domingo, 10 de maio de 2009

Parte 82 - Desperdício.

O abrigo estava um forno durante a noite.
- May não pára de chorar! - Raveneh gemia, mas Rafitcha só fazia responder que como todas as uvas foram arruinadas na invasão dos três demônios, as folhas simplesmente morreram, ou seja, sem chance de se realizar os feitiços para refrescar o ambiente sem a matéria-prima.
- Se não está contente, crie você alguma mágica para isso. Não é fada? - retrucou Rafitcha, complementando.
Todas as mulheres usavam dos mais leves vestidos que tinham, exceto as que usavam calças como Umrae e Bia. Umrae sequer reclamava do calor, sua frieza se acentuando a cada palavra dita por Bel, que falava bem baixinho.
- Esses dragões todos me dão medo - confessou Amai que arregaçou as mangas do vestido até o ombro, e mesmo assim, já se formava uma camada de suor sobre sua pele pálida - eles não podem matar a gente?
- Relaxa - Raven respondeu, com a sua habitual voz tranquilizadora, enquanto cuidava das ervas que tinha colhido mais cedo a pedido de Raveneh - esses dragões são do tipo mestiço, o tipo bonzinho.
Amai deu um sorriso contorcido de incredulidade, e Raven logo corrigiu:
- Claro, eles estraçalharão com você se for estúpida a ponto de lançar uma flecha contra eles, mas - nesse ponto ele parou o que fazia, seus olhos bondosos - relaxa. Eles estão do nosso lado-
- Não falo dos mestiços! - Amai exclamou, impaciente - eu falo dos verdadeiros que andam por entre a gente em forma humana!
Ela parecia sinceramente apavorada. Raven sorriu, consolador, e deslizou sua mão direita, grande e áspera pelo duro trabalho no campo, pelos cabelos ruivos de Amai, a fazendo respirar melhor e ficar mais calma.
- Amai, eles são legais - disse calmamente - sabe, acho que Keishara seria uma boa amiga para você.
- Não quero ela como minha amiga - Amai reclamou - não quero nenhum deles como amigo.
- Que erro - Raven murmurou - eles podem ser legais.
Amai fechou os olhos, ignorando os dedos de Raven lhe acalmando gentilmente. Sentia calor demais, era verdade, mas não podia conter um arrepio na espinha quando avistava aquela de cabelos vermelhos e olhos estranhos, ou quando cruzou com a tal da Keishara e sentiu sua frieza, ou pior ainda, quando seu olhar se encontrava com o de Erevan. Nunca, nunca, nunca vira dois olhos tão profundos, tão negros, tão sinistros e malvados. Sentia tanto tanto medo!

- Onde estão as pessoas de Grillindor? - Tatiih perguntou enquanto contava os lugares na mesa para ordenar os pratos. Rafitcha respondeu, também contando os lugares.
- Com os dragões - resmungou arrumando uma prega usual em alguma parte da toalha sobre a mesa - eles estão cuidando para que não fujam, coisa do tipo.
- Uau - Tatiih deu um suspiro cortado de admiração. A idéia de ver dragões lhe parecia fascinante.
- É mais boca para alimentar - Rafitcha não parecia nada feliz, seus olhos frios como um punhal de prata - ainda mais com Raveneh que não pode ajudar a nós completamente, já que tem a May... e ela está chorando de novo - rosnou baixinho raivosamente - eu adoro crianças, mas isso não quer dizer que não tenho vontade de jogar a desgraçada em um poço e largá-la!
Tatiih riu com a ira de Rafitcha:
- Relaxa - Tatiih suspirou mais longamente e em tom de consolo - crianças são chatas e inúteis, mas o que se pode fazer? Não se pode matá-las nem dar veneno, sem correr o risco de morrer dolorosamente e lentamente. Então resta a nós aguentar todo o choro da criança. Pense que quando ela crescer, você poderá se vingar.
- Se estivermos vivas, eu e ela, pode apostar - Rafitcha disse entredentes, sua frieza irada excedendo os limites da normalidade quando Johnny entrou na sala, de calças azul-marinho e peito nu, cabelos molhados do banho recém-tomado no rio, um luxo que estava com dias contados - aonde você foi? No rio?
- Sim, irmã - Johnny beijou a face de Rafitcha, mas ela sequer sonhou em sorrir.
- Por que não tomou banho aqui? - perguntou Rafitcha, sua expressão ríspida - temos água! Por que se arriscar a ir para o rio? É perigoso, sabia?
- Calma, irmãzinha... - Johnny sussurrou, tentando parecer tranquilo, mas sua voz só sumia a cada palavra dura dita por Rafitcha que fuzilava os copos - porfav-
- CALMA? - Rafitcha virou o rosto para Johnny, parecendo a própria fúria em pessoa - Calma? - mas a sua ira se esvaiu na própria crueldade mantida cuidadosamente e cuspida em cada palavra - Johnny, você tem uma esposa e uma filha. Lembre-se que a sua esposa sempre está a beira de perder o senso de si mesma. E lembre-se, Johnny, que estamos em uma maldita guerra em que há demônios e dragões lá fora - sua voz tornara-se um sussurro tão perverso que Johnny se arrepiava com cada rosnar latente em cada letra sussurrada - Johnny, rios não são lugares seguros, entendeu? Nem rios, nem florestas, nem plantações! Ou seja, lugares que não sejam seguros só em situações necessárias, entendeu?
- Sim - Johnny respondeu em um fio de voz.
- Ótimo, agora vá calar a boca da sua cria - Rafitcha rosnou, o que o irmão fez prontamente, sem nem sequer imaginar em desobedecer.
Tatiih ergueu as sobrancelhas, murmurando um "uau", mas sem emitir som. Parecia impressionada com o talento desconhecido de Rafitcha em parecer uma irmã perversa e manipuladora quando quisesse.


- Uuufff - Polly passou a mão pela testa, cansada, mas seu sorriso decorando o rosto com leveza.
Ratta se recostou ao seu lado, também parecendo feliz e cansada.
- Bonito lugar, não? - Ratta opinou, olhando em volta. Polly concordou:
- Bom lugar para morar, em tempos de paz.
- E o céu é fabuloso, olha só! - Ratta olhou para o céu todo estrelado - mas o céu é o mesmo em qualquer lugar, não é?
- Sim - Polly ronronou - aqui, Grillindor, o lugar onde nasci e onde você nasceu também.
- Onde nasci? - Ratta soltou um ruído como um ronronhar duvidoso - com certeza, não. Se o céu de lá fosse como esse - apontou para o céu estrelado - eu nunca veria necessidade de sair de lá.
- Que deprimente - Polly disse risonha - pelo menos saiu de lá. E veio pra cá, sendo soldada a serviço da Grillindor, amada pátria! *-*
- Wow.
- Hey, quer fazer uma aposta? - Polly indagou, seus olhos grandes e castanhos encarando uma folha que arrancara e despedaçava com cuidado. Ratta assentiu com entusiasmo, sua cauda balançando de empolgação. Polly sorriu enviesadamente, orgulhosamente:
- Aposto quatro ouros que Zidaly sobrevive, no máximo, um mês aqui.
Ratta riu com gosto.
- Pois eu aposto sete ouros que ela não passa de duas semanas!
Ouros era a moeda corrente em Grillindor, e ela valia cerca de um gm' e meio no Mundo das Fadas. Claro, com todos os ataques sucessivos dos demônios e tudo o mais, a inflação aumentara descontroladamente, o que significava que um ouro de Grillindor poderia chegar a vinte gm's em dias excepcionalmente complicados.
- E se ela sobreviver mais? - Ratta interrogou, mas a resposta foi óbvia:
- Todos os ouros entregues a ela!
As duas sorriram para a escuridão.

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Ravèh estava na rua.
Largara um garoto morto na calçada ali atrás, mas embora seus rins fossem nutritivos e sua carne fosse apetitosa, ainda assim não havia o tempero especial que fazia com que ela concluisse uma refeição até o fim. Seus cabelos loiros se ondulavam com a menor brisa, seus olhos felinos se aguçavam a cada ruído que escutava que se assemelhava a passos ou a rosnar de algum demônio vulgar.
A rua lhe era extremamente confortável, embora gostasse mais quando tudo fosse muito, muito frio.
Mas assim também era legal.

A rua era melhor do que o palácio.
Lá, no palácio, Ophelia tinha idéias idiotas e acessos de fúria e nervosismo, trancada em seus quartos, sempre perguntando por Lala como uma amante ensandecida. Nem ao menos se dava ao trabalho de perguntar como ia a tortura dos irmãos que haviam perdido a coroa, e isso era tão frustrante... sim, tinha expectativas de que Ophelia fosse um monstro completo, sem nenhum tipo de compaixão e piedade, mas se desiludira assim que Ophelia ordenou que Alicia cuidasse de Lala, arrancando a garota de olhos cinzentos de suas garras.
Era justamente a jóia que teria tanto prazer em torturar até ver o lindo rostinho angelical se contorcer de dor, implorando para morrer...

