segunda-feira, 15 de junho de 2009

Parte 86 - Nuvens que se queimam de dúvidas.

É estranho chegar a terra e sentir que só desabou em um colchão macio.
É estranho abrir os olhos e ver que o céu ainda existe.
Sim, quando se sente que já não há mais corpo, e você toca sua própria pele e percebe que, sim, você é material, palpável! Sentiu os próprios braços se arranharam com os galhos, a cabeça latejar. Cuspiu sangue, tentou se apoiar em nuvens.
A terra estava bem macia.
Nuvens. Não havia mais nuvens debaixo de seu corpo. Só havia terra e mato, e mais terra se estranhou entre cabelos, fazendo-a se sentir incomodada com tal coisa. Catherine nunca foi grande fã de ficar na terra mesmo, entre árvores: o oceano sempre foi seu refúgio, e tudo o que queria era se mergulhar na imensidão azulada.
Precisava avisar as outras Musas da situação. Com certeza, supôs, elas sabiam que Elyon havia morrido. Até ela conseguia sentir as diferenças deixadas, como se as sombras se revoltassem com a morte de sua senhora. Sentia que tudo estava mais escuro, e começou a ficar com um certo medo.
Exatamente a mesma sensação experimentada quando Olga partiu.
Porém ,
havia algo de errado.
Não era como se Elyon simplesmente morresse. Não era como se toda a magia descomunal dentro dela se esvaísse e escorresse pelas paredes do castelo, sendo um espectro em cada vitral, não era como se Elyon virasse um fantasma ou simplesmente sumisse. Sentia que as sombras deveriam estar mais claras, como que tristes e sombrias, sem se empolgar em assustarem como Elyon gostava. Era como se tivesse acontecido alguma coisa que desse raiva, muita raiva.
Catherine se levantou, percebendo ainda estar ferida.

Mas nem doía.

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Ophelia encarou Lala.
Parecia se sentir culpada de algo. Muito, muito culpada. Deslizou as mãos pelo rosto várias vezes, cravou as unhas nos próprios braços, gemeu palavrões e esmurrou a parede tantas e tantas vezes que já deixava marcas. Parecia ser uma louca, com as roupas de baixo (fino vestido branco que cobria todo o corpo, exceto os braços, como uma camisola) e os cabelos despenteados. Gritou algumas vezes, pouco se importando se Lala acordaria. Ela queria muito que Lala acordasse e a matasse de uma vez.
Ela sentia que não conseguiria se suportar por muito tempo.
- S-sua bruxa...
Queria morrer. Não, não morrer. Na verdade, mal sabia o que queria. Quando fez tudo aquilo, estava só obedecendo aos seus instintos: provocar os demônios contra as fadas, provocar uma carnificina, provocar as Musas por ter sido adormecida a força. Mas agora tudo lhe parecia surreal, como se tivesse acordado de um pesadelo. Não que agora quisesse parar, longe disso. Ela só queria...
- Acho que foi o bastante. Não quero que você morra, sabe.
... alguma organização. Ser uma Rainha que durasse bastante tempo e ser lembrada por toda a história como uma Rainha, e não como uma louca que assassinou quase a totalidade da população de fadas. Ser citada em todos os livros de histórias. Mesmo que fosse citada como uma vilã, deveria ser citada com toda a honra e pompa que tinha direito. Se deveria ser lembrada por um extremo, deveria escolher um bom extremo. E assim seguir com seus planos, mantendo sua cabeça em ordem.
Já vi que será uma escrava fraca!
Lala nunca foi uma escrava fraca. Sempre resistiu a todos os acessos de loucura, tinha que reconhecer. Claro, ela simplesmente teve medo de agir assim, teve medo de dizer 'não, sua louca, vou-me embora que tenho mais o que fazer'. Mas ainda assim, Lala merecia um crédito por ter suportado simplesmente. Gika havia se matado. E agora aquela vadia da Alicia perambulava pelo castelo, talvez cuidando daquela outra vaca de nome Catherine. Se Alicia tivesse deixado Catherine escapar...

... bem, nem mesmo ela iria sobreviver. Arrastaria a sua pele pra ser pano de chão. Com certeza, branca do jeito que era, sujaria-se logo com as imundícies que correm pelos corredores do palácio.


