terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Parte 97 - Um passo para a beira do abismo.


Um dia.
Vinte e quatro horas era tempo demais.
May já estava berrando. Tentaram leite feito com farinha e algo lá, mas nada dava certo. E só de lembrar que restava seis dias, seis dias para o prazo final. Ou Raveneh morria. E se Raveneh morresse, o que fariam com o bebê? Como a alimentariam?
Mia também chorava.
- Com o que que essas pessoas estão hoje? - Ly perguntou quase grosseiro - é possível crianças terem cordas vocais tão fortes?
Doceh lhe abraçou carinhosamente.
- Vai ficar tudo bem - disse - vai dar tudo certo.
Estúpidas palavras de esperança.
Vai dar tudo certo.
Vai dar tudo certo.
Claro.
Com duas crianças chorando, uma pessoa sumida, duas gravemente feridas, e todo mundo praticamente louco. Vai dar tudo certo.
Claro.

Rafitcha tremia. Nunca, nunca, nunca teve paciência com crianças mesmo quando era só uma e ela tinha mãe que conseguia acalmar. Agora eram duas. Uma chorava de fome e saudades, outra de medo e saudades. A outra tinha, pelo menos, dois irmãos. Mas isso não dava jeito. E, não... o pirralho do meio começou a chorar.
- Não aguento... - e começou a chorar também. Lágrimas. Gemidos.
Não era a pessoa que estava em pior situação naquele maldito lugar.
Mas preferia descer nas prisões de Istypid do que aquele lugar. Qualquer lugar que não tivesse as malditas crianças. Não teria filhos, nunca teria uma criança. Jamais. Se engravidasse, por acaso, ela matava a criança sem culpa. Ou dava pra adoção. Se engravidasse... era melhor nem engravidar. Nunca iria transar. Jamais. Um prazer cortado pra ter um incômodo ausente. Não tinha problema.
- Ra...? - Erevan chamou seu nome, procurando lhe consolar.
Rafitcha lançou seus braços em volta do dragão em forma humana, chorando copiosamente, suplicando qualquer coisa. Como algodão nos ouvidos e coma profundo para simplesmente esquecer do clima pesado. Erevan suspirou. Gritou chamando por Kitsune, falou a ela qualquer coisa. Kitsune se afastou, disse a mesma coisa ao Johnny. Johnny adorou, e Kitsune fez. Um dos soníferos mais suaves, ideais para crianças, de Umrae.
Fez o bebê dormir rapidamente.
As três crianças também experimentaram do remédio, dormindo tão profundamente que nem uma bomba os acordaria.
E o silêncio se instaurou no abrigo.

Rafitcha pediu uma dose, o que Kitsune deu. Ela dormiu apoiada em Erevan, aconchegada e tendo conforto pela primeira vez em muito tempo.

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Raveneh não ficou na masmorra, nem em um galpão.
Ela ficou em um quarto.
O quarto tinha uma janela que tinha uma visão maravilhosa de Campinas, e bastante luminosidade. Mas Ophelia bloqueara a janela com um feitiço, de modo que Raveneh não poderia escapulir qualquer que seja o jeito. E a luz também foi bastante diminuida, para que Raveneh se sentisse nas sombras. Quando Raveneh acordou naquele lugar, ela não sabia onde estava. Ela viu os pulsos doloridos (porque?), sentiu os seios vazarem leite (há quanto tempo não dava de mamar a May?), sentiu a cabeça doer (onde estava?). Forçava a memória. Uma música. Alguma coisa do gênero. E depois... meros borrões. Nada fazia sentido.
Não havia ninguém no aposento.
Ninguém.
É.
Não.
Vai precisar de mim, moça.
Não podia ser...
Não é óbvio que você é prisioneira de Ophelia?
Deitou-se no chão, tentando dormir novamente. Não sabia que horas são, embora já fosse noite pela janela. Era noite do mesmo dia que acordara em Campinas? Ou já era outro dia?

Céus. Isso estava realmente problemático. Onde estaria May? Será que Johnny estava bem? Porque ela estava aqui? Quer dizer, algum motivo realmente razoável que não seja simplesmente porque era a mocinha da história e tudo acontece com a mocinha da história. Quer dizer, seus dias tristes já passaram. A guerra era ruim, era um desastre. Mas não era um problema dela, e sim geral, ao contrário de Istypid. Aquilo foi um problema dela.
E de todo mundo que arrastara consigo.
Que coisa mais chata.
Você não precisa vivê-la, sabe.
Claro que precisa.
Todo mundo precisa viver a vida que tem, inclusive as pessoas que tem personalidades múltiplas. Raveneh ficou em pé, começando a andar pra lá e pra cá. Estava começando a ficar com tédio, e embora não quisesse ser torturada (teve um arrepio ao lembrar o estado de Kibii quando ela chegou em Campinas), também não queria ficar ali, isolada e intocável. Estava escuro. Ela mal conseguia enxergar o outro lado do quarto. Talvez animais fossem úteis. Mas será que haveria um nesse quarto? Uma formiga? Uma barata? Uma coruja? Qualquer coisa que falasse com ela...
Contou os pés de um extremo a outro, em meio a escuridão.
Mas esqueceu-se de quantos pés media o quarto, porque quando estava no trigésimo quinto passo, Ophelia entrou. Era a única fagulha de luz, Raveneh correu para ela com tanta empolgação, quase esquecendo que alguém abrir a porta não significava a salvação. Podia significar a tortura, o que foi, de fato, aconteceu.

- Já te falaram que você parece um anjo? - Ophelia disse docemente.
Sim. Raveneh não disse nada em voz alta, tinha medo. A mulher que tinha aterrorizado todos seus amigos estava ali, atrás dela, pronta a lhe tocar, lhe machucar, lhe inflingir as piores dores. Ofegou, tentando procurar por uma maneira de fugir.
- Você realmente parece um anjo... não quero te machucar - Ophelia se aproximou.
Raveneh se sentiu sendo abraçada. Os braços da rainha envolviam seu corpo, o calor da carne era algo inumano.
Nunca havia tremido tanto assim.
Sua pele suava.
- Eu não quero - o sussurro era quase incompreensível - mas eu preciso passar por certas coisas se eu quiser ter o poder...
Raveneh olhou para a frente, sentindo Ophelia desamarrar seu vestido por trás. Estando nua, doeria muito mais.
- Eu quero realmente ser A Rainha - admitiu Ophelia - e para alguém ter o poder absoluto, precisa-se devorar algumas mentes. E torturar alguns anjos... perdoa?
Raveneh sentiu o vestido cair aos pés. Havia agora somente as roupas de baixo, e já morria de vergonha. Suas bochechas se molhavam de lágrimas, a voz interior gritava em seus ouvidos e toda aquela insanidade estava em cada centímetro do ar. As mãos de Ophelia não estavam mais concentradas em deixar cair algum vestido, mas em arranhar.
Gritou primeiro de espanto.
Aquelas unhas lhe arranharam a carne das costas.
Gritou depois de medo e dor e desespero.
Aquelas unhas começaram a ferir, agredir e dilacerar as costas.
E ela nada podia fazer, porque nem Catherine conseguia reagir.

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- Logo.
Umrae não tinha tempo.
Não tinha paciência.
Estava esgotada.
- Essa tropa - apontou para o mapa - Raveneh.
Anuiram.
- Aqui - apontou para outro ponto do mapa - destruição total.
Resgatar Raveneh era uma parte simples da operação.
O negócio era resgatar Raveneh viva, levá-la em segurança até as Campinas enquanto acabava com todos os demônios ao redor de Ophelia. Os dragões mestiços iriam destruir os arredores. Keishara e Gerogie estavam unidas para capturar Raveneh de volta.
- Eu vou - Johnny se negava a ouvir qualquer súplica ao contrário. Mesmo quando Umrae lhe disse que provavelmente ele morreria, ele disse que ia. E daí se não fosse com os dragões?
- Deixa de ser idiota - Rafitcha rosnou - se você morrer, se Raveneh morrer, EU NÃO VOU CUIDAR DE MAYTSURI, ENTENDEU?
- Ela vai ter ou um pai ou uma mãe, não se preocupe - Johnny disse - eu não vou morrer. Não mesmo. E Raveneh também... ela está protegida.
Rafitcha sacudiu a cabeça, raivosa.
- Não, Johnny - disse - Raveneh não tem proteção nenhuma. Catherine é um escape, e é só isso. Mas Catherine vai sofrer... sofrer mais do que Raveneh, e os pesadelos, os pesadelos vão continuar...
- Ela tem razão - disse um prudente Ly - não faça isso, Johnny. Não vá em frente resgatar Raveneh... se ela morrer, você tem que cuidar da sua filha. Sua filha precisa de você.
Johnny não conseguiu sair. Ninguém deixou.
Ele teve que se contentar em abraçar a filha, sussurrando pequenas cantorias.

O cravo e a rosa brigaram
Debaixo de uma sacada


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Lala não queria escutar.
Esses malditos gritos.
Ela não queria. Mas escutava. Mesmo que se enterrasse debaixo da terra, continuaria ouvindo. Aqueles gritos eram de Raveneh. E eram dela mesma, gritos que ecoavam dentro de sua mente. Como fantasmas. Com um arrepio na espinha, percebeu que nunca mais teria paz pois sempre dormiria com aquele desespero angustiado.
Alicia estava arrumando o quarto de Ophelia. Não podia tirar nada da ordem, nem pensar esbarrar no precioso mapa que acumulava vitórias dos demônios. Ela estremecia a cada berro que escutava, mas isso não tirava seu foco do trabalho.
- Alicia - chamou, e Alicia se virou, hesitante.
Lala mandou que Alicia se aproximasse e disse.
- Vá até ao quarto de onde vem esses gritos. Diga que estou chamando por ela. Rápido.
Alicia foi.

Não tinha nada realmente urgente para falar com Ophelia, mas ao menos os gritos iriam parar por algum tempo.

- Majestade - Alicia chamou - Lala lhe chama.
Ophelia parou em um décimo de segundo, e deu um frio sorriso. Se ajoelhou perante uma chorosa Raveneh, ensanguentada, e a beijou na testa.
- Desculpe, meu anjo - Ophelia enxugou as lágrimas copiosas de Raveneh - não quero isso tanto quanto você.
- Quer mais - a voz de Raveneh saiu estranha - sua maldita.
A voz era realmente diferente.
Era sensual e diabólica.

Quando Ophelia saiu do quarto, Raveneh foi deixada sozinha. Com seus machucados e com Catherine. Raveneh brigara com Catherine várias vezes, decidida a sofrer aquilo solitária, sem a sua outra face lhe proteger. Queria sentir o peso do mundo, uma vez na vida que fosse. Quase se arrependeu. Ficou em um canto, tremendo e chorando.
Suas costas ardiam, e sangravam.
Ela sentia que tudo se sujava com seu sangue.
Seu tronco, suas pernas, seus braços, todos foram atingidos. Ophelia só poupara seu rosto, porque tinha pena de estragar um rosto tão angelical.
Quero que você fique reconhecível no final disso. foi o que dissera.
Ela queria gritar mais alguma coisa, mas algo se perdera em seus berros.
Kibii aguentou isso.
Seus olhos azuis fitaram a escuridão.
Demorava, mas aos poucos toda aquela dor virava insensibilidade. Ardia. Incomodava. Mas não doía tanto.
Até respirar se tornava, ao decorrer daquelas malditas horas, um ato mecânico e difícil.

Catherine chorava também.
Mesmo que aquilo doesse, mesmo que ela mesma não quisesse mais sentir tanto os pesares, sua vontade de proteger a outra mulher inocente, a mulher adocicada era maior. Queria assumir, tomar o controle, sofrer por todos os pecados que cometera e assim cuidar de Raveneh. Outra face, outra personalidade, outra pessoa.
Eram duas histórias diferentes. Eram duas mulheres diferentes.
Como isso entraria em consenso?
Até que ponto Raveneh não iria enlouquecer? Estava no seu limite, mas iria aguentar. Era uma questão de honra, pensava, aguentar uma tortura em toda a vida. Jamais dormir, seria a brecha para Catherine controlar sua pessoa. Jamais descansar, jamais perder a consciência de ser quem é...

