quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Parte 98 - Dá para entender o que você pensa, Ophelia.

Ao fim da noite, ao fim de outra maratona de vinte e quatro horas, Nath finalizou os relatórios de Giovanna e Toronto. Ambos estariam bem em algum tempo. Ambos não corriam mais risco de morte. E ainda que Giovanna nunca se curasse completamente de suas queimaduras, ainda que a perna de Toronto pudesse falhar, estariam os dois em bom estado.
Bel se sentiu imensamente aliviada quando pode visitar os soldados na ala hospitalar.
- Ficará tudo bem - ela disse - e trouxe mimatta - piscou um olho, mostrando uma garrafa cheia - vamos abençoar essa boa sorte que permitiu que os dois ficassem vivos e inteiros e sãos!
Giovanna riu. Ela adorava quando Bel se mostrava bem-humorada, entusiasmada como se todas as outras coisas não fossem tão importantes. No dia seguinte, Nath lhe garantiu, estaria bem consciente e poderia receber visitas por um tempo mais longo. E se cuidasse direito, poderia começar a andar dentro de uma semana ou duas. Certamente não poderia agir na batalha final, mas poderia ajudar depois, porque a guerra era feita de preparativos, batalhas e retorno para casa. Bebeu a mimatta - obviamente escondida da rigorosa Nath - que tinha sabor suave de laranja. Uma delícia e lhe entorpecia os sentidos.

- Vamos lutar na capital das fadas - Bel contou - Raveneh foi raptada, como sabem. E vamos lá, destruir todos os demônios e acabar com aquela bastarda maldita que se promulga Rainha! E, claro, resgatar Raveneh. Estão usando soníferos para manter May calma, sabiam?
- Uau! - Toronto riu. Estava quase bom - bem que o choro dela faz sofrer...


Umrae encarou o mapa com fúria gelada.
Podia atacar o quanto fosse, mas como iria se prevenir de um possível futuro movimento? Não era possível que Ophelia imaginasse em entrar na guerra com os demônios que povoavam a capital. Ela tinha que ter um trunfo, e Umrae, porém, não contava com nenhum trunfo real. Ophelia sabia dos dragões e com certeza iria se prevenir contra eles. E para enrolar Ophelia, só se aparecesse morta e todo mundo fosse morar lá em cima, como sempre moraram.
Ela tinha que ajudar a dar conta daquilo.

Com calma, pensou mais um pouco.
Iria dar um jeito.
- Você morre.
Brecha.
Bela brecha que encontrara.

Ficou mais dez, vinte minutos raciocinando, anotando, concluindo. Se isso desse certo, tudo estaria diferente. Mas de que adiantaria isso, se não tinha plano B eficiente para que as coisas se arranjassem? Instruções? Tudo seria por sua conta. Ela quem decidiria. E se errasse, tinha consciência disso, podia mandar Campinas inteira para a morte.
- Vamos lá, Ophelia. Eu vou jogar como você quer - sussurrou enquanto tirava a limpo suas idéias.
Comprimiu os lábios, olhos dourados a fitarem o papel, pena, porta.
- E eu vou vencer no seu próprio jogo - se fosse Bel, riria de contentamento.
Mas era Umrae e ela não riu. Só ficou concentrada.

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- Ok, ok, ok, vamos, Raveneh.
Dói.
Doía demais. Cada fibra agoniada, cada célula gritando por clemência e paz. Raveneh ofegou, tentando se levantar, apesar de todos os machucados, feridas abertas, sangue pelo corpo. Jogou o cabelo para trás, pensando em tudo. May, sua filhinha. Johnny, seu marido. Amigos, amigos - Rafitcha, Tatiih...
- Raveneh, deixe-me tomar conta de você.
E ainda por cima Catherine. Não queria perder o controle de si, entregar tudo à sua outra face. Vivenciar algo do começo ao fim.
- Raveneh, eu posso curar essas feridas... e não vai doer tanto.
A magia que Catherine sabia era tão mais forte. Era capaz de coisas incríveis, sem limites, como curar suas feridas, assassinar muitas pessoas e forjar a própria morte. Agoniada, conseguiu ficar em pé, respirando bem fundo, calmamente.

- Eu posso ficar forte - dizia para si mesma - é só me orientar, e eu serei eu mesma, você será você mesma, e, juntas, sairemos dessa. É só me orientar.
Catherine estava hesitante. Queria ter o controle absoluto. Porém o acordo de Raveneh estava bom, suficientemente bom para ela concordar. E se conseguisse orientar e fazer com que Raveneh escapasse, fosse longe e fugisse das garras daquela mulher louca... porque não?
- Está bem. Raveneh, cure suas feridas. Precisa ficar forte, minha querida, e não vai ser sangrando que escaparemos daqui.
Silenciosamente Raveneh se encostou à parede, escutando. Seu cérebro parecia se dividir em dois, não porque doía, e sim porque eram duas pessoas. A Raveneh, dolorida, cansada e preocupada, escutava a Catherine, trêmula e hesitante. Era como ter a voz de consciência em um nível completamente diferente, como se Catherine fosse uma velha amiga que estivesse ao seu lado e conversasse com ela tranquilamente. Era uma experiência estranha demais, mas se ainda fizesse a terapia, Gika teria considerado isso um avanço fantástico: as duas personalidades coexistirem, se unirem para um fim final, ao invés de entrarem em guerra, disputando pelo domínio do corpo.
- Fique comigo um pouco.
Lentamente, muito lentamente, Raveneh ficava calma.
Não era tão difícil.
Os machucados passaram.
A dor diminuía.
Catherine concedeu paz à Raveneh, ensinando a ela propriedades da cura.
Raveneh deslizou pela parede, conseguindo um pouco mais de força. Nunca imaginara que magia faria alguém ficar tão poderoso, pudesse fortalecer alguém. Geralmente ela se sentia mais fraca depois de uma sessão de magia, então sempre associou magia = fraqueza. Só que...
- ... Descanse.
Se entregou ao sono, finalmente reparador.

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- O que você fez? - Miih exclamou, suas sobrancelhas se franzindo de ira. Catherine não perdeu tempo se explicando, ou pedindo desculpas. Ela simplesmente ergueu os olhos do jeito mais inocente que conhecia.
- Miih, eu só fiz o mesmo que Olga. E vou matar Ophelia assim.
Miih não concordou, se sentindo insultada.
- Olga não conseguiu matar Ophelia. E éramos oito. Agora somos cinco!
Sunny concordou.
- Temos um poder muito menor - ela disse, sendo apoiada por todas as outras. Seu ar angelical tornava difícil para Catherine retrucar com impaciência, de modo que simplesmente suspirou e deixou pra lá. Sabia que ninguém gostaria de sua escolha, e que tinha sido desesperada. Mas não estava realmente arrependida, e seu espírito se acalmava quando pensava que simplesmente iria... se esvair. A água se agitaria em sua ausência, mas ela mesma ficaria tranquila.
Não haveria nada de tão ruim no outro lado da vida, haveria?
- Idiota - Louise sussurrou - agora vamos perder você!
- Mas vai adiantar - Catherine sorriu - porque eu tive uma idéia. As águas correm por todo canto, e elas falaram pra mim. E eu montei algo.
Aproximaram-se de Catherine como menininhas curiosas, ansiando por fofocas.

- Ophelia necessita de magia - Catherine começou - como já falamos. Mas de onde vem a magia?
As outras fizeram expressões entre dúvida (Miih) a admiração (Alice). Sunny passou a língua nos lábios, tentando responder:
- Natureza? Somos parte da natureza, não é?
- Exato - Catherine sorriu - se somos parte, então a natureza deveria ir contra Ophelia, não acha? Se pudemos evocar poderes, poderes da terra - encarou Alice nesse momento com determinação - bem, a gente pode conseguir!
Miih crispou os lábios de frieza.
- Mas isso é totalmente filosofia de criança! - foi o que disse, antes de Loveh retrucar.
- Só porque parece tão infantil... não quer dizer que não possa dar certo. Podemos lutar não como "Musas"... mas como forças, digamos assim.
- Isso está completamente confuso - Louise sussurrou - quer dizer que eu vou ter que virar um vulcão?
Todo mundo se calou, imaginando exatamente a mesma coisa.
Como se fossem se transformar em vulcões, florestas, furacões. Não iria adiantar contra Ophelia? Por mais que a natureza fosse mais forte, Ophelia era espera. Ela conseguiria escapar de cada detalhe, cada golpe e se fosse ferida, se recuperaria mais rápido do que um piscar de olhos. Como ir contra? Além do mais Ophelia era como elas: integrante, unida ao tudo. Ela iria descobrir esses truques e iria usar os mesmos golpes. Sem se machucar, sem deixar de sorrir.
- Eu sei que Ophelia está ficando louca - Catherine diz em murmúrios bem baixinhos - qualquer um sabe disso. Mas a loucura dela vai além, e não é difícil supor essas coisas. Eu descobri, pelas águas, que as Campinas não se renderam. Ainda.
- Mas ela deve estar pressionando muito - Loveh ponderou - o território é bem grande... e está praticamente colado ao Mundo das Fadas, uma ilha de liberdade em todas as colônias que são dela agora... a idéia de algo que não é dela está a perturbando!
- Sim - Catherine gesticulava, tentando expor seus pensamentos de forma coerente - então... pensem comigo. Ophelia, com certeza, está pressionando Campinas. Se eu bem me lembro, ela chegou a sequestrar alguém. Não duvido que ela tente de novo. Não duvido que Campinas recorra a alguma medida desesperada. E não duvido que essas medidas façam com que Ophelia se defenda a altura, utilizando algum ser perigoso que ela conheça.
- Isso é óbvio, claro como água, querida Catherine - Alice disse - mas como poderemos vencê-la? Diz para ajudarmos Campinas? Nos unirmos a eles? Mas, Catherine - ela parecia quase suplicante - demônios não são perigosos para gente. Mas Ophelia... Ophelia nos preocupa, e Campinas não vai vencê-la a menos que use a própria Lilith em pessoa!
- Porém Lilith é um mito - Miih lembrou em tom de sarcasmo frio - e mitos não vencem Ophelia.
- Isso lá é verdade - concordou Loveh.
Ficaram todas caladas e pensativas.
- Porém podemos resolver isso - Catherine sussurrou - tenho certeza de que venceremos esses monstros que Ophelia mandar. Porém... logo ela vai tomar conhecimento de nossa existência aqui, afinal estamos esbanjando energia, sabe. Minha opinião é de que devemos ajudar Campinas.
E de novo ficaram quietas, sem dizer palavra.

Ajudar Campinas?
Ajudar humanos?
Mas... eles tinham que serem ajudados, não é? Estavam do mesmo lado, contra Ophelia. Ela era oponente de ambos os lados, e se defendia com um sorriso. Mas o que aconteceria no momento que ela descobrisse que seus inimigos se juntaram? Ficaria assustada? Ao menos com um décimo de espanto? Ou acharia tudo aquilo ridículo, pensando ser capaz de vencer seus oponentes com as duas mãos amarradas nas costas? Se bem que ela era capaz disso mesmo, tendo o corpo mutante...
Estavam todas as cinco fracas, verdade.
E do outro lado tinha um povo inteiro, protegido por magias e estava todo mundo com medo. Decerto havia crianças, e foi isso que fez com que Sunny fosse a primeira a apoiar. Por mais que todas elas tivessem desprezo disfarçado aos humanos, nenhuma delas aceitaria crianças desprotegidas, seja qual for a espécie. Crianças também fizeram com que Loveh convencesse Miih, e com que Alice enchesse a cabeça de Louise com a idéia de que aquilo era sensato.

É, teriam que engolir o orgulho. E, depois, não estavam sendo ajudadas, concluiu Louise. Iriam ajudar. Sunny pensava que, na verdade, ambos os lados que iriam se ajudar. Mas nada falou do que pensava, porque não queria ferir o orgulho ferido de Louise. Miih ficou pensativa por muito tempo. Estava, sim, cedendo a Loveh, Sunny e Catherine, mas, porra, tinha que ter humano na parada? Porém tinha que concordar com a vozinha dentro dela: a situação é desesperadora, Ophelia não é uma rainha fraca e nesse momento qualquer orgulho que você tiver é inútil perante a rainha. O importante é simplesmente ter armas e vencer de uma vez. Nada de enrolações. Nada de mimimi. Nada de choro por alianças malsucedidas. Elyon teria falado isso nos seus ouvidos. Olga insistia nessa idéia. Ambas morreram, dando a vida por causa da maldita daquela bastarda.

- Ok - Miih sussurrara - Ok. Vamos lá. Em direção a Campinas.

E teriam que descer pelo Mundo das Fadas até alcançar a relva ainda verde. Não tinha problema.