- Oph.?
- Lala!
Ophelia sorriu. Era mais um esgar de lábios do que um sorriso propriamente, mas isso não tinha importância, logo Ophelia sorriu de verdade. Pegou nas mãos de Lala com carinho, como se fosse outra pessoa e não ela mesma. Lala tirou as mãos, receosa. Sentia o corpo arder sob os lençóis, e agora percebia que poderia morrer, de um jeito ou outro. O corpo lhe doía, e fora severamente machucada quando batera de frente com aquelas duas meninas.
- O que--
Lala encarou a amiga (amiga?) com descrença, estranhando os cabelos despenteados e a roupa fina, sem pompa.
- Tive uma luta - Ophelia confessou - não fale, isso lhe fará mal. As mesmas que te machucaram... matei uma das duas. Agora caçarei a outra.
- A outra? - Lala ergueu o canto dos lábios como se fosse rir zombeteira - mas, Oph, matar...
- Cale a boca - Ophelia disse - eu bem que queria saber onde está aquela vaca loira. Ela que sabe tudo muito bem, e espero que ela não tenha fugido.
- Provavelmente sim - Lala disse. Achou um jeito de se deitar em que a garganta ficava entorpecida e doía menos falar - ela não quer morrer. Provavelmente a outra fugiu.
- Cala a boca.
Ophelia saiu do quarto, quase que batendo os pés com força. Mas controlou a ira, de modo que nada se podia escutar de seus passos ou sua respiração. Estava na porta quando Lala se assustou com tamanho poder.
- É novo pra mim, mas... - Ophelia comentou descuidadosamente, admirando as próprias mãos.

As moléculas do seu corpo pareciam borbulhar sob a pele, se revoltando contra a ordem sob quais foram impostas. Aos poucos, a pele se derretia suavemente como chocolate, e as moléculas se rejubilavam com o prazer de se libertarem. Ophelia sorriu, mesmo suas pernas não conseguindo resistir ao novo poder e desabando de joelhos sobre o chão. Mas durou apenas segundos, pois tudo aquilo voltou à condição normal e Ophelia voltava a parecer uma garota. Ela sorriu, sentindo-se aliviada. Tudo estava indo bem, então. Tivera absoluto sucesso.
Enterrou as unhas no chão (e Lala não acreditou: as unhas de Ophelia são curtas e o chão era de algo muito semelhante a vidro, impossível de se rasgar com unhas), em seguida, os braços. Lala assistiu Ophelia se fundir a tudo: ao vidro do chão, cristal das paredes, à cama em que Lala estava, às cortinas de seda e veludo, aos móveis, ao próprio ar que Lala respirava.
Sua boca se abriu de espanto.

Estava tudo muito mais escuro.
Estava tudo muito mais mau.
Era como se Ophelia estivesse em tudo, como um deus. E de fato, ela estava em cada pedaço daquele castelo, vigiando a todos e a tudo. Era uma criatura implacável, ladra de poderes, sem nenhum senso de responsabilidade. Encontrou Alicia estupefata no próprio quarto, arrumando suas próprias coisas. Lala não viu, mas conseguiu sentir o terror de Alicia quando ela percebeu as sombras se movendo em suas mãos ternamente, para lhe apertar os pulsos no próximo segundo.
- Aqui, Alicia, aqui.
Alicia concordou. Qualquer um concordaria, contanto que aquilo sumisse.
E Lala voltou a enxergar Ophelia normal. Na aparência, claro. No interior, a normalidade era só um nome sem significado, como é pra milhões de pessoas. Infelizmente. Se ao menos Ophelia vestisse a máscara da normalidade vinte e quatro horas por dia, muitas vidas seriam poupadas.

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- Me abraçe.
Amai encarou Raven com toda a sinceridade e paixão do mundo, como se fosse uma amada prestes a se despedir de seu amor indo para a guerra. Não estava muito longe da verdade, exceto pelo fato de que Amai ficaria mais vermelha do que fogo se imaginasse em outras situações com Raven. Tê-lo como o irmão que nunca teve estava muitissímo de bom tamanho.
- Tudo bem - Raven abraçou a amiga com carinho - vou voltar vivo, não se preocupe.
- Vai mesmo?
- Sim. E caso não cumpra minha promessa, tudo que é meu será seu.
Amai sorriu.
E Raven partiu.