- Deus meu, Deus meu - Raveneh rezava baixinho, pela primeira vez em anos.
Sempre tivera ódio dos deuses que regiam a vida dos humanos em Istypid, achando-os culpados de todos os males, de toda sua vida. Não pertenço a esse mundo, dizia. Mas estava desesperada, tremia de dor e fraqueza, e essa oração, aprendida na infância, era a única que conhecia.
- Que agem sobre os céus, e sob os infernos - a cada lágrima, era um verso - deitem Tua mão sobre a mim, e que Tua lágrima me console, que Teu sorriso me acalme, Deus meu, Deus meu... - odiava-se a si mesma por ter caído tanto a ponto de ter que orar para não cair em desespero. Era sinal de fraqueza, em seu íntimo.
Mas nem Catherine lhe condenava por recorrer as crenças que nunca acreditara, nunca seguira e sempre odiara.
Mesmo ela entendia como seu coração estava tão dolorido.

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- Ophelia - Lala sussurrou - venha jantar.
- Me chamou só por isso? - Ophelia deu um gentil sorriso.
- Eu não aguentava mais ouvir aquilo, Majestade.
Ophelia se sentou na mesa, mandando chamar os Glombs apavorados servirem. Frango. Arroz. Macarrão. Pouca comida, mas tudo que havia de melhor em tempos de guerra. Lala preferiu ficar somente com um pouco de arroz e tomate. Estava com pouca fome, insegura e nervosa. Sua lealdade era incondicional e irrestrita, mas era tão melhor que Ophelia não fosse tão malvada...
- O que você acha que vão decidir? Pela vida dessa loirinha ou de Umrae? - Lala perguntou, tentando parecer tranquila.
- Nenhum dos dois - Ophelia riu - vão tentar capturar Raveneh de volta. Vão tentar me destruir. Mas... eu não me importo. Já ordenei a uma tropa, e estão vindo os demônios mais poderosos, do submundo e dos céus. Demônios realmente relevantes. Eles estão no caminho. E... acho que chegam logo, amanhã ou depois.
Lala a encarou nos olhos.
Não conhecera essa parte do plano.
Era isso que Ophelia estava fazendo ao treinar todos aqueles poderes?
Estava convocando?
Pensava que estava brincando, somente treinando e enfraquecendo! Mas estava mandando mensagens pelo país todo, convocando tropas! É por isso que ela ficou tão fraca...
- Por que não me contou? - Lala parecia claramente ofendida. Na realidade estava somente chocada.
- Porque esqueci - Ophelia sorriu como uma criança e comia seu pedaço de frango com tanta naturalidade!

Lala voltou a atenção para sua comida.
Se os demônios eram o que ela estava pensando, então eram bastante páreos para aqueles dragões. Quando ela viajara com Ophelia, convocando e noticiando sobre a futura guerra aos demônios, ela fizera uma relação dos mais perigosos monstros que povoavam esse país. Eles dormiam há séculos e séculos, escondidos dos humanos e caçadores, disfarçados nas profundezas dos vulcões ou entre as nuvens. Muitos conseguiam respirar debaixo d'água e viviam no fundo dos oceanos, outros descansavam nas cavernas, devorando intrusos que ocasionalmente entravam dentro do lugar para se proteger de uma chuva. Eram enormes, perigosos, sem um pingo de bondade ou compaixão. Não eram vulgares como os demônios que apavoravam os cidadãos, eram algo pior...

Viriam em uma centena, talvez em duas ou três se mais alguns fossem juntos. Eram quase todos hirikis, a classe mais temida. A classe que até mesmo os caçadores se ajoelhavam diante de tamanha monstruosidade.
Eu não quero ver isso. foi a primeira coisa que pensou.
Se houvesse um jeito de avisar isso a Campinas sem trair Ophelia... foi a segunda coisa que pensou.
E remoeu seus pensamentos em volta disso, querendo muito que tudo aquilo chegasse ao fim. Não queria trair Ophelia, não queria ser desonesta e desleal, e mesmo que estivesse sendo estupidamente errada, não queria dar uma de covarde e fugir. Se veio até aqui, iria até o fim. Mas queria que esse fim chegasse logo, e tudo fosse liquidado de uma vez. Todo aquele palácio, os dois corpos lá nas masmorras remanescentes da família real, os demônios em volta, Raveneh aprisionada, até mesmo esse jantar era demasiado errado, confuso, enganoso.

Se houver um jeito, disse para si mesma em pensamento, de avisar sobre esses malditos para Umrae e suas tropas, eu farei. Nem que eu tenha que trair, que desonra, que maldição.
Teve que pedir licença a Ophelia para se levantar, ir para seu quarto e chorar muito.

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Tiveram que colocar uma mordaça em Giovanna para que seus berros fossem abafados.
As lágrimas de dor faziam com que ela não conseguisse enxergar nada.
- Fique tranquila - Nath lhe disse - eu sei, querida, que está doendo. Mas isso é pra doer menos depois.
Giovanna conseguiu inspirar ar, e expirar.
Respirava fundo, tentando se controlar.
Era uma guerreira, não era? Era parte da tropa de Bel, uma dos dez melhores escolhidos especialmente para lutar contra os malditos demônios de Ophelia. Estava toda queimada, mas ainda era uma guerreira!
Eu não quero isso, eu não queria simplesmente colocá-los em risco...
Mas tinham sido colocados em risco. E ela já se machucara antes do confronto final, que lástima!
eu sei que morrer nessa guerra é morrer por nada, então me desculpem, mas...
Se isso no final valer na derrota definitva de Ophelia, não seria mais morrer por nada.
Vamos morrer para matar Ophelia antes que ela destrua Grillindor.
Sim. Sim. Harumi estava certa.
Iriam morrer. Mas morreriam por Grillindor, pelo reino tão amado, pela pátria adorada. Não era por Campinas. Não era pelas fadas. Era só por Grillindor. Giovanna se queimara, se ferira tanto porque estava lutando para que Ophelia não pudesse invadir o país que amava, e dentro dele, pessoas que amava mais ainda.

Cada uma das queimaduras era um tributo à sua família, rural e modesta.
Eu ainda haverei de vê-la de novo, mãezinha...


Zidaly suspirou.
Ninguém tinha paciência pra se meter em joguinhos, e ela não conseguia manipular uma emoção tão tensa.
Ela estava tão alheia!
Viu Crazy trabalhar arduamente, alimentando os dragões, acompanhado de alguns soldados. Viu Bel indo pra lá e pra cá, anunciando detalhes, resolvendo problemas, anotando coisas em vários papéis e olhando sempre um grande mapa onde tinha várias palavras indicando ATACAR AQUI, e etc. Entendia bem os protocolos de uma operação de ataque, tendo colaborado com uma das grandes líderes na tomada de Istypid. Mas agora não agia como uma líder. Era somente um membro desprezado, odiado.
Quero voltar pra Grillindor.
Mas de que adianta Grillindor ou qualquer outro lugar? Crazy não estaria com ela. Ela o queria, ela o desejava, ela o amava. Se precisasse destrui-lo só para receber um décimo de sua atenção, ela o faria.

Rafitcha encostou a cabeça no colo de Erevan, dormindo profundamente graças ao sonífero.
O dragão pensava. Calado, pensativo, seus olhos negros se delineando sobre o rosto de Rafitcha. Era bonita, sendo humana. Os dragões provavelmente não veriam tanta beleza em Rafitcha, porque lhe faltava o ar selvagem ou perigoso que eles gostavam, mas Erevan apreciava essa falta, considerando que havia bondade e praticidade. Como uma pessoa que trabalhava muito e bem, com um bom coração.
Tão frágil, podendo lhe partir o corpo em meros segundos...

Sentia toda a proteção mágica em volta, resistente aos poderes dos demônios, e mesmo Ophelia não poderia destrui-la. O abrigo fora feito há muitos e muitos anos, e se estendia sob o chão de toda a região das Campinas, principalmente debaixo das florestas. A parte central estava ali, e as secundárias se rastreavam debaixo das florestas, tendo portas, comida em estoque e proteção mágica reforçada, já que não tinha muitos soldados a pagarem com sua vida para protegerem bem o lugar. Mas assim como conseguia enxergar toda os feitiços protetores, Erevan conseguia enxergar as falhas.
Falhas que poderiam transparecer, quando a terra quisesse.
Ficou com medo de que Ophelia descobrisse isso, e agisse em relação a isso. Tinha capturado Raveneh usando seus dons de chamar, como encantos especiais. Raveneh era só uma fada crédula, sendo como isca fácil. E agora...
- Vou te proteger - sussurrou muito baixinho, ninguém o escutou - e ninguém vai te pegar, tá bem?

Keishara estava vigiando os dragões azuis, como um favor especial à Bel.
Ela encarava cada soldado com desdém, como se ninguém ali fosse competente o suficiente para conseguir lidar com criaturas tão poderosas. Crazy estava incomodado, Harumi estava resignada, Luka e Pauline dividiam a fúria. A ausência de Giovanna era amarga.
- Tem certeza que pode fazer isso, Crazy? - perguntava Keishara ao vê-lo dando um cervo para um dos dragões.
- Claro - Crazy respondeu. Tinha certeza que cervos são comida para dragões, mas a presença daquela mulher-dragão lhe fazia estremecer de nervosismo como fosse um novato.
- Hmpf. - Keishara parecia desaprovar o ato.
- Você come cervos, certo? - Pauline indagou, quase explodindo de raiva - então qual é o problema?
- Sua petulante - rosnou a mulher-dragão - cervos não são tão macios. Mas sabe o que é realmente gostoso? - aproximou-se sutilmente da soldada, lhe fazendo se arrepender de tê-la desafiado - tripas humanas.
- Nojenta - Luka murmurou quase rindo.
Harumi a olhou durante uns quatro segundos de uma forma muito profunda, antes de falar:
- Você só está querendo provocar, Keishara. Está com raiva de algo ou de alguém...
A mulher-dragão simplesmente parou, e recuou um pouco. Ficou calada pelo resto do dia, e nada fez dos seus comentários sarcásticos, se limitando a orientar qualquer dúvida que aparecesse.

Gerogie patrulhava os arredores das Campinas, vigiando cada minúscula folha, cada nuvem, cada lufada de ar. Naturalmente estava tudo fora do normal, a começar pelas sinistras sombras que cobriam todo o céu, como monstros que cravam suas garras nas nuvens e não querem mais sair. Já era noite, mas o trabalho jamais poderia parar. Logo terminaria seu turno, e Erevan assumiria o posto.
Mas ele vai estar preocupado com aquela humana...
Ela pousou suavemente sob a relva, escutando os sons habituais. Grilos tímidos. Pássaros temerosos. E algo... como uma energia fluindo por toda a Campinas, e não era Ophelia.
Era algo menor. Ínfimo. Semelhante, assim como uma gota d'água se assemelha ao oceano.
Sacudiu a cabeça.
Não é hora de pensar nisso, Gerogie.
E continuou sua ronda, averiguando que - por enquanto - estavam seguros.