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Ophelia penteava seus cabelos.
Ela se encarava muito profundamente no espelho.
Já era madrugada. Todos dormiam. Lala estava exausta, trancada em seu quarto. Havia chorado, chorado por quê? Talvez tudo estivesse difícil para Lala, deduzia Ophelia sentindo um misto de irritação e tristeza. Lala era uma peça de sua vida que ela mesma não entendia. Era determinada, dura e quase selvagem, verdade, mas podia enxergar a doçura em seu caráter. Conseguia ver a destruição da alma de Lala que ela impunha a si própria simplesmente para não violar seus princípios de lealdade. As pessoas sempre falaram que Ophelia era psicopata. Ela sempre soube disso. Sempre. Nunca tivera realmente pena, compaixão ou amor. Nunca amara sua mãe, mas dependia dela, era louca por sua mãe. Porque não eram duas, e sim uma. Quando a mãe morreu... foi como se cortassem parte dela.

Mas não era assim com Lala.
Lala não era parte dela. Se alguém tirasse Lala dela, ela não teria parte dela cortada. Mas sentiria a alma nua, mutilada mesmo assim. Não entendia o que sentia, e odiava a antiga e familiar sensação de dependência, vício, o eterno círculo vicioso. A dor... a dor era o remédio para tudo. Era a doença, era a própria cura. Todos aqueles desesperados, querendo acabar com Ophelia, todos aqueles querendo mutila-la, todos querendo matá-la, todos querendo simplesmente destrui-la... e utilizam dragões, feitiços, Musas, incêndios e ninguém percebia como a solução era tão simples. Dor. Era simplesmente toda aquela maldita dor que Ophelia não queria sentir de novo. Não sentiria mais essa dor e todo esse vazio dentro de si, se simplesmente ocupasse a cabeça com bobagens. Territórios, armas, estratégias. E quando tudo isso se concluísse, ela se entregaria ao hedonismo, quem sabe? Ou simplesmente se acabaria. Tudo para não sentir tamanha angústia.

Seu espelho mostrava uma Rainha. Uma rainha louca, de cabelos penteados e trançados, vestido arrumado e verde-esmeralda e extremamente odiada. Mas ainda assim uma Rainha. Engoliu em seco, pensando nos próximos dias. Raveneh estava com ela fazia quanto tempo? Não importava. O que importava era que as Campinas contariam os dias, Raveneh marcaria cada hora na parede com qualquer coisa que tivesse a mão e logo sua presa seria resgatada. Viria uma força especial com dragões a postos, e Umrae seria a líder desse movimento. Ela não seria estúpida de deixar que isso acontecesse. Os demônios jakens tinham sido inúteis. Então... montaria uma estratégia melhor.

Os demônios que povoavam a cidade agora eram inúteis. Logo em um ou dois dias, como disse à Lala, chegariam monstros, esses sim que poriam Umrae e sua corja de bípedes estranhos de joelhos. Até mesmo os dragões teriam que se curvar diante daquilo! Mas, convenhamos, eles não podem ser usados para a guarda pessoal... era ridículo, era desprezar o poderio dos monstros. Então ela mesma tinha que se certificar de cada proteção. Aqueles demônios que guardavam suas propriedades agora eram demasiados tontos, seriam como a primeira camada para eliminar os fracos e testar os fortes. Uma muralha que cederá facilmente à primeira ordem de Umrae. Em sua cabeça enlouquecida, podia imaginar até mesmo a cena desenrolando como em filme de TV: os demônios caindo, um após outro, e todos se contagiando com o sentimento de empolgação, de não-era-tão-difícil-assim!

E então... encarariam a própria Ophelia.
Não seu corpo físico.
Mas sua mente estaria impregnada em cada pedaço daquele castelo. Sua alma se dividiria em mil pedaços para destruir qualquer um que tentasse resgatar Raveneh. Qualquer um que tentasse acabar com ela também. Nunca tivera direito àquele castelo. Mas sempre tivera direito ao poder. Porque ela era a encarnação de todo esse poder, era simplesmente todas as forças da natureza reunidas em um corpo com uma mente que conseguia sentir e pensar.
Ophelia... era tudo.

Ela encararia cada parte, se infiltraria em tantos pedaços de ar e terra que ninguém conseguiria destrui-la. Nem mesmo Umrae, aquela maldita elfa sensitiva, conseguiria perceber as nuances de sua personalidade, os tons de sua crueldade quando fosse salvar Raveneh. Será que Umrae aceitaria o trato? De jeito nenhum... Raveneh era uma pessoa doce, percebera quando pusera suas garras na loira. Era doce, de temperamento sensível e meigo, e era mãe de um bebê, dava para ver. Não deixariam que Ophelia a matasse, nem quando os porcos criarem asas do nada. Iriam pôr as mãos em Raveneh, iriam mandá-la embora, iriam protegê-la. Tudo bem. Ela queria mesmo era Umrae. Quando ela fosse ali, como a parte principal da força do resgate, iria capturá-la. Não poderia resistir, não mesmo...

Delineou sorriso,
sentia aqueles malditos voltando. Iriam lhe ajudar.
E sentia... sentia cinco almas cochichando. Bem, não achava mesmo que iria passar incólume depois que assassinara Elyon, não era mesmo? Então... iria simplesmente se proteger, se defender e atacar, como sempre fizera.
Assim era bem mais sensato.

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- Pois bem - Umrae arrumou a mesa, mostrando o mapa - vamos atacar aqui, aqui e aqui.
E indicava os lugares. Desandou a falar, narrando toda a estratégia montada e pensada que fora discutida com Bel momentos antes, sem contar toda a parte mais essencial da história como os equipamentos, técnicas de fuga e ataque, reflexões sobre o comportamento de Ophelia e a preparação para os possíveis aliados, por isso todos os dragões precisavam estarem fortemente armados e preparados para uma fabulosa guerra. O exército era pequeno, porém dariam conta.

- Ok, entendi. - Polly cruzou os braços - mas e quanto a Giovanna? Toronto?
- Vão ter que ficar de repouso - Bel disse com um tom de insatisfação - Nath praticamente me obrigou a não exigir nada deles. Eles estão bem e apresentando melhora, mas não poderão entrar em combate. Terão que ficar aqui.
- Eles se sentirão inúteis! - exclamou Ratta se sentindo nauseada só de pensar nos dois, feridos, na cama, resmungando que não cumpriam suas missões.
Bel ficou em silêncio por uns dois segundos até decidir.
- Eles poderão trabalhar por nós - declarou - aqui. Tem preparativos, tem coisas que eles podem fazer, não é? Nem que seja escondido daquela enfermeira!
- Não zombe de Nath - advertiu Umrae entre séria e divertida - ela pode ser muito severa e cruel quando desobedecem às ordens dela.
- Ora! Não se pode prender um guerreiro em uma cama - riu-se Pauline - é uma insanidade! Umrae, há de concordar comigo!
- Até concordo - Umrae sorriu de canto - pois bem, caros guerreiros, vamos atacar daqui a um dia. Ou seja, começará logo o dia, então se preparem por hoje, equipem os dragões, lavem suas roupas e descansem. Atacaremos ao amanhecer.
Nesse ponto, Umrae pediu licença e se dirigiu ao seu escritório, ao mesmo tempo que Bel expulsava Zidaly do aposento e montava a rotina do dia seguinte.

Zidaly bufou, mas saiu e ficou na sala, observando Amai ler um livro à luz da vela.
Ouvia vagamente as vozes de Bel, Crazy, Pauline, Polly, Ratta, Harumi. Todos discutindo, debatendo, nervosos e apreensivos e furiosamente empolgados. Ouviu alguém dizer algo como "porque eu tenho que fazer isso?" e alguém responder "porra, Giovanna não pode fazer isso". Algumas discussões sobre quem alimentaria os dragões, e todo mundo esquecera das tarefas de Zidaly que se resumia, basicamente, em fazer todo o serviço sujo. Se sentia humilhada, mas tinha que reconhecer que não podia fazer nada já que praticamente obrigara o rei a enviar para cá. Crazy quase não falava, podia perceber, mas ele nunca dizia algo sem ter certeza de que aquilo teria relevância.

- O que está lendo? - perguntou à Amai, que ergueu os olhos, sobressaltada.
Em um sorriso, ela respondeu com delicadeza:
- É um livro de lendas orientais - ajeitou seu vestido comprido - tem tantas, tantas lendas! Uma mais linda do que a outra... é de Raven.
- Ele é o quê seu? - a voz de Zidaly saía carregada de malícia.
- Meu? Oh, céus - Amai passou a mão nos cabelos ruivos, constrangida - nada. Amigo, sabe. É que deixei todos meus livros em Istypid, onde vivia. Depois daquela bagunça toda, depois que Grillindor invadiu e tudo o mais, deixei tudo lá. Ainda bem que ele tem esses livros, sinto o tempo passar mais rápido.
Zidaly lembrava de Istypid. Cidade vulgar, suja e feia. Cheia de humanos que não davam um pingo de valor à magia que os cercava.
Será que Amai era uma dessas humanas?

- Como é Istypid? - perguntou em um tom baixo de voz.
- Um lugar estranho - Amai respondeu com sinceridade - parece que há tudo de ruim concentrado em um único lugar, e ninguém se incomoda. É seco demais, morto demais.
- Você nasceu lá? - os olhos de Zidaly cintilavam de estranha felicidade porque tinha alguém com quem conversava e a conversa não tinha um pingo de ironia, sarcasmo ou desconfiança.
- Não - Amai riu da idéia - nasci em uma aldeia bem pequena, muito, muito longe de Istypid. Na verdade só morei em Istypid porque estávamos protegidas lá.
Zidaly achou estranha a idéia de que alguém se sentia protegida naquele lugar, mas preferiu não comentar. Percebia, pelo tom, que Amai não queria falar muito de onde viera. Mas decerto era do Oriente, pelo nome estranho, pelo sotaque e também conhecia os idiomas orientais, o que a fazia devorar alguns poucos livros nessas estranhas línguas que quase ninguém lia. Além disso Amai se vestia de uma forma diferente. Até mesmo Kitsune, que sabia ser tia de Amai, se vestia como as outras: vestidos campestres, florais, leves. Porém Amai preferia vestes que lembravam vagamente o Oriente, com bordados diferentes, de tecidos extraordinários.

- Como você acha que essa guerra vai acabar?
A pergunta de Zidaly pegou Amai desprevenida. Chegou a fechar o livro - sem esquecer de marcar a página - e encarou a forasteira nos olhos, entre intrigada e temerosa.
- Umrae vai vencer - disse com toda a certeza que reunia dentro de si - ela é inteligente. E a sua comandante, a Bel-san, ela também. Nós vamos vencer, e derrotar aquela rainha perversa.
- Ela é tão perversa assim? - murmurou Zidaly, procurando por opiniões mais concretas do que apenas esperanças.
Amai crispou os lábios, exasperada.
- É claro! Que tipo de mulher mata a seu bel-prazer? Ela tortura as pessoas, sabia disso? Se cai nas mãos dela, céus... ela tem que ter algum ponto fraco, eu disse isso à Umrae naquele dia! Ela deve ter ficado imaginando e desistiu de imaginar, porque aquela maldita parece não ter pontos fracos! Se luta com ela, ela é um demônio... se conversa com ela, ela é a melhor oradora do mundo... ela é louca! - quase chorou ao lembrar do super-protegida proferido por Ophelia. E Kibii, justo Kibii, a corajosa, a elfa que ia em frente e matava com frieza, justo ela tinha ido em seu lugar. Quem tinha que ter sido torturada? Quem tinha que sofrer? Mas...

Mas...

Kibii ainda sofria com aquelas malditas torturas. A vigiava escondida, de vez em quando, em especial durante as noites de sono. Seus pesadelos se tornavam mais frequentes, e sua frieza mais cortante. As cicatrizes existiriam para sempre, sabia, e se culpava ainda por isso.

- Hey, se não quiser falar, não fala - Zidaly se sentiu constrangida em ter tocado em alguma ferida de Amai. Era uma menina tão doce, tão sensível que fazê-la chorar era como um pecado. Meninas assim, concluía Zidaly, são um inferno, um doce, um amor...
Deixou-a se recuperar das lembranças e devaneios, e decidiu não interrompê-la mais com perguntas. Seria até melhor, não queria que Amai devolvesse as perguntas e fazendo-a contar sobre sua vida antes dessa guerra idiota.




E, finaaaaalmente, o terceiro post de 2010 e o primeiro de fevereiro! Podem cantar, ALELUIA, IRMÃO! *-*

Primeiramente, agradeço de coração a todos os comentários e e-mails de Umrae. Cara, você é a mulher mais inteligente que já vi, sério. Rivaliza sério com minha tia e minha mãe *o*
"Segundamente", sim, teve um 'elfa' se referindo à Umrae. Aí eu quero lembrar, explicar - que seja - que quem pensa assim é Ophelia, e Ophelia não faz a minima distinção entre elfos e drows e tudo o mais. Para ela, o mundo se resume em humanos normais, elfos, fadas e demônios. O resto está catalogado em "ser bizarro e estranho", simples. Basicamente foi de propósito :)

E, por fim, em terceiro. Comecei as aulas, farei novamente o segundo ano - muitcho interessante, já comecei a anotar as meeesmas coisas do ano passado. Só tem graça repetir quando você não entendeu nada o ano passado... mas pra gente CDF que nem eu e repetiu só por conta de duas matérias, todas as outras que você ainda lembra ficam muito chatas, argh D: Mas tudo bem, encaro essa, rs!