Hmpf.
E ainda convivera com a ex-rainha e o irmão dela tempo suficiente para conseguir lembrar dos nomes deles. Que estúpido, ainda lembrava de como sua mão se enfurecera no abdomên do pirralho e se remexera lá, rasgando as tripas do garoto. Mas nem carne boa nem sangue doce ele tinha dentro, com um organismo totalmente medonho ao paladar. Gente mágica era horrível para se devorar as tripas, mas achou realmente que Lefi era um humano, com aquele sangue completamente doce e delicioso. Ele até teve sorte, caindo no chão e sendo deixado lá à própria sorte, ao lado da irmã.
Com alguma sorte, os dois morriam e Ravèh se livrava dos encostos para poder "se demitir" e ficar independente como era. Não que aquela loira de olhos cinzentos fosse escapar ao seu destino. Ainda a teria sob seus braços, ainda esmagaria seus ossos e riria, ainda veria o sorriso dela virar um esgar de pavor, como se nada no mundo a apavorasse mais do que morrer. Ah!a vida é bela, até mesmo para os demônios...

Hey, um cheiro aqui...
Sofisticado e irreal, porém desgostoso.
Fascinante.
Parecia-se com o cheiro de Ophelia, mas esse era mais antiquado como um perfume velho.
- 'Elyon! - gritou uma voz, descuidada. Parecia estar bêbada.
Uma humana? Não, humanos não tinham esse cheiro absurdamente fascinante e misterioso, embora a carne e sangue sejam infinitivamente melhores... Fadas? Mas elas não tinham sido destruídas, arruinadas?
- Catherine, vem logo! - outra voz gritou também, rindo tontamente. Parecia estar bêbada também - senão-
- Fodase, Elyon! - Catherine virou a esquina - estou cansada de viver por milênios, oh!
Catherine encarou Ravèh com surpresa, mas seu susto virou riso desenhado.
- Um ser humano? - Catherine franziu as sobrancelhas com interrogação bêbada - não, pelo cheiro - também franziu o nariz como se sentisse nojo - venha ver, Elyon! É a merda ambulante do mundo! Um demônio, e - chegou mais perto sem se incomodar se Ravèh reagiria à aproximação, e chegara perto o suficiente para aspirar o cheiro dos cabelos loiros que ainda ondulavam ao vento - ela tem o cheiro do maldito palácio! Senhorita, você é um dos monstros que amam Ophelia?
- Não - Ravèh sorriu diante da inteligência apresentada pela garota, mesmo que não fosse lá muito inteligente chamar um demônio de "merda ambulante". Mas ainda assim, sentia que ela não quebraria com um único golpe. A julgar pelo desaforo de se aproximar, pelo cheiro estranho, e pela ousadia de sorrir desaforadamente e chamar por Elyon.
- Ela diz que não é? - Elyon perguntou. Ravèh fixou a atenção no penteado desarrumado da garota com cabelos castanho-claros e em como ela transformava seus movimentos em alguma coisa ondulante, hipnótica - todos os monstros falam isso. Fere tanto o orgulho dizer que trabalha para Ophelia?
- Todos os monstros? - Catherine murmurou enquanto enrolava uma mecha loira de Ravèh nos dedos - o que é ser monstro? Comer gente? Você come gente, loirinha?
- Amo. Especialmente carne jovem e macia.
Se a intenção de Ravèh era assustar, de nada conseguiu.
Em um segundo, foi jogada contra uma casa em ruínas, e desabou no chão com estrondo. Antes que pudesse sequer pensar, assumiu a expressão em um assombro pasmo, como se não acreditasse. Seus olhos se dirigiram para o chão cinzento e banhado de sombras.
- Descobri - Catherine ficou bem ao lado dela, sentada em posição de lótus com o maior sorriso em seu rosto - você é realmente criada de Ophelia, não é? Trabalha para ela diretamente, e veio do palácio dela.
- Ela tem o cheiro monstruoso misturado às flores do jardim - Elyon comentou. Ela que jogara Ravèh contra a casa, e agora se movia tão rapidamente que mal se enxergava suas pernas se movendo até ela chegar bem pertinho de Ravèh, seu rosto a menos de dez centímetros da face assustada de Ravèh.
Ravèh sorriu. Aquelas duas vadiam iriam só ver uma coisa.

Quando Ravèh tentou se levantar, ninguém impediu.
Tanto Elyon quanto Catherine estavam tontas e embriagadas, e Ravèh tinha vantagem em estar em um estado sóbrio, inteiramente consciente de si mesmo. Ficou em pé, pronta para dar o primeiro golpe e estraçalhar com a carne da tal da Elyon. Não podiam ser humanas, não inteiramente frágeis humanas, senão como desafiariam um demônio com tanta impetuosidade?
Deu um passo para a frente, movendo suas mãos com extremo zelo.
Cravou as unhas no pescoço de Elyon com tanta forma que logo o sangue começou a escorrer. Elyon riu. Era fascinante quando alguém se lançava contra ela, a perfurando e coisas do tipo e era ainda mais fascinante quando sentia as artérias se romperem para se refazerem logo em seguida!
- Quem você é? - Catherine sequer fez menção de salvar a amiga. Só fez a pergunta quase de forma doce, como fosse uma professora de ar maternal.
Ravèh soltou o pescoço de Elyon que sangrava em longos filetes e virou a atenção para a Catherine.

Sim, ela também.
Mas como atacar as duas, matá-las?
- Quem você é? - Catherine perguntou de novo, mas seu ar maternal já se fora: só restava a mais fria elegância - suponho que embora seja um monstro, ainda reste alguma faísca de civilidade o bastante para dizer o próprio nome.
Ravèh não respondeu à crítica, limpando seus dedos na saia do vestido. O azul-pálido se misturou ao vermelho sangrento em certas partes, mas ela não deu atenção.
- É muito ruim, sabe - Catherine continuou, e agora dava passos para a frente delicadamente - matar alguém de quem não sabe o nome.
Ravèh gelou.

Sentiu que Elyon não caíra atrás.
Podia sentir a respiração pausada de Elyon, podia sentir que ela se aproximava por trás.
Estava perto demais.
E, mais rápido do que uma cobra que dá seu bote, Ravèh colocou todo o fôlego e correu. Tarde demais, ainda assim.

Seus braços foram bem seguros, os dedos de Catherine pressionando sua carne com delicadeza. E o sorriso quase diabólico de Elyon pairava em seu rosto como um fantasma, e ela estava muito muito perto, quase que encostando seus lábios na testa de Ravèh, e suas mãos se estranhavam entre o cabelo loiro. Arfou.
Pela primeira vez na vida, estava com medo.

Sentiu a pressão nos braços aumentar ainda mais.

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- Quem é essa Lala? - Bel perguntou, o copo de mimatta lhe sendo oferecido pela loira de nome Raveneh.
- É o braço-direito de Ophelia - Umrae respondeu - antes de você chegar, pensei em sequestrá-la.
Bel riu desgostosamente, seu nariz se franzindo de surpresa e zombaria.
- E vai fazer? - perguntou, ao que Umrae respondeu, muito séria:
- Não precisamos.
Bel mordeu o lábio inferior, parecendo insegura por um momento, mas logo o riso tomou conta de seu rosto novamente. Bebeu mais um gole da mimatta adocicada e disse:
- Umrae, acho que você deveria voltar ao seu reino e conviver com uns de sua raça - Umrae ergueu os olhos dourados intrigada - sequestrar? Umrae-san, convenhamos, quem tem idéias de sequestrar aqui sou eu, não você. Quando falei de sequestrar Luroen, no treinamento, lembra? Você só faltou me bater de tão irada que ficou! Diga-me, o que fez você ter essa idéia?
- Não sei - Umrae deu um leve sorriso. Ou talvez fosse só imaginação de Bel - foi só uma idéia prontamente descartada.
- Você realmente deveria conviver com mais gente da sua raça. - concluiu Bel admirando a caneca com a mimatta - mas até que sequestrar Lala não é uma idéia ruim. O que você sabe sobre a Lala?
Umrae respondeu pacientemente.
- Lallyn Sakamoto, vindo de uma família guerreira. É a única descendente viva, eu acho. Trabalhou para a Rainha quando era mais nova como estrategista militar. Lembro-me dela ter trabalhado quando o Rei foi capturado, há dois anos. Agora, sei lá como, trabalha para Ophelia.
- Por quê? Não é tão desonroso ser aliado de uma criatura que derrotou a família real?
- Não duvido nada que a Lala, dando uma de heroína inflamada, tenha desafiado Ophelia e perdido a luta - opinou Umrae - e assim virou escrava. Não seria a primeira nem a última vez que isso acontece.
- Claro, isso acontece direto em Grillindor - Bel concordou. Ficou pensativa por um momento - bem, se formos levar esse plano para a frente, teríamos várias dificuldades como adentrar o palácio, capturar Lala e mantê-la presa...
Umrae fez um ruído como se zombasse.
- Entrar no palácio é a coisa mais idiota que já fiz - disse - tem uns demônios mais burros do que uma porta como guardas, e os criados são incrivelmente estúpidos. Bel, você nunca verá outro palácio com soldados tão incompetentes, defesa tão baixa e o poder tão fraco. Ophelia entregou o reino aos caos, Bel. Ela pode ser a Rainha no título, mas se perguntar qual a real influência dela ali... céus, ela mal sai do palácio para ver o que acontece em seu próprio reino!
- Ela é um monstro, Umrae - Bel bebeu o último gole da mimatta - um monstro altamente emocional?
- Sim - Umrae conhecia bem as lendas a respeito de Ophelia e a conhecia o suficiente para tirar suas conclusões sobre o temperamento da Rainha. Temperamental, infantil, e maldosamente perverso.
- Pois bem - Bel encarou a caneca vazia - temos mais dez aqui. Já apresentei todos, certo?
- Sim.
- Pois bem, sabe a Zidaly? - Bel perguntou. Uma mecha castanha caiu em frente ao rosto, mas ela não tirou. Só encarou Umrae como se pedisse algo.
- Sei - Umrae murmurou em resposta - a de cabelos negros e roupa justa demais.
- Pois bem.