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- Ok, vamos parar de enrolar - sussurrou Catherine encarando as companheiras.
- Primeiro temos que assumir - Miih ponderou com cuidado - que não somos as mesmas de cem, duzentos anos atrás. Não temos o mesmo crédito, nem a mesma honra.
Todas ficaram em silêncio.
- Isso lá é verdade - concordou Loveh - somente as tribos, pequenas aldeias rezam e nos oferecem coisas, tratando a nós como antigas deusas. Para o resto, somos apenas superstição.
- Não desde que Ophelia chegou pra valer - Catherine disse - ela simplesmente derrubou todos os mitos, crendices... enfim, isso não importa. O importante é: temos que acabar com Ophelia. E temos que destrui-la definitivamente, sem deixar rastros, sem possibilitar que ela ressuscite, ou volte depois de anos.
- Destruir seu corpo - Louise murmurou entusiasmada.
- E sua alma - lembrou Alice, que mantinha-se muito quieta. Sunny, entretanto, ficava calada. Pensava em modos mirabolantes de acabar com Ophelia, porém tudo caía na mesma armadilha: sequestro de alguém que Ophelia gostasse. Mas já fizeram isso, e as consequências foram desastrosas a longo prazo.
- Escutem-me - Catherine estava tremendo de medo e excitação - temos que aprisionar Ophelia de uma forma que ela não possa usar seus poderes. Somente assim encontraremos uma vantagem.
Miih hesitou uns poucos segundos antes de dizer francamente:
- Certo, o ponto forte dela é a magia. Tirem a magia e ela fica bem fraca - concluiu sensatamente - mas e quanto a poderes não-mágicos? A destreza, rapidez não são totalmente mágicos. E como limitar esses poderes sem nos prejudicarmos com isso?
Ficaram todas as cinco pensando, ruminando, hesitando, os cérebros trabalhando fervorosamente em estratégias militares, golpes sensacionais, feitiços antigos e assassinatos terríveis. Loveh pensava em convocar um furacão para destruir Ophelia, mas desistiu ao lembrar que certamente Ophelia se moveria como uma folha, se deixando levar em vez de resistir, e assim sobrevivendo. Alice queria realmente convocar um poderoso exército de árvores gigantescas e assassinas, mas como fazer isso se Ophelia cortaria todas elas com golpes singelos? Sunny desejava poder cegar a rainha com tamanha luz, Louise faria arder todo o castelo e Miih convocaria poderes sinistros. Porém todas elas imaginavam a revanche, o contra-ataque de Ophelia. E desanimavam.

Catherine pensou em como tinham feito Ophelia adormecer. Olga que conseguira. Ela havia pedido as estrelas uma dádiva, e as estrelas lhe deram. Ela sacrificara todo seu poder, toda sua magia, todos os seus sonhos para ir em frente com aquilo, somente para parar, por enquanto, e proteger suas companheiras. Agora, decidia Catherine, é hora de se sacrificar.
Mesmo que as águas não concordassem assim como as estrelas nunca concordaram com a decisão de Olga... ela iria em frente. Era a Rainha do Mar, era a soberana. Se fizesse um pedido, teria de ser atendida.

Estavam nos arredores da cidade, entre escombros de uma fábrica e árvores mutiladas por demônios. Um rio passava ali perto, e ele caía suavemente, por anos, lá embaixo, na floresta escondida e de lá escoava para o grande mar, azul e profundo. Aquele rio era, no momento, seu contato com seu habitat natural.
Deixou as companheiras refletindo sobre os planos para trás, seguindo adiante pelo rio até o grande penhasco.
- Não há mais saída - ela disse muito baixinho, tão calmamente, como se contasse desventuras amorosas já superadas de quinze anos atrás - lamento muito que isso tenha acontecido. Sabe, Elyon morreu, e nada posso fazer para resgatar esse erro. Então, ajude-me - nunca fizera um pedido dessa magnitude antes - ajude-me, ajude minhas companheiras, ajude todas essas pessoas inocentes. - sentiu a água do rio correr mais veloz, mais ligeiro, com urgência - vocês tem que me ajudar. Cada gota deve me ajudar.
Quando a água esquentou rapidamente, quase fervendo, ela não tirou os pés da água.

Seus lábios se ergueram em um sorriso de vitória.
O mar lhe atenderia o pedido.
Ou a ordem.

E pela milésima vez, eu erro dizendo que Umrae é elfa. Sinceramente, eu não sei muito bem sobre as diferenças (porque eu sempre imagino os drows - é assim que fala? - como elfos "diferentes"). Perdoe-me por erros, Umrae ^^' me corrigirei nos próximos capítulos.

Os soníferos, Umrae, são aqueles bem fracos, que não fazem mal. Embora eu tenha certeza que estejam infringindo regras ao usar remédios e produtos de forma tão leviana, mas, enfim, ninguém ali estava interessado em pensar nas situações futuras que exigirão e sim no presente. ;)

Pensei em magia divina, algo do tipo também. O que você pensou em planos, Umrae? Eu queria saber! *-* Se puder, mande-me um e-mail pela Gmal (luna.fortunato@gmail.com) falando suas opiniões, se tiver tempo... ficaria grata (:

Espero que gostem desse capítulo. Perdoem-me se demoro muito, é que tenho frequentes problemas com o computador. Ele desligava toda hora, e muitas vezes ficava dias sem ligar. Só agora que pudemos trocar o computador, e agora que pude transferir os dados de um computador pra outro, que consegui ter tudo que precisava... espero que tenha menos desventuras com pc's agora!

Beijos! E uma feliz semana, ;*

Dica: estou assistindo El Cazador de La Bruja. Estou gostando muitissimo até o momento, ainda que fique boiando em algumas partes, rs xD

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Parte 96 - Algo além da música.


Havia se passado dois dias desde que Ophelia tivera o plano nas mãos. Tinha passado o tempo montando esquemas trabalhados e maquetes quase reais, e elaborado mil maneiras de cobrir cada falha que tivesse. Mas Ophelia não ouvia remendos, e queria especificamente aquele plano, de modo que ela tinha que seguir em frente.

Felizmente aquele dia não estava tão quente e infernal.
Lala arrumou as botas pretas, prendeu o cabelo. Podia não ser o pior dos dias, mas roupas pretas continuavam concentrando calor demais. Bufou de raiva várias vezes, encarou o mapa que se estendia a sua frente. - Bla bla bla - pensava - ela só vai se ferrar. Que se ferre.
Tirou as botas, morrendo de calor.
- Já conseguiu? - Ophelia se aproximou, sua pergunta quase como uma ordem.
- Não, Ophelia - Lala sussurrou - como, como você pretende sequestrar Umrae?
- Eu já te expliquei, Lala - Ophelia falava como se fala a uma criança - vou estender o campo por toda a área que influencei com sombras. Reforçarei as sombras.
- Se você pegar outra pessoa em vez de Umrae? - Lala questionou, vendo a falha mais óbvia.
Ophelia suspirou como se fosse uma pessoa muito paciente.
- Não há o menor problema. Só vai ser pior para ela. Eu não vou ser tão clemente, sabe.
Lala só encarou com uma espécie de medo controlado misturado a raiva e piedade.

Coitada da pessoa capturada.
Concentrou-se em sentir. Nunca foi boa nisso. Ophelia era, de longe, a melhor. Mas como evitar? Ophelia estava muito concentrada se preparando mentalmente para ter o poder suficiente. Era óbvio que ela tinha o poder, mas Ophelia dizia que não queria enfraquecer depois do sequestro, de modo que estava se empenhando em se manter lúcida e coerente o tempo todo.
- Vamos lá - Lala fechou os olhos.
Abrangeu seus sentidos para cobrirem a cidade inteira.
Demônios.
Cadáveres.
Fadas.
Fadas?
Sabia que havia fadas, mas não como essas. Sutis, diafánas, esvanescentes. Eram como se sumissem em uma imensa névoa e aparecessem novamente. Como se tentassem se ocultar. Era difícil para ela sentir, mas ela não conseguia acreditar que Ophelia ainda não tivesse notado a presença delas. Estava tão... óbvio.
- Quem são? - perguntou baixinho.
Mas preocupou-se em ir mais além. Poderia ser sentida por qualquer um, mas discrição não era seu forte e Ophelia sabia disso. Terra. Campinas. Destruição. Morte. Rastros. Sangue. Sangue. Amor.
Amor.
Eram nuances fracas, pinceladas. Eram boas.
Não podia diferenciar bem uma parte da outra. Muitas auras confusas, se entrelaçando como almas. Sentiu desespero irradiar junto com um pingo, quase nada de esperança. Sentia coisas demais, em um espaço tão curto de tempo. Uma energia aqui de fada doce, outra energia que não era fada nem humano mortal. Um elfo, contou, outro elfo. Contou três dragões reais, em forma humana.
Umrae era elfo, então tinha que ser um das duas auras que sentia. Kibii deve ser a outra. E se houvesse outros?, pensou. Dane-se. Vou fazer o que Ophelia pediu, e só.
Quando encontrar o elfo de olhos dourados, seduza.
Não sabia dizer se uma aura tinha olhos dourados. Mas lembrava de Umrae, e lembrava de sua sensação determinada e fria, de seus olhos que eram como diamantes dourados, de seu meio-sorriso de vitória que nem havia acontecido. Nem aconteceria. Fase dois, identificação.
- Você investiga primeiro, Lala, verifica toda nuance que tiver. Uma alma é muito mais do que uma impressão.
Com cuidado.
Com zelo.
Quase com carinho.
Torcer os dedos.
Sentir sutis fiapos de almas.
Só mais um pouco.
Conseguira atrair minimamente.
Faltava pouco, pouco.

Mas será que Umrae cairia na isca?

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Trabalha.
Costura.
Passa o fio.
Devagar.
Rápido.
Cura.
Giovanna mordeu o lábio inferior. Nem sentia mais tanta dor, mas só de saber que Nath estava remexendo dentro de sua pele lhe causava arrepios. Decidiu fechar os olhos, não queria ver nem o teto da enfermaria. Suspirou.
- Não se preocupe - Nath sussurrou - não vai doer, vai passar.
Decidiu confiar.
Céus, o que poderia fazer?

Sua vida estava ali, com Nath. Suas queimaduras estavam sendo tratadas. Elas não sumiriam, mas deixariam de arder tanto às vezes. Só podia esperar e aguardar.


Umrae sentira algo muito estranho.
Não era realmente algo perigoso, achou. Era como se algo a atraísse. Como uma isca. Mas estava tão preocupada com outras coisas, como será que Toronto sairia daquele estado? A cirurgia ou seja lá o que foi aquilo parecia ter dado certo... e agora Giovanna estava sendo tratada. Kibii melhorava a olhos vistos. A única que continuava na mesma era Rafitcha, mas logo ela sairia daquele estado. E ela tinha Erevan para ajudá-la, compreendê-la, consolá-la e diverti-la sempre que fosse necessário. Não precisava se preocupar com ela.
Depois dos feridos, ainda havia a questão: como agir?
Estava claro que ela precisava derrotar os demônios. Aliados ou não, Ophelia não era idiota. Sabia reconquistar a lealdade de todos eles com um estalar de dedos, e perderia novamente a lealdade com um piscar de olhos.
- Quantas pessoas? Estou perdendo tempo demais. Enquanto estou aqui - admitiu ela para Bel - Ophelia pensa em como nos derrotar. Tenho certeza que ela já sabe.
Bel havia erguido as sobrancelhas, quase rindo.
- Não seja idiota, Umrae - disse - Ophelia não vai conseguir te pegar. Nem que ela fosse mil vezes o que é.
A confiança na habilidade de Umrae era demais.
Ela mesma sentia que aquilo não ia dar certo.

Um pouco mais de confiança.
Sinceridade seria bom.

Atraída, fascinada. Não era algo muito bom sentir aquilo. Mas e se fosse? Talvez seja a deusa lhe chamando com música, pois era a mesma sensação que tinha quando escutava algo especialmente bom. Sublime, pensou.
- Vamos pensar assim - Bel dizia - conseguimos exterminar definitivamente os demônios na região de Heppaceneoh. Agora temos que avançar sobre a capital das fadas. Podemos avançar pelas extremidades, mas temos que avançar um bocado.
- O que todos esses demônios repelem? O que todos eles odeiam? Além de fogo para quase todos e prata para alguns? - Umrae perguntou. Não era uma pergunta como se não soubesse a resposta, era como se a procurasse dentro de si.
- Magia - Bel respondeu prontamente.
- Aquelas crianças conseguiram se manter longe dos demônios por um bom tempo - Umrae sussurrou - porque não temos uma magia semelhante que impeça com que eles se aproximem dos nossos soldados? Assim não teríamos soldados feridos!
- Mas não sabemos essa magia - Bel observou preocupada.
Umrae deu um sorriso.
- Sabemos muitas coisas. Podemos aprender mais essa. Mas precisamos que as crianças falem. Elas sabem.
De modo que foram chamadas as três crianças.