Mas quero aumentar meu ritmo de postagem, sim, e quero mudar o layout disso aqui. Já estou com idéias e tudo, só preciso melhorar meu conhecimento de HTML, CSS e esses códigos de programação, entende. Coloquei a imagem porque passei a sentir falta daquelas imagens que punha em cada capítulo, mas vivo com preguiça de fazer algo no Paint e não estou com scanner, de modo que vou passar a catar imagens da net. Essa, em especial, veio do We ♥ It :D
E as imagens não terão necessariamente ligação com a história. Somente alguns elementos, porque acho impossível achar "A" imagem perfeita D:

Espero sinceramente que tenham gostado do capítulo. Montei a minha estratégia aqui, baseada nos e-mails de Umrae ;* e idéias mirabolantes aqui, de modo que estou construindo a história para esse rumo!

Beijos! ;*

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Parte 97 - Um passo para a beira do abismo.


Um dia.
Vinte e quatro horas era tempo demais.
May já estava berrando. Tentaram leite feito com farinha e algo lá, mas nada dava certo. E só de lembrar que restava seis dias, seis dias para o prazo final. Ou Raveneh morria. E se Raveneh morresse, o que fariam com o bebê? Como a alimentariam?
Mia também chorava.
- Com o que que essas pessoas estão hoje? - Ly perguntou quase grosseiro - é possível crianças terem cordas vocais tão fortes?
Doceh lhe abraçou carinhosamente.
- Vai ficar tudo bem - disse - vai dar tudo certo.
Estúpidas palavras de esperança.
Vai dar tudo certo.
Vai dar tudo certo.
Claro.
Com duas crianças chorando, uma pessoa sumida, duas gravemente feridas, e todo mundo praticamente louco. Vai dar tudo certo.
Claro.

Rafitcha tremia. Nunca, nunca, nunca teve paciência com crianças mesmo quando era só uma e ela tinha mãe que conseguia acalmar. Agora eram duas. Uma chorava de fome e saudades, outra de medo e saudades. A outra tinha, pelo menos, dois irmãos. Mas isso não dava jeito. E, não... o pirralho do meio começou a chorar.
- Não aguento... - e começou a chorar também. Lágrimas. Gemidos.
Não era a pessoa que estava em pior situação naquele maldito lugar.
Mas preferia descer nas prisões de Istypid do que aquele lugar. Qualquer lugar que não tivesse as malditas crianças. Não teria filhos, nunca teria uma criança. Jamais. Se engravidasse, por acaso, ela matava a criança sem culpa. Ou dava pra adoção. Se engravidasse... era melhor nem engravidar. Nunca iria transar. Jamais. Um prazer cortado pra ter um incômodo ausente. Não tinha problema.
- Ra...? - Erevan chamou seu nome, procurando lhe consolar.
Rafitcha lançou seus braços em volta do dragão em forma humana, chorando copiosamente, suplicando qualquer coisa. Como algodão nos ouvidos e coma profundo para simplesmente esquecer do clima pesado. Erevan suspirou. Gritou chamando por Kitsune, falou a ela qualquer coisa. Kitsune se afastou, disse a mesma coisa ao Johnny. Johnny adorou, e Kitsune fez. Um dos soníferos mais suaves, ideais para crianças, de Umrae.
Fez o bebê dormir rapidamente.
As três crianças também experimentaram do remédio, dormindo tão profundamente que nem uma bomba os acordaria.
E o silêncio se instaurou no abrigo.

Rafitcha pediu uma dose, o que Kitsune deu. Ela dormiu apoiada em Erevan, aconchegada e tendo conforto pela primeira vez em muito tempo.

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Raveneh não ficou na masmorra, nem em um galpão.
Ela ficou em um quarto.
O quarto tinha uma janela que tinha uma visão maravilhosa de Campinas, e bastante luminosidade. Mas Ophelia bloqueara a janela com um feitiço, de modo que Raveneh não poderia escapulir qualquer que seja o jeito. E a luz também foi bastante diminuida, para que Raveneh se sentisse nas sombras. Quando Raveneh acordou naquele lugar, ela não sabia onde estava. Ela viu os pulsos doloridos (porque?), sentiu os seios vazarem leite (há quanto tempo não dava de mamar a May?), sentiu a cabeça doer (onde estava?). Forçava a memória. Uma música. Alguma coisa do gênero. E depois... meros borrões. Nada fazia sentido.
Não havia ninguém no aposento.
Ninguém.
É.
Não.
Vai precisar de mim, moça.
Não podia ser...
Não é óbvio que você é prisioneira de Ophelia?
Deitou-se no chão, tentando dormir novamente. Não sabia que horas são, embora já fosse noite pela janela. Era noite do mesmo dia que acordara em Campinas? Ou já era outro dia?

Céus. Isso estava realmente problemático. Onde estaria May? Será que Johnny estava bem? Porque ela estava aqui? Quer dizer, algum motivo realmente razoável que não seja simplesmente porque era a mocinha da história e tudo acontece com a mocinha da história. Quer dizer, seus dias tristes já passaram. A guerra era ruim, era um desastre. Mas não era um problema dela, e sim geral, ao contrário de Istypid. Aquilo foi um problema dela.
E de todo mundo que arrastara consigo.
Que coisa mais chata.
Você não precisa vivê-la, sabe.
Claro que precisa.
Todo mundo precisa viver a vida que tem, inclusive as pessoas que tem personalidades múltiplas. Raveneh ficou em pé, começando a andar pra lá e pra cá. Estava começando a ficar com tédio, e embora não quisesse ser torturada (teve um arrepio ao lembrar o estado de Kibii quando ela chegou em Campinas), também não queria ficar ali, isolada e intocável. Estava escuro. Ela mal conseguia enxergar o outro lado do quarto. Talvez animais fossem úteis. Mas será que haveria um nesse quarto? Uma formiga? Uma barata? Uma coruja? Qualquer coisa que falasse com ela...
Contou os pés de um extremo a outro, em meio a escuridão.
Mas esqueceu-se de quantos pés media o quarto, porque quando estava no trigésimo quinto passo, Ophelia entrou. Era a única fagulha de luz, Raveneh correu para ela com tanta empolgação, quase esquecendo que alguém abrir a porta não significava a salvação. Podia significar a tortura, o que foi, de fato, aconteceu.

- Já te falaram que você parece um anjo? - Ophelia disse docemente.
Sim. Raveneh não disse nada em voz alta, tinha medo. A mulher que tinha aterrorizado todos seus amigos estava ali, atrás dela, pronta a lhe tocar, lhe machucar, lhe inflingir as piores dores. Ofegou, tentando procurar por uma maneira de fugir.
- Você realmente parece um anjo... não quero te machucar - Ophelia se aproximou.
Raveneh se sentiu sendo abraçada. Os braços da rainha envolviam seu corpo, o calor da carne era algo inumano.
Nunca havia tremido tanto assim.
Sua pele suava.
- Eu não quero - o sussurro era quase incompreensível - mas eu preciso passar por certas coisas se eu quiser ter o poder...
Raveneh olhou para a frente, sentindo Ophelia desamarrar seu vestido por trás. Estando nua, doeria muito mais.
- Eu quero realmente ser A Rainha - admitiu Ophelia - e para alguém ter o poder absoluto, precisa-se devorar algumas mentes. E torturar alguns anjos... perdoa?
Raveneh sentiu o vestido cair aos pés. Havia agora somente as roupas de baixo, e já morria de vergonha. Suas bochechas se molhavam de lágrimas, a voz interior gritava em seus ouvidos e toda aquela insanidade estava em cada centímetro do ar. As mãos de Ophelia não estavam mais concentradas em deixar cair algum vestido, mas em arranhar.
Gritou primeiro de espanto.
Aquelas unhas lhe arranharam a carne das costas.
Gritou depois de medo e dor e desespero.
Aquelas unhas começaram a ferir, agredir e dilacerar as costas.
E ela nada podia fazer, porque nem Catherine conseguia reagir.

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- Logo.
Umrae não tinha tempo.
Não tinha paciência.
Estava esgotada.
- Essa tropa - apontou para o mapa - Raveneh.
Anuiram.
- Aqui - apontou para outro ponto do mapa - destruição total.
Resgatar Raveneh era uma parte simples da operação.
O negócio era resgatar Raveneh viva, levá-la em segurança até as Campinas enquanto acabava com todos os demônios ao redor de Ophelia. Os dragões mestiços iriam destruir os arredores. Keishara e Gerogie estavam unidas para capturar Raveneh de volta.
- Eu vou - Johnny se negava a ouvir qualquer súplica ao contrário. Mesmo quando Umrae lhe disse que provavelmente ele morreria, ele disse que ia. E daí se não fosse com os dragões?
- Deixa de ser idiota - Rafitcha rosnou - se você morrer, se Raveneh morrer, EU NÃO VOU CUIDAR DE MAYTSURI, ENTENDEU?
- Ela vai ter ou um pai ou uma mãe, não se preocupe - Johnny disse - eu não vou morrer. Não mesmo. E Raveneh também... ela está protegida.
Rafitcha sacudiu a cabeça, raivosa.
- Não, Johnny - disse - Raveneh não tem proteção nenhuma. Catherine é um escape, e é só isso. Mas Catherine vai sofrer... sofrer mais do que Raveneh, e os pesadelos, os pesadelos vão continuar...
- Ela tem razão - disse um prudente Ly - não faça isso, Johnny. Não vá em frente resgatar Raveneh... se ela morrer, você tem que cuidar da sua filha. Sua filha precisa de você.
Johnny não conseguiu sair. Ninguém deixou.
Ele teve que se contentar em abraçar a filha, sussurrando pequenas cantorias.

O cravo e a rosa brigaram
Debaixo de uma sacada


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Lala não queria escutar.
Esses malditos gritos.
Ela não queria. Mas escutava. Mesmo que se enterrasse debaixo da terra, continuaria ouvindo. Aqueles gritos eram de Raveneh. E eram dela mesma, gritos que ecoavam dentro de sua mente. Como fantasmas. Com um arrepio na espinha, percebeu que nunca mais teria paz pois sempre dormiria com aquele desespero angustiado.
Alicia estava arrumando o quarto de Ophelia. Não podia tirar nada da ordem, nem pensar esbarrar no precioso mapa que acumulava vitórias dos demônios. Ela estremecia a cada berro que escutava, mas isso não tirava seu foco do trabalho.
- Alicia - chamou, e Alicia se virou, hesitante.
Lala mandou que Alicia se aproximasse e disse.
- Vá até ao quarto de onde vem esses gritos. Diga que estou chamando por ela. Rápido.
Alicia foi.

Não tinha nada realmente urgente para falar com Ophelia, mas ao menos os gritos iriam parar por algum tempo.

- Majestade - Alicia chamou - Lala lhe chama.
Ophelia parou em um décimo de segundo, e deu um frio sorriso. Se ajoelhou perante uma chorosa Raveneh, ensanguentada, e a beijou na testa.
- Desculpe, meu anjo - Ophelia enxugou as lágrimas copiosas de Raveneh - não quero isso tanto quanto você.
- Quer mais - a voz de Raveneh saiu estranha - sua maldita.
A voz era realmente diferente.
Era sensual e diabólica.

Quando Ophelia saiu do quarto, Raveneh foi deixada sozinha. Com seus machucados e com Catherine. Raveneh brigara com Catherine várias vezes, decidida a sofrer aquilo solitária, sem a sua outra face lhe proteger. Queria sentir o peso do mundo, uma vez na vida que fosse. Quase se arrependeu. Ficou em um canto, tremendo e chorando.
Suas costas ardiam, e sangravam.
Ela sentia que tudo se sujava com seu sangue.
Seu tronco, suas pernas, seus braços, todos foram atingidos. Ophelia só poupara seu rosto, porque tinha pena de estragar um rosto tão angelical.
Quero que você fique reconhecível no final disso. foi o que dissera.
Ela queria gritar mais alguma coisa, mas algo se perdera em seus berros.
Kibii aguentou isso.
Seus olhos azuis fitaram a escuridão.
Demorava, mas aos poucos toda aquela dor virava insensibilidade. Ardia. Incomodava. Mas não doía tanto.
Até respirar se tornava, ao decorrer daquelas malditas horas, um ato mecânico e difícil.