Umrae ergueu as sobrancelhas.
- Quero que ela morra - Bel admitiu, quase que engolindo em seco.
- Por quê? - Umrae sorriu suavemente, e dessa vez, não era nenhuma ilusão.
- Ela entrou nessa missão por puro suborno - Bel contou. Seus olhos escuros se estreitaram, faiscando de ódio - eu quero que ela morra.
Umrae se levantou, e disse:
- Se quiser matá-la, vá em frente. Mas já tenho coisas demais para me preocupar com infantilidades como uma garota que quer matar outra.
Bel sorriu. Era só o que queria: consentimento.
Agora Zidaly estaria em suas mãos, e ninguém poderia salvá-la da ira de Bel.

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Alicia deslizou seus pés pelos degraus, procurando avidamente pela entrada para as masmorras. Procurava por uma maneira de salvar Siih e Lefi, e temia que fosse tarde demais. Quase escorregou em uma parte qualquer, mas conseguiu se segurar. A medida que penetrava mais e mais fundo, sentia-se como se todo o sangue em seu corpo secasse e sua cabeça parecia pesada demais para seu corpo aguentar. Tentou se servir da magia para enxergar melhor na escuridão, percebeu que todas as tentativas eram frustradas.
Experimentou conjurar uma chama para melhor se aquecer, mas mal o fogo se acendeu no ar e se apagou.
- Merda - Alicia sussurrou.
Quase escorregou, mas conseguiu chegar a um fino corredor. Era escuro, sem chamas a brilhar, e o teto era muito alto e intimidador. A escuridão, que estranho!, tinha nuances de roxo que brilhavam a cada vez que Alicia piscava os olhos. Conjurou uma chama só para iluminar melhor, conseguiu enxergar portas ao longo do corredor. Estava no caminho certo, percebeu.
Não sabia o que aconteceria quando abrisse a primeira porta.
- Majestade, Majestade - resmungava.
Não conseguia achar a porta.
Ravèh podia voltar a qualquer hora.
- Onde está, onde está?
Ficou exatamente no meio do corredor, embora não soubesse disso. Bateu com o punho na parede, de raiva.
E sabe qual era a pior parte?
Esses irmãos nem gritavam.

Alicia tinha certeza que ouviria os gritos. Estava no mais profundo silêncio, mas tinha a certeza absoluta de que se naquelas prisões, estivessem furiosos e desesperados, os gritos se fariam ecoar por todas as masmorras. Porém o único som que se fazia ouvir era a respiração pesada de Alicia. Ela respirou fundo, olhou para o alto.
Negrume.
- Ah - mordeu o lábio inferior - por favor...
Tentou se orientar, tentou usar toda a magia que tivesse em si para se orientar melhor.
Incompetente.
Ergueu os olhos. Tinha que achar. Se não achasse, se não salvasse a Majestade, se não salvasse seu irmão...
Incompetente como a Majestade derrotada.
Sentiria o mesmo que a Siih sentia desde que Ophelia lhe derrotara. Lhe derrotara, porque nem lutara. Nem lutar pelo próprio reino, Siih fizera! Pois bem, Alicia cumpriria a sua promessa de salvar a Majestade e salvaria a própria vida. Pois morrer ali, nas mãos de uma criatura sádica, lhe era repugnante demais.
Quando terminar isso tudo,
Farejou o medo misturado ao ar.
eu vou pegar o que ainda tiver e me mandar pra sul. Sul é bom.
Chegou ao fim do corredor, experimentando abrir as portas, uma por uma.
Todas estavam abertas até chegar na décima segunda porta, a que estava fechada. Bateu violentamente, fazendo bastante barulho. Esperava que fosse a que guardasse Siih e Lefi.
- MAJESTADE! - gritou.
- Alicia? - a voz de Siih era um fio.
Siih não se levantou. Permaneceu sentada, ao lado do irmão a quem sacudia vigorosamente. As lágrimas ainda molhavam o rosto, e o coração parecia mais quente quando escutava a voz de Alicia. Parecia-lhe que Alicia procurava por uma forma de abrir a porta. De fato, ela olhava a porta com interesse e exasperação. Tinha que ter a chave, diabos.
Obviamente a chave ficava entre os finos dedos de Ravèh, aquela diaba.
Experimentou tocar a maçaneta e enfeitiçá-la de modo que ela abrisse magicamente, mas não conseguiu. Nada moveria aquelas masmorras. Por milênios, resistiram a furacões e guerras e demônios usurpadores, porque se abririam para uma tola fada que mal conseguia se libertar das garras de um monstro por si própria?
- Siih! - Alicia gritou, tentando fazer com que Siih a ouvisse - Majestade! Ouve?
- Sim - Siih se levantou, tonta. Precisava ouvir Alicia melhor.
- Não consigo abrir - Alicia admitiu, percebendo que Siih andava pelos aposentos. Bom sinal, significa que não tinha perdido as pernas. Mas por que não ouvia Lefi? - Siih, me ajude.
- Como?
- É mais poderosa que eu - Alicia disse - mas não é mais poderosa que essas masmorras - Alicia ofegou, tentando pensar, pensar rápido - Majestade, tenho certeza que se você ainda fosse uma das fadas altas, essa maçaneta se moveria.
- Mas não tenho mais os poderes de dois anos atrás, Alicia - Siih deslizou pela parede - o que quer que eu faça?
- Lembre-se de como era, Majestade - Alicia pediu - lembre-se de como era, quando era Fada Alta. Não se foram todos os poderes, sabe disso... ainda restam alguns, e precisamos desses restos agora! Cadê Lefi para lhe ajudar?
- Ele...
,

Alicia teve que se controlar muito.
Pense na RainhaRainhaRainha
Siih fechou os olhos, tentando.
Não, não dava.
Alicia passou a mão na maçaneta, tentando pensar.
Ele sempre foi tão gentil comigo.
- Consiga.
Siih mexeu na porta, seus dedos roçando suavemente na pedra da porta.
Ela se mexeu muito fracamente, mas nada que se comparasse a um belo poder. As masmorras não se curvam a uma rainha enfraquecida, nem a uma serva que só é inteligente quando está em paz. Alicia passou as mãos pelos cabelos pálidos, seu respirar se tornando cada vez mais pesado, seus olhos cinzentos cintilando com as lágrimas. Porém mantinha a razão no lugar ao notar que Siih se mexia.

Siih engatinhou até Lefi.
Já havia chorado demais, já abraçara o corpo de Lefi, e ele já não mais respirava. Sim, mas a carne dele ainda estava exposta e a magia demora tempo para se dissipar de um morto. Se Lefi saísse dali agora e fosse tratado pelos melhores médicos, poderia se recuperar. Milagres eram perfeitamente possíveis quando se tinha um sangue mágico que resistia a morrer. Lefi não respirava mais, e nem ele lutava mais pela sua vida. Só olhara para Siih com aquele olhar bondoso, e ficara ali. Fechou os olhos por conta própria.
- Perdoe-me, irmão, por te matar.
Era um crime.
Um verdadeiro crime.