Não, Umrae não pretendia fazer com que Raven e Johnny, por exemplo, fossem exímios lutadores contra demônios em cima de dragões. Ela simplesmente precisava de apoio, e isso os dois ofereciam, mesmo não sendo especialistas em nada. Cada guerreiro de Grillindor montou em um dragão, e Umrae e Bel decidiram a distribuição: Doceh ficaria no mesmo dragão em que estava Harumi, Ly acompanharia Crazy (para evitar ciúmes de Doceh, Bel achou prudente: não queria provocar mulheres de TPM), Johnny teria a companhia de Ti-Yi e Raven teria o prazer de ser o companheiro de Luka, ao passo que Fer começou a simpatizar com Ratta e Bia conheceria Polly (esta sentiu um arrepio: algo em sua cabeça dizia que era anormal alguém vestir quase uma armadura completa em um dia tão quente). Umrae iria com Bel, e ambas iriam ficar na frente, orientando a todos.
- Vamos às regras - Umrae começou, vestindo suas luvas de couro. Estava amanhecendo ainda, o azul tingindo o céu em tons desbotados, e os dez dragões estavam de postos em cima da verde relva, e tudo parecia ser um pouco mais escuro que o normal. Mas Umrae ignorou esses detalhes, fixando o olhar em cima de cada um dos escolhidos - primeiro: nada de heroísmo barato e estúpido. Isso vale principalmente para Raven e Johnny, que não estão muito habituados a esse tipo de coisa. Mas eu confio em vocês, porque vocês são competentes e inteligentes. Simplesmente lutar não é o meio de vida de vocês. Segundo: mantenham a maior distância possível da terra. Isso é pra todos. Não quero que vocês voem baixo demais e isso resulte em algum demônio conseguir encostar nos dragões. Entenderam? - o brilho dos olhos dourados de Umrae ficou ainda mais intenso - terceiro: resgate. Se resgatar alguém, balance isso - e mostrou uma comprida fita vermelha que devia ter o comprimento de uma espada tradicional, e era chamativa o bastante - não posso confiar em gritos, porque sempre pode acontecer algo que atrapalhe como o zunido do vento. De modo que todos terão essa fita. Em caso de resgate, balancem a fita e os outros verão. Quarto: não vão simplesmente se metendo a heroís.
Ela respirou um pouco.
- Os de Campinas se aproveitarão que não precisam mover o dragão, estarão livres. A todos foram dados arcos e flechas, e bestas e dardos. Terão todas essas armas a sua disposição. As flechas de bronze com essa ponta de vidro são as mais comuns. As flechas de prata enegrecida são as que contém veneno para paralisar, forte o suficiente para conter um demônio. E aquelas que forem de prata com uma fita amarela na ponta são as que possuem um veneno mais forte que paralisa em segundos e mata em horas. Notarão que o número de flechas é equilibrado. Mas isso não quer dizer que devam abusar. Toronto, Pauline e Giovanna tem a seguinte missão: cercar as fronteiras. Nós não podemos deixar os demônios se espalharem, embora isso já tenha acontecido. O que farão é delimitar as fronteiras com isso - mostrou um caldeirão pequeno com algo muito vermelho em volta que cheirava incrivelmente mal - não abusem, isso é bem difícil de fazer. Tinha nas reservas daqui há um bom tempo, e eu precisei acrescentar pequenas coisas para intensificar o efeito. Isso tem um efeito gradativo em qualquer ser, fazendo-o se sentir mal. Por isso, usem no fim da missão em cada área para não prejudicar pessoas inocentes.
- Ahm... - Umrae parou por um momento, organizando as próximas falas, o que deu espaço a comentários entre os membros:
- Eu não gosto dela - murmurou Giovanna confusa - quem deveria liderar é a Bel, não ela.
- Mas ela é a chefe daqui - respondeu Luka pesarosa - e ela é boa no que faz.
- Sim, ela é competente. Mas é tão estranho receber ordens assim... Bel é alguém tão... bizarra que faz a gente estranhar a normalidade - Giovanna opinou em tal tom de penúria que fez Luka rir, e mais Pauline que tinha escutado. Umrae voltou a falar, ignorando os comentários (embora tivesse ouvido cada um deles perfeitamente):
- Os dardos, a mesma coisa que se aplica às flechas. A diferença é que eles são menores (alguém: dã, jura? eu jurava que era maiores!| Umrae: você-me-entendeu ù.ú). Enfim, se estiverem em perigo-perigo, tem espadas. Mas não sugiro usá-las se não sabe. Espadas são pesadas e são difíceis de manejar, de modo que não darei nenhum incentivo. Pelo menos arco e flecha todos sabem aqui, aprenderam aqui, certo? Podem não ser uma Kibii da vida, mas pelo menos sabem o suficiente para salvar a própria pele. Usem os dardos vermelhos em humanos quando eles apresentarem resistência. Se fosse uma missão mais solitária e eu pudesse me dedicar mais aos resgatados, não precisaria, mas eu não posso garantir que vocês conseguirão acalmar os sobreviventes. De modo que usem esses dardos que possuem fracos soníferos, entenderam? Bem... preciso ainda falar algumas coisas...
Umrae encarou a todos.
Ainda que tivesse certeza de que a missão seria bem-sucedida, ainda assim tinha temor, certo temor de que algo saísse errado. E se alguém não conseguisse lembrar de suas orientações? Continuou a discorrer sobre tudo que podia e o que não podia, não esquecendo detalhes, tentando ser rápida e informativa ao mesmo tempo.