Catherine chorava também.
Mesmo que aquilo doesse, mesmo que ela mesma não quisesse mais sentir tanto os pesares, sua vontade de proteger a outra mulher inocente, a mulher adocicada era maior. Queria assumir, tomar o controle, sofrer por todos os pecados que cometera e assim cuidar de Raveneh. Outra face, outra personalidade, outra pessoa.
Eram duas histórias diferentes. Eram duas mulheres diferentes.
Como isso entraria em consenso?
Até que ponto Raveneh não iria enlouquecer? Estava no seu limite, mas iria aguentar. Era uma questão de honra, pensava, aguentar uma tortura em toda a vida. Jamais dormir, seria a brecha para Catherine controlar sua pessoa. Jamais descansar, jamais perder a consciência de ser quem é...

- Deus meu, Deus meu - Raveneh rezava baixinho, pela primeira vez em anos.
Sempre tivera ódio dos deuses que regiam a vida dos humanos em Istypid, achando-os culpados de todos os males, de toda sua vida. Não pertenço a esse mundo, dizia. Mas estava desesperada, tremia de dor e fraqueza, e essa oração, aprendida na infância, era a única que conhecia.
- Que agem sobre os céus, e sob os infernos - a cada lágrima, era um verso - deitem Tua mão sobre a mim, e que Tua lágrima me console, que Teu sorriso me acalme, Deus meu, Deus meu... - odiava-se a si mesma por ter caído tanto a ponto de ter que orar para não cair em desespero. Era sinal de fraqueza, em seu íntimo.
Mas nem Catherine lhe condenava por recorrer as crenças que nunca acreditara, nunca seguira e sempre odiara.
Mesmo ela entendia como seu coração estava tão dolorido.

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- Ophelia - Lala sussurrou - venha jantar.
- Me chamou só por isso? - Ophelia deu um gentil sorriso.
- Eu não aguentava mais ouvir aquilo, Majestade.
Ophelia se sentou na mesa, mandando chamar os Glombs apavorados servirem. Frango. Arroz. Macarrão. Pouca comida, mas tudo que havia de melhor em tempos de guerra. Lala preferiu ficar somente com um pouco de arroz e tomate. Estava com pouca fome, insegura e nervosa. Sua lealdade era incondicional e irrestrita, mas era tão melhor que Ophelia não fosse tão malvada...
- O que você acha que vão decidir? Pela vida dessa loirinha ou de Umrae? - Lala perguntou, tentando parecer tranquila.
- Nenhum dos dois - Ophelia riu - vão tentar capturar Raveneh de volta. Vão tentar me destruir. Mas... eu não me importo. Já ordenei a uma tropa, e estão vindo os demônios mais poderosos, do submundo e dos céus. Demônios realmente relevantes. Eles estão no caminho. E... acho que chegam logo, amanhã ou depois.
Lala a encarou nos olhos.
Não conhecera essa parte do plano.
Era isso que Ophelia estava fazendo ao treinar todos aqueles poderes?
Estava convocando?
Pensava que estava brincando, somente treinando e enfraquecendo! Mas estava mandando mensagens pelo país todo, convocando tropas! É por isso que ela ficou tão fraca...
- Por que não me contou? - Lala parecia claramente ofendida. Na realidade estava somente chocada.
- Porque esqueci - Ophelia sorriu como uma criança e comia seu pedaço de frango com tanta naturalidade!

Lala voltou a atenção para sua comida.
Se os demônios eram o que ela estava pensando, então eram bastante páreos para aqueles dragões. Quando ela viajara com Ophelia, convocando e noticiando sobre a futura guerra aos demônios, ela fizera uma relação dos mais perigosos monstros que povoavam esse país. Eles dormiam há séculos e séculos, escondidos dos humanos e caçadores, disfarçados nas profundezas dos vulcões ou entre as nuvens. Muitos conseguiam respirar debaixo d'água e viviam no fundo dos oceanos, outros descansavam nas cavernas, devorando intrusos que ocasionalmente entravam dentro do lugar para se proteger de uma chuva. Eram enormes, perigosos, sem um pingo de bondade ou compaixão. Não eram vulgares como os demônios que apavoravam os cidadãos, eram algo pior...

Viriam em uma centena, talvez em duas ou três se mais alguns fossem juntos. Eram quase todos hirikis, a classe mais temida. A classe que até mesmo os caçadores se ajoelhavam diante de tamanha monstruosidade.
Eu não quero ver isso. foi a primeira coisa que pensou.
Se houvesse um jeito de avisar isso a Campinas sem trair Ophelia... foi a segunda coisa que pensou.
E remoeu seus pensamentos em volta disso, querendo muito que tudo aquilo chegasse ao fim. Não queria trair Ophelia, não queria ser desonesta e desleal, e mesmo que estivesse sendo estupidamente errada, não queria dar uma de covarde e fugir. Se veio até aqui, iria até o fim. Mas queria que esse fim chegasse logo, e tudo fosse liquidado de uma vez. Todo aquele palácio, os dois corpos lá nas masmorras remanescentes da família real, os demônios em volta, Raveneh aprisionada, até mesmo esse jantar era demasiado errado, confuso, enganoso.

Se houver um jeito, disse para si mesma em pensamento, de avisar sobre esses malditos para Umrae e suas tropas, eu farei. Nem que eu tenha que trair, que desonra, que maldição.
Teve que pedir licença a Ophelia para se levantar, ir para seu quarto e chorar muito.

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Tiveram que colocar uma mordaça em Giovanna para que seus berros fossem abafados.
As lágrimas de dor faziam com que ela não conseguisse enxergar nada.
- Fique tranquila - Nath lhe disse - eu sei, querida, que está doendo. Mas isso é pra doer menos depois.
Giovanna conseguiu inspirar ar, e expirar.
Respirava fundo, tentando se controlar.
Era uma guerreira, não era? Era parte da tropa de Bel, uma dos dez melhores escolhidos especialmente para lutar contra os malditos demônios de Ophelia. Estava toda queimada, mas ainda era uma guerreira!
Eu não quero isso, eu não queria simplesmente colocá-los em risco...
Mas tinham sido colocados em risco. E ela já se machucara antes do confronto final, que lástima!
eu sei que morrer nessa guerra é morrer por nada, então me desculpem, mas...
Se isso no final valer na derrota definitva de Ophelia, não seria mais morrer por nada.
Vamos morrer para matar Ophelia antes que ela destrua Grillindor.
Sim. Sim. Harumi estava certa.
Iriam morrer. Mas morreriam por Grillindor, pelo reino tão amado, pela pátria adorada. Não era por Campinas. Não era pelas fadas. Era só por Grillindor. Giovanna se queimara, se ferira tanto porque estava lutando para que Ophelia não pudesse invadir o país que amava, e dentro dele, pessoas que amava mais ainda.

Cada uma das queimaduras era um tributo à sua família, rural e modesta.
Eu ainda haverei de vê-la de novo, mãezinha...


Zidaly suspirou.
Ninguém tinha paciência pra se meter em joguinhos, e ela não conseguia manipular uma emoção tão tensa.
Ela estava tão alheia!
Viu Crazy trabalhar arduamente, alimentando os dragões, acompanhado de alguns soldados. Viu Bel indo pra lá e pra cá, anunciando detalhes, resolvendo problemas, anotando coisas em vários papéis e olhando sempre um grande mapa onde tinha várias palavras indicando ATACAR AQUI, e etc. Entendia bem os protocolos de uma operação de ataque, tendo colaborado com uma das grandes líderes na tomada de Istypid. Mas agora não agia como uma líder. Era somente um membro desprezado, odiado.
Quero voltar pra Grillindor.
Mas de que adianta Grillindor ou qualquer outro lugar? Crazy não estaria com ela. Ela o queria, ela o desejava, ela o amava. Se precisasse destrui-lo só para receber um décimo de sua atenção, ela o faria.

Rafitcha encostou a cabeça no colo de Erevan, dormindo profundamente graças ao sonífero.
O dragão pensava. Calado, pensativo, seus olhos negros se delineando sobre o rosto de Rafitcha. Era bonita, sendo humana. Os dragões provavelmente não veriam tanta beleza em Rafitcha, porque lhe faltava o ar selvagem ou perigoso que eles gostavam, mas Erevan apreciava essa falta, considerando que havia bondade e praticidade. Como uma pessoa que trabalhava muito e bem, com um bom coração.
Tão frágil, podendo lhe partir o corpo em meros segundos...

Sentia toda a proteção mágica em volta, resistente aos poderes dos demônios, e mesmo Ophelia não poderia destrui-la. O abrigo fora feito há muitos e muitos anos, e se estendia sob o chão de toda a região das Campinas, principalmente debaixo das florestas. A parte central estava ali, e as secundárias se rastreavam debaixo das florestas, tendo portas, comida em estoque e proteção mágica reforçada, já que não tinha muitos soldados a pagarem com sua vida para protegerem bem o lugar. Mas assim como conseguia enxergar toda os feitiços protetores, Erevan conseguia enxergar as falhas.
Falhas que poderiam transparecer, quando a terra quisesse.
Ficou com medo de que Ophelia descobrisse isso, e agisse em relação a isso. Tinha capturado Raveneh usando seus dons de chamar, como encantos especiais. Raveneh era só uma fada crédula, sendo como isca fácil. E agora...
- Vou te proteger - sussurrou muito baixinho, ninguém o escutou - e ninguém vai te pegar, tá bem?

Keishara estava vigiando os dragões azuis, como um favor especial à Bel.
Ela encarava cada soldado com desdém, como se ninguém ali fosse competente o suficiente para conseguir lidar com criaturas tão poderosas. Crazy estava incomodado, Harumi estava resignada, Luka e Pauline dividiam a fúria. A ausência de Giovanna era amarga.
- Tem certeza que pode fazer isso, Crazy? - perguntava Keishara ao vê-lo dando um cervo para um dos dragões.
- Claro - Crazy respondeu. Tinha certeza que cervos são comida para dragões, mas a presença daquela mulher-dragão lhe fazia estremecer de nervosismo como fosse um novato.
- Hmpf. - Keishara parecia desaprovar o ato.
- Você come cervos, certo? - Pauline indagou, quase explodindo de raiva - então qual é o problema?
- Sua petulante - rosnou a mulher-dragão - cervos não são tão macios. Mas sabe o que é realmente gostoso? - aproximou-se sutilmente da soldada, lhe fazendo se arrepender de tê-la desafiado - tripas humanas.
- Nojenta - Luka murmurou quase rindo.
Harumi a olhou durante uns quatro segundos de uma forma muito profunda, antes de falar:
- Você só está querendo provocar, Keishara. Está com raiva de algo ou de alguém...
A mulher-dragão simplesmente parou, e recuou um pouco. Ficou calada pelo resto do dia, e nada fez dos seus comentários sarcásticos, se limitando a orientar qualquer dúvida que aparecesse.

Gerogie patrulhava os arredores das Campinas, vigiando cada minúscula folha, cada nuvem, cada lufada de ar. Naturalmente estava tudo fora do normal, a começar pelas sinistras sombras que cobriam todo o céu, como monstros que cravam suas garras nas nuvens e não querem mais sair. Já era noite, mas o trabalho jamais poderia parar. Logo terminaria seu turno, e Erevan assumiria o posto.
Mas ele vai estar preocupado com aquela humana...
Ela pousou suavemente sob a relva, escutando os sons habituais. Grilos tímidos. Pássaros temerosos. E algo... como uma energia fluindo por toda a Campinas, e não era Ophelia.
Era algo menor. Ínfimo. Semelhante, assim como uma gota d'água se assemelha ao oceano.
Sacudiu a cabeça.
Não é hora de pensar nisso, Gerogie.
E continuou sua ronda, averiguando que - por enquanto - estavam seguros.

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- Ok, vamos parar de enrolar - sussurrou Catherine encarando as companheiras.
- Primeiro temos que assumir - Miih ponderou com cuidado - que não somos as mesmas de cem, duzentos anos atrás. Não temos o mesmo crédito, nem a mesma honra.
Todas ficaram em silêncio.
- Isso lá é verdade - concordou Loveh - somente as tribos, pequenas aldeias rezam e nos oferecem coisas, tratando a nós como antigas deusas. Para o resto, somos apenas superstição.
- Não desde que Ophelia chegou pra valer - Catherine disse - ela simplesmente derrubou todos os mitos, crendices... enfim, isso não importa. O importante é: temos que acabar com Ophelia. E temos que destrui-la definitivamente, sem deixar rastros, sem possibilitar que ela ressuscite, ou volte depois de anos.
- Destruir seu corpo - Louise murmurou entusiasmada.
- E sua alma - lembrou Alice, que mantinha-se muito quieta. Sunny, entretanto, ficava calada. Pensava em modos mirabolantes de acabar com Ophelia, porém tudo caía na mesma armadilha: sequestro de alguém que Ophelia gostasse. Mas já fizeram isso, e as consequências foram desastrosas a longo prazo.
- Escutem-me - Catherine estava tremendo de medo e excitação - temos que aprisionar Ophelia de uma forma que ela não possa usar seus poderes. Somente assim encontraremos uma vantagem.
Miih hesitou uns poucos segundos antes de dizer francamente:
- Certo, o ponto forte dela é a magia. Tirem a magia e ela fica bem fraca - concluiu sensatamente - mas e quanto a poderes não-mágicos? A destreza, rapidez não são totalmente mágicos. E como limitar esses poderes sem nos prejudicarmos com isso?
Ficaram todas as cinco pensando, ruminando, hesitando, os cérebros trabalhando fervorosamente em estratégias militares, golpes sensacionais, feitiços antigos e assassinatos terríveis. Loveh pensava em convocar um furacão para destruir Ophelia, mas desistiu ao lembrar que certamente Ophelia se moveria como uma folha, se deixando levar em vez de resistir, e assim sobrevivendo. Alice queria realmente convocar um poderoso exército de árvores gigantescas e assassinas, mas como fazer isso se Ophelia cortaria todas elas com golpes singelos? Sunny desejava poder cegar a rainha com tamanha luz, Louise faria arder todo o castelo e Miih convocaria poderes sinistros. Porém todas elas imaginavam a revanche, o contra-ataque de Ophelia. E desanimavam.