Lani. Noir. Mia.
Nenhum quis falar.
Mia só dizia: - MAMÁ!
Noir se negava a dizer qualquer coisa.
Lani dizia que os segredos tinham que ser guardados.
E Umrae não tinha paciência para escutar criança. Ela entendia que estivessem traumatizados, que estivessem tristes por terem perdido os pais, mas se eles não falassem como era a proteção mágica que os protegera, como desenvolver uma semelhante para proteger os soldados? Havia aquelas imóveis que protegera as Campinas por tanto tempo, proteções que se erguiam de anos em anos. Mas queriam uma realmente boa que havia evitado até mesmo pessoas como Umrae, proteções que embora caíssem a algum golpe, ainda assim resistiam contra demônios.
- Chame Kitsune - disse Umrae - ela conseguirá convencer.
- Isso é mais difícil do que convencê-los a tomar banho - Bel lembrou, mas Umrae insistiu.
Kitsune estava ajudando Amai a dobrar as roupas gerais quando foi chamada.
Com os cabelos presos em um coque, começou a conversar com as crianças.
- Eles precisam saber - dizia - eles precisam vencer Ophelia.
Lani sussurrava só:
- Minha mãe sabia fazer. Ela só contou pra mim. Mas é segredo. Eu não posso quebrar.
Kitsune respirou fundo.
Foi necessário muito tempo gasto para isso. Kitsune falou sobre a crueldade dos demônios, de como os pais das crianças gostariam de contribuir para a derrota definitiva da pior rainha da história,

Lani respirou fundo.
- Foi minha mãe que soltou - murmurou - era feiticeira. Ela sabia bruxaria. E soltou. E mandou a gente segurar. Ela ficou do lado de fora, e morreu porque não ficou do lado de dentro. Mas não tem como se proteger, por isso ela não ficou do lado de dentro...
- Espere - disse Umrae - uma pessoa não pode se proteger sozinha assim? Só pode se ela proteger outras pessoas?
- Sim - Lani disse - por isso que mamãe morreu. Ela não podia se proteger. Não tem como. Mas ela protegeu a nós. E nós mantivemos a proteção de pé.
- Como? - Umrae raciocinava muito rapidamente.
- Rezando.
Kitsune tentava pensar o que significaria alguém rezar, diante de uma proteção. Provavelmente forte energia decentemente guiada para algum objetivo. Como uma prece. Como uma ordem.
- Interessante - Umrae sussurrou - e como se forma essa proteção?
Mia ergueu os braços como se compreendesse. Deu um sorriso infantil, e murmurou algo como 'ratibum!'. Lani a censurou, e a garotinha recuou, ficando amuada.
- Não é desse jeito - Lani disse - não sei como explicar, mas foi algo desesperador. A casa estava sendo atacada quando fez, e foi como se ela desenhasse um muro. E o muro se fez...
Com um gesto só.
Umrae entendeu. Mas nenhum deles era feiticeiro. E os poderes de semielfos eram limitados demais naquela região com tantas fadas que dominavam a região. Mesmo com a destruição da magia protetora, Umrae sentia que os truques de Faerun não dariam certo ali. Mas já feiticeiros que tinham uma magia mesclada com a de fadas, magia esta que era ligeiramente diferente...
Doceh era uma feiticeira.
Kitsune também tinha meio sangue de feiticeiros, apesar de serem humanos sem magia.
Mas quem mais?

As crianças foram liberadas por fim, e Bel passou a estratégia finalizada aos seus soldados. Os dragões mestiços ficariam a postos dali a uma semana, cada um em um ponto estratégico. Envenenariam toda a capital das fadas, deixando-a inabitável por alguns dias. Extinguiriam todo tipo de vida. Era dolorido pensar nos supostos sobreviventes, mas todos sabiam que ou era acabar com tudo de uma vez ou era se acabar aos poucos. Todos tinham uma semana para estarem prontos.
Felizmente Toronto se recuperava bem o suficiente. Giovanna nem tanto, mas ela já conseguia ficar sentada. De qualquer modo, concluiu Bel, conseguiriam levar a cabo a missão sem dois soldados. Teriam que conseguir. Todos trabalhavam mais do que o normal, e ninguém tinha muito bom humor a não ser as pessoas que tinham alegria crônica como Ratta. O pessoal de Campinas se sentia preso, asfixiado. Não viam a luz do sol por dias seguidos, e para tudo que fizessem lá fora, tinha que ir alguém para cuidar.

Compreendiam os cuidados, os anseios. Mas mesmo Rafitcha que se recuperava do seu pé recomeçava a ficar estressada.
- Eu não entendo - disse ela uma vez para Erevan - porque simplesmente não podemos ser livres? Não há mais demônios em volta, certo?
- Há sobreviventes - Erevan disse com cuidado - e eles ameaçam mais, porque atacam de surpresa.
Para Rafitcha, aquele período sem fazer nada era como um descanso. Um bom descanso.
E vinha sempre a culpa pelo tédio.
- Eu não deveria estar aqui - repetia - eu deveria fazer algo.
- Já fez - Erevan dizia a mesma resposta - não se culpe. Não pode fazer nada agora.
Mas isso não adiantava nada quando Rafitcha via todos trabalharem tanto, tanto que mal podiam parar para conversar, e ela mesma se sentia cheia de remorsos por ter sido idiota e ter ido lavar as roupas sem alguém por perto, e assim ser atacada, ferida e impossibilitada de andar e trabalhar como antes. Daí a pouco, ela começava a achar que era total culpa sua ter sido atacada, porque se não fosse tão teimosa e quisesse tanto ir sozinha...

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Durante aqueles dois dias que Lala se preocupara tão somente com a execução do plano de Ophelia, Catherine procurava pelas companheiras. Achou-as escondidas na capital, com a energia tão sutil que era dificil notá-las se não fosse a pessoa que era. Apareceu suavemente por trás delas, como quem quisesse pregar uma peça.
- Até parece que consegue - Miih sussurrou - não há surpresas entre nós.
- Sem graça - Catherine deu um sorriso sutil, e suspirou.
Estavam ali, as Musas. Faltava Elyon.
Mas Elyon não poderia voltar. Em hipótese alguma.
Não se pode resgatar os mortos.

Sunny ergueu os olhos, Catherine parecia severamente machucada. Não por fora, não havia uma marca em seu rosto, braços, ombros. Mas dentro dela, Sunny conseguia ver todas as feridas que mal começaram a cicatrizar. Todas causadas por Ophelia. Todas são motivo de vingança. Olga. Elyon. E daqui a pouco, sentia, seriam elas. E quando elas se fossem, quem as vingaria?
- Como está Ophelia? - Miih perguntou.
- Louca - Catherine respondeu - ela... está louca e não há outra palavra para isso.
Miih suspirou. Era como um grande pesar. Ainda sentia, dentro de si, toda aquela maldita apreensão de séculos atrás, quando vencera a batalha contra Ophelia, sacrificando sua amada amiga Olga. E Elyon... não conseguia assimilar sua falta. Tinha que absorver aquilo como esponja, mas quem disse que conseguia?

A fraqueza era o veneno e antídoto da alma. Era tudo que podia ser feito e compreendido.

- Ela tem armas - Catherine contou - ela simplesmente fez com que Elyon... apagasse.
Sua voz trêmula já era um detalhe que dizia muito sobre a morte de Elyon. Era compreensível seu medo, seu pavor quando se deparou com aquela estranheza em forma de garotinha, com todo aquele poder monstruoso.
- Vai dar tudo certo - Sunny sussurrou, tentando consolar - chore. Pode chorar. Já fez isso antes? Se não fez, faça. Chore.
E as lágrimas simplesmente saíram.

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Ophelia estava fisicamente em Campinas. Mentalmente também. Sua mente estava lúcida como nunca tinha sido, via tudo com sublime clareza e ela entendia todos os propósitos, falhas e acertos. Mais um pouco, era capaz de prever o incrível futuro da grande Rainha Ophelia, a mais Monstruosa, Poderosa e Devoradora de Almas. Só indo mais um pouco, e seria a rainha. A Rainha.
- Vinde a mim - disse e riu.
Sua risada era estranhamente bela.
A sombra era inquisitiva. E era quase sua amiga. Tudo era sob sua sombra, tudo era seu domínio. Se alguém fosse lavar roupas, estava sob suas mãos. E assim era definitivamente mais fácil. Eram como se ela conseguisse simplesmente sentir o movimento de cada pessoa, de cada ser que se movesse debaixo daquele véu sinistro que cobria o sol como uma cortina muito clara, mas mesmo assim existente.
- Minha doçura - e Ophelia não estava delirando - como está?
Ela não estava se referindo a ninguém no mesmo espaço que ela. Nem mesmo as sombras. Ela simplesmente estava falando consigo mesma, como se fossem duas pessoas distintas.
Percebeu Lala.
Boa garota. Mas não está dando certo. Está fraco. Está confuso.
Moveu as mãos em direção ao céu, fechou os olhos e só pensou.
Era só pensar.
Incrivelmente fácil.
Assim, querida.
A energia chamadora, por assim dizer, era muito maior, incrível, sensual. Era quase como um chamado, uma canção que vem do inferno e ainda assim irresistível. Era uma magia meio inventada, e tinha falhas. Mas Ophelia não se incomodava, era criança que aprendia a brincar. Ela ria, ela sorria, ela falava, e ela manipulava as sombras, mágicas e fantasmas.
Sua risada se arrastou por léguas e alcançou o abrigo.

Isso não era pra acontecer. Estava fora da lei natural das coisas.
Mas essas coisas acontecem.

Raveneh tinha acabado de pôr May para dormir. Essa garotinha, essa minúscula garotinha, que nada dizia, só berrava lhe exauria completamente. Ela não tinha a menor idéia de como passara as últimas semanas cuidando de absolutamente tudo. Quando lembrava de como parira May, em meio ao inferno, ela ainda se admirava com a própria força. Como sobrevivera a uma execução? Como tivera ódio suficiente para assassinar seu irmão? Como tivera coragem de se jogar em seu passado e destrui-lo? A resposta era uma só, e se dizia com as letras C-A-T-H-E-R-I-N-E. Catherine. A outra face que aguentaria tudo e mais um pouco.
Catherine. O nome soava tão docemente aos seus ouvidos.
Era tal como a música, música?, que ecoava pelas Campinas.
- Há algo lá fora - Rafitcha disse, se levantando. Seu pé não doía tanto, mas ainda estava engessado. Ela foi a primeira a perceber. Umrae foi a segunda: erguera os olhos dourados para o alto, sentiu mais intensamente toda aquela droga de chamado, e percebeu.
Essa maldita pensa que esses truques funcionam comigo?
Podiam não funcionar com ela.
Mas funcionaram com os outros.
Era como se alguém lhe oferecesse chocolate. Muito chocolate. E jóias. Mais jóias. E tudo que você sonhasse, de graça, para sempre com todo o amor. Era como uma canção que você gostasse muito, muito mesmo e só de ouvi-la, você rodopia e canta. Sem pensar na realidade.
Assim era o truque de Ophelia.
Não era tão barato, mas é que tinha um defeito: só funcionava em fadas. Elfos sentiam a mesma ternura, mas não sentiam o chamado. Humanos sentiam o chamado, mas não sentiam a ternura. Dragões não sentiam nem o chamado nem a ternura. Mas fadas... elas simplesmente sentem tudo, experimentam tudo e se deslumbram com tudo.
- Droga - Umrae cochichou.
Raveneh.
Quem era mais fada deslumbrada do que ela?

