestido estava todo rasgado, e vários cortes que não se fechavam. Uma das fadas disse que ela teve sorte, pois normalmente os nortistas costumam decepar partes do corpo, coisa que não ocorrera com Seelie. Claro, ela abortara. Um corte profundo ferira-lhe o ventre, e ela já não podia sequer engravidar. A ferida se infeccionou. Ela caiu morta uma semana após o resgate, e nada pude fazer para salvar-la. As fadas fizeram um ataque surpresa, e derrotaram os nortistas de vez. No funeral da Seelie, Kycci veio me dar os pêsames e lhe pedir mais uma vez que me entregasse Arthur...
- Mandou - rosnou Renegada virando a cara para o outro.
- Não me interrompa, senhorita - rosnou o Rei - ok, eu mandei. Ela se recusou a entregar o bebê. Porém ela acabara se envolvendo no submundo, onde rola muitos crimes. Havia, na época, um Sir Mük que era um cafetão e traficante de drogas ilegais. Kycci ajudou várias prostitutas a fugirem e conseguiu saber demais, causando prejuízo ao negócio do Sir Mük, e ela acabou sendo sequestrada e Arthur feito de refém.
- Não sabia o que fazer - continuou Renegada - não sabia que tempo havia passado desde que eu fora sequestrada, eu já estava em carne viva de tanto que eles me machucaram. E eu não sabia o que estavam fazendo com o meu filho... foi nessa época que Arthur ganhou a maior parte da proteção dele. Quando uma fada é mãe, ela não sabe os limites. Ela enlouquece caso o filho esteja em perigo, e muito provavelmente abrirá mão dos seus poderes para proteger o filho. Foi o que eu fiz. Eu sabia que Arthur estava vivo, só não sabia se ele estava bem. De modo que cedi os meus poderes para meu filho, e fiz com que ele suportasse. E quando já estava fraca, consegui fazer que um pássaro contasse o que ocorrera para o Rei.
- Assim - disse o Rei muito sério - eu soube do sequestro. De modo que mandei tropas escondidas. Renegada me dissera pelo pássaro onde o bebê estava, ela sabia, só não tinha forças para resgatar-lo. Consegui resgatar o bebê, e matei pessoalmente todos aqueles que "brincavam" com Arthur. Agradeci por Kycci ter cedido seus poderes para Arthur, senão ele não teria sobrevivido a aquela tortura. Não fora machucado, nem nada. Mas o terror daqueles homens, os gritos, os 'bilu-bilus' maldosos... Arthur tem pesadelos até hoje por causa disso.
Renegada respirou fundo mais uma vez e continuou:
- O Sir Mük irrompeu no meu 'quarto' e me xingou de 'vadia' e outras coisas mais. Estendia uma faca, e já ia me matar. Normalmente fadas não morrem com uma facada, mas eu já estava tão fraca e sem meus poderes que eu morreria ali mesmo. Nessa hora o Rei o matou e me resgatou. Fui levada até o castelo, e consegui me recuperar bem, conseguindo até mesmo alguns dos poderes de volta. Mas Arthur ficaria para sempre protegido magicamente por mim. Calvin, disse, então que eu estava devendo a ele. "Nojento!" eu disse "você está me chantageando?". "Chantageando?" ele disse "não, não seria isso. Só digo que você deveria dar o seu filho para eu criar-lo. Mas você poderia viver aqui se quiser". Então, por "gratidão", aceitei a proposta. Entreguei Arthur, contanto que ele me mantivesse no castelo, por perto. Mas as coisas começaram a ficar perigosas...
Lala ficou em silêncio, anotando tudo o que ouvira.
Estava ainda na parte das causas dos problemas, agora precisava chegar quando chegaram as consequências.
N/A: a partir de agora, finalmente a historinha vai entrar na reta final. (:
- Raveneh? - disse Johnny surpreso.