Catherine pensou em como tinham feito Ophelia adormecer. Olga que conseguira. Ela havia pedido as estrelas uma dádiva, e as estrelas lhe deram. Ela sacrificara todo seu poder, toda sua magia, todos os seus sonhos para ir em frente com aquilo, somente para parar, por enquanto, e proteger suas companheiras. Agora, decidia Catherine, é hora de se sacrificar.
Mesmo que as águas não concordassem assim como as estrelas nunca concordaram com a decisão de Olga... ela iria em frente. Era a Rainha do Mar, era a soberana. Se fizesse um pedido, teria de ser atendida.

Estavam nos arredores da cidade, entre escombros de uma fábrica e árvores mutiladas por demônios. Um rio passava ali perto, e ele caía suavemente, por anos, lá embaixo, na floresta escondida e de lá escoava para o grande mar, azul e profundo. Aquele rio era, no momento, seu contato com seu habitat natural.
Deixou as companheiras refletindo sobre os planos para trás, seguindo adiante pelo rio até o grande penhasco.
- Não há mais saída - ela disse muito baixinho, tão calmamente, como se contasse desventuras amorosas já superadas de quinze anos atrás - lamento muito que isso tenha acontecido. Sabe, Elyon morreu, e nada posso fazer para resgatar esse erro. Então, ajude-me - nunca fizera um pedido dessa magnitude antes - ajude-me, ajude minhas companheiras, ajude todas essas pessoas inocentes. - sentiu a água do rio correr mais veloz, mais ligeiro, com urgência - vocês tem que me ajudar. Cada gota deve me ajudar.
Quando a água esquentou rapidamente, quase fervendo, ela não tirou os pés da água.

Seus lábios se ergueram em um sorriso de vitória.
O mar lhe atenderia o pedido.
Ou a ordem.

E pela milésima vez, eu erro dizendo que Umrae é elfa. Sinceramente, eu não sei muito bem sobre as diferenças (porque eu sempre imagino os drows - é assim que fala? - como elfos "diferentes"). Perdoe-me por erros, Umrae ^^' me corrigirei nos próximos capítulos.

Os soníferos, Umrae, são aqueles bem fracos, que não fazem mal. Embora eu tenha certeza que estejam infringindo regras ao usar remédios e produtos de forma tão leviana, mas, enfim, ninguém ali estava interessado em pensar nas situações futuras que exigirão e sim no presente. ;)

Pensei em magia divina, algo do tipo também. O que você pensou em planos, Umrae? Eu queria saber! *-* Se puder, mande-me um e-mail pela Gmal (luna.fortunato@gmail.com) falando suas opiniões, se tiver tempo... ficaria grata (:

Espero que gostem desse capítulo. Perdoem-me se demoro muito, é que tenho frequentes problemas com o computador. Ele desligava toda hora, e muitas vezes ficava dias sem ligar. Só agora que pudemos trocar o computador, e agora que pude transferir os dados de um computador pra outro, que consegui ter tudo que precisava... espero que tenha menos desventuras com pc's agora!

Beijos! E uma feliz semana, ;*

Dica: estou assistindo El Cazador de La Bruja. Estou gostando muitissimo até o momento, ainda que fique boiando em algumas partes, rs xD

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Parte 96 - Algo além da música.


Havia se passado dois dias desde que Ophelia tivera o plano nas mãos. Tinha passado o tempo montando esquemas trabalhados e maquetes quase reais, e elaborado mil maneiras de cobrir cada falha que tivesse. Mas Ophelia não ouvia remendos, e queria especificamente aquele plano, de modo que ela tinha que seguir em frente.

Felizmente aquele dia não estava tão quente e infernal.
Lala arrumou as botas pretas, prendeu o cabelo. Podia não ser o pior dos dias, mas roupas pretas continuavam concentrando calor demais. Bufou de raiva várias vezes, encarou o mapa que se estendia a sua frente. - Bla bla bla - pensava - ela só vai se ferrar. Que se ferre.
Tirou as botas, morrendo de calor.
- Já conseguiu? - Ophelia se aproximou, sua pergunta quase como uma ordem.
- Não, Ophelia - Lala sussurrou - como, como você pretende sequestrar Umrae?
- Eu já te expliquei, Lala - Ophelia falava como se fala a uma criança - vou estender o campo por toda a área que influencei com sombras. Reforçarei as sombras.
- Se você pegar outra pessoa em vez de Umrae? - Lala questionou, vendo a falha mais óbvia.
Ophelia suspirou como se fosse uma pessoa muito paciente.
- Não há o menor problema. Só vai ser pior para ela. Eu não vou ser tão clemente, sabe.
Lala só encarou com uma espécie de medo controlado misturado a raiva e piedade.

Coitada da pessoa capturada.
Concentrou-se em sentir. Nunca foi boa nisso. Ophelia era, de longe, a melhor. Mas como evitar? Ophelia estava muito concentrada se preparando mentalmente para ter o poder suficiente. Era óbvio que ela tinha o poder, mas Ophelia dizia que não queria enfraquecer depois do sequestro, de modo que estava se empenhando em se manter lúcida e coerente o tempo todo.
- Vamos lá - Lala fechou os olhos.
Abrangeu seus sentidos para cobrirem a cidade inteira.
Demônios.
Cadáveres.
Fadas.
Fadas?
Sabia que havia fadas, mas não como essas. Sutis, diafánas, esvanescentes. Eram como se sumissem em uma imensa névoa e aparecessem novamente. Como se tentassem se ocultar. Era difícil para ela sentir, mas ela não conseguia acreditar que Ophelia ainda não tivesse notado a presença delas. Estava tão... óbvio.
- Quem são? - perguntou baixinho.
Mas preocupou-se em ir mais além. Poderia ser sentida por qualquer um, mas discrição não era seu forte e Ophelia sabia disso. Terra. Campinas. Destruição. Morte. Rastros. Sangue. Sangue. Amor.
Amor.
Eram nuances fracas, pinceladas. Eram boas.
Não podia diferenciar bem uma parte da outra. Muitas auras confusas, se entrelaçando como almas. Sentiu desespero irradiar junto com um pingo, quase nada de esperança. Sentia coisas demais, em um espaço tão curto de tempo. Uma energia aqui de fada doce, outra energia que não era fada nem humano mortal. Um elfo, contou, outro elfo. Contou três dragões reais, em forma humana.
Umrae era elfo, então tinha que ser um das duas auras que sentia. Kibii deve ser a outra. E se houvesse outros?, pensou. Dane-se. Vou fazer o que Ophelia pediu, e só.
Quando encontrar o elfo de olhos dourados, seduza.
Não sabia dizer se uma aura tinha olhos dourados. Mas lembrava de Umrae, e lembrava de sua sensação determinada e fria, de seus olhos que eram como diamantes dourados, de seu meio-sorriso de vitória que nem havia acontecido. Nem aconteceria. Fase dois, identificação.
- Você investiga primeiro, Lala, verifica toda nuance que tiver. Uma alma é muito mais do que uma impressão.
Com cuidado.
Com zelo.
Quase com carinho.
Torcer os dedos.
Sentir sutis fiapos de almas.
Só mais um pouco.
Conseguira atrair minimamente.
Faltava pouco, pouco.

Mas será que Umrae cairia na isca?

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Trabalha.
Costura.
Passa o fio.
Devagar.
Rápido.
Cura.
Giovanna mordeu o lábio inferior. Nem sentia mais tanta dor, mas só de saber que Nath estava remexendo dentro de sua pele lhe causava arrepios. Decidiu fechar os olhos, não queria ver nem o teto da enfermaria. Suspirou.
- Não se preocupe - Nath sussurrou - não vai doer, vai passar.
Decidiu confiar.
Céus, o que poderia fazer?

Sua vida estava ali, com Nath. Suas queimaduras estavam sendo tratadas. Elas não sumiriam, mas deixariam de arder tanto às vezes. Só podia esperar e aguardar.


Umrae sentira algo muito estranho.
Não era realmente algo perigoso, achou. Era como se algo a atraísse. Como uma isca. Mas estava tão preocupada com outras coisas, como será que Toronto sairia daquele estado? A cirurgia ou seja lá o que foi aquilo parecia ter dado certo... e agora Giovanna estava sendo tratada. Kibii melhorava a olhos vistos. A única que continuava na mesma era Rafitcha, mas logo ela sairia daquele estado. E ela tinha Erevan para ajudá-la, compreendê-la, consolá-la e diverti-la sempre que fosse necessário. Não precisava se preocupar com ela.
Depois dos feridos, ainda havia a questão: como agir?
Estava claro que ela precisava derrotar os demônios. Aliados ou não, Ophelia não era idiota. Sabia reconquistar a lealdade de todos eles com um estalar de dedos, e perderia novamente a lealdade com um piscar de olhos.
- Quantas pessoas? Estou perdendo tempo demais. Enquanto estou aqui - admitiu ela para Bel - Ophelia pensa em como nos derrotar. Tenho certeza que ela já sabe.
Bel havia erguido as sobrancelhas, quase rindo.
- Não seja idiota, Umrae - disse - Ophelia não vai conseguir te pegar. Nem que ela fosse mil vezes o que é.
A confiança na habilidade de Umrae era demais.
Ela mesma sentia que aquilo não ia dar certo.

Um pouco mais de confiança.
Sinceridade seria bom.

Atraída, fascinada. Não era algo muito bom sentir aquilo. Mas e se fosse? Talvez seja a deusa lhe chamando com música, pois era a mesma sensação que tinha quando escutava algo especialmente bom. Sublime, pensou.
- Vamos pensar assim - Bel dizia - conseguimos exterminar definitivamente os demônios na região de Heppaceneoh. Agora temos que avançar sobre a capital das fadas. Podemos avançar pelas extremidades, mas temos que avançar um bocado.
- O que todos esses demônios repelem? O que todos eles odeiam? Além de fogo para quase todos e prata para alguns? - Umrae perguntou. Não era uma pergunta como se não soubesse a resposta, era como se a procurasse dentro de si.
- Magia - Bel respondeu prontamente.
- Aquelas crianças conseguiram se manter longe dos demônios por um bom tempo - Umrae sussurrou - porque não temos uma magia semelhante que impeça com que eles se aproximem dos nossos soldados? Assim não teríamos soldados feridos!
- Mas não sabemos essa magia - Bel observou preocupada.
Umrae deu um sorriso.
- Sabemos muitas coisas. Podemos aprender mais essa. Mas precisamos que as crianças falem. Elas sabem.
De modo que foram chamadas as três crianças.