Além de ser uma ótima peça de chantagem, afinal tinha um marido, uma filha e muitos anos de pesadelo que a fizeram ser vista como uma criança que precisa de cuidados, uma garotinha que não podia se defender. Quem não se sacrificaria por Raveneh?

Estava quente.
Era sol
E mesmo que as sombras cobrissem Campinas, todos ainda sentiam calor demais para pensar em algo que não seja um bom refresco. Raveneh subiu a escada que dava para as Campinas, sem escutar mais nada. Estupefata. Deslumbrada. Maravilhada. Completamente chocada com tanta beleza.
- Raveneh - chamou Johnny - querida.
Mas ela já estava, de pé, nas Campinas. Livre. Procurando pela música.
Umrae foi atrás, em dez segundos, estavam todos se dirigindo. Menos Rafitcha que não podia subir a escada, e Erevan que iria fazer companhia a Rafitcha. Obviamente nenhum dos enfermos, muito menos Nath ou Thá se dirigiram lá para fora. Estavam atraídos e curiosos, mas o dever era mais importante.
- Raveneh! - Umrae gritou - volte!
Johnny chamou Raveneh também. Ela não ouvia os gritos dos amigos. Ela só ouvia a música.
Sentiu alguém pegar em seu braço, tentando contê-la. Ela mal sentia.
Sentiu alguém pegar em sua mão. Ela mal sentia.
Só ria.
- Não adianta - Ophelia havia manipulado toda a mágica para ela se guiar sozinha. Não precisava mais mantê-la com palavras. Ela já sabia quem era a sua isca. Não pegara Umrae. Mas pegara alguém que podia funcionar como objeto. Uma jovenzinha loira. Magra. Com seios cheios de leite - mãe. E parecia ser tão doce, tão terna, a típica camponesa que vira princesa nos contos de fada.
Parecia ser a pessoa ideal.
- Como não adianta? - Umrae indagou.
Ophelia estava realmente bem-vestida aquele dia. Ela até penteara os cabelos!
- Não adianta - Ophelia sorriu infantilmente - ela está em outro estado de consciência. Paz. Ela sempre quis isso, não é?
- Sua maldita - Johnny ganiu - o que você fez com ela?
- Nada de mais - Ophelia se aproximou de Raveneh, que estava de pé, fixando o vazio, imóvel - mas vocês não podem acordá-la. Não podem movê-la. Não podem nem mesmo tocá-la.
Johnny estava bem perto de Raveneh, era só erguer o braço e seus dedos tocariam a adorada, amada, suave pele de Raveneh. Foi o que fez. Foi o que Bia, uma das pessoas que tentara lhe puxar de volta a realidade, fez. Foi o que Umrae fez. Todos bem perto de Ophelia, todos querendo sentir a carne de Raveneh.
Mal encostavam a mão, era como poeira.
Era como nada.
Era como se Raveneh fosse fantasma.
A primeira pessoa que recuperou a palavra foi Amai. Ela ainda estava bem perto do abrigo, preferindo se manter reclusa. Tinha medo demais de se aproximar de Ophelia, desde o dia que visitara o palácio. Ela não queria que mais ninguém fosse prisioneiro por ela.
- Você a despedaçou - ela disse gentilmente - você simplesmente a fez virar poeira? Ela poderá... poderá a ser o que era antes?
- Ela tem um filho que ainda bebe dela, não é? - Ophelia sorriu, passando os braços em volta de Raveneh - não se preocupe. Ou é ela. Ou é a doce lealdade de Campinas. A mim, claro.
Silêncio.
Ou Raveneh morria.
Ou Campinas inteira se sujeitava a Ophelia.
Não era realmente uma escolha agradável.

Umrae precisou de dois segundos.
Um segundo para processar as opções possíveis.
E outro segundo para decidir que aquilo era, na pior das hipóteses, incabível.

- Quais são os seus termos - perguntou - se formos preferir Raveneh viva?
Ophelia foi muito didática, prática e irredutível.
- Você morre. Morarão aqui, em cima. Jamais sairão daqui. Serão, obviamente, meus servos. Viverão em paz, mas caso eu exija a vida ou a liberdade de algum de vocês, isso deve ser imediatamente dado, sem questionamento.
Umrae via uma brecha, mas logo Ophelia deu um sorrisinho de lado e concluiu:
- E todos aqueles dragões e todo o pessoalzinho que veio te ajudar passa a morar no palácio, trabalhando diretamente para as novas conquistas. São armas interessantes. Todos vocês são armas interessantes.
Amai moveu a cabeça para o lado, pensando naqueles malditos prós e contras. Era claro, claro como água, que Raveneh morrer seria a melhor escolha. Ela preferia morrer a ver pessoas que amava se sujeitarem a aquela maldita de cabelos castanhos e olhos loucos. Mas Raveneh morrer implicaria em outros feitiços, outras maldições e Ophelia pegaria um a um. Matando devagar. E simplesmente infernizando aquela vida que já estava bastante ruim.
As duas opções eram igualmente ruins.
Umrae pareceu pensar a mesma coisa.

O que faria?
O que poderia fazer?
- Basicamente, você é uma filhadaputa - Johnny concluiu.
Ophelia deu de ombros.
- Não literalmente - respondeu tranquilamente - mas já que você pensa assim...
- Você tem uma terceira opção? - Bia perguntou.
- Não.
Umrae mordeu o lábio inferior. Precisava de tempo. Raveneh tinha que aguentar.
Pensou no choro de May. Agora que aquela guria ia ficar o inferno, berrando e chorando.
- Você tem um prazo?
Ophelia sorriu com delicadeza.
- Dou uma semana. Tudo bem?
Só o fato de ela estar tão de bom humor a ponto de estabelecer um prazo razoável e perguntar se estava tudo bem, ela que tinha torturado uma elfa de forma insana, ela que executava todos os demônios contrários a sua ordem, ela que acabara com toda aquela região estava perguntando tudo bem?
- Ok - Bia concordou.
Ninguém discordou.
E doeu muito ver Raveneh sendo levada embora.
O que aconteceria com ela?
E a pergunta mais importante...
... o que Ophelia faria com ela?



Ah! Eu fiz um post detalhado sobre Campinas já faz algum tempo aqui no meu blog mais 'pessoal', que estou tentando manter e etc. /propaganda, rs.

Estou morrendo de saudades de vcs, sabia? *-* Engraçado que não tive pena alguma de Toronto, afinal todo aquele procedimento é para o bem dele. E realmente, Umrae, não tem como Ophelia te pegar como provei nesse capítulo. Os feitiços são demasiados diferentes, são espécies diferentes e Ophelia nada sabe sobre elfos ou como usar uma magia direcionada para eles. ;)

Beijos! ;*

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Parte 95 - Quando termina uma fase.

Raveneh acordou ensopada de suor, era mais um sonho.
Estava insegura, e tremia.
Olhou para o teto, trêmula, tentando juntar os fragmentos do sonho: sangue, sussurros, de volta a mesma história: podia fazer algo, era só simplesmente se deixar entregar para alguém sem corpo, sem alguma matéria. Isso está só na minha mente, pensava, é coisa da minha cabeça. Mas mesmo isso não lhe tranquilizava.
Levantou-se, quem sabe um copo d'água lhe faria se acalmar.
O corredor era meio comprido, e escuro, mas isso não lhe dava medo: Umrae dormia por ali, Kibii também. Bia e Fer idem, então se desse um grito, estaria todo mundo em pé, espada na mão e sentidos alertas. Não precisava ter medo.
Quando chegou à cozinha, percebeu que havia gente acordada.
Era uma mulher, talvez um pouco mais velha do que ela, morena que estava sentada no sofá da sala. Não fazia nada de perigoso, só olhava fixamente para frente, talvez pensando em algo.
- Oi? - disse, timidamente.
- Olá - a mulher sorriu - eu sou Zidaly.
- Ah, - Raveneh lembrou - já ouvi falar de você.
- Hm - Zidaly tentou parecer tímida - desculpe invadir o abrigo, é que...
- Espere - Raveneh franziu as sobrancelhas - como entrou aqui?
Zidaly só disse a verdade: que já estava ali, e quando todos se retiraram, ela estava no banheiro e não ouviu a chamada geral. Raveneh sentia que tinha alguma inverdade ali, mas não conseguiu identificar, de modo que aceitou a verdade (a mentira estava no fato de que era perfeitamente possível Zidaly escutar o chamado para todos dormirem de onde quer que estivesse no abrigo).
- Você veio de Grillindor?
- Sim - Zidaly viu naqueles olhos azuis algo familiar. Mal reconhecia, mas decerto não era das Campinas - e você?
- Istypid - Raveneh pegou a jarra e encheu um copo - Terra Seca. Conhece?
- Sim - Zidaly sussurrou.
E não se falaram mais.

Raveneh bebeu sua água, deixando Zidaly quieta, sem dizer palavra. Decerto já a vira antes, e não foi nas Campinas, assim como Crazy. Zidaly conhecia Istypid... decerto fora lá, na ocupação do reino pela Grillindor. Mas não conseguia se lembrar direito, porque todas suas memórias daqueles dias eram borradas. Ela não conseguia lembrar de muita coisa, exceto aquelas que vivera bem consciente, como Raveneh.
Voltou para a cama e não conseguiu dormir mais.
Ao seu lado, Johnny dormia, seus cabelos negros que se esvoaçavam para todos os cantos. Ele se aninhou junto ao corpo dela, e abraçou-a, o que a fez ficar mais tranquila. Fechou os olhos, tentando se entregar aos sonhos, sem sucesso.
Respirou fundo, e esperou que May acordasse e chorasse, quando começaria realmente o dia dela.

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Catherine estava, de fato, no mar.
A água era fria e fresca, azul e verde, sempre deliciosa e calma.
Quase um repouso. Aliás, quase não. Era um repouso.
Estava sob as trevas de Ophelia, podia até mesmo cheirar toda a maldade dela, e bastava estender o dedo e tocar a fúria no ar. Mas isso não lhe causava medo, pois estava em seus domínios: se estivesse em seu elemento, nada lhe faria mal. Nem mesmo uma louca ensandecida que se coroou rainha das fadas.

Mergulhou o rosto dentro do oceano, deixando os olhos abertos para fitarem o invisível sal com os peixes, algas, mamíferos que deslizavam, alheios aos problemas terrestres. Deslizou também mais para o fundo do oceano, tão fundo que ninguém sobreviveria ali tamanha era a pressão. Escorregou para o negrume, onde todas as trevas do mar se escondem. E respirou profundamente, esperando só algo se mover sob o manto que se estendia, manto de crueldade. Só precisava sentir entre seus dedos a sutil presença das companheiras, como um brilho a aparecer diante de seus olhos. Entre as trevas e monstros, ela esperava, ansiosa. Não via nada, só escuridão. Não sentia nada, só a indiferença. Bloqueou a si mesma de todas as outras sensações como fome, raiva ou medo: o único sentimento permitido seria o alívio, e ele teria que vir na hora adequada.

Passou algum tempo.
E sentiu.
Sentiu seus dedos se contorcerem sob a perturbação do manto.
Sentiu seus olhos se abrirem e enxergarem o rastro da monte diante das companheiras.
Sentiu seus cabelos se agitarem, prenunciando algo decididamente trágico.
Porém percebeu, quando olhou para a superfície do mar, que as companheiras haviam decidido recuar. Não ir atrás de Ophelia, de imediato, e sim ir atrás dela. Teria que aparecer logo, acolhê-las com conforto da cansativa viagem e, juntas, decidirem o que teriam que fazer. Se uniriam às Campinas. Se atacariam logo. O que fariam?

Moveu seus pés num impulso, sem pensar muito. Toda a energia que tinha dentro de si saía suavemente, se dispersando no oceano, e as partículas que se esvaiam de seu corpo se uniam assim que alcançassem a superfície. Tudo para ir mais rápido, inclusive se desfazer em milhões e milhões de moléculas e uni-las para que se inteirasse.