A Raveneh rodopiou contente, mostrando as longas madeixas loiras. É, Raveneh tirara a tinta negra.
- Voltou a ser loira? - riu Johnny - ficou mais linda ainda!
- Ah... ser morena me fazia lembrar Catherine - disse Raveneh com tristeza - era só nela em que eu pensava. Sabe, nós somos parecidas em boca, olhos, essas coisas.
- Wow... - fez Johnny - é um motivo válido.
- Oh sim! - Raveneh rodopiou mais uma vez - eu amo ser loira!
Johnny sorriu, e logo lembrou:
- Não é a hora da terapia?
- Hmmm - fez Raveneh - preciso mesmo ir?
- Você precisa de tratamento, Raveneh - observou Johnny.
- Mas eu já superei! - insistiu Raveneh - com uma consulta, mas já superei. E...
Raveneh suspirou.
- É por causa da Catherine, não é? - indagou.
- Ca... o quê?
- Catherine, minha irmã. Eu falo demais sobre ela...
- Não é por isso - Johnny disse - por favor, vá.
Raveneh assumiu um aspecto triste, e olhando vagamente para o céu, disse:
- Está bem, Johnny. Não é tão ruim passar uma hora por semana com a Gika, afinal das contas.
Johnny sorriu, e erguendo o rosto, beijou Raveneh na testa suavemente.
Raveneh levantou o rosto, com o olhar sombrio e uma voz séria:
- Sabe, Johnny - disse Raveneh - eu odeio a Catherine. Será que tal ódio foi o que fez fazer-la surgir dentro de mim?
- Hã?
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- Já se passaram muitos dias - disse Lala - e não descobrimos muitas coisas interessantes. Vocês só sabem me enrolar.
O Rei riu.
- Lala - suspirou Renegada - eu tive o filho com o Rei, que é o Arthur, e eu desejo ver-lo, ao menos.
- Renegada - disse Lala ignorando a afirmação da Mycil - você é uma fada das trevas. Estou correta, não?
- Sim, em absoluto - confirmou Renegada.
- Por que não utiliza de seus poderes para livrar-se da prisão? Você não me parece uma iniciante, muito pelo contrário - indagou Lala.
- Porque - Renegada baixou o olhar, triste - quando se perde a liberdade, seus poderes se vão e só restam os mais inúteis.
- Só por isso? - disse Lala.
- Só? Bem, também foi porque eu desejei que tudo fosse esclarecido, e também... - Renegada levantou o olhar com um sorriso bastante sinistro - eu acabei por deixar o ódio tomar meu coração...
Lala se assustou com a última afirmação, mas não demonstrou tal surpresa. Somente ficou séria, e perguntou:
- Por que Arthur veio a cair nas mãos do Rei?
Renegada mordeu o lábio inferior, o Rei riu.
- Bem - disse o Rei - digamos que Kycci foi capturada.
- Por quem? - Lala anotava tudo, mesmo que o pássaro gravasse tudo em sua mente.
- Pelos nortistas - disse Renegada - fui tida como uma traidora. Há dez anos, fui ser empregada na Conferência servindo aos nortistas, envolvi-me com o Calvin, enfim, o que você já sabe. Quando eu engravidei, Calvin disse para eu voltar a minha terra. Ele renegou a mim e ao filho. Isso você já sabe também.
- Sim, mas eu quero saber... por que foi capturada?
- Insisti e preferi ficar morar no reino de Heppaceneoh. E foi justamente na Ofensiva Sexta, a sexta vez que os nortistas tentaram tomar o reino. Estava grávida de sete meses - Renegada suspirou - sabe, e eu tinha que aturar aquele castelo cheio de festas, luzes, o escambau. Ainda por cima, quando estava grávida, o Calvin casou-se com aquela vagabunda da Seelie.
- Hey, a Seelie não é uma vagabunda! - protestou o Rei - aliás...