Lani. Noir. Mia.
Nenhum quis falar.
Mia só dizia: - MAMÁ!
Noir se negava a dizer qualquer coisa.
Lani dizia que os segredos tinham que ser guardados.
E Umrae não tinha paciência para escutar criança. Ela entendia que estivessem traumatizados, que estivessem tristes por terem perdido os pais, mas se eles não falassem como era a proteção mágica que os protegera, como desenvolver uma semelhante para proteger os soldados? Havia aquelas imóveis que protegera as Campinas por tanto tempo, proteções que se erguiam de anos em anos. Mas queriam uma realmente boa que havia evitado até mesmo pessoas como Umrae, proteções que embora caíssem a algum golpe, ainda assim resistiam contra demônios.
- Chame Kitsune - disse Umrae - ela conseguirá convencer.
- Isso é mais difícil do que convencê-los a tomar banho - Bel lembrou, mas Umrae insistiu.
Kitsune estava ajudando Amai a dobrar as roupas gerais quando foi chamada.
Com os cabelos presos em um coque, começou a conversar com as crianças.
- Eles precisam saber - dizia - eles precisam vencer Ophelia.
Lani sussurrava só:
- Minha mãe sabia fazer. Ela só contou pra mim. Mas é segredo. Eu não posso quebrar.
Kitsune respirou fundo.
Foi necessário muito tempo gasto para isso. Kitsune falou sobre a crueldade dos demônios, de como os pais das crianças gostariam de contribuir para a derrota definitiva da pior rainha da história,

Lani respirou fundo.
- Foi minha mãe que soltou - murmurou - era feiticeira. Ela sabia bruxaria. E soltou. E mandou a gente segurar. Ela ficou do lado de fora, e morreu porque não ficou do lado de dentro. Mas não tem como se proteger, por isso ela não ficou do lado de dentro...
- Espere - disse Umrae - uma pessoa não pode se proteger sozinha assim? Só pode se ela proteger outras pessoas?
- Sim - Lani disse - por isso que mamãe morreu. Ela não podia se proteger. Não tem como. Mas ela protegeu a nós. E nós mantivemos a proteção de pé.
- Como? - Umrae raciocinava muito rapidamente.
- Rezando.
Kitsune tentava pensar o que significaria alguém rezar, diante de uma proteção. Provavelmente forte energia decentemente guiada para algum objetivo. Como uma prece. Como uma ordem.
- Interessante - Umrae sussurrou - e como se forma essa proteção?
Mia ergueu os braços como se compreendesse. Deu um sorriso infantil, e murmurou algo como 'ratibum!'. Lani a censurou, e a garotinha recuou, ficando amuada.
- Não é desse jeito - Lani disse - não sei como explicar, mas foi algo desesperador. A casa estava sendo atacada quando fez, e foi como se ela desenhasse um muro. E o muro se fez...
Com um gesto só.
Umrae entendeu. Mas nenhum deles era feiticeiro. E os poderes de semielfos eram limitados demais naquela região com tantas fadas que dominavam a região. Mesmo com a destruição da magia protetora, Umrae sentia que os truques de Faerun não dariam certo ali. Mas já feiticeiros que tinham uma magia mesclada com a de fadas, magia esta que era ligeiramente diferente...
Doceh era uma feiticeira.
Kitsune também tinha meio sangue de feiticeiros, apesar de serem humanos sem magia.
Mas quem mais?

As crianças foram liberadas por fim, e Bel passou a estratégia finalizada aos seus soldados. Os dragões mestiços ficariam a postos dali a uma semana, cada um em um ponto estratégico. Envenenariam toda a capital das fadas, deixando-a inabitável por alguns dias. Extinguiriam todo tipo de vida. Era dolorido pensar nos supostos sobreviventes, mas todos sabiam que ou era acabar com tudo de uma vez ou era se acabar aos poucos. Todos tinham uma semana para estarem prontos.
Felizmente Toronto se recuperava bem o suficiente. Giovanna nem tanto, mas ela já conseguia ficar sentada. De qualquer modo, concluiu Bel, conseguiriam levar a cabo a missão sem dois soldados. Teriam que conseguir. Todos trabalhavam mais do que o normal, e ninguém tinha muito bom humor a não ser as pessoas que tinham alegria crônica como Ratta. O pessoal de Campinas se sentia preso, asfixiado. Não viam a luz do sol por dias seguidos, e para tudo que fizessem lá fora, tinha que ir alguém para cuidar.

Compreendiam os cuidados, os anseios. Mas mesmo Rafitcha que se recuperava do seu pé recomeçava a ficar estressada.
- Eu não entendo - disse ela uma vez para Erevan - porque simplesmente não podemos ser livres? Não há mais demônios em volta, certo?
- Há sobreviventes - Erevan disse com cuidado - e eles ameaçam mais, porque atacam de surpresa.
Para Rafitcha, aquele período sem fazer nada era como um descanso. Um bom descanso.
E vinha sempre a culpa pelo tédio.
- Eu não deveria estar aqui - repetia - eu deveria fazer algo.
- Já fez - Erevan dizia a mesma resposta - não se culpe. Não pode fazer nada agora.
Mas isso não adiantava nada quando Rafitcha via todos trabalharem tanto, tanto que mal podiam parar para conversar, e ela mesma se sentia cheia de remorsos por ter sido idiota e ter ido lavar as roupas sem alguém por perto, e assim ser atacada, ferida e impossibilitada de andar e trabalhar como antes. Daí a pouco, ela começava a achar que era total culpa sua ter sido atacada, porque se não fosse tão teimosa e quisesse tanto ir sozinha...

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Durante aqueles dois dias que Lala se preocupara tão somente com a execução do plano de Ophelia, Catherine procurava pelas companheiras. Achou-as escondidas na capital, com a energia tão sutil que era dificil notá-las se não fosse a pessoa que era. Apareceu suavemente por trás delas, como quem quisesse pregar uma peça.
- Até parece que consegue - Miih sussurrou - não há surpresas entre nós.
- Sem graça - Catherine deu um sorriso sutil, e suspirou.
Estavam ali, as Musas. Faltava Elyon.
Mas Elyon não poderia voltar. Em hipótese alguma.
Não se pode resgatar os mortos.

Sunny ergueu os olhos, Catherine parecia severamente machucada. Não por fora, não havia uma marca em seu rosto, braços, ombros. Mas dentro dela, Sunny conseguia ver todas as feridas que mal começaram a cicatrizar. Todas causadas por Ophelia. Todas são motivo de vingança. Olga. Elyon. E daqui a pouco, sentia, seriam elas. E quando elas se fossem, quem as vingaria?
- Como está Ophelia? - Miih perguntou.
- Louca - Catherine respondeu - ela... está louca e não há outra palavra para isso.
Miih suspirou. Era como um grande pesar. Ainda sentia, dentro de si, toda aquela maldita apreensão de séculos atrás, quando vencera a batalha contra Ophelia, sacrificando sua amada amiga Olga. E Elyon... não conseguia assimilar sua falta. Tinha que absorver aquilo como esponja, mas quem disse que conseguia?

A fraqueza era o veneno e antídoto da alma. Era tudo que podia ser feito e compreendido.

- Ela tem armas - Catherine contou - ela simplesmente fez com que Elyon... apagasse.
Sua voz trêmula já era um detalhe que dizia muito sobre a morte de Elyon. Era compreensível seu medo, seu pavor quando se deparou com aquela estranheza em forma de garotinha, com todo aquele poder monstruoso.
- Vai dar tudo certo - Sunny sussurrou, tentando consolar - chore. Pode chorar. Já fez isso antes? Se não fez, faça. Chore.
E as lágrimas simplesmente saíram.

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Ophelia estava fisicamente em Campinas. Mentalmente também. Sua mente estava lúcida como nunca tinha sido, via tudo com sublime clareza e ela entendia todos os propósitos, falhas e acertos. Mais um pouco, era capaz de prever o incrível futuro da grande Rainha Ophelia, a mais Monstruosa, Poderosa e Devoradora de Almas. Só indo mais um pouco, e seria a rainha. A Rainha.
- Vinde a mim - disse e riu.
Sua risada era estranhamente bela.
A sombra era inquisitiva. E era quase sua amiga. Tudo era sob sua sombra, tudo era seu domínio. Se alguém fosse lavar roupas, estava sob suas mãos. E assim era definitivamente mais fácil. Eram como se ela conseguisse simplesmente sentir o movimento de cada pessoa, de cada ser que se movesse debaixo daquele véu sinistro que cobria o sol como uma cortina muito clara, mas mesmo assim existente.
- Minha doçura - e Ophelia não estava delirando - como está?
Ela não estava se referindo a ninguém no mesmo espaço que ela. Nem mesmo as sombras. Ela simplesmente estava falando consigo mesma, como se fossem duas pessoas distintas.
Percebeu Lala.
Boa garota. Mas não está dando certo. Está fraco. Está confuso.
Moveu as mãos em direção ao céu, fechou os olhos e só pensou.
Era só pensar.
Incrivelmente fácil.
Assim, querida.
A energia chamadora, por assim dizer, era muito maior, incrível, sensual. Era quase como um chamado, uma canção que vem do inferno e ainda assim irresistível. Era uma magia meio inventada, e tinha falhas. Mas Ophelia não se incomodava, era criança que aprendia a brincar. Ela ria, ela sorria, ela falava, e ela manipulava as sombras, mágicas e fantasmas.
Sua risada se arrastou por léguas e alcançou o abrigo.

Isso não era pra acontecer. Estava fora da lei natural das coisas.
Mas essas coisas acontecem.

Raveneh tinha acabado de pôr May para dormir. Essa garotinha, essa minúscula garotinha, que nada dizia, só berrava lhe exauria completamente. Ela não tinha a menor idéia de como passara as últimas semanas cuidando de absolutamente tudo. Quando lembrava de como parira May, em meio ao inferno, ela ainda se admirava com a própria força. Como sobrevivera a uma execução? Como tivera ódio suficiente para assassinar seu irmão? Como tivera coragem de se jogar em seu passado e destrui-lo? A resposta era uma só, e se dizia com as letras C-A-T-H-E-R-I-N-E. Catherine. A outra face que aguentaria tudo e mais um pouco.
Catherine. O nome soava tão docemente aos seus ouvidos.
Era tal como a música, música?, que ecoava pelas Campinas.
- Há algo lá fora - Rafitcha disse, se levantando. Seu pé não doía tanto, mas ainda estava engessado. Ela foi a primeira a perceber. Umrae foi a segunda: erguera os olhos dourados para o alto, sentiu mais intensamente toda aquela droga de chamado, e percebeu.
Essa maldita pensa que esses truques funcionam comigo?
Podiam não funcionar com ela.
Mas funcionaram com os outros.
Era como se alguém lhe oferecesse chocolate. Muito chocolate. E jóias. Mais jóias. E tudo que você sonhasse, de graça, para sempre com todo o amor. Era como uma canção que você gostasse muito, muito mesmo e só de ouvi-la, você rodopia e canta. Sem pensar na realidade.
Assim era o truque de Ophelia.
Não era tão barato, mas é que tinha um defeito: só funcionava em fadas. Elfos sentiam a mesma ternura, mas não sentiam o chamado. Humanos sentiam o chamado, mas não sentiam a ternura. Dragões não sentiam nem o chamado nem a ternura. Mas fadas... elas simplesmente sentem tudo, experimentam tudo e se deslumbram com tudo.
- Droga - Umrae cochichou.
Raveneh.
Quem era mais fada deslumbrada do que ela?

Além de ser uma ótima peça de chantagem, afinal tinha um marido, uma filha e muitos anos de pesadelo que a fizeram ser vista como uma criança que precisa de cuidados, uma garotinha que não podia se defender. Quem não se sacrificaria por Raveneh?

Estava quente.
Era sol
E mesmo que as sombras cobrissem Campinas, todos ainda sentiam calor demais para pensar em algo que não seja um bom refresco. Raveneh subiu a escada que dava para as Campinas, sem escutar mais nada. Estupefata. Deslumbrada. Maravilhada. Completamente chocada com tanta beleza.
- Raveneh - chamou Johnny - querida.
Mas ela já estava, de pé, nas Campinas. Livre. Procurando pela música.
Umrae foi atrás, em dez segundos, estavam todos se dirigindo. Menos Rafitcha que não podia subir a escada, e Erevan que iria fazer companhia a Rafitcha. Obviamente nenhum dos enfermos, muito menos Nath ou Thá se dirigiram lá para fora. Estavam atraídos e curiosos, mas o dever era mais importante.
- Raveneh! - Umrae gritou - volte!
Johnny chamou Raveneh também. Ela não ouvia os gritos dos amigos. Ela só ouvia a música.
Sentiu alguém pegar em seu braço, tentando contê-la. Ela mal sentia.
Sentiu alguém pegar em sua mão. Ela mal sentia.
Só ria.
- Não adianta - Ophelia havia manipulado toda a mágica para ela se guiar sozinha. Não precisava mais mantê-la com palavras. Ela já sabia quem era a sua isca. Não pegara Umrae. Mas pegara alguém que podia funcionar como objeto. Uma jovenzinha loira. Magra. Com seios cheios de leite - mãe. E parecia ser tão doce, tão terna, a típica camponesa que vira princesa nos contos de fada.
Parecia ser a pessoa ideal.
- Como não adianta? - Umrae indagou.
Ophelia estava realmente bem-vestida aquele dia. Ela até penteara os cabelos!
- Não adianta - Ophelia sorriu infantilmente - ela está em outro estado de consciência. Paz. Ela sempre quis isso, não é?
- Sua maldita - Johnny ganiu - o que você fez com ela?
- Nada de mais - Ophelia se aproximou de Raveneh, que estava de pé, fixando o vazio, imóvel - mas vocês não podem acordá-la. Não podem movê-la. Não podem nem mesmo tocá-la.
Johnny estava bem perto de Raveneh, era só erguer o braço e seus dedos tocariam a adorada, amada, suave pele de Raveneh. Foi o que fez. Foi o que Bia, uma das pessoas que tentara lhe puxar de volta a realidade, fez. Foi o que Umrae fez. Todos bem perto de Ophelia, todos querendo sentir a carne de Raveneh.
Mal encostavam a mão, era como poeira.
Era como nada.
Era como se Raveneh fosse fantasma.
A primeira pessoa que recuperou a palavra foi Amai. Ela ainda estava bem perto do abrigo, preferindo se manter reclusa. Tinha medo demais de se aproximar de Ophelia, desde o dia que visitara o palácio. Ela não queria que mais ninguém fosse prisioneiro por ela.
- Você a despedaçou - ela disse gentilmente - você simplesmente a fez virar poeira? Ela poderá... poderá a ser o que era antes?
- Ela tem um filho que ainda bebe dela, não é? - Ophelia sorriu, passando os braços em volta de Raveneh - não se preocupe. Ou é ela. Ou é a doce lealdade de Campinas. A mim, claro.
Silêncio.
Ou Raveneh morria.
Ou Campinas inteira se sujeitava a Ophelia.
Não era realmente uma escolha agradável.