Quando sentiu a cabeça se formar no ar, foi como se tivesse levado um choque. Como se a luz do sol lhe ferisse, como se o simples oxigênio lhe perfurasse a face, como se só sentir a suave brisa fosse o suficiente para ela explodir. Nunca sentira o rosto ficar tão gelado. Catherine, Catherine - era difícil lembrar o próprio nome - nadou pelo oceano, procurando terra. Achou-a rapidamente, principalmente quando forçou a si mesma aumentar o tamanho do corpo. Aos olhos de alguns tripulantes em um navio, ela seria como uma gigantesca sombra a se mover sob a água. Maior do que qualquer baleia ou tubarão, mais letal do que qualquer polvo gigante, mais deslumbrante do que qualquer dragão marítimo. Era só uma das Musas, considerada Deusa pelas tribos que não sabiam muito sobre os poderes feéricos.

A terra estava úmida e perigosa. Toda aquela floresta sob o reino das fadas era perigosa, quase fatal e encantadora. Inspirava mistérios, e muitos poucos se atreviam a entrar dentro dela. Catherine sabia que aquela floresta fora o reino das fadas, antes de elas se erguerem aos céus, como se fossem divindades. E naquela floresta ficaram seres que não concordaram com o novo reino das fadas, que discordavam do novo modo de viver, e lá ficaram os seres que se tornaram mais bestiais, perigosos e poderosos com o passar do ano. Ou não. Catherine entrara poucas vezes demais em sua quase eternidade para saber disso.

Ergueu os olhos, tentando arrumar uma maneira de enviar uma mensagem às companheiras sem agitar muito a consciência de Ophelia.
Não precisava de tanta coisa assim.

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Arfar.
Sussurrar.
Era como um pouco de poder se derramando entre suas mãos, quase como água. As sombras se mexiam revoltadas, porém seus gritos já não acordavam mais Ophelia que se sentia cada vez mais a dona, a senhora, a rainha das trevas. Faltava-lhe os outros poderes, e desejava todos eles, mas por ora eles lhe iriam bastar. Tremia, tremia de desejo e medo, mas há muito ela era rainha e rainhas não poderiam chorar ou se lamentar.

Levantou-se, gritou. Estava meio tonta, como se estivesse mergulhando em trevas geladas.
- Ophelia? - era a voz de Lala, distante demais.
A rainha fechou os olhos, tentando um pouco de razão.
Razão que não iria vir, não para quem a recusava com todas as forças.
- Lala, preciso de um bom banho - Ophelia disse tentando firmar a voz insegura - arrume isso para mim.
Lala fez isso rapidamente, com apenas gestos e palavras, chamando os Glombs que arrumaram o banheiro, encheram a banheira com água cristalina e ervas açucaradas, e ajeitaram as toalhas, sabonetes e óleos. Quando se afastaram, Lala ajudou Ophelia a tirar a roupa e mergulhar na banheira. O estado da rainha era como uma sonolência absurda, e ela mesma se sentia como se não conseguisse mais distinguir a realidade e ficção.

Lala viu a rainha, a sua rainha mergulhar na banheira, experimentando toda aquela água em volta do seu corpo nu e respirar profundamente. Pensou, com certa tristeza, que se apegara a essa mulher em corpo de quase-menina, que passara a amar suas crises de egocentrismo, suas declarações de doçura, sua insanidade e toda aquela atmosfera irreal que inspirava a relação entre as duas. Era como uma ridícula síndrome de Estocolmo, e Lala não conseguia entender todos esses sentimentos. A água estava quente, e isso era bom - Ophelia não gostava de tomar banho em águas frias, e desde que começara a viver no castelo, tinha verdadeiros chiliques quando algo saía do seu gosto pessoal.

Ophelia nadou um pouco na extensa banheira que era quase como uma piscina, sentindo todo aquele entorpecimento se esvair de seu corpo como cansaço. Também não sentia mais tanto frio, e ficava feliz com isso. Seus olhos se abriram debaixo d'água e não arderam, sentiu seu coração bater e contou cada batida. Sentia cada fibra de poder, cada molécula de magia que se movia em suas veias, artérias e ossos. Era como se fosse explodir, e tudo passou a doer intensamente.
Passou as mãos pelos cabelos, sentindo-se preocupada e dolorida, mas ainda assim melhor. Qualquer coisa era melhor do aquele estado de semi-sonolência, prestes a cair devorada pelas sombras. Tinha de ser a rainha, jamais a escrava. Sentiu seus pés roçarem nas trevas que governava agora, e percebeu - muito lentamente - que a partir do momento que você governa algo, esse algo se torna físico para você. Assim como Elyon podia mexer e torturar as sombras, Ophelia poderia ser tocada, abraçada e sufocada por elas, como se elas fossem feitas de matéria.

Contorceu as mãos, pressionada.

A sua ânsia pelo poder nunca passava, sua fome nunca parava, vício que perdura, que insiste, que ameaça. Não sentia culpa, nem remorso, só o mais profundo prazer em ter tanto, tanto poder, nem lamentava as vidas que extinguira com suas alianças, nem pensava sobre o que estava fazendo, destruindo todo um país. Queria mais, e a oposição lhe fazia imaginar coisas...

Se pegasse Umrae, só ela... já faria metade do trabalho. Umrae estava dando conta de tudo, e mais do que isso: as pessoas se sentiam seguras com ela por perto. Era como se ela fosse a figura séria que realizava o trabalho corretamente e as pessoas dependiam de Umrae para que se sentissem confortáveis e esperançosos. Lembrou dos olhos dourados e firmes. Não iriam ceder facilmente aos seus encantos, não iriam se submeter a sua autoridade. Ela poderia ser mais irritante do que Kibii, inclusive... lembrou com ódio da indiferença de Kibii ao seu tratamento. Isso não vai acontecer, concluiu e foi montando a artimanha. Com cuidado, teceu seus planos debaixo d'água.

Quando já estava praticamente com tudo na cabeça, narrou-os a Lala que ouvia atentamente, sem deixar escapar um detalhe. A ruiva organizou as etapas mentalmente, e calculou muitos possíveis erros. Mas não iria contrariar, nem discordar. Só iria apoiar Ophelia no que fizesse, e deixaria rolar para ver o que acontecia.

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O dia começou um pouco abafado, mas tudo bem.
Todos seguiram a rotina habitual, sem muitas discrepâncias. Raveneh dava de mamar a sua filha e cuidava da comida, Thá ajudava Nath a cuidar dos feridos na enfermaria, Rafitcha preocupava-se em descansar o máximo possível (que significava, geralmente, em mandar Erevan ajudar a limpar o banheiro ou algo do gênero) e Umrae traçando mapas bem detalhados com estratégias elaboradas. Ela não tinha muita paciência, e se fosse interrogada sobre qualquer assunto banal, sua resposta era invarialmente um resmungo inaudível. Vivia numa saleta, perto da de estar, rodeada de mapas, estratégias e livros sobre magias que poderiam ser usadas. Às vezes ficava em seu laboratório, com todos aqueles venenos e se distraía ao polir armas e elaborar potentes soníferos.

Erevan estava lavando toda a louça do café da manhã quando Nath apareceu na cozinha, preocupada, pedindo por um pão - tinha acordado quatro da manhã para cuidar de uma Giovanna lamentosa, e a febre só aumentara nas horas seguintes. Recostou-se na parede, comendo o pão, e começou a conversar com Erevan sobre coisas banais.
- Como é Grillindor? - perguntou.
E Erevan respondia com delicadeza.
- Você acha que a guerra vai demorar muito? - Nath perguntou quando o pão estava no fim. Erevan teve que parar um pouco para responder - suas lembranças foram parar em Heppaceneoh em chamas.
- Não - respondeu - Ophelia é impulsiva, ao que tudo indica. E Umrae é eficiente.
- Queria ter as suas esperanças - Nath conclui comendo o último pedaço - essas guerras deixam marcas demais. Quanto menos tempo ela durar, melhor...
E saiu da cozinha.

Das dez da manhã até as três da tarde, Thá se responsabilizou pelos dois feridos gravemente, pela Kibii que ainda estava em observação juntamente com Rafitcha. Quase enlouquecia, correndo pra lá e pra cá, tendo que lembrar de todos os remédios: o unguento que tinha que passar de hora em hora na perna de Toronto, o gel natureba que passava nas queimaduras de Giovanna a cada três horas, além de verificar a situação de Kibii e Rafitcha. Ao menos Rafitcha tinha Erevan a observá-la e Kibii estava quase boa, o que ajudava muito. Nath estava no bosque, acompanhada de Bia, coletando ervas necessárias para a tal Técnica de Deneve. Thá não sabia nada sobre essa técnica, porém Nath lhe deixara um livro com vários procedimentos técnicos de um conhecimento muito avançado e ela tentava lê-lo enquanto tinha alguma folga de dez ou vinte minutos. Era algo realmente bem avançado e complicado que exigia prática e conhecimento sobre fases lunares, herbologia e alguns tipos de magia. Perguntou-se o quão Nath era versada naquele assunto.

Quando a "chefe" chegou, Thá percebeu que Nath fizera todo o serviço sozinha. Ouvira Nath falando de que tinha que ter, ao menos, duas pessoas a lhe ajudarem, mas aparentemente isso não aconteceu.
- Como devo ajudar? - perguntou Thá, e a resposta foi simples:
- Não tem ninguém aqui que possa me ajudar tanto como você, então faremos só nós duas. Saiba que vou exigir bastante e - Nath deu um sorriso seco - coma o que puder agora.
Thá saiu da enfermaria para comer um pouco de macarrão enquanto Nath organizava as ervas - canela, jasmim, artemísia, alecrim, hortelã, alfazema, arruma e uma flor muito esquisita, cujas pétalas tinham formato de coração e eram gordas e roxas, estufadas de ar. Elas as posicionou corretamente, lembrando dos ensinamentos básicos. Com as folhas, era infusões e com as sementes, era cocção. Giovanna a assistia com curiosidade, Toronto dormia - Thá lhe dera um remédio para adormecer profundamente. Melhor assim.
- Para que tudo isso? - Giovanna perguntou timidamente.
Nath preparava o chá de jasmim com folhas de alecrim. Não hesitou um segundo antes de responder:
- Para ajudar o seu colega.
E voltou a trabalhar.

Logo Thá voltou, e cinco horas da tarde, elas já haviam começado o trabalho. A enfermaria foi trancada, ninguém poderia entrar ou sair. Os remédios todos que Kibii e Rafitcha tinham que tomar foram deixados a encargo de Kitsune que era muito rigorosa com isso, e zelava pela boa saúde de todos.

O céu anoitecia vagarosamente, deixando a enfermaria na penumbra. Nath acordou Toronto delicadamente, e ele abriu os olhos, tonto, sentindo a maior dor que já sentira.
- Isso vai acabar - Nath sorriu entregando a infusão de canela - beba isso e isso tudo vai acabar.
Toronto bebeu o chá estranhamente adocicado, e o gosto em nada lembrava canela. Era como uma espécie de chocolate, algo que se derramava em sua língua e lhe deixava absurdamente tonto. Resolveu perguntar o que estavam fazendo, e Thá respondeu com toda a gentileza que lhe era possível imersa nas sombras:
- Técnica de Deneve, lembra? É para lhe ajudar - e Toronto concordou com um murmúrio, entregando a xícara vazia.

Sentiu torpemente a perna ser massageada com algum gel frio, sentiu que era chamado a beber mais coisas, coisas amargas e confusas que lhe roubavam os sentidos e embaralhavam todos os pensamentos e sonhos. Viu uma vela se acender em algum lugar, enxergou os olhos verdes de Nath a lhe fitarem com doçura e firmeza, experimentou a sensação de ter os dedos de Thá lhe acariciando os joelhos. Ouvia murmúrios frequentes que não eram nada parecidos com "passe isso aqui", e sim com mantras, quase como orações. E deixavam a cera da vela pingar em seus joelhos, e isso queimava tanto...