Pode ser que a porta não se curvaria a nenhuma magia que viesse de uma Majestade humilhada, pode ser que todos os seus esforços fossem mudos para a maçaneta. Siih mergulhou suas mãos na poça de sangue que se formara em volta de Lefi, mas não as limpou. Voltou a porta, e pegou na maçaneta. Forçou-a a abrir com todas as suas forças, o sangue ficando escorregadio.
- ?
Alicia mexeu na maçaneta também, mas parou assustada.
Nunca sentira tamanha carga de poder. Assustador, como uma neblina que a envolvesse. Estava ainda mais frio do que o costume, e tudo lhe parecia denso demais. Siih gritou, e tudo lhe parecia grande demais. O sangue deslizou pela porta, pingando pelos dedos, Siih caiu, seus joelhos se tombando no chão.
Lágrimas se fundiram ao sangue sujo.
- Merda!
Alicia movimentou a maçaneta de novo, confusa. Fosse o que fosse, talvez Siih conseguisse manipular seus poderes de tal forma que conseguiria abrir. Forçou-a a abrir, fazendo com que Siih se levantasse de novo. Mas em vez de tentar abrir, só se encostou junto à porta, inteiramente. Pedra contra corpo, ambos frios. A pedra era morta, mas não se podia dizer que Siih estava inteiramente viva.
- Alicia.
Alicia parou. Também se encostou junto à porta, ouvindo Siih muito claramente.
- Ouve-me - Siih sussurrou, suas palavras atravessando a pedra e soando calmamente frias - ouve. Está perdido.
- Não.
- Lefi morre a cada vez que roubo a magia dele para sair daqui, Alicia - Siih disse - e eu morro também. Alicia, vá embora e viva.
- Majestade, não.
- Alicia!
- Eu prometi, droga!
- !
- E não sairei enquanto não tiver você ao meu lado!
Siih suspirou.
- Estrangule a si mesma se quiser, mas só quando sair daqui - Alicia rosnou furiosa - mas, ouça: saia. Utilize toda a magia estúpida que tiver pra sair dali, e se não houver magia suficiente, que use a de Lefi. Afinal a magia não resiste à morte?
- Se Lefi--
- FODA-SE - Alicia gritou - que mate Lefi inteiramente, mas ele vai preferir morrer pra você sair viva do que os dois morrerem estupidamente!
- Não. Já roubei demais.
Alicia socou a porta. Siih não respondeu.
Afastou-se da porta, juntando-se a Lefi. Deitou-se ao seu lado, abraçou-o. E fechou os olhos.


Impressão de que está acontecendo mata-mata? Relaxa, ainda não estou nem na metade. Enfim, meus dedos meio que doem em dias mais frios, minha conexão é uma porcaria e outras coisas más me fazem atrasar a entrega de capítulo. Mas não se preocupem, terminarei essa segunda temporada antes do fim do ano, (e vocês: OH!). Espero que esse capítulo tenha sido bom para vocês, meio que tentei colocar todos os temas em pauta juntos. Afinal Catherine e Elyon não podem ficar de fora, e nem as outras Musas. Elas estão ignorando o assunto por enquanto, mas vocês sabem perfeitamente que não as fiz surgir nessa história só para darem um 'alô, nós lutamos com Ophelia no passado' e sumirem, né? Enfim, vocês entenderam. Aliás, eu gostaria de um help... Umrae, help-me: os dragões se alimentam de quê basicamente? Não sei como me meti a escrever sobre criatura e esquecer a alimentação delas, a parte mais importante! Eu gostaria muitissímo de saber sobre a alimentação dos dragões de forma geral (RPG, literatura, cinema). Se puder me oferecer isso, Umrae, me sentiria muito grata. É claro que meu pedido não é só para Umrae: qualquer um que queira me ajudar (Ratta, você também sabe? Tenho a impressão de que você sabe), por favor!

Obrigada, obrigada ^^

sábado, 25 de abril de 2009

O meio-dia veio com o sol escaldante de verão, se derramando por todas as colônias, fazendo sumir os demônios mais noturnos. As poucas pessoas que se arriscavam a aparecer sob o sol estavam armadas de espadas e se protegiam com toda a roupa que podia ter, mesmo sob o sol tão forte que se podia cozinhar um ovo em cima de uma pedra.
Mas felizmente os feitiços refrescantes são fáceis de fazer e vigoravam fortemente em todo o palácio.
- Ah, finalmente - Lala já sentia menos dor embora seus ferimentos estivessem se curando lentamente.
Ophelia se sentou ao seu lado, seus olhos castanhos se esquadrinhando na expressão dolorida de Lala. Estava séria, suas mãos se apertando com força, o vestido longo e azul.
- Boa tarde, Lala - disse Ophelia dando um sutil sorriso.
Os sorrisos sutis de Ophelia. Lala tinha que admitir que a cada sorriso que a amiga dava, sentia mais raiva. Não conseguia entender o que se passava na cabeça de Ophelia quando ela sorria daquele jeito, em quais planos ela estava pensando.
- E vem me visitar - Lala mordeu o lábio inferior de dor. Droga. Odiava aquilo, com todas as forças de sua alma - nunca imaginei que você pudesse ser a salvadora, Ophelia.
- Ninguém nunca imagina - Ophelia disse. - como está se sentindo?
- Péssima.
- Ótimo. Melhore.
Lala deslizou pela cama, deixando-se ficar deitada. Encarou o teto com rispidez e raiva, seu peito arfando. Sentia dor em tudo que era canto de seu corpo, podendo sentir o sangue correndo pra lá e pra cá, ficando até tonto. Fechou os olhos de cansaço, queria paz.

paz.
ah, como era doce a palavra que corria de neurônio em neurônio!

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Os dragões costumam ser muito rápidos.
As grandes extensões são vencidas em poucas horas.
Transcorre-se um dia inteiro e uma outra noite inteira e finalmente o amanhecer novamente.
Até o momento que Bel avistou o palácio de Ophelia do alto, e começou a tomar as medidas para entrarem no território inimigo. Levantou-se, ajeitando seu cabelo com uma fita.
A combatente.
- Gerogie - começou, pegando nas rédeas - vá viajar o sul, o palácio em especial.
Gerogie agiu friamente, seus cabelos se movendo com o vento enquanto ela pulava da carruagem e caindo muito rapidamente. Logo Bel direcionou todas as ações, e no final das contas, enquanto Erevan vigiava as Campinas diretamente, Keishara cobria Gerogie no palácio. Os outros estavam dentro da carruagem, bem seguros e se preparando para cuidar dos dragões quando aterrisassem.
- Pois bem - Bel refreou quando percebeu que estavam próximos demais.
Ela apostava que somente os demônios poderiam ver os dragões no céu e que eles iriam começar a gritar sobre o apocalipse.
Apocalipse.
- Vamos lá - Harumi gemeu. Odiava alturas. Voava, mas odiava do mesmo jeito.

Yeah.
As Campinas era um lugar grande demais. Verde demais. Vazio demais.
Sim, sem alma viva.
E os dragões pousaram com todo o estardalhaço permitido, desafiando toda a proteção que já se enfraquecia.
Nossa, realmente, não foi tão difícil. Gerogie logo retornou, acompanhada de Keishara. Ambas deram o mesmo relatório: pouca gente na rua, provavelmente ninguém viu do palácio, e se alguém viu será tido como louco e imediatamente devorado pelos demônios. Erevan ficou abismado de ver como a floresta era pequena depois das Campinas e antes da praia e mar.
- Nossa, é aqui que eles vivem? - desfiou Keishara em um tom azedo. Ela não conseguia gostar muito de grama.
- Sim, Keishara - Erevan sussurrou, tão mordaz quanto Keishara - e eles vão sair das árvores como pequenos duendes para devorar a você. Bem que merece.
- Minha carne é ruim, Erevan - riu Keishara, mas antes que Erevan pudesse responder, Bel cortou:
- Precisamos chamá-los e organizar logo com isso - suspirou como se lamentasse - que deprimente, o sol está forte. Gerogie, nos guie, por favor.
O sol brilhava nos cabelos de Gerogie fazendo todo o vermelho resplandecer lindamente, chamando a atenção como uma fogueira durante a noite.

Seus olhos se direcionaram para baixo, tentando lembrar onde exatamente era a porta do abrigo.
Em quinze minutos, enquanto andava, chegou.
- Como é meio-dia, deve ter gente fora do abrigo - murmurou Gerogie tentando calcular as horas - mas como não vemos ninguém colhendo algo, então imagino que se alguém saiu, deve ter ido tomar banho. Por ali - apontou para entre as árvores.
- Hmmm...
Aquilo era verdadeiramente um tédio.
E como eu mesma não estou com paciência de sequer lembrar de como e quanto tempo eles passaram ali fora, então vamos logo para a parte realmente interessante: Raveneh sai do abrigo para colher laranjas, acompanhada de Tatiih e Rafitcha.
Para as três, foi uma surpresa.
Nunca tinham visto um dragão mestiço na vida.

- Wow - Rafitcha olhou de soslaio para o estranho exército - o que são eles?
- Os amigos de Umrae - Raveneh respondeu - céus, aquela menina é o quê? Ela tem rabo! O__O"
- Sim - Rafitcha riu - tem seres assim no mundo, que possuem características animalescas. Nem é tão bizarro assim...
- Okay - Raveneh mordeu o lábio inferior apreensiva - será que eles são bons? São de Grillindor, não é?
- Claro...
Raveneh nada disse. O grupo se reunia na sala, Umrae sendo a líder e detalhando a missão, seu semblante absolutamente frio, embora ela contivesse o alívio nos gestos. Bel escutava muito atentamente, e com ela, só estava com os três dragões e duas garotas: Keishara se instalou ao lado de Erevan, os dois parecendo entediados, e Gerogie permanecia com a sua expressão habitual: sem nenhuma emoção, a frieza ruiva. E Ratta estava ao lado de Harumi, parecendo ansiosas. Harumi olhava tudo ao redor com os olhos furta-cor, enquanto Ratta não sabia o que fazer, e tinha que se controlar para não balançar o rabo de nervosismo.
Todo o restante estava com os dragões mestiços, sob o sol de meio-dia, suspirando raivosamente contra serem deixados de fora.