Umrae precisou de dois segundos.
Um segundo para processar as opções possíveis.
E outro segundo para decidir que aquilo era, na pior das hipóteses, incabível.

- Quais são os seus termos - perguntou - se formos preferir Raveneh viva?
Ophelia foi muito didática, prática e irredutível.
- Você morre. Morarão aqui, em cima. Jamais sairão daqui. Serão, obviamente, meus servos. Viverão em paz, mas caso eu exija a vida ou a liberdade de algum de vocês, isso deve ser imediatamente dado, sem questionamento.
Umrae via uma brecha, mas logo Ophelia deu um sorrisinho de lado e concluiu:
- E todos aqueles dragões e todo o pessoalzinho que veio te ajudar passa a morar no palácio, trabalhando diretamente para as novas conquistas. São armas interessantes. Todos vocês são armas interessantes.
Amai moveu a cabeça para o lado, pensando naqueles malditos prós e contras. Era claro, claro como água, que Raveneh morrer seria a melhor escolha. Ela preferia morrer a ver pessoas que amava se sujeitarem a aquela maldita de cabelos castanhos e olhos loucos. Mas Raveneh morrer implicaria em outros feitiços, outras maldições e Ophelia pegaria um a um. Matando devagar. E simplesmente infernizando aquela vida que já estava bastante ruim.
As duas opções eram igualmente ruins.
Umrae pareceu pensar a mesma coisa.

O que faria?
O que poderia fazer?
- Basicamente, você é uma filhadaputa - Johnny concluiu.
Ophelia deu de ombros.
- Não literalmente - respondeu tranquilamente - mas já que você pensa assim...
- Você tem uma terceira opção? - Bia perguntou.
- Não.
Umrae mordeu o lábio inferior. Precisava de tempo. Raveneh tinha que aguentar.
Pensou no choro de May. Agora que aquela guria ia ficar o inferno, berrando e chorando.
- Você tem um prazo?
Ophelia sorriu com delicadeza.
- Dou uma semana. Tudo bem?
Só o fato de ela estar tão de bom humor a ponto de estabelecer um prazo razoável e perguntar se estava tudo bem, ela que tinha torturado uma elfa de forma insana, ela que executava todos os demônios contrários a sua ordem, ela que acabara com toda aquela região estava perguntando tudo bem?
- Ok - Bia concordou.
Ninguém discordou.
E doeu muito ver Raveneh sendo levada embora.
O que aconteceria com ela?
E a pergunta mais importante...
... o que Ophelia faria com ela?



Ah! Eu fiz um post detalhado sobre Campinas já faz algum tempo aqui no meu blog mais 'pessoal', que estou tentando manter e etc. /propaganda, rs.

Estou morrendo de saudades de vcs, sabia? *-* Engraçado que não tive pena alguma de Toronto, afinal todo aquele procedimento é para o bem dele. E realmente, Umrae, não tem como Ophelia te pegar como provei nesse capítulo. Os feitiços são demasiados diferentes, são espécies diferentes e Ophelia nada sabe sobre elfos ou como usar uma magia direcionada para eles. ;)

Beijos! ;*

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Parte 95 - Quando termina uma fase.

Raveneh acordou ensopada de suor, era mais um sonho.
Estava insegura, e tremia.
Olhou para o teto, trêmula, tentando juntar os fragmentos do sonho: sangue, sussurros, de volta a mesma história: podia fazer algo, era só simplesmente se deixar entregar para alguém sem corpo, sem alguma matéria. Isso está só na minha mente, pensava, é coisa da minha cabeça. Mas mesmo isso não lhe tranquilizava.
Levantou-se, quem sabe um copo d'água lhe faria se acalmar.
O corredor era meio comprido, e escuro, mas isso não lhe dava medo: Umrae dormia por ali, Kibii também. Bia e Fer idem, então se desse um grito, estaria todo mundo em pé, espada na mão e sentidos alertas. Não precisava ter medo.
Quando chegou à cozinha, percebeu que havia gente acordada.
Era uma mulher, talvez um pouco mais velha do que ela, morena que estava sentada no sofá da sala. Não fazia nada de perigoso, só olhava fixamente para frente, talvez pensando em algo.
- Oi? - disse, timidamente.
- Olá - a mulher sorriu - eu sou Zidaly.
- Ah, - Raveneh lembrou - já ouvi falar de você.
- Hm - Zidaly tentou parecer tímida - desculpe invadir o abrigo, é que...
- Espere - Raveneh franziu as sobrancelhas - como entrou aqui?
Zidaly só disse a verdade: que já estava ali, e quando todos se retiraram, ela estava no banheiro e não ouviu a chamada geral. Raveneh sentia que tinha alguma inverdade ali, mas não conseguiu identificar, de modo que aceitou a verdade (a mentira estava no fato de que era perfeitamente possível Zidaly escutar o chamado para todos dormirem de onde quer que estivesse no abrigo).
- Você veio de Grillindor?
- Sim - Zidaly viu naqueles olhos azuis algo familiar. Mal reconhecia, mas decerto não era das Campinas - e você?
- Istypid - Raveneh pegou a jarra e encheu um copo - Terra Seca. Conhece?
- Sim - Zidaly sussurrou.
E não se falaram mais.

Raveneh bebeu sua água, deixando Zidaly quieta, sem dizer palavra. Decerto já a vira antes, e não foi nas Campinas, assim como Crazy. Zidaly conhecia Istypid... decerto fora lá, na ocupação do reino pela Grillindor. Mas não conseguia se lembrar direito, porque todas suas memórias daqueles dias eram borradas. Ela não conseguia lembrar de muita coisa, exceto aquelas que vivera bem consciente, como Raveneh.
Voltou para a cama e não conseguiu dormir mais.
Ao seu lado, Johnny dormia, seus cabelos negros que se esvoaçavam para todos os cantos. Ele se aninhou junto ao corpo dela, e abraçou-a, o que a fez ficar mais tranquila. Fechou os olhos, tentando se entregar aos sonhos, sem sucesso.
Respirou fundo, e esperou que May acordasse e chorasse, quando começaria realmente o dia dela.

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Catherine estava, de fato, no mar.
A água era fria e fresca, azul e verde, sempre deliciosa e calma.
Quase um repouso. Aliás, quase não. Era um repouso.
Estava sob as trevas de Ophelia, podia até mesmo cheirar toda a maldade dela, e bastava estender o dedo e tocar a fúria no ar. Mas isso não lhe causava medo, pois estava em seus domínios: se estivesse em seu elemento, nada lhe faria mal. Nem mesmo uma louca ensandecida que se coroou rainha das fadas.

Mergulhou o rosto dentro do oceano, deixando os olhos abertos para fitarem o invisível sal com os peixes, algas, mamíferos que deslizavam, alheios aos problemas terrestres. Deslizou também mais para o fundo do oceano, tão fundo que ninguém sobreviveria ali tamanha era a pressão. Escorregou para o negrume, onde todas as trevas do mar se escondem. E respirou profundamente, esperando só algo se mover sob o manto que se estendia, manto de crueldade. Só precisava sentir entre seus dedos a sutil presença das companheiras, como um brilho a aparecer diante de seus olhos. Entre as trevas e monstros, ela esperava, ansiosa. Não via nada, só escuridão. Não sentia nada, só a indiferença. Bloqueou a si mesma de todas as outras sensações como fome, raiva ou medo: o único sentimento permitido seria o alívio, e ele teria que vir na hora adequada.

Passou algum tempo.
E sentiu.
Sentiu seus dedos se contorcerem sob a perturbação do manto.
Sentiu seus olhos se abrirem e enxergarem o rastro da monte diante das companheiras.
Sentiu seus cabelos se agitarem, prenunciando algo decididamente trágico.
Porém percebeu, quando olhou para a superfície do mar, que as companheiras haviam decidido recuar. Não ir atrás de Ophelia, de imediato, e sim ir atrás dela. Teria que aparecer logo, acolhê-las com conforto da cansativa viagem e, juntas, decidirem o que teriam que fazer. Se uniriam às Campinas. Se atacariam logo. O que fariam?

Moveu seus pés num impulso, sem pensar muito. Toda a energia que tinha dentro de si saía suavemente, se dispersando no oceano, e as partículas que se esvaiam de seu corpo se uniam assim que alcançassem a superfície. Tudo para ir mais rápido, inclusive se desfazer em milhões e milhões de moléculas e uni-las para que se inteirasse.

Quando sentiu a cabeça se formar no ar, foi como se tivesse levado um choque. Como se a luz do sol lhe ferisse, como se o simples oxigênio lhe perfurasse a face, como se só sentir a suave brisa fosse o suficiente para ela explodir. Nunca sentira o rosto ficar tão gelado. Catherine, Catherine - era difícil lembrar o próprio nome - nadou pelo oceano, procurando terra. Achou-a rapidamente, principalmente quando forçou a si mesma aumentar o tamanho do corpo. Aos olhos de alguns tripulantes em um navio, ela seria como uma gigantesca sombra a se mover sob a água. Maior do que qualquer baleia ou tubarão, mais letal do que qualquer polvo gigante, mais deslumbrante do que qualquer dragão marítimo. Era só uma das Musas, considerada Deusa pelas tribos que não sabiam muito sobre os poderes feéricos.

A terra estava úmida e perigosa. Toda aquela floresta sob o reino das fadas era perigosa, quase fatal e encantadora. Inspirava mistérios, e muitos poucos se atreviam a entrar dentro dela. Catherine sabia que aquela floresta fora o reino das fadas, antes de elas se erguerem aos céus, como se fossem divindades. E naquela floresta ficaram seres que não concordaram com o novo reino das fadas, que discordavam do novo modo de viver, e lá ficaram os seres que se tornaram mais bestiais, perigosos e poderosos com o passar do ano. Ou não. Catherine entrara poucas vezes demais em sua quase eternidade para saber disso.

Ergueu os olhos, tentando arrumar uma maneira de enviar uma mensagem às companheiras sem agitar muito a consciência de Ophelia.
Não precisava de tanta coisa assim.

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Arfar.
Sussurrar.
Era como um pouco de poder se derramando entre suas mãos, quase como água. As sombras se mexiam revoltadas, porém seus gritos já não acordavam mais Ophelia que se sentia cada vez mais a dona, a senhora, a rainha das trevas. Faltava-lhe os outros poderes, e desejava todos eles, mas por ora eles lhe iriam bastar. Tremia, tremia de desejo e medo, mas há muito ela era rainha e rainhas não poderiam chorar ou se lamentar.

Levantou-se, gritou. Estava meio tonta, como se estivesse mergulhando em trevas geladas.
- Ophelia? - era a voz de Lala, distante demais.
A rainha fechou os olhos, tentando um pouco de razão.
Razão que não iria vir, não para quem a recusava com todas as forças.
- Lala, preciso de um bom banho - Ophelia disse tentando firmar a voz insegura - arrume isso para mim.
Lala fez isso rapidamente, com apenas gestos e palavras, chamando os Glombs que arrumaram o banheiro, encheram a banheira com água cristalina e ervas açucaradas, e ajeitaram as toalhas, sabonetes e óleos. Quando se afastaram, Lala ajudou Ophelia a tirar a roupa e mergulhar na banheira. O estado da rainha era como uma sonolência absurda, e ela mesma se sentia como se não conseguisse mais distinguir a realidade e ficção.

Lala viu a rainha, a sua rainha mergulhar na banheira, experimentando toda aquela água em volta do seu corpo nu e respirar profundamente. Pensou, com certa tristeza, que se apegara a essa mulher em corpo de quase-menina, que passara a amar suas crises de egocentrismo, suas declarações de doçura, sua insanidade e toda aquela atmosfera irreal que inspirava a relação entre as duas. Era como uma ridícula síndrome de Estocolmo, e Lala não conseguia entender todos esses sentimentos. A água estava quente, e isso era bom - Ophelia não gostava de tomar banho em águas frias, e desde que começara a viver no castelo, tinha verdadeiros chiliques quando algo saía do seu gosto pessoal.