- Você é a Fer - Ratta disse. Ajeitou seu cinturão onde ajeitava as armas - você é boa em lutar?
- Sim - Fer disse sem modéstia - principalmente com punhais.
Ratta riu. Ultimamente qualquer coisa a fazia rir, seja coisa triste ou alegre. Fer também riu, mas foi um mero riso de acompanhamento e logo sumiu na névoa da manhãzinha.
- Já matou gente? - Ratta murmurou, seus olhos encarando a escama negra do dragão - sabe, preciso saber com quem estou lidando.
- Já.
- Ótimo - Ratta entregou uma fina espada de prata - você já tem sangue nas mãos o suficiente para não ligar pra isso.
Fer resolveu não perguntar o que a garota queria dizer com isso.

- Ouvi dizer de Bel que você é caçadora de demônios - disse Polly - pensei que você estaria na cidade lutando contra demônios.
- Há muito tempo que não mato um demônio - Bia pareceu sorrir por um momento, mas Polly julgou que seria engano - estou bem enferrujada nesse quesito.
Bia não precisava de arcos e flechas. Não precisava.
Só precisava da comprida espada, tão pesada e eficiente.

Por nós.
Por Campinas e Grillindor.
Por algum sentimento estranho que nos impele a agir de forma suicida.
Umrae sentia algo estranho. Era como nos tempos que resgatava crianças: a sensação de fazer parte de algo muito grande e importante, a ansiedade contida, encarar as pessoas e saber que elas morreriam se fossem imprudentes. Seus olhos dourados encararam o céu que se pincelava de nuances mais claras a cada segundo, tentando achar uma resposta para tudo aquilo: por que o mundo é do jeito que é...

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Alicia esmurrou a porta de seu quarto várias vezes, ressentida.
Fora trancada no próprio quarto, por ter ousado pensar em se mandar, e agora se batia de ódio por não ter ido embora mais cedo. A Majestade morrera, e só havia uma louca com coroa. E seus sete meses de submissão real já não existiam mais, justamente por não haver mais a realeza. Agora que iria embora, agora que tinha que sobreviver de qualquer jeito.
Pensou no fim de toda aquela história.
O que iria fazer?
Ir embora. Para bem longe, esquecer das fadas. Esquecer que teve uma Rainha que morreu e foi torturada na sua frente. Esquecer de uma louca que gostaria muito de ver seus cabelos sendo arrancados da raiz, fio por fio. Esquecer de Lala e sua difícil respiração. Esquecer de tudo. Por um instante, quis cair bem fundo em um abismo e perder a memória.
Que bom seria se acordasse e descobrisse que foi tudo um sonho!

Suas mãos se envolveram em seu pescoço, comprimindo a própria respiração.
Que absurdo era esse?
Ela não queria ficar viva? Bem, esse era o problema. Não sabia se queria viver.
Viver lhe parecia um insulto agora.

Ophelia era uma louca. De que valia o reino? Assassinar tanta gente por vingança? Por gosto pessoal? Por que queria sangue?
Era como se ela se mergulhasse em auto-piedade. E tinha certeza que se não saísse desse lago de desespero, iria ficar louca. Não duvidava nada que no momento que o pesadelo chegasse ao fim, ela começaria a apresentar tendências narcisistas incontroláveis...

Um comentário:

Umrae disse...

Aha! Viu? Eu disse que a Ophélia não entende nada de Caos. É uma tirana nata (lawful evil chata). Seres de alinhamento caótico estão pouco se lixando para o que os livros de história dirão deles.
E apelação isso de ela absorver o poder das musas. O equilíbrio de poder entre ela e dois países inteiros já era completamente desbalanceado. Tomara que quando ela tente absorver outra musa ela arrebente, lol.
Sempre assim... Sempre tem que ter algum babaca narcisista e megalomaníaco infernizando a vida de uma população inteira. Bem, estamos cansados de bancar a infantaria leve descartável no meio dessas disputas de poder para ver quem vai ficar bem na foto nos registros históricos.
Muito bom o capítulo.
Bjos