E toda a tarde se concentrou naquilo.
Foi Ly quem conduziu Erevan para os pântanos existentes no sul da floresta, a duas horas do abrigo, a pé. Mas para Erevan, a distância constava de apenas trinta minutos, andando tranquilamente. Os dragões negros que ofegavam se esconderam entre os pântanos, e foi Ratta quem conduziu o

primeiro, e foi Polly quem se sentou em uma das pedras enquanto vigiava tudo com olhos de águia. Já Fer revelou toda a praia, longe e perto das Campinas, para Keishara que conduzia seus semelhantes malfeitos, de acordo com ela própria. Harumi, talentosa, fez com que os dragões conseguissem cavar buracos e esconder parcialmente seus corpos, graças a uma área que tinha bastantes rochedos junto ao mar. As ondas batiam nos rochedos com grande estrondo.
- Pensei haver um navio - murmurou Crazy enquanto Fer indicou a área escolhida - não há?
- Há - Fer respondeu, pensativa - mas ele fica mais no sul atualmente. Estamos no norte da praia.
Crazy só fez um franzir de sobrancelhas que logo se aliviou.

A praia e o pântano.
O azul e o negro.
Keishara e Erevan.
O sol estava absurdamente quente. Como deveria ser.
Eles conseguiram chegar às Campinas de forma oculta, mas foi pura sorte.
Até teve uma guria de treze anos que ergueu a cabeça para o céu e viu dragões azuis. Ela gritou de susto e pavor, mas isso denunciou a sua localização. E em vez de os outros humanos existentes acreditarem nela, eles ficaram com raiva antes de serem mortos pelos demônios que lembravam serpentes feitas de areia.
A própria crueldade na terra que ocultou os dragões no céu, pode-se dizer.

Céus, Raveneh pensava enquanto arrumava a cozinha, só agora que a guerra começou?

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Siih estava inconsciente há quatro horas.
Lefi permaneceu todo o dia anterior sem nenhuma consciência, sonhando com coisas desconexas, mas acordara.
Ravèh estava sorrindo.
Por que seus dentes lhe pareciam presas?

- Por que surgiram? - Lefi rosnou enquanto Siih desistiu de tentar viver.
Ravèh sorriu. Estava mesmo cansada de perfurar Siih com lanças, e o corpo de Siih parecia não conseguir resistir a nem mesmo uma mísera agulha. A rainha derrotada perdia sangue descontroladamente, suas feridas redondas não se fechavam, seu estado era de torpor e desistência.
- Demônios não deveriam existir - Lefi abraçou Siih, seus braços imediatamente se sujando de mais sangue - não deveriam...
Ravèh se declarou 'entediada'. Francamente, aquilo era chato.
- Meu querido Lefi - ela disse em um longo e cansado suspiro - somos monstros. Não deveríamos nunca existir, mas existimos desde antes de vocês, pobres humanos, nascerem.
- Não sou um pobre humano - Lefi respondeu atrevido - eu sou filho de fada, e tenho os poderes como tal!
- Qual a diferença? - Ravèh riu estrondosamente - uma fada é o ser mais mortal, entre todos! Fadas são seres que amam os humanos, portanto igualmente desprezíveis. Um elfo legítimo de Faerün deve ser respeitado, mas uma fada? Uma fada que não sabe viver sem os humanos?
Pff, que ridículo - ela zombou curvando um dos cantos dos lábios para cima - é tão ridículo que fico admirada.
Siih ofegou, mergulhada em seu estado de inconsciência. Lefi reparou que ela se regenerava devagar, suas feridas se limpando, pouco a pouco.
Lefi resolveu continuar conversando com Ravèh, esperando distrai-la até que Siih se recompusesse totalmente.
- Fadas não são tão deprimentes assim - Lefi se defendeu, mas Ravèh só franziu os lábios e juntou as sobrancelhas de um modo que transmitisse o seu ceticismo de forma mui eficiente. - O que quer?

Siih abriu os olhos por um momento, mas fechou-os.
Tudo parecia querer se apagar.
- Mas essa mocinha está conseguindo fechar suas feridas? - Ravèh murmurou - ela está me irritando.
- Que irrite - Lefi desafiou.
Ravèh se jogou em cima de Lefi, com toda a sua destreza, seus cabelos loiros se revoltando ao mero vento imediato que logo se dissipou. Em menos de um segundo - talvez um segundo seja tempo demais! - Ravéh salivava, suas mãos segurando Lefi pelos braços. Seus dentes estavam estranhamente pontiagudos, especialmente seus caninos que mais eram como presas gigantescas que ansiavam ardentemente por carne.

Era estranha a situação.
Lefi conseguia sentir o hálito quente em sua face.
E Siih se perdia na própria incompetência.

- Mate-me - Lefi sorriu, mas estava mais apavorado que qualquer outra coisa - mate-me, vamos!
Ravèh também sorriu, mas com seus dentes enormes, o sorriso era mais um esgar medonho:
- Com o maior prazer.
E dá-lhe sangue.

O punho dela feria todo o abdomên dele, e ela remexia os dedos por dentro, cuidando para que seus dedos esmagassem cada órgão que aparecesse, cada veia e artéria, e cada vértebra da coluna cerebral foi cuidadosamente esmigalhado pelos suaves e dolorosos dedos de Ravèh. Lefi só fez jogar a cabeça para trás e esperar o que viesse.
Só.
A morte era doce, doce como sangue.

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Ophelia observou as Campinas.
Notou, sim, algum movimento estranho, algo de suspeito.
- Algo de podre - disse para si mesma - naquele reino daquela feiticeira vadia - estava se referindo à Maria, mesmo que nunca tivesse sequer visto Maria.
Mordia seus próprios dedos, nervosa.
Não sabia muito bem o que fazer, mas uma coisa ela entendia:
ela não era a criatura mais poderosa do mundo.

Ela era uma rainha solitária, era verdade, e só havia criados em seu castelo.
Ravéh era um demônio desgraçado que só queria viver sob a sua asa, e Siih era uma patética inútil que sequer conseguiu impedir-la de tomar tudo. Afinal, sabia bem que conseguiria de qualquer jeito. Mas se Siih fosse mais inteligente, bastava manipular as Musas da forma certa e pedir ajuda às pessoas mais adequadas em vez de esperar e deixar seu destino à revelia, como fez. Santa burrice!
Encarou o céu azul de verão com ansiedade.
Precisava de aliados, definitivamente.

Afinal, queria manter-se sobre tudo, ser a soberana, não era?
Que ridículo ser a rainha de toda a cidade, mas ser desafiada tão vulgarmente pelo próprio vizinho!


Umrae, cara, eu fiquei com medo. Admito, fiquei com muito medo de seus comentários. E, relaxa, não vai acontecer realmente. Se acontecer, não será pelas suas mãos, não se preocupe. Não deixarei sua alma se corromper, ok? E a demora se deve a dor nos pulsos. Sim, meus pulsos e dedos doem a ponto de eu digitar mais devagar e deixar de desenhar. Minha mãe está com medo de que seja LER, e estou usando aquelas ataduras para amortecer os pulsos e eu não sentir muita dor, mas isso nem acontece, afinal fico no pc digitando. E passei em matemática HA. Umrae, mesmo você puta da vida comigo (é, eu entendo), eu te adoro muito, viu? Não queria que você pensasse que eu iria fazer com que você maculasse sua reputação nem nada do tipo ;)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Parte 80 - Raiva.

"Hora" é um conceito estranho.
Ele é medido em 60 minutos, e cada minuto, por sua vez, se mede em 60 segundos.
Para Umrae, porém, os minutos se arrastavam com a lentidão de um século, a ansiedade crescendo a cada vez que um segundo passava. De madrugada, quando todos já dormiam, estava sentada no chão da sala, iluminada por vinte velas cujas chamas tremiam a cada suspiro que dava. E no chão, um mapa se espalhava.
Podia ver os contornos do mundo das fadas, já destruído. As Campinas que brilhavam com todo o seu esplendor ali, ao lado da floresta, tão fechada. Os desenhos eram perfeitos, de contornos delineados com tinta negra e todas as cores tingiam o papel, respondendo a impressão de cada reino. Passou o dedo indicador, de leve, em Mundo das Fadas.
Acabado.
Depois dirigiu o dedo para os arredores no sul.
Destruído.
Observou o norte, com seus reinos sempre colonizados por fadas.
Arruínados.
As Campinas. Lugar enorme, que merecia um espaço a mais no mapa.
Verde. Vívido. Cada centímetro que ela, Umrae, conhecia desde que viera de Faerün, era completamente vivo.
Encarou o mapa com curiosidade e uma certa dose de nervosismo. Parecia perfeitamente tranquila como se nada estivesse acontecendo. Não que quisesse enganar a si mesma, mas se a própria Umrae aparentasse estar nervosa, isso iria influir em todos os outros no abrigo.
Observou com cuidado as áreas em que ficariam os dragões.
Desenhou um circulo vermelho em cada ponto estratégico, sua mente trabalhando para garantir uma sobrevivência maior, uma vitória, uma luz qualquer.