Ophelia nadou um pouco na extensa banheira que era quase como uma piscina, sentindo todo aquele entorpecimento se esvair de seu corpo como cansaço. Também não sentia mais tanto frio, e ficava feliz com isso. Seus olhos se abriram debaixo d'água e não arderam, sentiu seu coração bater e contou cada batida. Sentia cada fibra de poder, cada molécula de magia que se movia em suas veias, artérias e ossos. Era como se fosse explodir, e tudo passou a doer intensamente.
Passou as mãos pelos cabelos, sentindo-se preocupada e dolorida, mas ainda assim melhor. Qualquer coisa era melhor do aquele estado de semi-sonolência, prestes a cair devorada pelas sombras. Tinha de ser a rainha, jamais a escrava. Sentiu seus pés roçarem nas trevas que governava agora, e percebeu - muito lentamente - que a partir do momento que você governa algo, esse algo se torna físico para você. Assim como Elyon podia mexer e torturar as sombras, Ophelia poderia ser tocada, abraçada e sufocada por elas, como se elas fossem feitas de matéria.

Contorceu as mãos, pressionada.

A sua ânsia pelo poder nunca passava, sua fome nunca parava, vício que perdura, que insiste, que ameaça. Não sentia culpa, nem remorso, só o mais profundo prazer em ter tanto, tanto poder, nem lamentava as vidas que extinguira com suas alianças, nem pensava sobre o que estava fazendo, destruindo todo um país. Queria mais, e a oposição lhe fazia imaginar coisas...

Se pegasse Umrae, só ela... já faria metade do trabalho. Umrae estava dando conta de tudo, e mais do que isso: as pessoas se sentiam seguras com ela por perto. Era como se ela fosse a figura séria que realizava o trabalho corretamente e as pessoas dependiam de Umrae para que se sentissem confortáveis e esperançosos. Lembrou dos olhos dourados e firmes. Não iriam ceder facilmente aos seus encantos, não iriam se submeter a sua autoridade. Ela poderia ser mais irritante do que Kibii, inclusive... lembrou com ódio da indiferença de Kibii ao seu tratamento. Isso não vai acontecer, concluiu e foi montando a artimanha. Com cuidado, teceu seus planos debaixo d'água.

Quando já estava praticamente com tudo na cabeça, narrou-os a Lala que ouvia atentamente, sem deixar escapar um detalhe. A ruiva organizou as etapas mentalmente, e calculou muitos possíveis erros. Mas não iria contrariar, nem discordar. Só iria apoiar Ophelia no que fizesse, e deixaria rolar para ver o que acontecia.

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O dia começou um pouco abafado, mas tudo bem.
Todos seguiram a rotina habitual, sem muitas discrepâncias. Raveneh dava de mamar a sua filha e cuidava da comida, Thá ajudava Nath a cuidar dos feridos na enfermaria, Rafitcha preocupava-se em descansar o máximo possível (que significava, geralmente, em mandar Erevan ajudar a limpar o banheiro ou algo do gênero) e Umrae traçando mapas bem detalhados com estratégias elaboradas. Ela não tinha muita paciência, e se fosse interrogada sobre qualquer assunto banal, sua resposta era invarialmente um resmungo inaudível. Vivia numa saleta, perto da de estar, rodeada de mapas, estratégias e livros sobre magias que poderiam ser usadas. Às vezes ficava em seu laboratório, com todos aqueles venenos e se distraía ao polir armas e elaborar potentes soníferos.

Erevan estava lavando toda a louça do café da manhã quando Nath apareceu na cozinha, preocupada, pedindo por um pão - tinha acordado quatro da manhã para cuidar de uma Giovanna lamentosa, e a febre só aumentara nas horas seguintes. Recostou-se na parede, comendo o pão, e começou a conversar com Erevan sobre coisas banais.
- Como é Grillindor? - perguntou.
E Erevan respondia com delicadeza.
- Você acha que a guerra vai demorar muito? - Nath perguntou quando o pão estava no fim. Erevan teve que parar um pouco para responder - suas lembranças foram parar em Heppaceneoh em chamas.
- Não - respondeu - Ophelia é impulsiva, ao que tudo indica. E Umrae é eficiente.
- Queria ter as suas esperanças - Nath conclui comendo o último pedaço - essas guerras deixam marcas demais. Quanto menos tempo ela durar, melhor...
E saiu da cozinha.

Das dez da manhã até as três da tarde, Thá se responsabilizou pelos dois feridos gravemente, pela Kibii que ainda estava em observação juntamente com Rafitcha. Quase enlouquecia, correndo pra lá e pra cá, tendo que lembrar de todos os remédios: o unguento que tinha que passar de hora em hora na perna de Toronto, o gel natureba que passava nas queimaduras de Giovanna a cada três horas, além de verificar a situação de Kibii e Rafitcha. Ao menos Rafitcha tinha Erevan a observá-la e Kibii estava quase boa, o que ajudava muito. Nath estava no bosque, acompanhada de Bia, coletando ervas necessárias para a tal Técnica de Deneve. Thá não sabia nada sobre essa técnica, porém Nath lhe deixara um livro com vários procedimentos técnicos de um conhecimento muito avançado e ela tentava lê-lo enquanto tinha alguma folga de dez ou vinte minutos. Era algo realmente bem avançado e complicado que exigia prática e conhecimento sobre fases lunares, herbologia e alguns tipos de magia. Perguntou-se o quão Nath era versada naquele assunto.

Quando a "chefe" chegou, Thá percebeu que Nath fizera todo o serviço sozinha. Ouvira Nath falando de que tinha que ter, ao menos, duas pessoas a lhe ajudarem, mas aparentemente isso não aconteceu.
- Como devo ajudar? - perguntou Thá, e a resposta foi simples:
- Não tem ninguém aqui que possa me ajudar tanto como você, então faremos só nós duas. Saiba que vou exigir bastante e - Nath deu um sorriso seco - coma o que puder agora.
Thá saiu da enfermaria para comer um pouco de macarrão enquanto Nath organizava as ervas - canela, jasmim, artemísia, alecrim, hortelã, alfazema, arruma e uma flor muito esquisita, cujas pétalas tinham formato de coração e eram gordas e roxas, estufadas de ar. Elas as posicionou corretamente, lembrando dos ensinamentos básicos. Com as folhas, era infusões e com as sementes, era cocção. Giovanna a assistia com curiosidade, Toronto dormia - Thá lhe dera um remédio para adormecer profundamente. Melhor assim.
- Para que tudo isso? - Giovanna perguntou timidamente.
Nath preparava o chá de jasmim com folhas de alecrim. Não hesitou um segundo antes de responder:
- Para ajudar o seu colega.
E voltou a trabalhar.

Logo Thá voltou, e cinco horas da tarde, elas já haviam começado o trabalho. A enfermaria foi trancada, ninguém poderia entrar ou sair. Os remédios todos que Kibii e Rafitcha tinham que tomar foram deixados a encargo de Kitsune que era muito rigorosa com isso, e zelava pela boa saúde de todos.

O céu anoitecia vagarosamente, deixando a enfermaria na penumbra. Nath acordou Toronto delicadamente, e ele abriu os olhos, tonto, sentindo a maior dor que já sentira.
- Isso vai acabar - Nath sorriu entregando a infusão de canela - beba isso e isso tudo vai acabar.
Toronto bebeu o chá estranhamente adocicado, e o gosto em nada lembrava canela. Era como uma espécie de chocolate, algo que se derramava em sua língua e lhe deixava absurdamente tonto. Resolveu perguntar o que estavam fazendo, e Thá respondeu com toda a gentileza que lhe era possível imersa nas sombras:
- Técnica de Deneve, lembra? É para lhe ajudar - e Toronto concordou com um murmúrio, entregando a xícara vazia.

Sentiu torpemente a perna ser massageada com algum gel frio, sentiu que era chamado a beber mais coisas, coisas amargas e confusas que lhe roubavam os sentidos e embaralhavam todos os pensamentos e sonhos. Viu uma vela se acender em algum lugar, enxergou os olhos verdes de Nath a lhe fitarem com doçura e firmeza, experimentou a sensação de ter os dedos de Thá lhe acariciando os joelhos. Ouvia murmúrios frequentes que não eram nada parecidos com "passe isso aqui", e sim com mantras, quase como orações. E deixavam a cera da vela pingar em seus joelhos, e isso queimava tanto...

- Vai começar a pior parte agora - Nath disse para Thá, e a orientou a amarrar Toronto com cordas e colocar uma mordaça, o que o fez se sentir acuado e entrar em desespero. Ele debateu-se com todas as forças, derramando todo o chá de camomila que Nath preparara especialmente para acalmar Toronto. Um segundo. Dois.
O mundo se dissolveu diante dos olhos de Toronto. Eram tantos chás, tantos sabores, tantas bebidas que se derramavam em sua boca que mal conseguia distinguir um do outro, e sentiu-se entregar.
Nenhuma das pessoas presentes ali soube quanto tempo se passou.

Houve massagens, houve orações, houve cirurgias. Nath manipulou a perna de Toronto como quem brinca com um boneco, passando a agulha, arrumando o osso e selando as veias. Ajeitava a pele com poções mágicas, e sua própria pele suava de tanto medo e concentração - era como se estivesse em transe. Thá tentava diminuir a dor da cirurgia, anestesiando os sentidos, injetando compostos que faziam com que Toronto amolecesse e não resistisse tanto. Porém seus músculos endureciam o tempo todo, e seus rangidos e gemidos ecoavam por toda a enfermaria, fazendo com que Giovanna não conseguisse dormir, tendo que tampar os ouvidos, chorando, apavorada. Todo o abrigo ouvia os berros de Toronto durante a delicada cirurgia, todos se perguntavam o que acontecia.
- Não era melhor... - Raveneh começou, mas Umrae discordou com prudência:
- Nath sabe o que faz. Não se preocupe.
Toronto respirava sufocado pelo cheiro misturado de tantas ervas e misturas, e sentia dor, dor, dor, mas ao mesmo tempo uma vontade absurda de afundar de uma vez em alguma coisa. Tentou se debater, mas estava cansado demais e os braços de Thá lhe acolheram tão rapidamente que se sentia envergonhado demais em desafiar todo o cuidado que a auxiliar lhe dispensava. Nath mal o olhava, concentrada na perna ferida, seus dedos sujos de sangue, segurando agulhas e fios e lâminas. Ao ver tal cena, a própria perna toda aberta e exposta, berrou novamente - para evitar tal visão, Thá vendou os olhos com um lenço negro.

Todas as misturas e feitiços faziam com que as células trabalhassem mais rápido, e aos poucos, percebia Nath, uma nova perna se reconstruía. De uma forma deformada, meio defeituosa, e não seria igual a outra perna, é verdade. Porém era uma perna que parecia ser normal como qualquer outra, era uma perna que funcionaria. Costurou a pele e veias, ajustou o osso - e essa parte doía pra caramba. Ao fim da noite, quando já iria dar meia-noite, Toronto conseguia dormir, sem dor, nem sonhos e Giovanna ainda tremia de esperança e ansiedade. Parecia que tudo ocorrera bem. Será que ela seria submetida ao mesmo tratamento? Será que aguentaria tanto tempo? Será que haveria mesmo uma luz no fim do túnel?

Nath e Thá não tinham uma resposta. Mas tinham meios de chegar até a resposta.

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Pouco a pouco.
Experimento.
Uma cidade em chamas.
Outra cidade ardendo.
E mais adiante, há uma cidade morta. Ela foi assassinada. Integralmente assassinada.

Catherine andou pelas cidades não-sei-aonde, procurando evitar o esmagador poder de Ophelia. Seu corpo estava dolorido, seus braços, cansados.

Já saíra da floresta, e as cidades visitadas não eram muito conhecidas, nem mesmo pelo pessoal das Campinas. Envolveu-se na terra úmida e no

cheiro de morte e devastação - cada segundo era como uma respiração fantasma.
Estava andando a esmo, tentando arrumar uma maneira qualquer.
Sentia Miih.
Sentia Loveh.
Sunny era a energia mais fraca.
Louise era a mais forte.
Mas tudo ainda era confuso demais para ela conseguir se guiar. Estariam perto ou longe demais? Já estariam na cidade? Não queria desafiar Ophelia, mas já estava boa o suficiente para fugir dela se necessário.
- Foda-se - pensou - ela não pode me matar aqui.
E mandando o segredo as favas, ela correu para a cidade das fadas.

- Está vindo - foi com um sorriso que Miih deu a notícia.
Alice suspirou.
- Ela não tem paciência, não é mesmo? Tem sempre que chamar a atenção - sussurrou, ao que Sunny retrucou:
- Está com pressa. Todas nós estamos.

Estavam querendo demais pôr um fim naquilo tudo.

P.S.: sem tempo, então Feliz Natal! E a viagem foi ótima! ;*