- Aquela mulherzinha não era vagabunda? - Renegada riu sarcasticamente - ah, você me faz rir! Seelie era uma vadia completa, só você que não viu. Ainda bem que morreu tão logo que casou. Mas uma vez corno, corno para sempre - gargalhou de uma forma desagrável que fez Lala se arrepiar toda.
O Rei mordeu o lábio inferior, furioso.
- Quando eu tive Arthur, foi no dia em que os nortistas tentaram invadir a cidade - contou Renegada - lembro muito bem, como se fosse ontem. Era noite, e eu estava sozinha. Da minha janela, dava-se para ver as luzes do castelo a brilhar. Lá dentro eu podia imaginar Calvin e Seelie, e eu me roía por dentro com isso. Eu não podia chegar ao castelo e dizer que eu estava grávida dele na frente de todos, senão meu pescoço iria rolar. Sabe, Calvin sabe enganar uma mulher muito bem. Ele não nutre sentimentos por ninguém, ele finge, engana, trapaceia. É uma coisa triste de se ver.
- Nesta noite, deitei-me na cama e senti as contrações. Foi a maior dor que eu senti na minha vida, e foi ainda mais dolorosa o fato de eu estar completamente sozinha. Lynda, antes de eu partir, disse para mim que estaria sempre comigo, não importando a situação. As fadas, de modo geral, podem manter contato mental uma com a outra. Acho que foi somente isso que me salvou naquela noite: Lynda se comunicar comigo, mesmo estando muito longe. Banhei-me, e lavei o Arthur com imenso carinho. Era meu filho. Somente meu. A esta hora, os nortistas foram derrotados na primeira batalha. No dia seguinte, visitei o Rei para parabenizar-lo pela vitória na primeira batalha, como muitos cidadãos fazem. A Rainha Seelie recebeu-me bem, mas ela nunca gostou de mim e sempre suspeitou das minhas reais intenções. Apresentei-me ao Rei, e apresentei-lhe também o Arthur. Foi o maior erro que cometi. Logo ele começou com uma conversa mole de que eu tinha que dar o filho para ele, coisa que recusei. Ele não falou nada. Voltei para a casa, e continuei a criar meu filho. Enquanto isso a guerra acontecia. Foi um ano e meio de guerra, devo dizer. Já estávamos no meio, e os dois lados estavam cansados, exaustos. Nessa época que o Rei resolveu contar com a ajuda das Campinas e das Fadas. Quando meu bebê tinha dois meses de vida, vi as fadas marchando vigorosamente nas ruas. Pressenti que algo de grandioso iria acontecer. Também vi as pessoas das Campinas. Eram sorridentes, felizes. Ah, como eu as invejei naquele momento. Eu poderia chegar com o bebê lá, eram tão receptivos!
- Aos três meses, as fadas começaram a vencer os nortistas e resolvi me apresentar de novo ao Rei. Ele continuou com a mesma proposta, e disse que a Seelie não conseguia engravidar sem abortar. Dizia que ela era estéril. Maldita, tenho certeza de que ela abortava de propósito. Quando as fadas conseguiram matar a maior parte dos nortistas, Seelie ficou grávida novamente. E quando ela completou dois meses de gravidez, uns nortistas penetraram o castelo e mataram quase todos os empregados. Sequestraram a rainha Seelie e disseram que se não entregasse as minas de Ockötti, eles iriam matar a Rainha. Seelie passou quatro semanas com os nortistas, mantida em cativeiro.