- Vai começar a pior parte agora - Nath disse para Thá, e a orientou a amarrar Toronto com cordas e colocar uma mordaça, o que o fez se sentir acuado e entrar em desespero. Ele debateu-se com todas as forças, derramando todo o chá de camomila que Nath preparara especialmente para acalmar Toronto. Um segundo. Dois.
O mundo se dissolveu diante dos olhos de Toronto. Eram tantos chás, tantos sabores, tantas bebidas que se derramavam em sua boca que mal conseguia distinguir um do outro, e sentiu-se entregar.
Nenhuma das pessoas presentes ali soube quanto tempo se passou.

Houve massagens, houve orações, houve cirurgias. Nath manipulou a perna de Toronto como quem brinca com um boneco, passando a agulha, arrumando o osso e selando as veias. Ajeitava a pele com poções mágicas, e sua própria pele suava de tanto medo e concentração - era como se estivesse em transe. Thá tentava diminuir a dor da cirurgia, anestesiando os sentidos, injetando compostos que faziam com que Toronto amolecesse e não resistisse tanto. Porém seus músculos endureciam o tempo todo, e seus rangidos e gemidos ecoavam por toda a enfermaria, fazendo com que Giovanna não conseguisse dormir, tendo que tampar os ouvidos, chorando, apavorada. Todo o abrigo ouvia os berros de Toronto durante a delicada cirurgia, todos se perguntavam o que acontecia.
- Não era melhor... - Raveneh começou, mas Umrae discordou com prudência:
- Nath sabe o que faz. Não se preocupe.
Toronto respirava sufocado pelo cheiro misturado de tantas ervas e misturas, e sentia dor, dor, dor, mas ao mesmo tempo uma vontade absurda de afundar de uma vez em alguma coisa. Tentou se debater, mas estava cansado demais e os braços de Thá lhe acolheram tão rapidamente que se sentia envergonhado demais em desafiar todo o cuidado que a auxiliar lhe dispensava. Nath mal o olhava, concentrada na perna ferida, seus dedos sujos de sangue, segurando agulhas e fios e lâminas. Ao ver tal cena, a própria perna toda aberta e exposta, berrou novamente - para evitar tal visão, Thá vendou os olhos com um lenço negro.

Todas as misturas e feitiços faziam com que as células trabalhassem mais rápido, e aos poucos, percebia Nath, uma nova perna se reconstruía. De uma forma deformada, meio defeituosa, e não seria igual a outra perna, é verdade. Porém era uma perna que parecia ser normal como qualquer outra, era uma perna que funcionaria. Costurou a pele e veias, ajustou o osso - e essa parte doía pra caramba. Ao fim da noite, quando já iria dar meia-noite, Toronto conseguia dormir, sem dor, nem sonhos e Giovanna ainda tremia de esperança e ansiedade. Parecia que tudo ocorrera bem. Será que ela seria submetida ao mesmo tratamento? Será que aguentaria tanto tempo? Será que haveria mesmo uma luz no fim do túnel?

Nath e Thá não tinham uma resposta. Mas tinham meios de chegar até a resposta.

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Pouco a pouco.
Experimento.
Uma cidade em chamas.
Outra cidade ardendo.
E mais adiante, há uma cidade morta. Ela foi assassinada. Integralmente assassinada.

Catherine andou pelas cidades não-sei-aonde, procurando evitar o esmagador poder de Ophelia. Seu corpo estava dolorido, seus braços, cansados.

Já saíra da floresta, e as cidades visitadas não eram muito conhecidas, nem mesmo pelo pessoal das Campinas. Envolveu-se na terra úmida e no

cheiro de morte e devastação - cada segundo era como uma respiração fantasma.
Estava andando a esmo, tentando arrumar uma maneira qualquer.
Sentia Miih.
Sentia Loveh.
Sunny era a energia mais fraca.
Louise era a mais forte.
Mas tudo ainda era confuso demais para ela conseguir se guiar. Estariam perto ou longe demais? Já estariam na cidade? Não queria desafiar Ophelia, mas já estava boa o suficiente para fugir dela se necessário.
- Foda-se - pensou - ela não pode me matar aqui.
E mandando o segredo as favas, ela correu para a cidade das fadas.

- Está vindo - foi com um sorriso que Miih deu a notícia.
Alice suspirou.
- Ela não tem paciência, não é mesmo? Tem sempre que chamar a atenção - sussurrou, ao que Sunny retrucou:
- Está com pressa. Todas nós estamos.

Estavam querendo demais pôr um fim naquilo tudo.

P.S.: sem tempo, então Feliz Natal! E a viagem foi ótima! ;*

domingo, 1 de novembro de 2009

Parte 94 - Reunindo forças.


Dias.
Noites.
Mais dias.
Mais noites.
O fim do verão sempre vinha abafado e quente, como se tivesse que se despedir com força total.

Depois de três dias e quatro noites depois da volta dos guerreiros, as crianças aceitaram comer algo. Ainda estavam caladas demais, mas sentavam-se à mesa e comiam pouco, mas comiam. Só o menino mais velho falava, e só o que ele dizia era coisa como "por favor, onde é o banheiro?" e mais nada. No máximo, apresentou-se e disse os nomes.
- Eu me chamo Lani.
- E seus irmãos? - Raveneh tinha perguntado.
- Noir - disse o Lani apontando para o garoto do meio, de uns quatro anos - Mia - era a garotinha que ao ouvir seu nome, sorriu e acenou.
E nada mais disse de relevante. Mas pelo menos todos ali sabiam que eram três irmãos, do mesmo pai e mesma mãe: Lani, Noir e Mia. E todos tinham um sobrenome: Sekai. Aquilo significava, para Kitsune, que tinham pais do oriente, porque senão de onde viria aquele sobrenome tão oriental?
Os dois irmãos, Lani e Noir, eram morenos, de traços finos e olhos meio puxados.
A garota era meio loira, de pele clara, e seus olhos eram profundamente esverdeados que se mesclavam para o mel. Era bem diferente dos irmãos, a ponto de fazer os outros pensarem que ela era filha bastarda, vindo de outro pai ou de outra mãe. Mas quando questionados, os irmãos bateram o pé e afirmaram que Mia era irmã deles, e vinha do mesmo pai e da mesma mãe.
- Eu vi ela nascer da minha mãe! - afirmou Lani com raiva - e minha mãe jamais trairia meu pai!
Ninguém disse mais nada.

Rafitcha não quis ficar na enfermaria, dizia que era um ambiente deprimente demais. E era mesmo, considerando que Giovanna ainda gemia de dor ao sentir os nervos tentando se regenerar e Toronto fazia força pra não choramingar enquanto Nath tentava salvar sua perna. E, sem ligar para as ordens de Nath que diziam "repouso absoluto" de forma muito clara, escapou para a sala de estar, onde ficava a ajudar Amai quando esta tentava limpar.
- Experimente esfregar mais ali - e indicava com o dedo indicador para o canto da parede.
Amai, frequentemente, bufafa de raiva e ia seguir as recomendações de Rafitcha.
- Olá - Erevan aparecia com seus cabelos negros revoltos - como vai?
- De mal a pior - a acidez de Rafitcha não conseguia fazer com que Erevan se irritasse.
- Ora, que isso - Erevan sentou no sofá, ao lado dela, com um sorriso no rosto - você vai ficar bem muito em breve :D
Rafitcha só resmungou.
Seus cabelos castanhos emolduravam seu rosto, ainda um pouco juvenil, e sua expressão aborrecida se tornava tão jovial e doce quando Erevan a encarava. Ela se encolheu, vermelha.
- Bem, a enfermeira me obrigou a pajear você até ficar recuperada, dizendo que você precisa de cuidados e que sou o culpado por esses cuidados prolongados - Erevan tinha nas mãos um pacote embrulhado com papel pardo. Entregou-o para Rafitcha que o pegou, cuidadosamente, e desembrulhou com curiosidade.
Era uma caixa. Retangular, a tampa era bem trabalhada e muito provavelmente feita de jacarandá, uma madeira escura e cara. Abriu a caixa, intrigada, e abriu a boca, surpresa, quando viu os vários chocolates embrulhados em papel dourado. Todos os chocolates tinham o formato de uma estrela, e quando Rafitcha mordeu o primeiro, viu que o gosto era bom, se derramando na língua, tão suave e doce.
- Obrigada - Rafitcha disse, ao que Erevan respondeu delicadamente:
- Não sei se isso pode... mas Thá me disse que seria uma boa trazer um presente aos doentes, como vocês costumam fazer. E esses chocolates... comprei-os de Pauline, e são de Grillindor.
- Obrigada - Rafitcha repetiu e comeu o segundo chocolate com espanto.
- Não espere muito de mim - Erevan exibiu seus dentes brancos em um sorriso genuíno - eu sou só um dragão, não um cavalheiro.
- Um idiota - Rafitcha comeu o quinto chocolate sem peso na consciência - que vai cuidar de mim até eu ficar boa. Sabia que hoje seria o dia que eu cuido da cozinha?
- E?
- E eu não gosto de deixar Raveneh e Thá sozinhas lá... Raveneh tem a filha, e Thá cuidar de todo o almoço é uma crueldade, não é mesmo?
Erevan, vencido, se dirigiu para à cozinha, deixando Rafitcha comendo chocolates. Sozinha.


Zidaly vestiu um vestido que lhe caía pelos joelhos, feito de algodão. O avental era xadrez, em tons de areia.
Amarrou seus cabelos em um coque desajeitado e singelo.
E ficou descalça.
Nem se reconheceu quando se encarou no espelho, de tão básica que estava. O próprio rei a recusaria, e todos os outros homens também. Ela ofegou, tentando procurar a si mesma em toda aquela produção, sem conseguir. É tudo uma armadilha, pensou e assim conseguia se tranquilizar.
Desceu da sua cabana improvisada, onde ficava -ficava do lado de fora, e não com os outros dentro do abrigo. Ela mesma recusara esse abrigo lhe oferecido, dizendo que não iria se submeter a ninguém. Estava com ódio demais na época, e se arrependera quando vira que da sua pequena cabana, podia ver os demônios a lhe rodearem e os mosquitos a lhe picarem. Mas não queria voltar atrás, por orgulho.
- Olá - Zidaly desceu no abrigo, arrumando um pretexto qualquer - olá.
- Você é? - era Rafitcha, mas Zidaly não conhecia muito bem as pessoas. Só Umrae, e só porque ouvira Bel conversar com ela. E também porque era muito fácil identificar um par de olhos dourados e quase felinos, muito penetrantes.
- Zidaly - apresentou-se - sou do exército de Bel.
- Não parece ser uma guerreira - Rafitcha resmungou - ouvi falar de você. Sabe que Doceh a odeia?
- Imagino que sim - Zidaly teve que ignorar seus pensamentos que diziam algo como "Doceh deve ser uma vaca invejosa".
Zidaly ficou em pé ao lado de Rafitcha, observando Amai trabalhar silenciosamente na limpeza da sala.
- Sente - Rafitcha disse, quase em tom de crítica - eu fico incomodada com pessoas que estão em pé.
- Tudo bem - Zidaly sentou-se ao lado de Rafitcha, tentando imaginar como moveria a próxima peça. Movera um peão, agora seria outro? Ou deveria ser mais decisiva? Tinha que conseguir o amor das Campinas para dar o bote final...

As pessoas diriam que ela era estupidamente infantil e tudo o mais. Mas ela não tinha nada com que se preocupar: estava longe da guerra, dos seus amantes, dos seus prazeres e de suas obrigações que gostava de fazer. Só estava perto de Crazy, e essa era a única maneira de chegar aos braços dele, outra vez. Seduzir a todos. Seduzir a ele.
E vingar-se de toda pilhéria feita.