Uma guerra direta não iria funcionar, por mais que os dragões fossem maravilhosos.
Queria algo a mais, algo que abalasse Ophelia de vez, algo que envenenasse o palácio e que destruísse, vigorosamente, cada frágil alicerce que Ophelia impôs em seu reinado.
Um veneno.
Algo que destruísse a alma de Ophelia.
Todos tem seu ponto fraco, não tem?
Amai quisera dizer algo naquele dia, sim. Mas o quê, exatamente?
Estava debaixo do seu nariz, Umrae. Tão óbvio, decididamente racional. Pensar, pensar...


Lala.

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A manhã veio, sempre tão preguiçosa e silenciosa, e junto com a manhã, Alicia acordou, seus olhos cinzentos piscando confusos. Não via o teto escuro da masmorra de onde estava, mas o teto branco do quarto onde Lala dormia, seu peito subindo e descendo, tamanha a dificuldade de respiração.
Lala parecia estar sonhando algo de ruim, pela sua respiração apressada e ofegante. Alicia reparou que as feridas estavam menos avermelhadas do que no dia anterior, além de notar que Lala apressou algo de sua regeneração durante o sono. Mas a febre aumentara absurdamente, de tanto que Lala suava.
- Alicia - Ophelia abriu a porta devagar.
Já acordou?
Ophelia parecia estar arrumada há muito tempo. Seus cabelos estavam soltos como sempre, o vestido de algodão muito simples, pouco condizente a imponência de Ophelia, algodão este tingido de azul-turquesa e bordado com pedras que brilhavam a luz, esplêndidas. Alicia recuou um passo, mas se ajoelhou muito rapidamente, apressada em reverenciar Ophelia.
- Não precisa - Ophelia disse com desprezo - só me diga como Lala está.
- A febre aumentou, mas os ferimentos estão se regenerando... devagar, mas estão - Alicia disse, sem pensar. Na verdade nem analisara Lala direito, mas era o que sabia e por alguns minutos, lhe era o suficiente. Ophelia somente a encarou com uma certa estranheza:
- Se você salvar Lala - disse muito delicadamente - eu lhe devolvo Siih e Lefi. Mas a cada dia que Lala piorar, direi a Ravèh que dobre a tortura para os seus amigos.
Alicia ergueu o rosto, sobressaltada.
Tomou banho rapidamente assim que Ophelia se retirou, e tomou todas as providências para que Lala melhorasse rapidamente. Sentada ao lado da cama, estava devidamente armada de toalhas brancas e macias, xícaras com chás que ferveriam por horas, ervas delicadas e todo o tipo de conforto que uma doente poderia ter.

Lala acordou às dez da manhã.
Parecia querer chorar, pelos olhos muito vermelhos, porém estava ainda mais fraca se fosse julgada pela pele absurdamente pálida, os cabelos mais finos e os quilos que perdera em toda a regeneração.
- Oph? - Lala tentou se levantar.
Doía. Doía muito.
Mas não o suficiente para impedi-la de levantar. Esboçou um frágil sorriso que se partiu assim que, sentada, Lala indagou, tentando impor calma em cada palavra que dizia:
- Onde está Ophelia?
Alicia respondeu com muita calma. Tinha que medir as palavras com cuidado, manipular a garota de forma vagarosa e eficiente, fazer com que ela se ajudasse de vez.
- Está trabalhando - respirou fundo - ela está muito preocupada com você, Lala.
Lala esboçou outro sorriso, esse mais duradouro. Alicia continuou. Tinha planos para si mesma de simplesmente vingar tudo de uma vez e enfraquecer Lala de uma vez, se manter uma péssima médica. Mas agora que Ophelia lhe prometera a vida de Siih e Lefi caso salvasse Lala... era simplesmente uma virada de planos, e agora a garota em frente era a mais importante, a peça que, quebrada, arruinaria todo o jogo.
- Lala, recupere-se, pois Vossa Majestade precisa de você - Alicia escolheu bem as palavras - obedeça a tudo que eu disser e tente usar suas forças para se regenerar mais rápido. Sei que dói, mas...
Lala sorriu mais abertamente.
Droga, droga.
Só doía. O que se fazer quando o corpo só faz doer, até um sorriso?
- Eu vou ficar bem caso...? - perguntou, sorriso desfeito de novo. Alicia respondeu:
- Se você se regenerar mais rapidamente. Aí poderemos cuidar apenas do cansaço que terá.
- E se eu deixar a regeneração ao curso natural?
- Vai demorar mais do que o dobro de tempo e passará mal demais.
- A resposta é óbvia - Lala desabou na cama, já que ficar sentada doía mais do que podia dizer - você pode me ajudar a regenerar?
Alicia sorriu. Era isso que queria. Custaria muito de seus poderes e de sua força, mas quando passou a trabalhar para a Rainha, jurou a ela servi-la pelos sete meses. Os sete meses não tinham terminados, e ela era serva da Vossa Majestade, mesmo que todo o reino desmoronasse. Entregou a Lala um chá fumegante, de poderes curativos, enquanto pensava em si própria.
Enquanto prometia que iria salvar a sua Rainha, então iria salvar a sua Rainha.

Promessa é dívida, lembrou Alicia para si própria.

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Raveneh havia acordado bem cedo por causa de May que também acordou, porém de forma bem pouco tranquila.
Junto com o choro de Maytsuri, praticamente todos que estavam no abrigo acordaram, mal-humorados e ressentidos com um bebê. Odiavam aquele choro que se estrangulava na aurora, aquele choro ansiando por leite. Mas como a outra alternativa era uma Raveneh chorando copiosamente pela perda da filha, então se resignavam.
- Rafitcha - Johnny chamou, vestindo calças azuis, cabelos sempre revoltos - como está?
Johnny estava muito preocupado com os pais e sabia que Rafitcha estava mais ainda. Rafitcha sempre tivera muitos mais problemas com os pais do que ele, especialmente com a mãe. E sabia que toda vez que uma situação de risco acontecia (e esta era a terceira vez desde que Johnny se entende por gente), Rafitcha remoía suas brigas com a mãe, sua impaciência, as batidas de porta e os gritos vociferantes e cruéis. A culpa era toda dela, era isso que Rafitcha acreditava quando se preocupava com uma situação que poderia dar fim a vida de seus pais. A culpa por nunca ter realmente pedido desculpas, talvez.
Johnny realmente não entendia como as meninas pensavam. Elas eram tão problemáticas, com pensamentos tão contraditórios. E Rafitcha não fugia a regra: doce, afável, uma pessoa completamente amigável, fácil de conviver. Mas na intimidade, quando vivia com os pais, conseguia ser imatura e responsável, irritava-se por motivos idiotas, o jeito de andar se tornava arrogante. Todas as meninas que ele conhecera eram assim: pareciam ser mil pessoas em uma.
- Estou bem, obrigada - murmurou Rafitcha enquanto se preocupava em verificar se havia manteiga para todos.
- Quer verificar sobre...? - era uma pergunta idiota que só merecia uma única resposta:
- Como?
Rafitcha lhe encarou com certa frieza.
Não que ela seja fria. Aliás, muito raramente ela falava nesse tom tão seco e com esse olhar tão gelado. Era somente preocupação excessiva, zelo excessivo, irritação excessiva. Rafitcha estava se esgotando, isso era evidente. Johnny passou a usar um tom mais doce, que utilizava somente quando Raveneh estava a ponto de uma crise de nervos.
- Rafitcha, porque não vá lá pra fora, respirar ar puro?
Rafitcha pegou uma faca para cortar as laranjas. Suas mãos logo se molharam com todo o sulco alaranjado, e parecia estar irritada, embora seus gestos estivessem mecânicos, como se ela não pensasse naquilo.
- Vá trabalhar, Johnny - foi tudo o que disse, antes de Raveneh chegar, ninando May e desejando 'bom dia' a todos.
'Bom dia' era um desejo estúpido em tempos de guerra. Mas ainda era demasiadamente doce.