Renegada silenciou, cansada de tanto falar. O Rei então passou a continuar a história que Renegada contava:
- Fiz um trato com as fadas para que salvassem o meu reino. Almejava na época tomar as Campinas, mas agora precisava do apoio daquele povo. As fadas concordaram em me ajudar e em não me machucarem, contanto que eu não machucasse ninguém sob a proteção das fadas ou do povo das Campinas. Elas conseguiram descobrir onde a Seelie estava presa, e mataram todos os nortistas em volta. Mas quando chegaram, Seelie estava muito fraca e sangrando. Lembro até hoje... foi terrível. Ela tentava respirar, seu vestido estava todo rasgado, e vários cortes que não se fechavam. Uma das fadas disse que ela teve sorte, pois normalmente os nortistas costumam decepar partes do corpo, coisa que não ocorrera com Seelie. Claro, ela abortara. Um corte profundo ferira-lhe o ventre, e ela já não podia sequer engravidar. A ferida se infeccionou. Ela caiu morta uma semana após o resgate, e nada pude fazer para salvar-la. As fadas fizeram um ataque surpresa, e derrotaram os nortistas de vez. No funeral da Seelie, Kycci veio me dar os pêsames e lhe pedir mais uma vez que me entregasse Arthur...
- Mandou - rosnou Renegada virando a cara para o outro.
- Não me interrompa, senhorita - rosnou o Rei - ok, eu mandei. Ela se recusou a entregar o bebê. Porém ela acabara se envolvendo no submundo, onde rola muitos crimes. Havia, na época, um Sir Mük que era um cafetão e traficante de drogas ilegais. Kycci ajudou várias prostitutas a fugirem e conseguiu saber demais, causando prejuízo ao negócio do Sir Mük, e ela acabou sendo sequestrada e Arthur feito de refém.
- Não sabia o que fazer - continuou Renegada - não sabia que tempo havia passado desde que eu fora sequestrada, eu já estava em carne viva de tanto que eles me machucaram. E eu não sabia o que estavam fazendo com o meu filho... foi nessa época que Arthur ganhou a maior parte da proteção dele. Quando uma fada é mãe, ela não sabe os limites. Ela enlouquece caso o filho esteja em perigo, e muito provavelmente abrirá mão dos seus poderes para proteger o filho. Foi o que eu fiz. Eu sabia que Arthur estava vivo, só não sabia se ele estava bem. De modo que cedi os meus poderes para meu filho, e fiz com que ele suportasse. E quando já estava fraca, consegui fazer que um pássaro contasse o que ocorrera para o Rei.
- Assim - disse o Rei muito sério - eu soube do sequestro. De modo que mandei tropas escondidas. Renegada me dissera pelo pássaro onde o bebê estava, ela sabia, só não tinha forças para resgatar-lo. Consegui resgatar o bebê, e matei pessoalmente todos aqueles que "brincavam" com Arthur. Agradeci por Kycci ter cedido seus poderes para Arthur, senão ele não teria sobrevivido a aquela tortura. Não fora machucado, nem nada. Mas o terror daqueles homens, os gritos, os 'bilu-bilus' maldosos... Arthur tem pesadelos até hoje por causa disso.
Renegada respirou fundo mais uma vez e continuou:
- O Sir Mük irrompeu no meu 'quarto' e me xingou de 'vadia' e outras coisas mais. Estendia uma faca, e já ia me matar. Normalmente fadas não morrem com uma facada, mas eu já estava tão fraca e sem meus poderes que eu morreria ali mesmo. Nessa hora o Rei o matou e me resgatou. Fui levada até o castelo, e consegui me recuperar bem, conseguindo até mesmo alguns dos poderes de volta. Mas Arthur ficaria para sempre protegido magicamente por mim. Calvin, disse, então que eu estava devendo a ele. "Nojento!" eu disse "você está me chantageando?". "Chantageando?" ele disse "não, não seria isso. Só digo que você deveria dar o seu filho para eu criar-lo. Mas você poderia viver aqui se quiser". Então, por "gratidão", aceitei a proposta. Entreguei Arthur, contanto que ele me mantivesse no castelo, por perto. Mas as coisas começaram a ficar perigosas...
Lala ficou em silêncio, anotando tudo o que ouvira.
Estava ainda na parte das causas dos problemas, agora precisava chegar quando chegaram as consequências.
N/A: a partir de agora, finalmente a historinha vai entrar na reta final. (:
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