- Você veio pra quê, exatamente?
Essa morena parecia ser esperta. Tomar cuidado, anotou mentalmente.
- Falar com a Comandante - Zidaly respondeu respeitosamente - ela está por aqui, certo?
- Na enfermaria - Rafitcha franziu as sobrancelhas com suspeita - vá lá.
Zidaly pediu licença e se afastou, entrando na ala hospitalar. Não sabia bem onde era, mas não era difícil se guiar pelo cheiro de remédios e repreensões frequentes.
Bel estava falando em voz alta com alguém que dava uma espécie de relatório médico.
- Vou tentar a Técnica de Deneve - a voz prosseguia - espero que isso resulte em algo, mas se eu não conseguir... bem, eu não sei mais o que fazer. Ele realmente foi atingido e imensamente prejudicado, e... - a voz hesitou - é isso, Bel.
- Entendo - Bel disse. Parecia profundamente abalada - o que precisa para essa Técnica de Denuve?
- Deneve - corrigiu Nath apressadamente - preciso de um lugar mais fresco, total concentração. Eu mesma recolherei os princípios ativos, e também de outra assistente que não seja Thá. Não se preocupe, eu cuidarei de tudo. Hoje é lua nova, não é? Último dia...
- Sim - Bel disse - amanhã se inicia, realmente, o fim do verão. Os últimos dias.
- Isso é bom - Nath murmurou - bem, Bel, parece que alguém quer entrar na enfermaria. Por favor?
Zidaly ficou espantada.
E, sinceramente envergonhada, entrou na enfermaria parecendo cabisbaixa.
- Zidaly - Bel disse pronunciando tudo com o máximo de veneno que pôde.
- Comandante - Zidaly murmurou, tentando parecer o mais humilhada possível - boa tarde, Comandante.
- Vamos para fora - Bel murmurou - não vamos incomodar os doentes com sua voz.
Zidaly não retrucou ferozmente como era seu costume. Sequer moveu um músculo facial para expressar seu desagrado.
Quando já estavam fora da enfermaria, Bel fechou a porta educadamente e se virou para Zidaly, seu queixo erguido para frente numa postura agressiva. Seus cabelos estavam soltos, e isso lhe tirava um pouco do ar ameaçador, mas Bel não precisava mudar algo em sua aparência para ter uma certa postura. Sabia que bastava por si só causar medo e raiva em Zidaly, e causava até mesmo se estivesse acabando de acordar, enfiada na camisa de algodão mais esfarrapada e furada que tivesse.
- Eu... - Zidaly ofegou, tentando medir bem as palavras que diria - eu peço uma trégua, Comandante.
Bel franziu as sobrancelhas.
- Você está pedindo por uma trégua? Você?
- Sim - Zidaly disse - exatamente.
- Está bem - Bel não queria ter que pensar na maldita agora - que seja.
- Que fiquemos caladas, então? Uma a respeito da outra?
Bel não entendia muito bem, e imaginava que Zidaly estivesse armando alguma. Mas com que disposição ela iria tentar investigar isso, quando tinha tanta coisa importante pedindo por sua atenção como Toronto e Giovanna?
- Ok - e se afastou rapidamente dali.
Bel não sabia, mas só com o 'ok', ela havia determinado que Zidaly teria liberdade: de ir e voltar do abrigo, de sorrir e falar com os outros e direito à voz. E ao declarar trégua, declarava também pelos seus guerreiros, inclusive Crazy.

Mas agora o momento não era de se preocupar com os guerreiros de Grillindor, e sim com os de Campinas. Eles iriam adotá-la, adorá-la e adoçá-la para Crazy. E aí ela daria o bote em quem queria dar, e se afastaria dali.

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A decisão foi bem complicada, mas no final das contas foi a mais óbvia e fácil que fizera na vida.
Simplesmente não havia outra opção; seria como decidir por se matar no fogo quando você podia viver mais algumas horas ao lado de alguém que lhe fazia sorrir. Mesmo que o final fosse destrutivo para as duas, Lala sentia que seria melhor ficar ali até o final, ajudar Ophelia e morrer com a honra de uma guerreira, ainda que do lado errado.

Ophelia estava muito melhor, e enquanto ela se recuperava do choque de enfrentar alguém e sair tão ferida, Lala tentava cuidar do castelo. Estava tudo uma imundície, tudo largado aos Glombs que odiavam a Majestade e mal trabalhavam, e muitos fugiam com a falta de vigilância. A única coisa que fazia com que aquele palácio não ficasse sem criado era só o medo dos demônios que viviam lá fora e dos quais ninguém conseguia se defender. Por isso, Lala tinha que se certificar de que o mundo ficasse ainda mais perigoso para não correr o risco de um dia acordar e perceber que não havia nenhuma alma naquele castelo.

Naqueles poucos dias, ela chamou os poucos demônios que havia em volta do castelo e negociou.
- Chame os mais perigosos que tem pela cidade - ela havia dito - e diga para que eles fiquem em volta daqui.
- Pra quê? - um dos seres indagou - a Rainha pouca liga para nós. Só estamos aqui porque não temos lugar pra ir. Mas Ophelia não é mais nossa líder.
- Mas não falo por Ophelia - Lala murmurou - ela só estava com raiva no dia. Mas ela ajudará os demônios, e será a sua rainha.
- Como? - o demônio retrucou, desconfiado - ela não salvou aqueles que estavam em Heppaceneoh.
- Ela tentou - Lala mentiu - mas as Campinas montaram uma barreira mágica que faz com que ninguém possa entrar, nem mesmo Ophelia. E ela foi atacada por alguém muito bom.
- Se ela é tão fraca assim, como pode ser a nossa líder? - foi a réplica que ouviu.
Lala tentou respirar fundo e ser paciente, como podiam aqueles seres saberem algo dos poderes de Ophelia?
- Ela não é fraca. O feitiço usado que foi muito poderoso e... - Lala deu um sorriso torto, como se quisesse desafiar - Ophelia pode perder pra alguns seres, mas decididamente ela é mais forte do que todos vocês juntos.
Os demônios se calaram, sem dizer palavra. Sentiam a verdade nas palavras de Lala, e demonstravam arrepios ao lembrarem de como Ophelia os convocara: às vezes com a palavra, e às vezes com a força.
Era perigoso demais.
- Está bem - disse um dos monstros - nossa lealdade voltará a ser de Ophelia. O que precisamos fazer?
E a ruiva falava.

O céu se escureceu, abrindo espaço para o silêncio.
Ophelia até sentiu cinco formas de magia se mexerem até onde podia sentir, mas não quis se dar ao trabalho de identificar. Estava muito agitada, tentando aprimorar seus poderes novos. Descobriu que podia pegar as sombras e uni-las completamente e lançá-las contra alguém. E se estivesse muito concentrada, e se movesse as mãos de um certo jeito, as sombras iriam se tornar fantasmas, quase que sair das paredes e chãos, e surgirem como espíritos: sem matéria, sem corpo, somente uma neblina escura.
Tudo isso lhe cansava muito, ainda mais quando ela tentava unir as sombras à própria personalidade, assim como os braços 'esticáveis' sempre foram parte dela mesmo. Ofegava, e não queria comer nem dormir, de tão excitada que estava com a descoberta dos poderes. Era como um transe, era como uma sensação que lhe percorria o corpo.
Era como se ela pudesse fazer tudo, e nada, nada estava fora de seu alcance.
Sentia que se quisesse, ela podia pegar a lua e colocá-la em seu quarto, só para ela.
Respirava fundo, e sorria.
Seus cabelos desarrumados estavam mais compridos, e aparecia traços de cansaço em seu rosto, marcas de feitiços que custavam muito da alma.
Estava quase nua, havia marcas de poder que lhe rasgava as roupas, a pele, a carne e chegava a ferir tão profundamente!
- Majestade - Lala entrou no quarto sem pedir licença, não precisava mais - Majestade.
- Não me chame de Majestade, não é mais minha criada - Ophelia se incomodou, aceitando a ajuda de Lala quando esta se aproximou, e começou a arrumar a cama.
- Está bem - Lala sussurrou - está na hora de seu banho - e se controlou pra não repetir 'Majestade'.
Ophelia aceitou os agrados de Lala que lhe pegava pelos braços, tentando fazer com que a rainha não tivesse nenhum acesso de loucura. Quando Lala tinha paciência, ela era muito talentosa para que Ophelia não ferisse ninguém.
Ophelia tomou o banho, enquanto Lala vigiava a porta do banheiro.

A cada dia que passava, tinha que tomar um cuidado absurdo e redobrado: Alicia estava sempre, apressada, porque tinha recebido o encargo de cuidar do castelo. E ela podia planejar algo como uma fuga seguida de um assassinato. Ainda que Ophelia fosse a toda-poderosa, Lala temia pela sua segurança quando a rainha não era capaz de pensar direito.

Seus olhos tremeram de sono.

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- Chegamos - foi a declaração de Miih.
Foram rápidas, até se arriscaram bastante a serem descobertas.
E a cidade, a capital das fadas, se estendia diante delas com toda a sua imponência quebrada, como alguém gritando por socorro enquanto é humilhado e abatido. Destroços, pedaços de vidas inteiras pelo chão.
Os anjos duma praça lá tinham sido espatifados.
Gotas de sangue em toda parte.
Sombras ameaçadoras e rebeldes nos cantos.
E até mesmo o céu ganhava contornos de terror naquele cenário.
- Miih - Sunny ofegou, quase perdendo o controle - Miih...
- Fique calma - Miih sussurrou, mas ela também estava tão nervosa: aquele cenário era simplesmente assustador, e ainda havia o poder de Ophelia que ela estendera para todo o canto. Não havia uma única criatura por ali que não pudesse sentir a vigilância da rainha, e toda sua crueldade.
Maldade era o cheiro da capital das fadas.
- Ok - Sunny sorriu - veja só, dá até para sentir quando Ophelia estiver furiosa daqui...
Seu sorriso era tremido.
- Temos que procurar Catherine antes de agir - lembrou Loveh - ela deve estar por aqui, a nossa espera.
- Espero que esse tempo tenha sido o suficiente para ela se recuperar - murmurou Louise - aquilo que ela fez deve cansar tanto...
- Acho que foi - Sunny disse, tentando ficar entusiasmada - ela deve estar bem.
Ninguém disse mais nada. Não se conseguia sentir Catherine daí, mas ela podia estar ocultando seus poderes para fugir de Ophelia. E ela podia nem estar por ali, e sim no mar onde recuperava suas forças de forma integral.
As cinco prenderam a respiração por um segundo: parecia-lhes que sentira algo se mover sob aquele manto de poder tão 'opheliano'.
Era só um demônio meio tonto.
Uma mínima perturbação, que mal seria sentida se as Musas não fossem tão talentosas para isso.

- Vamos procurar Catherine - disse Alice, cuidadosamente - e aí executaremos Ophelia.
- E se morrermos? - perguntou Louise quase se afligindo.
- Isso é o de menos - Sunny passou as mãos pelos cabelos loiros - o importante aqui é matar Ophelia. Depois a gente se preocupa conosco.


Weeee, cap 94 *-*
Rattinha, eu também nem imaginava que Ophelia libertaria Lala, mas quando comecei a escrever, isso me soou tão, mas tão natural, tão normal como se fosse óbvio *-*
Umrae, caraaaamba, que história, hein O.O
Essas moonblades me parecem tão exigentes, dizimando os atrevidos. Prender a alma de uma pessoa à uma espada me soa surreal, mas como adoro coisas surreais. E foi bom ter dito mais a respeito de Faërun, sua organização, sua corrupção, etc. 'Moonblade' significa, literalmente, espada da lua, certo? Essa tradução tem algo a ver, ou estou viajando na maionese?

Hmmm, eu PASSEI no negócio da Olimpiada! Isso quer dizer: eu.vou.viajar.pra.Campinas-SP *-* Só vou ter um dia de 'folgaa', mas quem se importa? É uma viagem (:

;*