Umrae repassava suas impressões para Ly, Kibii e Bia. Todos estavam absortos nas explicações curtas de Umrae que tratava dos possíveis pontos fracos e da aproximação dos dragões, ou seja, uma estratégia militar contra a Vossa Majestade Que Em Tudo Manda, como Fer gostava de ironizar nas refeições.
Eles estavam na enfermaria, rodeados em volta de Kibii cujos ferimentos estavam melhorando muito bem. Amai estava na sala e devido à estrutura péssima, conseguia escutar as palavras de Umrae, geralmente interrompidas por murmúrios. Ela não conseguia ouvir a voz de Ly, embora soubesse que ele também participava ativamente, e a voz de Bia era tão fraca para seus ouvidos que Amai mal conseguia entender. E todos falavam muito baixo, mas Amai se privilegiava de sua ótima audição e da estrutura precária em relação aos sons.
- Chantagear Ophelia não é uma boa idéia.
Kibii parecia insegura quanto a idéia. Ela mesma vira Lala, e tivera ódio daqueles olhos da cor de mel e tão frios, assim como experimentara satisfação plena ao não se entregar a loucura. Mas... sequestrar? Era um plano longe demais.
- Como poderíamos fazer isso?
Era a dúvida de Bia que não conseguia entender como conseguiriam invadir o palácio, mesmo que os jakens fossem estúpidos e a segurança fragilizada, e simplesmente tomar Lala. E Bia não queria nem pensar na mais provável reação de Ophelia.
- Eu sei, é idiota... Mas... eu ainda acho que pode dar certo.
Umrae parecia insegura às próprias idéias. Sim, Amai concordava com Kibii e Bia: era arriscado, louco. Mas também concordava com Umrae: Lala parecia ser tão leal à Ophelia e Ophelia parecia gostar de Lala. Mas Kibii, com extremo cuidado, manifestou sua opinião sincera:
- Umrae, acho difícil que conseguimos pegar Lala. Ela é forte, sabe lutar. Tive o desprazer de ser mantida sobre a tortura dela e devo te dizer que ela não é uma donzela perdida que aguardará o resgate com paciência.
Amai não ouviu mais nada, pois May irrompeu mais uma vez em um choro sem limites, ultrapassando todas as noções básicas sobre a quantidade máxima de décibeis que um humano pode ouvir sem ficar surdo. Era simplesmente inacreditável o quanto May conseguia chorar, mas o choro parou logo depois de meros dez segundos - torturantes para Amai que queria se concentrar em arrumar a sala e para a Rafitcha que mal conseguia fazer o suco de tanta dor de cabeça que sentia - graças a Raveneh, tão calma e sempre um eterno calmante.
Catherine nunca se manifestara na parte realmente mãe, sempre expressada nesses momentos em que Raveneh provava a si mesma que sua loucura não a impedia de ser uma mãe decente.

Esperava que seja assim, pelo menos.

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Onze humanos e três dragões.
- Vamos - murmurou Harumi para Ratta, feliz - xeque.
Ratta resmungou, movendo um cavalo que acabou por derrotar o bispo de Harumi. Mas de nada adiantou porque o próximo movimento foi a torre de Harumi se aproveitar da brecha deixada pelo bispo para derrotar o rei definitivamente.
- Xeque mate - Harumi sorriu, seus olhos furta-cor brilhando de felicidade.
Gerogie lia um livro grosso, de mais de duas mil páginas com letras de um tamanho minúsculo, provavelmente sobre a História de Faerün desde que o nome apareceu para designar os territórios élficos. Mas o chute de Polly estava errado, pois o que Gerogie lia, realmente, era simplesmente a narração de vinte gerações de uma família de bruxos.
E cada livro só cabia umas cinco gerações.
- Vamos lá - murmurou Keishara, parecendo entediada. Era um dragão azul e gostava de se manter na forma humana simplesmente pra não sentir as descargas elétricas que era capaz de causar. Seus cabelos estavam curtos na altura dos ombros, os fios escorregadios e rebeldes, sempre apontando para todas as direções. Mas Keishara nunca se incomodou com isso, até gostava da rebeldia em seus cabelos.
O outro dragão a olhou com certa ironia e deboche.
Pareciam se encarar com raiva, quase como se estivessem marcando território enquanto disputavam a vitória no jogo de baralho. Não falaram o nome e ninguém foi perguntar o quê eles estavam jogando. Mas os insultos trocados eram suficiente para entender que o jogo era um tanto conflituoso.
- Bem - disse Erevan de cabelos negros e olhos de um estranho tom de violeta - acho que isso é o suficiente para me garantir a vitória.
- Não quando se tem isso - Keishara riu desdenhosamente, jogando um trio de cartas de números iguais - e aí?
- Ora, ora - Erevan sorriu de canto - não se pode ganhar de ti, então?
Keishara assumiu todas as cartas para si, com imenso orgulho em seu sorriso.

Zidaly estava do lado oposto a Crazy, mas o fitava com tanto amor que Crazy podia ficar corado se fosse um adolescente comum de rubores desnecessários. Mas Crazy ignorava, seus olhos se concentrando em um livro muito grosso de capa vinho de letras miúdas que descreviam minuciosamente os compostos quimícos e como eles reagiam um contra o outro. Zidaly suspirou tristemente, seus olhos se esquadrinhando levemente nas mãos de Crazy.
Bel teve que admitir que Zidaly parecia uma perfeita apaixonada. Droga.
Seria difícil, muito difícil lidar com esses egos estúpidos e apaixonados. Quando Zidaly iria aprender que para ser a melhor combatente, a com o sangue mais frio e indestrutível, teria que abrir mão de suas emoções? Em vez de desperdiçar as emoções por um homem, deveria simplesmente usar toda a paixão do corpo e do espírito para se guerrear.
Bel realmente não conseguia entender a lógica de Zidaly que gastava seus esforços para se fazer notada por Crazy...

Hmpf. Logo a viagem terminaria, a guerra começaria e toda aquela história se acabaria, de uma vez por todas. De preferência, com uma cruz em cima do corpo enterrado de Zidaly.

Wow! E a escola continua se sobressaindo à internet, limitando minha imaginação. Ultimamente estou resolvendo mais logaritmos do que conseguindo pensar em qualquer personagem de Três Fadas, sem contar que acabei me envolvendo em um livro aí. Sinopse do livro? Surpresa, mas posso garantir que ele é mais sério. É um drama (vocês sabem como adoro um bom drama envolvendo famílias despedaçadas e bastante sangue), e espero ir bem nele, sinceramente. De qualquer modo, tenho que voltar a escrever isso urgentemente, e me envolver nisso. Enfim, é isso. Espero que tenham gostado desse capítulo! ^^

E até a próxima! Estou com saudades de vocês =**

terça-feira, 7 de abril de 2009

Parte 79 - Estupidez de Mecci.

Ophelia andou pelas escadas.
Eram quatro da manhã, as estrelas estavam perfeitas e o seu estado era de uma raiva incontrolável.
Descia, subia, atravessava corredores, perturbando a todos com seu andar apressado, seus resmungos. Queria agir, e ser verdadeiramente uma rainha. Tinha alguma coisa que a incomodava desde a luta com Elyon e Catherine, alguma coisa que insistia em ficar ali. Ela não sabia o quê, mas a coisa estava ali, no pé de cada escada, atrás de cada porta, no fim de cada corredor. A coisa que insistia, que perturbava, que atormentava Ophelia com aquela ansiedade, aquela excitação lhe subindo o peito. Ophelia queria gritar, mas não conseguia.
Todos dormiam.
Todos adormeciam.
Alicia dormia no outro canto no quarto onde Lala adormecia, assim Ophelia mandava.
Os Glombs ficavam quietos, pois o barulho deles incomodava Ophelia.
Ravèh adormecia em um quarto só dela, cedido por Ophelia, e os irmãos dormiam.

Nada.
Nada acontecia.
Pensou que quando fosse rainha, conseguiria vingar tudo o que sofrera na infância. Pensou que sua sede de poder seria saciada, seria feliz, no fim das contas. Mas não era isso que acontecia. A cada dia que passava, se sentia mais vazia e o vazio corroía a sua alma por dentro. Estava perdida, e queria alguma emoção. Aquela emoção que sentira ao massacrar Elyon e Catherine.
Sentou-se no trono, encarou a frente. Ali em frente, Bia lutou com Lala, e ela conheceu Umrae, Ly. E também a doce Amai, a decidida Rafitcha e a calma Kibii. Kibii... tivera-a nas mãos, e foi resgatada tão facilmente, de modo tão estúpido, que Ophelia teve que se questionar sobre a atenção real que dava para seus prisioneiros.
Era uma rainha.
Mas era a rainha dos demônios, e ao menos, eles gostavam de seu reinado. Tinham carta branca para tudo, não é? A lei deixou de existir, a ordem deixou de ser assegurada, e todo o Conselho simplesmente sumiu, dissolvido na confusão. Estava praticamente sozinha para governar reinos e reinos, e se Lala não resistisse, aí que estaria sozinha de verdade. Tinha Lala para lhe ajudar, tinha Lala para lhe aconselhar e para tirar o gosto da solidão. Ela era seu escudo, seu saco de pancadas e seu confessionário.
A única pessoa viva que conhecia o lado humano de Ophelia, e ela não podia deixar morrer simplesmente.

Não iria deixar.

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- Pronto?
- Yeah.
Dez dragões na frente, acorrentados no pescoço, e correntes presas a uma grande carruagem que tinha o tamanho da sala de estar de uma casa japonesa, daquelas de estudante. Por fora, toda pintada de furta-cor e completamente encantada para se mesclar ao céu. Por dentro, toda de madeira com janelas fechadas, feitas de cristal, e dois compartimentos separados por uma porta. No compartimento menor, se guardava as malas e todo o material necessário. No maior, as pessoas se deitavam sobre cobertas e não conseguiam dormir devido ao balanço que fazia enjoar. No interior, onze humanos e três dragões.
Dez dragões, sendo que cinco eram de escamas azuladas que brilhavam à luz das estrelas e cinco eram completamente negros, exceto pelos chifres que tinham cor de osso, e todos os dez dragões voavam em alta velocidade, carregando a carruagem.
- Chamada básica e ordens básicas - disse Bel, que se sentava junto à uma das janelas, recostada em uma enorme almofada forrada de cetim azul - vamos lá. - olhou para uma prancheta onde tinha alguns papéis - Crazy, Giovanna, Harumi, Luka e Pauline: cuidarão dos dragões azuis. Polly, Ratta, Ti-Yi, Toronto, vocês ficarão com os negros. Eu também ficarei com um dos negros.
- E eu? - Zidaly protestou veemente - ficarei com qual?
- Nenhum - Bel afirmou categoricamente - será a cuidadora.
Todos tiveram que disfarçar o riso, enquanto Zidaly não entendia:
- Como assim?
Bel teve que explicar:
- A cuidadora é simplesmente o trabalho sujo. Lavar a sujeira que eles fazem, lavar os nossos uniformes - ao passo que Zidaly fazia uma careta de horror, Bel continuou sadicamente - sabe, você terá que usar uma roupa muito bonitinha, toda amarela, e manter tudo limpo, e tem que cuidar muito bem, senão eles ficarão furiosos com você e te matarão.
- Comendo viva - acrescentou Ti-Yi, risonho.
Zidaly recuou, abraçando os próprios joelhos. Parecia sinceramente apavorada.
- Eu não te conheço - Crazy comentou - você nunca deu ataque de frescura em missão, ainda mais quando você suborna para ser convocada.
- S-Subornar? - Zidaly quase que choramingava.
- Com o corpo - Bel alfinetou - eu aceitei que entrasse, mas infelizmente, você se esqueceu de decidir sobre que tarefa receberia, confiando na minha boa vontade. Infelizmente pra você, minha querida, eu estou com um desejo mortal de fazer criar o inferno na terra, sobre você.
Zidaly parou de tremer e choramingar, ficando fria como gelo.
- Não vai conseguir. Será dedurada quando eu voltar.
- Quem disse que vai voltar? Em uma guerra, costuma morrer gente, sabia? - Bel sorriu diabolicamente, ao que Zidaly mordeu o lábio inferior de raiva, seus dedos tremendo de tanto ódio. Polly ficou em alerta como costumava fazer quando a situação se tornava tensa, e Harumi ficou pronta para usar magia de defesa, coisa em que era muito boa.
Zidaly se levantou de supetão, postura ereta, procurando a espada no punho e reparou, com decepção, que não a possuia.
- Desculpe - Ratta disse cinicamente - mas todas as armas foram guardadas lá atrás. Ordens da Comandante.
Bel também se levantou, os punhos na posição.
- Quer lutar, criança? - sorriu - venha.
- De corpo? Que vulgar - Zidaly bateu o pé esquerdo no chão, direcionando alguma espécie de magia entre os ladrilhos de madeira e correndo até Bel com rapidez, fios de energia que se entrelaçavam em volta de Bel, fios azuis e mágicos que formaram uma espécie de gaiola. Mas Bel não se apavorou nem se intimidou.
Só deu um passo.
E os fios sumiram.

Zidaly bem que tentou, usando todas as magias de ataque nível um para iniciantes bakas aprendidos, mas Bel se defendeu de todas com tanta delicadeza e facilidade que Zidaly teve que admitir que a vitória era da Comandante. Desabou no chão depois da vigésima oitava magia lançada e defendida, e ofegou. Aquilo não lhe cansara quase nada, mas mesmo assim, não queria usar magia mais forte ou causaria uma forte interferência na magia que protegia a carruagem. Podia até matar Bel cantando e dançando, mas nunquinha que iria colocar o seu amado queridissímo Crazy em risco. Nunca.
- 1x0 para mim? - riu Bel bem baixinho.
Zidaly a encarou com um olhar de nojo, quando Gerogie disse friamente:
- Francamente, vocês me enjoam.
Pararam e ficaram quietos a viagem toda. Os três dragões dormiam tranquilamente, os humanos permaneciam com enjôo. É, fazer o quê.

E a noite chegaria, logo, ao fim.

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- Me ajuda?
Raveneh permaneceu com os olhos fechados, se revirou na cama.
- Não.
Respirava ofegante, mesmo dormindo, sentindo mágoa na garganta.
Droga. Droga.
- Raveneh.
- Raveneh, por favor, me ajuda
Johnny se levantou sobressaltado pelos gemidos de Raveneh, gemidos dolorosos de quem estava sofrendo demais.
- Espero a sua morte há catorze anos.
- Raveneh!
Johnny sacudiu a esposa que acordou, lágrimas nos cantos dos olhos. Se sentou, ofegante, as lágrimas correndo pelas bochechas, parecendo aturdida.
- Johnny...
- Sonhou com o quê?
Raveneh fixou o olhar no teto, não querendo responder. A resposta era vaga demais, a esperança estava sumindo.
- May está bem? - Raveneh perguntou, sua voz sempre tão adocicada, ao que Johnny respondeu com ternura:
- Sim, querida.
Johnny abraçou Raveneh com todo o carinho que podia reunir dentro de si, e embalou Raveneh com cochichos calmos e cantigas. Raveneh parecia uma criança dourada entre seus braços.

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- Porque tem duas belezinhas tão sozinhas? - riu o barman que servia as bebidas com uma desenvoltura íncrivel. Seu sorriso era de um homem galante, metido à conquistador, alto e imponente, peito de fora e calças verde-exército.
Elyon o encarou com desprezo:
- Quero só a mimatta de malte - resmungou - não quero você.
- Você deveria reconsiderar, garota - o barman disse, enquanto servia dois copos repletos de mimatta fumegante - eu nunca decepciono as donzelas.
- pffff - riu Catherine sem achar graça - poderíamos matar cem desses em um golpe, mas ainda assim eles se acham...
- Obrigada, garotão - ironizou Elyon entregando duas moedas de bronze - acho que isso servirá.
- Não. Tem que ser um galleom por cada copo - o barman resmungou - por causa desses demônios - abaixou o tom de voz, quase que sussurrando - eu tenho mais dificuldades de manter esse bar... o preço aumentou, desculpe, senhoritas. Mas tem outro jeito de pagar...
Elyon jogou mais duas moedas de bronze, dando um olhar furioso:
- E mais duas, completa-se dois gm'. Pagaremos em moedas, não se preocupe.
Catherine pegou seu copo, bebendo um gole.
- Hey, - disse Catherine enquanto bebia aquela bebida tão amarga - veja só esses monstros. Completamente...
Elyon concordou com um aceno de cabeça.

A cena era triste.
Num canto, demônios jogavam baralho, bebendo mimattas que equivaliam à vários galões imperiais e discutiam sobre coisas obscenas, enquanto outros bebiam solitários. Ainda havia os humanos que dançavam ao som de humanos, e Elyon não conseguia sentir a energia deles, o que fazia pensar que eram realmente humanos em meio aos monstros.
- A qualquer minuto, eles podem explodir esse lugar - murmurou Catherine - esse bar só existe porque o barman conseguiu impor respeito...
- Sim - Elyon concordou, sentindo os efeitos do álcool - e ele também é um grande tarado. Se ele me atacar, vai perder muito mais do que o documento dele - rosnou maldosamente.
Catherine riu.
- Te odeio - gritou uma mulher, com três seios no tronco e quatro braços enormes - te odeio.
Outro demônio se levantou, fazendo cair várias cartas de baralho no chão. Media cerca de um metro e oitenta, e em seu rosto deformado, só havia um único olho grande, redondo de íris negra, e possuía vários dentes, pontiagudos e tortos.
- Também te odeio, Meicci - rosnou ele, erguendo as mãos em direção ao demônio feminino, que fez gritar, atraindo a atenção até dos mais desligados e bêbados.
Os quatro braços da tal Meicci bem que tentaram defendê-la, se movendo e rasgando o tronco do maior, mas nada adiantou. Seu pescoço foi apertado como em um estrangulamento, sua cútis facial se tornou arroxeada, seus olhos saíram das órbitas e desabou no chão, quando ele a largou. Todos o encararam, amedrontados e temerosos.
- Quem vai querer quebrar as regras do vinte-e-um comigo? - ele vociferou.
A voz ecoou no aposento.
E se sentou, solitário, jogando vinte-e-um sozinho, fingindo que tinha alguém ao lado.
Ninguém se movimentou para pegar o cadáver do demônio que ousara quebrar as regras do vinte-e-um com alguém que não tinha mais o bom senso de discernir entre o normal e o extravagante.

Oh céus, preciso melhorar isso logo. Mas estou me preparando, psicologicamente. Afinal não pensem que vai ser fácil digitar capítulos em que vidas serão desfeitas, sim, vidas. Ou vocês acham que o título do blog lá em cima vai permanecer verdade? E quando me refiro a 'todas', não me refiro somente às três principais. Por enquanto. Obrigada, boa noite. E comentem, eu gosto muito dos comentários que vocês fazem *-*